Drones
como armas letais de guerra e o extermínio dos inocentes
O uso
de drones como armas de campo em batalha nas guerras tem sido constantemente
reduzido a um jogo, onde ganha quem mata mais adversários. A política de morte,
muitas vezes utilizada com a ajuda da IA, cria o cenário de uma crise
humanitária generalizada, em que civis são os que mais morrem no meio de
batalhas desiguais.
De
acordo com o Unicef, somente em Gaza, onde Israel tem usado drones guiados pela
inteligência artificial Lavender, foram mortas 265 crianças palestinas, mesmo
após o cessar fogo divulgado em outubro de 2025.
Em
entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail, o
pesquisador Alcides Peron afirma que “o drone provoca muito mais destruição do
que muitas vezes o ataque feito inicialmente que levou e obrigou as potências a
utilizarem-no. Existe uma discrepância, pois muitas vezes não é um armamento
proporcional, tendo uma carga destrutiva muito maior”.
A
partir de suas pesquisas, Peron comenta que “matar se tornou uma rotina
compartimentalizada na cabeça dos operadores de drones a tal ponto que matar
não é um grande dilema para esses soldados”. Nesse percurso, mediante a
banalização da morte, o escritor avalia que a batalha travada com o uso de
drones “não é uma guerra, é qualquer coisa, onde aqueles que promovem o
conflito não estão nenhum pouco em risco, mas aqueles que estão em risco,
muitas vezes acabam sendo os que não se inscreveram para morrer”.
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Confira a entrevista.
• Como funcionam os drones em meio às
guerras e o que o uso de drones em contextos bélicos significa do ponto de
vista de uma nova escalada militar e de violência entre as nações?
Alcides
Peron – O uso de drones nos ambientes de conflito são múltiplos, não servem
apenas para fazer bombardeio. Existe um tipo de drone que é intitulado como
plataforma de vigilância ou plataforma de armas. Enquanto plataforma de
vigilância, ele é um drone de recolhimento de dados, que também tem uma
estratégia tremenda no campo de batalha. E, o que significa recolher esses
dados? Significa dados de visualização, sinais de celulares que são coletados,
são formas de captação remota de sistemas de celulares, de redes e uma série de
outros dados. Essa tecnologia se fundamenta como uma forma de vigilância.
Num
outro caso, o drone é chamado de plataforma de armas — que é quando entrega
além desses sistemas de vigilância também sistemas de armas, como mísseis ou
drones que se tornam uma arma suicida por assim dizer, ou um drone kamikaze
como alguns dizem.
Mas, o
que esses drones trazem de diferente para a guerra? O grande artifício por trás
dos drones é o fato de você poder levar o conflito para determinadas zonas
remotas ou, acima de tudo, poder levar o conflito para zonas de extremo risco e
de extrema dificuldade sem que os seus combatentes sejam afetados de alguma
forma pelo risco de morte. O que começa acontecer aqui nesse caso é justamente
o modo que se viabiliza o conflito sem que haja nenhuma forma de resistência.
Todos os conflitos têm resistências que são marcadas pelo cansaço do
combatente, pela exaustão de recursos, que são marcadas por uma série de
informações e tensões que fazem com que produzam aquilo que grandes autores
como Carl von Clausewitz chamam de fricção de guerra.
Essas
fricções acabam contribuindo para o término do conflito, tanto no campo de
batalha, por meio do cansaço e da baixa moral dos combatentes quanto no próprio
país, isto é, junto à população que, exausta pela guerra, deixa de apoiar a
atuação do Estado no conflito. Como consequência, passam a surgir políticas,
manifestações e práticas pacifistas, enquanto a oposição à guerra se fortalece
e os recursos destinados à guerra começam a ser reduzidos.
A
partir do momento que o Estado começa a empregar drones, os seus combatentes
não estão morrendo no campo de batalha. Portanto, além de conseguir levar o
conflito para uma determinada zona altamente complexa e de alto risco, as
forças militares vão matar sem que haja os seus sendo colocados em risco. Esse
é um dado e uma informação extremamente relevante porque a partir disso se
consegue erigir um conflito sem que os seus morram no campo de batalha. Com
isso, há a redução da fricção, tornando o conflito permanente. Ou seja, o fato
pode produzir formas de prolongamento do conflito. Veja o caso da Ucrânia e da
Rússia: o uso extensivo de drones faz com que o conflito seja levado a
extremos, não tem um cessar-fogo porque não há riscos de morte dos operadores de
drone. Então, porque você vai cessar-fogo sendo que o drone está cumprindo a
missão dele e os seus não estão em risco? Isso tende a prolongar o conflito,
sem falar também no fato de que os drones são extremamente baratos. São muito
mais baratos do que uma aeronave de caça, sendo capazes de produzir efeitos
extremamente danosos, tanto quanto uma aeronave de caça, mas sem colocar o
corpo de ninguém em risco e com um custo extremamente baixo.
• O uso de drones autônomos guiados por
inteligência artificial em ataques de Israel contra Gaza altera a forma como se
atribui responsabilidade por possíveis violações do direito internacional?
Diante desse cenário, até que ponto os outros países continuarão fechando os
olhos para a violência que acontece na Palestina, mesmo após o “cessar-fogo”?
Alcides
Peron – No caso de Israel contra Gaza, vemos uma operação com sistemas de
drones munidos e guiados por inteligência artificial. Mas, nesse caso, não
estão necessariamente incorporados nos drones. São grandes cadeias de sistema
que vão compor um conjunto, um leque bastante grande de sistemas de coletas de
dados, processamento de dados que visam reduzir o tempo de decisão para
realizar um determinado ataque. Por exemplo, o sistema Lavender. O Lavender
coleta dados de agentes de inteligência em terra, sistemas de satélites, de
drones e vários outros sistemas informacionais que vão autorizar o uso de
drones que podem autorizar um determinado ataque em uma determinada região.
Os
drones em si não são completamente autônomos. O sistema vai coletar esses dados
e fazer aquilo que chamamos de leitura preditiva, ou seja, acaba sugerindo
determinados alvos, para determinados ataques, realizando esses ataques nessas
regiões operadas por combatentes. Tudo isso, sem que haja uma confirmação de
que os alvos são de fato inimigos, é tudo baseado numa suspeita ordenada e
caracterizada pelo sistema de coleta massivo de dados criado por inteligência
artificial. Esses sistemas vão fazer essa sugestão de ataque. Geralmente,
percebemos que o globo de maneira geral está de olho no que está acontecendo em
Gaza e em toda essa violência, no entanto, em vários outros aspectos não se
reflete sobre a forma que se produz essa destruição de maneira escalonada
através dos drones.
Isso
não é discutido. Comenta-se, de maneira bastante evidente e racional, o
escalonamento da violência. Nesse contexto, é importante destacar que muitas
dessas formas de violência são viabilizadas por sistemas técnicos altamente
sofisticados que, em primeiro lugar, reduzem o tempo de reflexão envolvido na
decisão de realizar um ataque e, em segundo lugar, operam com suposições na
identificação de alvos a serem eliminados. É justamente nesse processo que
reside uma enorme tirania. Nessa suposição e ilação feita por sistemas
preditivos de que os alvos são verdadeiramente inimigos e precisam ser
eliminados, pode-se acabar matando pessoas inocentes e com isso aumenta
novamente a letalidade do sistema e o risco dessas ferramentas em ambientes de
conflitos se torna cada vez mais evidente.
• Como essas tecnologias para auxiliar em
guerras têm anulado direitos humanos não somente em Gaza, mas também na própria
Ucrânia e no Líbano?
Alcides
Peron – Em grande medida, o uso de drones deve observar alguns princípios do
direito humanitário internacional. E, muitas vezes — concluo isso no meu livro
American Way of War: “guerra cirúrgica” e o emprego de drones armados em
conflitos internacionais — os drones em si não conseguem pelo próprio design
respeitar esses ditames do direito humanitário internacional.
O que
isso significa? Todo armamento integrado em um determinado conflito deve
respeitar o critério de necessidade, proporcionalidade e de distinguibilidade
ou de discriminação que seria o melhor termo. Os armamentos empregados devem
ser necessários, ou seja, ele é muito necessário para cumprir aquele
determinado objetivo ou é de uma certa maneira empregado com outros fins. Ou
seja, tem que ter um fim muito claro no seu uso, acima de tudo o objetivo deve
ser necessário como o de, por exemplo, não haver outros meios para atingir
esses objetivos e tenha apenas essa ferramenta. Se justificar que sim, o uso é
um aparato necessário.
No
critério de proporcionalidade, a ferramenta utilizada para perseguir
determinado objetivo deve ser proporcional no sentido de atender os objetivos,
não cedendo muito, e, acima de tudo, não deve produzir um efeito de profunda
simetria nas relações de poder no campo de batalha. Isso significa que os
drones devem ser necessários, proporcionais, porém não são. Por quê? O drone
provoca muito mais destruição do que muitas vezes o ataque feito inicialmente
que levou e obrigou as potências a utilizarem-no. Existe uma discrepância, pois
muitas vezes não é um armamento proporcional, tendo uma carga destrutiva muito
maior.
Por
fim, o critério de discriminação — esse é um critério que evolui de muitas
décadas, desde o início do século XX, por exemplo. O armamento deve ser capaz
de distinguir o que é combatente e o que não é combatente, entre o que é
inimigo e o que são forças amigas. Isso significa dizer que esses aparatos
precisam de alguma forma ter limites na sua capacidade destrutiva.
Pense,
por exemplo, no gás mostarda que não reconhece o que é amigo ou inimigo, não
tendo fronteiras nem limites, simplesmente avança e produz destruição. Agora,
quando levamos em consideração os drones e o próprio pressuposto de que a
máquina é capaz de discriminar, sendo incapaz de identificar quem é amigo ou
inimigo, vemos que há um ataque de certa maneira letal. O que acabamos tendo é
uma suposição de que o drone consegue fazer essa distinção e não
necessariamente ele consegue porque, muitas vezes, temos um sistema de câmera
de visualização, de vigilância, mas ele não é tão preciso assim.
Existe
todo um conjunto de valores, perspectivas e dimensões políticas que recortam e
organizam o lugar do combatente, daquele que vai apertar o botão para matar no
drone. Os drones por design não conseguem respeitar todos esses aparatos e isso
tudo faz com que ele seja um armamento que, por muitas vezes, pode produzir
danos muito além do necessário.
Como
condição e consequência, os drones podem matar civis e muitas vezes é o que
acaba acontecendo tanto na Ucrânia quanto em Gaza, na Rússia e em outros
lugares. Drones, principalmente na era Obama, por exemplo, mataram muito mais
civis do que combatentes inimigos, até porque a categoria combatente é muito
turva. Durante a era Bush também aconteceu o mesmo. Então, temos usos
sequenciais de uma ferramenta que por mais que não seja proporcional nem
necessária, tenta-se justificar num ambiente onde tais máquinas são cirúrgicas
e podem operar naquele nível de risco que mencionei. Por exemplo, muitos
ataques e muitas guerras não foram erigidos em certas localidades porque se
sabia que aquilo provocaria uma destruição tremenda em determinados espaços.
Agora, o drone traz essa possibilidade de operar em espaços de risco, onde você
tem uma mudança de civis, sobre a justificativa de que você consegue eliminar o
inimigo no meio de um monte de civis. E, na verdade, o que se acaba fazendo é
colocando todos eles em risco — que é o que tem acontecido na Ucrânia e em
vários outros lugares.
• Como os Estados se apropriam dessas
tecnologias para orquestrar políticas de morte e matança?
Alcides
Peron – Justamente porque o modelo de guerra foi se alterando ao longo do
tempo. Existe ainda a imagem da guerra como sendo uma guerra campal entre duas
forças armadas até os dentes, uniformizadas disputando o poder e se enfrentando
entre si. Mas, na verdade, a guerra foi passando por uma série de mudanças. Há
grandes marcos de mudanças nos conflitos. Hoje, o que podemos dizer é que
muitas vezes o que entendemos como guerra e visualizamos enquanto guerra são
conjuntos de operações, de táticas que vão de táticas de guerrilha a táticas de
insurgência, de contrainsurgência, onde o drone é muito importante nesses
espaços.
Por
quê? Os Estados perceberam que numa crise da ordem neoliberal que já começava a
se construir na década de setenta, numa crise da instabilidade econômica e
social global, isso provocaria uma série de efeitos políticos e que manter a
ordem demandaria consequentemente eleger conflitos pontuais para sustentar essa
ordem. Agora, como conduzir conflitos pontuais sem que você tenha que fazer
guerra necessariamente? O drone supre essa necessidade sendo um aparato barato,
uma ferramenta que supostamente destrói inimigos e não civis, é um aparato
enxuto e fornece esse argumento acima de tudo.
Reforça
uma visão de “poder fazer a guerra sem fazer guerra”, de poder eliminar, sem
ser eliminado, sem colocar os seus em risco. E, portanto, não é uma guerra, é
qualquer coisa, onde aqueles que promovem o conflito não estão nenhum pouco em
risco, mas aqueles que estão em risco, muitas vezes acabam sendo os que não se
inscreveram para morrer, os civis. O sistema permite que a ferramenta seja
operada com alta densidade populacional “supostamente sem risco”. Tudo isso
traz uma série de dilemas para a sociedade. Então, os Estados usam drones
justamente porque esse aparato tem essa enorme capacidade de permitir que o
conflito seja feito sem que haja necessariamente um conflito sendo mobilizado
de maneira determinante e efusiva.
• Quais impactos essa tecnologia gera nos
soldados que utilizam esses drones para matar?
Alcides
Peron – Há um grande argumento que se desenvolveu principalmente na
bibliografia anglo-saxônica: a ideia de que os drones provocam nos sujeitos,
nos indivíduos que os operam uma condição de engajamento muito profunda com
seus alvos. Porque, ainda que um sujeito esteja remotamente longe, ele está na
tela perto do sujeito e está vendo a morte acontecer.
Só que
tenho rejeitado esse argumento, principalmente ao considerar relatórios médicos
feitos na época que apontam para o seguinte: na verdade, o operador de drone
não sente uma tristeza imensa em eliminar o outro ou estresse pós-traumático.
Os estresses, as tensões, tudo advém de outras formas de tensão. Operadores de
drone, pelo menos na época que eu fiz o estudo, vi que estão muito mais
estressados com um companheiro de trabalho, com o salário, com uma série de
outras coisas e muito menos preocupados com aqueles que matam.
Na
verdade, matar se tornou uma rotina compartimentalizada na cabeça dos
operadores de drones a tal ponto que matar não é um grande dilema para esses
soldados. Isso faz coro com aquilo que havia dito anteriormente sobre a fricção
de guerra. Se reduz a fricção de guerra. A moral do combatente é inalterada por
quê? Porque a pessoa não está pensando que está num conflito, mas sim em uma
atividade cotidiana e regular.
Então,
a operação de drone é reduzida a uma função de cubículo por assim dizer, de
escritório. Isso é um elemento bastante interessante, pois nos permite perceber
a guerra como consequência. Assim como o indivíduo não se conecta moralmente ao
conflito, a guerra também se torna algo passível de ser evocada, sem que a
sociedade e os outros percebam. O uso de drones favorece justamente essa
dimensão de um estado de guerra permanente, onde não necessariamente as
condições tradicionais de guerra vão se manifestar, a tensão social etc. A
guerra se torna algo facilmente evocável e, se levarmos em consideração que o
operador de drone, a sociedade, todos acabam não sendo afetados pelo nível de
destruição que ele causa, então esse armamento tem uma função estratégica
interessantíssima que é fazer a guerra parecer cotidiana.
• Esses drones podem ser considerados tão
letais quanto as bombas nucleares?
Alcides
Peron – Em primeiro lugar, é importante verificar que os drones não são tão
destrutivos como um armamento nuclear. Sabemos da capacidade destrutiva de um
aparato nuclear e da ampla letalidade deles. Então, é incomparável, até porque
um drone não tem um poder de dissuasão que tem um armamento nuclear. Armamentos
nucleares pela sua própria existência produzem um efeito de inação no outro, no
adversário.
Se
tenho uma arma nuclear, o outro nem sequer se mobiliza porque sabe que os danos
serão muito maiores do que a inação. É preferível não agir do que ser lesionado
com um ataque nuclear que é de total aniquilação. Portanto, temos aí uma
diferença. O drone não é um armamento de dissuasão, mas sim um armamento tático
de guerra, de conflitos, de operações especiais, sendo uma ferramenta bastante
poderosa para eliminação de certos adversários. Mas não é um armamento de ordem
nuclear, não se caracteriza como um armamento desse porte.
Fonte:
Entrevista com Alcides Peron - Por Luana de Oliveira, em IHU

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