Luiz
Carlos Azedo: Fascínio da Rússia - arte, história, riqueza e poder
Tomei a
decisão de viajar para a Rússia no ano passado, apesar da guerra contra a
Ucrânia, depois de conversar com um amigo diplomata que havia passado férias em
Moscou. "A cidade está um espetáculo", resumiu. Pesquisei preços,
roteiros e condições de viagem. Apesar do conflito fratricida e das sanções
ocidentais, Moscou aparecia como um destino financeiramente acessível,
comparável a Istambul ou ao Vietnã.
Estivera
na antiga União Soviética em maio de
1990, quando o regime comunista agonizava. Assisti ao desfile do Dia do
Trabalho na Praça Vermelha e vi milhares de manifestantes vaiando Mikhail
Gorbachev diante do Mausoléu de Lenin. Em São Petersburgo, os comunistas
estavam sendo desalojados do Instituto Smolny, quartel-general da Revolução de
Outubro. A implosão da União Soviética ocorreria no ano seguinte.
Desde
então, ouvira relatos contraditórios sobre a Rússia pós-soviética. Depois das
privatizações selvagens de Boris Yeltsin, que produziram uma nova oligarquia
econômica e profunda desorganização social, Moscou e São Petersburgo pareciam
ter reencontrado estabilidade com o capitalismo de Estado, apesar
do regime iliberal de Vladimir Putin e seus oligarcas. Resolvi conferir.
A
guerra da Ucrânia era um risco e uma possibilidade. Não existem voos diretos
entre a Rússia e o Ocidente. Cartões internacionais não funcionam. Reservas de
hotéis exigem pagamento em rubros no check-in. Nada, porém, era intransponível.
Formamos um grupo de três casais: eu e Eliana Fachini, ortodontista de Brasília
(DF); Stoessel Luiz Vinhas e Terezinha Lellis, educador e psicóloga de
Uberlândia (MG); Flávio Fraislebem e Elza Fraislebem, engenheiro e terapeuta
ayuverda, de Campinas (SP). Com seis meses de antecedência, compramos passagens
e reservamos os hotéis. A rota era Lisboa, Istambul, Moscou e São Petersburgo.
A
capital turca serviu de ponto de encontro do grupo. De lá, partimos para Moscou
pela Turkish Airlines. As reservas de hotel foram feitas pelo Ostrovok,
equivalente russo do Booking, com pagamento em rublos no check-in. Por
indicação de amigos, contratamos como guia o historiador brasileiro Rodrigo
Ianhez, residente em Moscou, estudioso da história soviética e tradutor para o
português do famoso relatório de Nikita Kruschev denunciando os crimes de
Stálin. Um dos donos de uma pequena agência de viagens no Brasil, a Estrela
Vermelha, seu desempenho como guia foi decisivo para o sucesso da viagem.
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Primeira parada: Moscou
Às
vésperas da partida, um ataque de drones nos arredores de Moscou quase nos
levou a desistir. Prevaleceu um cálculo de risco: em toda guerra, só morreram
quatro pessoas nos arredores da capital russa; no estado do Rio de Janeiro, são
10 mortes violentas por dia. Depois de dois dias em Istambul, chegamos a Moscou
em 25 de maio. O voo de quase quatro horas contornou o espaço aéreo da Ucrânia.
A guerra parecia realmente distante da rotina da capital russa, talvez porque
os ataques ucranianos visam principalmente a infraestrutura, talvez devido à
censura oficial.
Iniciamos,
então, uma intensa maratona turística, cultural, histórica e gastronômica. A
transformação da cidade impressiona. Modernos arranha-céus contrastam, sem
agredir nem substituir, a arquitetura medieval, imperial e stalinista. Moscou
está limpa, organizada, arborizada e muito segura. O metrô continua sendo uma
das maravilhas urbanísticas do mundo, com verdadeiro palácio subterrâneos, como
as estações Mayakovskaya, Kievskaya e Konsomolskaya, com seus lustres de
cristal, dourados, mosaicos e estátuas do chamado "realismo
socialista". Algumas estações são tão profundas que as escadas rolantes
parecem uma viagem ao centro da Terra. O centro histórico foi restaurado com
cuidado e os parques são amplos e bem conservados.
Mas a
grande atração continua sendo o conjunto arquitetônico da Praça Vermelha.
Percorremos o coração simbólico da Rússia. Ali estão o Kremlin, a Catedral de
São Basílio, o Mausoléu de Lenin e o GUM, transformado em sofisticado centro
comercial. Visitamos a Galeria Tretyakov, que reúne a maior coleção de arte
russa, incluindo obras de Kandinsky, Chagall e Malevich.
Além de
flanar pela famosa Rua Arbat, que nessa época do ano ostenta floridos jardins
no seu calçadão, fomos ao Museu da Grande Guerra Patriótica, ao espetacular
Museu Memorial da Astronáutica e assistimos ao balé Cinderela no icônico Teatro
Bolshoi,
um templo do balé clássico. Coreografado originalmente por Rostislav Zakharov
com a magnífica trilha sonora de Sergei Prokofiev, a obra estreou em 1945 no
Teatro Bolshoi, porém, a polêmica versão moderna que presenciamos, longe da
tradição de seu balé clássico, foi frustrante. O espetacular Balé Folclórico
Igor Moiseyev, que assistimos antes, para a maioria de nós, foi mais
interessante.
A
gastronomia foi uma agradável surpresa. Os restaurantes combinam tradição
russa, gastronomia das antigas repúblicas soviéticas e o refinamento
contemporâneo. O ponto alto foi o jantar no restaurante Sakharin, com cardápio
inspirado no Extremo Oriente. Rodrigo cuidou dos ingressos, transportes e
reservas. Mais do que guia, foi um professor de história em tempo integral.
Todo ano organiza excursões para as antigas repúblicas soviéticas da Ásia
Central, como Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão, por ocasião dos jogos
nômades, e para outro destino exótico: uma viagem pela Transiberiana, a maior
ferrovia do mundo, com visita a oito cidades, de Moscou a Vladivostok, no Mar
do Japão.
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O Kremlin e a Praça Vermelha
Engana-se
quem pensa que o gabinete do presidente russo
Vladimir Putin é
o mais imponente do Kremlin. Não chega nem perto dos salões do Museu das Armas.
O acervo reúne 4 mil objetos que datam do século 12 até 1917. Os mais
interessantes estão no Salão II, onde se destaca a coleção de 10 ovos de Páscoa
de Fabergé , criados para os czares pelo fabuloso joalheiro Peter Carl Fabergé,
que se tornou o ourives da corte em 1885. O mais impressionante é o ovo de
prata no qual foi gravado um mapa com o trajeto da Ferrovia Transiberiana. A
“surpresa” no interior dessa peça é uma miniatura dourada de uma locomotiva,
com janelas de cristal e um pequenino rubi figurando como farol.
É
preciso comprar um ingresso à parte para ver as impressionantes joias da coroa
dos Romanov na Almazny Fond (Câmara dos Diamantes), entre as quais o cetro de
Catarina, a Grande, encimado pelo diamante Orloff, um presente do conde Orloff,
seu amante, e sua coroa, incrustada de diamantes. Lá também está o diamante Xá,
que o czar Nicolau I recebeu de presente do xá do Irã.
Mas
nada se comparar à sensação de parar no centro da Praça Vermelha. O conjunto
arquitetônico antecede à Revolução de 1917, mas a praça acabou associada ao
comunismo e aos desfiles militares do Exército soviético. A oeste se avista o
Kremlin e o Mausoléu de Lenin, onde o corpo embalsamado do líder comunista
russo permanece exposto à visitação pública.
Na
extremidade mais distante da praça situam-se os pináculos e as cúpulas em forma
de cebola da Catedral de São Basílio, uma das construções mais conhecidas de
Moscou, erguida por ordem de Ivan, o Terrível em meados do século 16. Do lado
oposto ao Kremlin, avista-se o GUM (iniciais em russo de “Loja de Departamentos
do Estado”), que lembra as grandes estações ferroviárias europeias, com suas
estruturas de aço e vidro, herança também do czarismo. Com o capitalismo, as
antigas e mal abastecidas lojas estatais soviéticas foram substituídas por
franquias de grandes marcas do Ocidente; depois da guerra da Ucrânia, com o
bloqueio econômico, as lojas mudaram de nome, mas mantiveram o luxo e, em
alguns casos, os mesmos produtos importados.
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A elegância de São Petersburgo
O
destino seguinte foi São Petersburgo. Na plataforma de chegada do trem, nos
recebeu a tradutora e guia turística Nádia Khristova, que fala português
fluentemente. A antiga capital imperial possui atmosfera muito diferente de
Moscou. Menos monumental e mais elegante, planejada por Pedro, o Grande, para
ser uma porta para o Ocidente, influenciou a reforma de Paris, a construção de
Manhattan e outras reformas urbanas pelo mundo, como a Pereira Passos, no Rio
de Janeiro. Para nossa alegria, nosso grupo foi ampliado pelo humorista Marcelo
Madureira, Cláudia e Patrícia, a filha do casal, que mora e trabalha em
Amsterdam. A partir daí, a viagem ficou ainda mais divertida.
Começamos
pelo magnífico Teatro Mariinsky, onde assistimos, agora sim, um clássico do
balé russo: O Lago dos Cisnes, de Piotr Ilitch Tchaikovski. No dia seguinte,
formos ao Museu Hermitage, um dos maiores do mundo, instalado no magnífico
Palácio de Inverno. No novo Hermitage, está a maior coleção de impressionistas
franceses e de peças do famoso joalheiro Peter Karl Fabergé. A Fortaleza de
Pedro e Paulo, a Igreja do Salvador do Sangue Derramado, e o Palácio de
Catarina, onde se encontra a lendária Sala de Âmbar, toda restaurada após a
Segunda Guerra Mundial.
Estávamos
no Palácio de Peterhof, a Versalhes de Pedro, o Grande, defronte ao Mar
Báltico, quando houve o ataque de drones a uma refinaria nos arredores de São
Petersburgo. Soubemos pelas mensagens preocupadas dos amigos, alarmados pelas
notícias das agências internacionais, e confirmamos com a tradutora. Mas nada
vimos nem ouvimos sobre as explosões, exceto algumas nuvens mais carregadas ao
passear pela famosa Avenida Nevsky.
A vida
em São Petersburgo, por causa das Noites Brancas de junho, nessa época do ano,
é uma grande festa. A Avenida Nevsky permanece como a alma da cidade. A
gastronomia é diversificada, com destaque para as culinárias russa tradicional,
a georgiana e a uzbeque. A cozinha contemporânea foi muito bem representada
pelo restaurante Duo Asia, cujo chef nos atendeu pessoalmente. Os passeios
pelos canais de São Petersburgo nos dão a dimensão urbana e histórica da cidade
e justificam plenamente o apelido de "Veneza do Norte". Nos dias em
que a cidade não escurece, São Petersburgo parece suspensa entre o dia e o
sonho. Como em Moscou, a cidade esquece a guerra.
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O trauma da guerra
Poucas
cidades concentram tanta história, arte, literatura e poder quanto Moscou e São
Petersburgo. Visitar ambas é percorrer séculos da trajetória russa — de Ivan, o
Terrível, a Pedro, o Grande; de Tolstói e Dostoiévski à Revolução de 1917; da
Guerra Fria à Rússia contemporânea. A guerra da Ucrânia é uma ferida aberta.
Mas a vida segue. Cafés, museus, teatros e parques estão cheios. Moscou e São
Petersburgo exibem uma vitalidade que desafia os estereótipos e revelam um país
muito mais complexo do que aquele retratado diariamente.
A
guerra da Ucrânia também é um drama russo. O povo quer o fim do conflito, que
já dura quatro anos. Nádia nos falou sobre esse trauma. Quase todas as famílias
russas possuem parentes na Ucrânia, assim como famílias ucranianas têm parentes
na Rússia. O conflito é vivido como uma dramática guerra civil, muito além da
disputa geopolítica. Suas observações me fizeram lembrar o escritor judeu-russo
Ilya Ehrenburg, correspondente de guerra na batalha de Stalingrado e autor de
Moscou não crê em lágrimas (Editora Vitória), que fala dos amores, das
frustações, da resiliência e das esperanças de três mulheres russas. O título
acabou sintetizando minha impressão da viagem.
Ao
longo da história, russos e ucranianos enfrentaram invasões, revoluções,
guerras civis e enormes perdas humanas. Somente na Segunda Guerra Mundial
morreram cerca de 20 milhões de soviéticos. Essa memória coletiva ajuda a
compreender a resiliência que ainda hoje marca as sociedades russa e ucraniana.
Entretanto, desta vez não se trata de uma guerra defensiva contra os nazistas,
mas de uma invasão russa.
Rússia
e Ucrânia compartilham uma história comum desde o Principado de Kiev, de
Vladimir I, que os converteu ao cristianismo ortodoxo, e Jaroslau, o Sábio, que
criou o primeiro código de leis eslavo e construiu a monumental Catedral de
Santa Sófia na capital ucraniana. Autores ucranianos, como Nicolau Gogol, autor
de Almas Mortas e Inspetor Geral, e Vassili Grosmann, autor de Stalingrado e
Vida e Destino, estão entre os maiores da literatura russa.
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O Hermitage
Um
visitante precisaria de cerca de nove anos para dar uma olhada, por mais breve
que fosse, nas 150.000 obras no interminável labirinto do Museu Hermitage, o
famoso Palácio de Inverno que foi palco da Revolução de 1917, com suas mais de
1.000 salas — e mesmo assim ele estaria vendo somente 5% do acervo! A altíssima
qualidade de suas coleções (24 Rembrandts, 40 Rubens — só para dar um exemplo)
é realçada pela incrível beleza dos próprios salões: o Hermitage foi o Palácio
de Inverno de todos os czares e czarinas desde Catarina, a Grande.
Assoalhos
com padrões elaborados, lustres de cristal, trabalhos de marchetaria, tetos com
pinturas, objetos de jade, lápis-lazúli e âmbar por pouco não ofuscam as obras
de arte. Destaque para o Salão de Malaquita, quase que inteiramente decorado
com essa pedra verde extraída de minas nos Urais.
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Palácios de Pedro e de Caterina
Petrodvorets
era a “janela para a Europa” do czar Pedro, o Grande. Ele o ergueu seu palácio
defronte ao Mar Báltico no início do século XVIII para que a arquitetura dessa
construção e a vida social de sua corte fossem comparáveis às de Versalhes e
impressionassem a realeza europeia. Pedro traçou as linhas gerais do palácio de
verão com 120 ha de jardins, com 66 fontes que funcionam por gravidade, 39
estátuas e 19 km de canais artificiais. Arquitetos e engenheiros franceses e
italianos atuaram na sua construção.
Nos
arredores de São Petesrburgo, também se encontra o Palácio da Catarina. Em
1710, Pedro, o Grande, presenteou sua futura esposa, Catarina I, com uma mansão
chamada Sarskaya Myza. Mais tarde, em meados da década de 1750, foi
reconstruído pelo arquiteto italiano Bartolomeo Francesco Rastrelli, para ser s
residência de verão da imperatriz Elizabeth Petrovna, a filha de Pedro I e
Catarina I, que gostava de exibir sua riqueza.
Durante
a ocupação nazista, tanto o Peterhof quanto o Palácio da Catarina foram
ocupados e saqueados pelos alemães. Durante os quase 900 dias de cerco que
sofreu durante a Segunda Guerra, a então Leningrado esteve perto de ser
aniquilada pelas tropas alemãs. Ambos foram reconstruídos após a guerra.
No
Palácio da Catarina, entre seus luxuosos salões, destaca-se a Câmara de Âmbar.
Luminoso e frágil, o âmbar é uma resina fossilizada cobiçada para a fabricação
de objetos reais e religiosos na Europa Oriental. As paredes revestidas por
seis toneladas de âmbar e adornados com folhas de ouro, mosaicos e espelhos
foram inteiramente saqueados e levado para a Alemanha. O paradeiro é um
mistério até hoje. Mas a sala foi inteiramente restaurada, com todo a sua
riqueza em âmbar e ouro.
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Uma aventura no Expresso Transiberiano
Para
quem gosta de aventura e dispõe de tempo e recursos para isso, a mais longa
estrada de ferro contínua do mundo proporciona uma das maiores viagens do
planeta. O Expresso Transiberiano percorre mais de 9.600km — um terço do
diâmetro da Terra — e cruza áreas com sete fusos horários diferentes entre
Moscou e Vladivostok, no Mar do Japão, que era um lugar fechado aos
estrangeiros e à maioria dos russos durante a era soviética.
Uma das
maiores obras de engenharia do século 20, a ferrovia atravessa quatro biomas: a
taiga, a estepe, o deserto e as montanhas. No passado a viagem épica durava
meses; hoje, a aventura pode ser feita em até duas semanas em vagões modernos e
confortáveis. Rodrigo, nosso guia, todo ano organiza uma viagem em agosto,
partindo de Moscou ou São Petersburgo. A aventura dura 25 dias e 24 noites, com
paradas em Kazan e Ekaterinburgo (dois dias cada), Novosibirsk, Irkutsk, Lago
Baikal, Ulan-Ude, Buriátia, Khabarovsk (três dias) e Vladivostok, cruzando toda
a Sibéria até o Extremo Oriente.
Fonte:
Correio Braziliense

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