Cifras
milionárias são investidas em combustíveis fósseis
Desde
as altas temperaturas em muitos dos estádios onde a Copa do Mundo está sendo
disputada até o calor opressor que atinge grande parte da Europa nesta segunda
metade de junho, a vida diária de milhões de pessoas é cada vez mais afetada
pelo aquecimento global. O principal culpado é o uso excessivo de combustíveis
fósseis.
Uma em
cada quatro partidas da Copa do Mundo de 2026 é disputada sob níveis perigosos
de calor, forçando os jogadores a correrem menos e a se esforçarem menos. De
acordo com os critérios definidos pela FIFPRO, a associação mundial de
jogadores e principal contraparte sindical da FIFA, várias dessas partidas
poderiam ser disputadas quando o termômetro marcasse até 28 graus Celsius do
IBUTG (Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo / WetBulb Globe Temperature,
WBGT, sigla em inglês), o índice que os especialistas usam para, a partir daí,
recomendar seu adiamento. Essa é uma medida diferente da temperatura habitual
do ar, pois combina calor, umidade, radiação solar e vento para calcular o
estresse térmico real no corpo humano. Por exemplo, uma temperatura do ar de 40
graus com 30% de umidade equivale a cerca de 26 graus de IBUTG/WBGT, quando o
desempenho físico sofre muito mais do que o recomendado.
Embora
o telhado e o ar-condicionado do estádio de Dallas tenham permitido que a
partida de segunda-feira, 22 de junho, entre Argentina e Áustria, fosse
disputada em condições relativamente "aceitáveis", naquele mesmo
momento a temperatura ambiente oscilava em torno de 37 graus. Às vezes, o ritmo
daquela partida, tão forte quanto intenso, parecia ser jogado como se fosse em
câmera lenta, e a temperatura teve grande parte da culpa.
Naquele
mesmo dia e hora, várias regiões da Espanha, França, Portugal e Reino Unido
registraram temperaturas máximas recordes de cerca de 40 graus, enquanto em
outros países relativamente mais frios, como a Suíça, os termômetros
ultrapassaram 36 graus. São os efeitos brutais da onda de calor que atinge
grande parte da Europa Ocidental.
De
acordo com um estudo recente das Nações Unidas, em um futuro próximo, a
previsão de temperatura para o futebol pode ser ainda mais preocupante. Para a
Copa do Mundo de 2050, por exemplo, embora o local ainda não tenha sido
designado, hipoteticamente, se prevê que 14 dos 16 estádios anfitriões sofrerão
com o calor extremo. Em 11 desses locais, as temperaturas poderão até impedir a
realização de jogos. Em outras palavras, o calor pode conspirar contra a saúde
de atletas e de espectadores, a menos que grandes mudanças sejam feitas na
infraestrutura e na programação.
Além
disso, estádios locais, onde milhares praticam esportes, com menos recursos
financeiros para a proteção solar e para a gestão da drenagem, da água e da
refrigeração, estariam muito mais expostos. Nesta Copa do Mundo, apenas 3 dos
16 estádios possuem ar-condicionado.
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Penalt contra o clima
De modo
geral, é o uso excessivo e descontrolado de combustíveis fósseis, como carvão,
petróleo e gás, que contribui para o aquecimento global ao capturar e reter
excessivamente a temperatura do sol. As emissões geradas por esses combustíveis
representam mais de 75% dos gases de efeito estufa e quase 90% dos gases
produzidos pelo dióxido de carbono.
Segundo
afirmações de especialistas e organizações internacionais, não é novidade que o
planeta está se aquecendo mais rápido do que em qualquer outro momento da
história, pelo menos desde que os registros começaram a ser feitos.
Inevitavelmente, temperaturas excessivas modificam os padrões climáticos e
perturbam o equilíbrio normal da natureza. Isso acarreta muitos riscos não só
para os seres humanos, mas também para todas as outras formas de vida. E, ainda
assim, há aqueles que tentam negar tudo isso desde que possam obter ou manter
benefícios.
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Gols contra a Terra
Quem
lucra com o mercado de combustíveis que produz o ameaçador aquecimento global?
De acordo com o relatório Como investir no caos climático, que a Organização
Não Governamental ambientalista alemã Urgewald acaba de publicar,
aproximadamente 8.400 investidores institucionais globais, atualmente, possuem
uma soma estratosférica de 6,5 bilhões de dólares em ações e títulos da
indústria e do comércio de combustíveis fósseis. São bancos e companhias de
seguro, administradores de pensões para aposentados em países "ricos"
e gestores de ativos de terceiros.
O
estudo que Urgewald realizou junto com outras 25 ONGs conta, por exemplo, com o
apoio da Aliança Suíça pelo Clima, uma entidade que faz parte da Aliança
Europeia pelo Clima, uma plataforma com mais de 2 mil membros institucionais
(principalmente cidades e municípios) de 25 países.
Mais de
95% desses investimentos são direcionados a empresas que expandem suas
atividades com perspectivas de médio e longo prazo, como o desenvolvimento de
novos campos de petróleo e gás ou a construção de nova infraestrutura, como
gasodutos, terminais de gás natural liquefeito e usinas de carvão e gás.
Resultado
da análise pública mais abrangente até hoje sobre investimentos institucionais
no setor, o relatório Como investir em caos climático alerta que, "embora
todos sejamos afetados, a maioria desconhece [o fato de que] os bancos
comerciais e os investidores que financiam empresas de combustíveis fósseis
operam em grande parte sem transparência ou responsabilidade democrática".
Além disso, mesmo nos casos em que "existem dados, as conexões entre os
investidores e os projetos de combustíveis fósseis são deliberadamente
complexas".
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Mecanismos do desastre coletivo
Como
qualquer outro tipo de corporação, as do setor de combustíveis fósseis são
financiadas principalmente por meio da emissão de ações e títulos.
Quando
um investidor adquire ações, ou seja, participação no capital da empresa, ele
se torna coproprietário da empresa, com direitos tais como o voto em
assembleias gerais e se beneficia quando essas ações aumentam seu preço no
mercado.
Os
títulos, por outro lado, funcionam como empréstimos que um investidor concede a
uma empresa. Ao contrário das ações, os títulos não implicam propriedade direta
da empresa. Quando uma empresa emite um título, o que ela faz é pedir
empréstimo em troca de juros que, periodicamente, serão liquidados,
comprometendo-se a pagar o valor total do empréstimo até uma data determinada
ou no vencimento. A emissão de títulos é uma das principais formas pelas quais
uma corporação, nesse caso, do setor de combustíveis fósseis, financia grandes
projetos, desde novos campos de petróleo e de gás até a expansão de minas de
carvão.
Um
grande problema com os investimentos institucionais em combustíveis fósseis é
que eles ignoram as consequências dramáticas do aquecimento global agravado por
essas transações. A maior motivação, talvez a única, desses investidores é
enriquecer ainda mais, sem que, de forma alguma, se direcionem para fontes
alternativas de energia com baixo impacto no efeito estufa. Prova disso é a
imensa quantidade de investimentos em títulos que só "vencem" depois
de 2050: aproximadamente 64 bilhões de dólares. Ou seja, operações a largo
prazo, algo como um truque financeiro contra o clima, como demonstrado pelo
relatório Urgewald, já que nenhum investidor pensaria em abrir mão do capital
investido nesses títulos.
Mais de
240 investidores possuem títulos de combustíveis fósseis com vencimentos que se
estendem até 2080, e até mais, como os da empresa estatal brasileira de
petróleo Petrobras, que vencem apenas em 2115. E com o fator agravante de que a
Petrobras planeja expandir sua produção de petróleo além de 2050, às custas dos
ecossistemas e comunidades mais vulneráveis de seu país. No ano passado,
começou a perfurar na costa amazônica e, recentemente, anunciou a retomada de
suas atividades de perfuração na floresta amazônica. Entre os detentores de
seus títulos de longo prazo incluem-se Franklin Resources (Estados Unidos),
Manulife Financial (Canadá), Royal London Group (Reino Unido), BlackRock
(Estados Unidos), OTP Bank Group (Hungria) e UBS (Suíça).
Como
aponta Urgewald, outro grande problema desses investimentos está relacionado à
forma como o tráfico de títulos institucionais de mercados primários para
secundários é usado de forma astuta para justificar a irresponsabilidade ética.
Quando uma corporação emite ações ou títulos pela primeira vez, os investidores
que os adquirem constituem o que é conhecido como mercado primário. Mas, esses
investidores originais podem vendê-los para outros investidores, que na verdade
não contribuem com capital para a corporação emissora. Esses investidores
constituem o que é conhecido como mercado secundário. Quando surgem questões
sobre o impacto nocivo que os combustíveis fósseis têm no clima, há muitos
argumentos para evitar ou diluir responsabilidades. Por exemplo, que os
investidores do mercado secundário não financiam essas grandes corporações,
pois não investiram diretamente nelas. Os mercados secundários desempenham um
papel significativo de cumplicidade no desgaste da saúde presente e futura da
Terra ao negociar os títulos dos investidores originais. Além disso, em muitos
casos eles dão credibilidade a esse tipo de operação.O planeta está em chamas,
e um grupo gigantesco de capitais financeiros continua lucrando com suas
cinzas. Uma visão de curto prazo e, muitas vezes, negacionista, para a qual não
existem estádios esportivos ferventes nem populações inteiras que transpiram
até se esgotar. Enquanto isso, esses capitais – apoiados por muitos governos –
continuam jogando e ganhando graças a um incêndio que ninguém parece conseguir
apagar.
Fonte:
Por Sérgio Ferrari – Tradução de Rose Lima, em Brasil 247

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