'O
fujimorismo nunca foi embora': vitória de Keiko marca guinada à direita da
América Latina?
Especialistas
ouvidos pelo Mundioka avaliam que eleição peruana reforça avanço conservador na
América Latina, reacende debates sobre o legado fujimorista e pode redefinir a
posição do país na disputa EUA x China. Após semanas de apuração, as
eleições do Peru terminaram elegendo Keiko Fujimori como a próxima presidente
do país,
em um pleito recheado de acusações de interferência, inclusive estrangeira. O
candidato à Presidência do Peru Roberto Sánchez denunciou
"fraude" na contagem dos votos e não reconheceu a
vitória de Fujimori,
convocando seus apoiadores a uma "resistência patriótica". Tendo
passado por uma instabilidade política crônica marcada por
recorrentes impeachments — até mesmo uma tentativa de autogolpe em 2025 —, o
país espera que esse ciclo eleitoral termine essa tradição. Contudo, o que
parece ser é mais um capítulo de turbulência no país sul-americano.
Ao Mundioka,
podcast da Sputnik Brasil, Lucas Berti, mestrando em ciência política
no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (UERJ), avaliou que a vitória de Keiko Fujimori representa
o retorno de uma força política que, segundo ele, carrega um histórico
autoritário no país. Também pesquisador do Observatório Político Sul-Americano
(OPSA) e do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global (Grisul), lembrou que
esse movimento esteve associado à ascensão de Alberto Fujimori, pai de
Keiko e ex-ditador do país, que governou o Peru entre 1990 e 2000 em um
regime marcado por medidas autoritárias.
Para
Berti, o fujimorismo volta ao poder como uma corrente que se apresenta
como resposta ao combate à corrupção, mas que, na sua
avaliação, possui características autoritárias. "É um movimento
disfarçado de combate à corrupção, mas que, na verdade, é o oposto disso",
declarou. Sobre os questionamentos feitos pelo candidato derrotado, Roberto
Sánchez, o pesquisador explicou que a contestação do resultado ocorre após um
processo eleitoral já marcado por incertezas. Como conta, a disputa desde o
primeiro turno foi apertada e controversa, com uma pequena diferença entre
os candidatos que avançaram para a fase final.
Berti
destacou que a margem entre Fujimori e Sánchez ficou próxima de 40 mil
votos, com a candidata alcançando vantagem quando considerados também os votos do exterior. "O
Roberto Sánchez ganhou no território peruano, mas a Keiko virou e
levou, possivelmente, a eleição por causa dos votos do exterior." O
pesquisador ressaltou que a principal alegação de Sánchez envolve
a recontagem de atas eleitorais, especialmente as vindas de fora do país.
Como o Peru usa cédulas de papel, o candidato argumenta que existe maior
possibilidade de questionamentos durante a apuração. No entanto, Berti ponderou
que não há evidências concretas de fraude no processo eleitoral.
"Claro que eu não estou dizendo que houve ou não houve fraude. Essa é a
alegação que o Roberto Sánchez utiliza", afirmou. Para ele, a contestação
também segue uma tradição recente da própria Keiko Fujimori, que
questionou resultados em eleições anteriores em que saiu derrotada. "É
algo que a própria Keiko fez nas últimas três eleições em que ela perdeu.
Então, agora, finalmente, em uma eleição que possivelmente ela leve, quem está
perdendo começou a dar esse choro também."
Geopoliticamente
falando, a vitória de Fujimori representa, em sua avaliação, uma mudança
no equilíbrio ideológico da América Latina, com o fortalecimento de governos e
forças políticas mais alinhadas à direita, especialmente na
América do Sul.
O resultado peruano ocorre em um momento de avanço de discursos
conservadores na região, principalmente ligados à segurança pública, ao combate
ao narcotráfico e ao enfrentamento do chamado "narcoterrorismo". Embora Keiko
Fujimori não represente exatamente o discurso anti-establishment por carregar o
sobrenome de uma tradicional família política peruana, sua vitória faz
parte de um movimento regional mais amplo."Estamos em um momento em que o
discurso anti-establishment, antissistema, está voltando com muita força",
afirmou Berti. Ele citou como exemplo o avanço de lideranças e forças de
direita em diferentes países sul-americanos, como Argentina, Chile, Bolívia e
Colômbia. Para ele, esse movimento também representa uma aproximação maior
com os Estados Unidos, não apenas em termos comerciais, mas também ideológicos.
Em destaque, essa aproximação pode alterar as relações políticas dentro da
América do Sul e aumentar o isolamento de governos com posições ideológicas
diferentes, como o Brasil.
Questionado
sobre o fato de Keiko Fujimori carregar o legado político do pai, Alberto
Fujimori, condenado por corrupção e violações de direitos humanos, Berti
afirmou que o peso do sobrenome continua a ser um fator relevante na política
peruana. Parte do eleitorado busca referências familiares e símbolos já
conhecidos. "O eleitor busca um sobrenome, busca uma verdade que já
está meio estabelecida", explicou.
Berti
comparou o cenário peruano com a política brasileira, afirmando que a
força de sobrenomes tradicionais também influencia eleições no Brasil. "É
essa necessidade da memória, um sobrenome que traga, que acenda esse movimento
que há muitos anos é forte no Peru. É a mesma coisa aqui no Brasil",
disse, referindo-se à família Bolsonaro e ao pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro.
Para Ghaio
Nicodemos, pesquisador de pós-doutorado em ciência política pelo Instituto de
Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(IESP/UERJ), coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Atores e Agendas de
Política Externa (NEAAPE) e pesquisador do Observatório Político Sul-Americano
(OPSA), a vitória de Keiko Fujimori também pode provocar mudanças na
inserção internacional do Peru, especialmente no equilíbrio entre Estados
Unidos e China na América Latina. Segundo Nicodemos, Fujimori tende a adotar
uma política externa mais próxima dos Estados Unidos, com uma postura
econômica menos autônoma em comparação com governos anteriores. "Keiko tem
uma projeção muito voltada para o oceano Pacífico, mas principalmente para os
Estados Unidos", afirmou o pesquisador, destacando também a relação
histórica do fujimorismo com o Japão.
Apesar
dessa aproximação, Nicodemos ressalta que o Peru mantém uma forte
dependência econômica da China, que é um dos principais destinos das
exportações peruanas. Por isso, avalia que uma mudança de alinhamento não deve
ocorrer de forma simples.
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"Não vai ser um alinhamento fácil de ser conduzido."
Assim,
a relação entre Peru, Estados Unidos e China será um dos principais pontos
de atenção do novo governo. Uma aproximação maior com Washington pode
gerar dificuldades nas negociações com Pequim, especialmente em uma região
que se tornou estratégica na disputa de
influência entre as duas potências. Nicodemos explicou ainda que a política
externa peruana costuma funcionar a partir do conceito de "cordas
separadas", em que diferentes áreas do governo seguem orientações
distintas. Enquanto o Ministério do Comércio Exterior tende a adotar uma
postura mais pragmática, o Ministério das Relações Exteriores costuma ter uma
abordagem mais ideológica. Dessa maneira, os nomes escolhidos para essas áreas
serão determinantes para definir os rumos da política externa de Fujimori.
Sobre o
retorno do fujimorismo ao poder, o pesquisador afirmou que o movimento
político nunca desapareceu completamente do Peru. "O fujimorismo nunca foi
embora. A Keiko foi a candidatura mais competitiva nas últimas quatro eleições
do Peru." Na avaliação de Nicodemos, uma das principais diferenças
entre Keiko e seu pai está no perfil internacional. Enquanto o governo de
Alberto Fujimori tinha uma agenda mais voltada à segurança interna e ao combate
ao Sendero Luminoso, Keiko apresenta uma postura mais alinhada a uma
agenda liberal econômica e internacionalista. Segundo o pesquisador, o novo
governo pode ampliar o espaço de influência de atores econômicos nas decisões
públicas, em um país que já enfrenta fragilidades sociais e
institucionais. Ele destacou que a pandemia
evidenciou problemas na
infraestrutura de saúde e assistência social do Peru, além de uma crise de
confiança nas instituições. Nicodemos avalia que esse cenário pode
aumentar tensões sociais durante o mandato. Para ele, movimentos
camponeses e grupos ligados às populações indígenas devem ser setores
críticos ao projeto político de Keiko Fujimori, em razão das diferenças
históricas entre regiões urbanas e rurais do país.
¨
Governo Fujimori será caracterizado por 'fortes conflitos
de poder e interesses', diz especialista
A
decisão do candidato Roberto Sánchez de não reconhecer a vitória de Keiko
Fujimori pode facilitar uma "onda de violência" e perpetuar a
instabilidade política, disse o analista Martín Manco à Sputnik. O cientista
político José Carlos Requena acredita que Sánchez pode estar buscando
consolidar sua posição como um líder "anti-Fujimori". Embora
os órgãos eleitorais ainda não tenham proclamado oficialmente sua vitória,
a vantagem de Keiko Fujimori na contagem de votos já é considerada insuperável,
posicionando-a como a próxima presidente do país
sul-americano.
No entanto, seu oponente no segundo turno, Roberto Sánchez, reafirmou sua
recusa em reconhecer a vitória dela.
Em uma
publicação em suas redes sociais, Sánchez reiterou a posição de seu partido,
Juntos por el Perú (Juntos pelo Peru), de que os votos dos peruanos
no exterior devem
ser anulados devido a mudanças regulamentares no procedimento de envio e
transmissão desses resultados. Em entrevista à Sputnik, o analista político
peruano José Carlos Requena afirmou que, embora a proclamação oficial ainda
esteja pendente, Keiko Fujimori se tornará a próxima presidente do Peru em
28 de julho, já que os recursos de Sánchez não terão sucesso nos órgãos
eleitorais do país. Por esse motivo, o especialista acredita que o
posicionamento de Sánchez é "mais simbólico" do que realista, embora
seja improvável que o
líder recue nos
próximos dias, visto que esse papel poderia fortalecer sua posição como
principal líder da oposição. "É inegável que Sánchez será a oposição mais
difícil que Keiko Fujimori enfrentará, e acredito que isso poderá
consolidar o núcleo de votos no qual ela baseou seu crescimento rumo ao segundo
turno e ajudá-la a olhar para as próximas eleições em 2031 ou até mesmo
antes", opinou o analista político.
Consultado
também pela Sputnik, o analista Martín Manco afirmou que as ações de
Sánchez constituem "uma atitude grave" que pode afetar tudo, da
economia à governabilidade do futuro governo em um país que emerge de uma
década de instabilidade política. Manco acredita que o candidato do Juntos por
el Perú busca apelar para a "retórica patriótica e erguer as bandeiras do
nacionalismo" em uma tentativa de incitar uma reação popular contra a
posse de Fujimori. Embora considere improvável que "grandes massas tomem
as ruas",
os apelos à ação podem levar a bloqueios de estradas no sul do país — onde
Sánchez tem maior apoio — e a protestos em Lima que poderiam agravar as
tensões. "Haverá pessoas que sairão às ruas para protestar e provavelmente
haverá pessoas que acabarão feridas porque, obviamente, a ordem interna terá
que ser restaurada. Não será fácil governar um país com uma onda de
violência", alertou o especialista, enfatizando que "isso é
imprevisível: podemos estar brandindo nitroglicerina ou uma bala do século
XVIII que não explode". Por ora, Sánchez convocou uma manifestação para 27
de junho, que ele chamou de "vigília democrática e pacífica". O
candidato também esclareceu que não está "incitando uma insurreição
civil", mas sim defendendo os
direitos democráticos de
seu partido político.
Requena,
por sua vez, expressou mais ceticismo quanto à capacidade de Sánchez de
mobilizar apoio, mas afirmou que o candidato "poderia se radicalizar mais
com sua postura anti-Fujimori" e, assim, concentrar o apoio do eleitorado
"antiestablishment e anticlasse política tradicional". Esse perfil
poderia até aproximá-lo, explicou o analista, de um eleitorado
"descontente com o espectro político de
esquerda", tornando-o
uma figura representativa para "renegados de todas as correntes
políticas".
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Um 'conflito de poderes'
Na
visão de Requena, o maior problema para o futuro governo de Keiko Fujimori não
estará tanto nas ruas, mas sim no Congresso, onde Sánchez
também desempenhará um papel significativo como líder da oposição e
onde o partido governista, Força Popular, poderá ter dificuldades para chegar a
acordos com outros partidos que, à primeira vista, parecem ser aliados, como a Renovação
Popular, liderada pelo ex-prefeito de Lima, Rafael López Aliaga. "Embora
Keiko Fujimori tenha um terço dos votos no Senado e quase um terço na Câmara
dos Deputados, estando protegida de consequências extremas, não podemos
descartar moções de censura ou o bloqueio de certas leis", explicou.
Manco
previu que o mandato de Fujimori poderá ser caracterizado por "fortes
conflitos de poder e interesses", alimentados por um
"ressentimento" que prevalece entre o partido governista e a oposição
e que poderá transformar o Peru "em uma bomba-relógio". "Acredito
que Fujimori governará com um gosto amargo na boca por não ter sido eleita
por 15 anos, e a esquerda peruana estará na oposição com um gosto amargo na
boca por ter visto seus candidatos serem afastados do poder", aventou o
especialista. Segundo Manco, Fujimori deveria considerar que sua vitória
eleitoral "foi mínima, uma vitória de Pirro", e levar em conta o
contexto de um país profundamente dividido. Diante disso, o analista
expressou seu receio de que esse contexto de divisão leve o Peru "a repetir
os mesmos erros dos últimos 20 anos de constante troca de
presidentes".
• Guinada à direita na Colômbia fortalece
bloco conservador na América Latina
A
vitória do advogado nacionalista Abelardo De La Espriella na eleição
presidencial da Colômbia consolidou uma nova guinada à direita na América
Latina e aprofundou o enfraquecimento da chamada “onda rosa”, que havia levado
governos progressistas ao poder no início da década de 2020. Segundo análise
publicada pelo Valor Econômico, a eleição de Espriella, um novato na política,
ocorre em um momento de avanço de forças conservadoras em diversos países da
região. O movimento já inclui Argentina, Chile, Equador, Bolívia e Panamá, e
pode ganhar novo impulso no Peru, onde a conservadora Keiko Fujimori lidera por
margem estreita a lenta apuração dos votos contestados do segundo turno
presidencial de 7 de junho.
Na
Colômbia, a apuração preliminar indicou vitória de Espriella por 49,66% dos
votos, contra 48,70% do senador de esquerda Iván Cepeda, candidato apoiado pelo
presidente Gustavo Petro. Pela legislação colombiana, porém, é necessária uma
contagem final validada, supervisionada por tabeliães e juízes, que estava
quase concluída no fim da noite de domingo. Caso o resultado seja confirmado, a
Colômbia passará a integrar um bloco regional cada vez mais inclinado à
direita, revertendo parte do ciclo político que levou Petro ao poder como o
primeiro presidente de esquerda da história colombiana.
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Crise econômica e segurança impulsionam a direita
O
avanço conservador na América Latina ocorre em meio a economias frágeis,
inflação persistente, déficits fiscais e aumento da criminalidade. Esses
fatores remodelaram as prioridades dos eleitores e abriram espaço para
candidatos de direita que prometem repressão mais dura ao crime, redução de
impostos, cortes no Estado e flexibilização de regras para empresas.
Na
avaliação de especialistas citados pela reportagem, a ascensão desses governos
também se conecta a um cenário global de fortalecimento do nacionalismo de
direita. Esse ambiente favorece o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
que busca conter a influência crescente da China na América Latina e ampliar o
controle norte-americano sobre a região. "Este é um alinhamento incomum
dos astros para Trump", afirmou Steven Levitsky, professor de Estudos
Latino-Americanos e de governo da Universidade Harvard. "Raramente se vê
um grande número de governos tão convergentes ideologicamente quanto estamos
vendo agora." O alinhamento ideológico regional ganha relevância em um
momento de maior presença dos Estados Unidos em questões de segurança e energia
na América Latina. Ao longo do último ano, Trump ordenou ataques que mataram
mais de 150 pessoas em supostas embarcações do narcotráfico no Caribe, lançou
uma aliança regional de direita apelidada de “Escudo das Américas” e capturou o
presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma operação realizada em Caracas.
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Espriella se aproxima de Trump e promete ruptura com Petro
A
vitória de Espriella representa uma mudança profunda em relação ao governo de
Gustavo Petro, um dos críticos mais contundentes de Trump na região. As
posições de Petro lhe renderam ameaças de ação militar e sanções por parte de
Washington.
Espriella,
por outro lado, é admirador declarado do presidente norte-americano. Cidadão
dos Estados Unidos naturalizado e ex-residente de Miami, ele manifestou apoio
público a Trump e recebeu seu endosso antes do segundo turno colombiano.
Durante
a campanha, o presidente eleito prometeu aderir ao Escudo das Américas,
endurecer o combate ao narcotráfico, reduzir impostos, flexibilizar regulações
para empresas e retomar projetos de petróleo e gás interrompidos durante o
governo Petro. A pauta energética deve ocupar lugar central em sua gestão. A
Colômbia enfrenta escassez de gás em meio a um cenário internacional
pressionado pela guerra contra o Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz,
fatores que abalaram os mercados globais de energia.
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Energia, petróleo e mineração entram no centro da disputa regional
A
guinada à direita também tem implicações econômicas e geopolíticas. Com vastas
reservas de petróleo na Guiana e na Venezuela, além de uma das maiores
formações de xisto do mundo na Argentina, especialistas avaliam que a América
Latina pode se consolidar como uma potência energética global. Nesse contexto,
líderes conservadores da Argentina, do Chile, do Peru e da Colômbia vêm
defendendo políticas voltadas à expansão da mineração, dos combustíveis fósseis
e da exploração energética. A promessa é atrair investimentos e destravar
projetos paralisados por questões ambientais, regulatórias ou políticas. No
entanto, os novos governos de direita enfrentam uma contradição: ao mesmo tempo
em que prometem crescimento e desregulação, lidam com déficits orçamentários
elevados, pressão social e necessidade de cortes de gastos. As medidas de
austeridade já provocaram protestos em diferentes países. Na Bolívia, o governo
declarou estado de emergência e começou a desobstruir bloqueios que paralisaram
o país por mais de 50 dias. Sindicatos e outros grupos protestavam contra
medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.
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Protestos e violência desafiam governos conservadores
No
Chile, o índice de aprovação do presidente José Antonio Kast despencou depois
que a guerra contra o Irã levou seu governo a elevar os preços dos
combustíveis. Na Argentina, as medidas de austeridade do presidente Javier
Milei também vêm sendo recebidas com protestos recorrentes.As dificuldades não
se limitam à economia. A segurança pública, uma das principais bandeiras
eleitorais da direita regional, segue como desafio central. No Equador, os
homicídios aumentaram 30% no ano passado, segundo a reportagem, e o governo do
presidente Daniel Noboa atribuiu a alta às disputas territoriais entre facções
criminosas fragmentadas.
Na
Costa Rica, os homicídios também dispararam sob o governo do populista de
direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, Laura Fernandez, prometeu uma guerra
contra o crime, mas os assassinatos continuaram elevados, em meio ao
crescimento do país como ponto de passagem para carregamentos de cocaína
sul-americana destinados aos Estados Unidos e à Europa. Na Colômbia, o
narcotráfico, a mineração ilegal e a presença limitada do Estado em partes do
território devem impor um teste difícil a Espriella. O país tem dimensões,
conflitos internos e estruturas institucionais muito mais complexas do que
outros casos frequentemente citados pela direita latino-americana.
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Congresso dividido deve limitar ambições de Espriella
Embora
tenha vencido a eleição, Espriella chega ao poder com margem inferior a 1% e
terá de governar com um Congresso dividido. O Pacto Histórico, partido de seu
rival Iván Cepeda, tem mais cadeiras do que qualquer outra legenda, o que pode
dificultar a aprovação de reformas mais radicais. O estilo de vestir do
presidente eleito e sua promessa de construir megapresídios levaram a
comparações com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que se autodenomina
o “ditador mais descolado do mundo”. Espriella, porém, nega estar copiando o
modelo salvadorenho.
Para
Sergio Guzman, fundador da Colombia Risk Analysis, a transposição desse modelo
para a realidade colombiana não seria simples. "A Colômbia é um país muito
maior e muito mais complexo de administrar do que El Salvador, e importar as
soluções de segurança salvadorenhas para a Colômbia não é viável, seja do ponto
de vista jurídico, orçamentário ou das relações internacionais", afirmou. Levitsky
também avalia que Espriella terá de operar dentro das instituições democráticas
colombianas para aprovar sua agenda. Segundo ele, o presidente eleito deverá
enfrentar dificuldades "se tentar ser mais radical".
Fonte:
Sputnik Brasil/Brasil 247

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