terça-feira, 30 de junho de 2026

'O fujimorismo nunca foi embora': vitória de Keiko marca guinada à direita da América Latina?

Especialistas ouvidos pelo Mundioka avaliam que eleição peruana reforça avanço conservador na América Latina, reacende debates sobre o legado fujimorista e pode redefinir a posição do país na disputa EUA x China. Após semanas de apuração, as eleições do Peru terminaram elegendo Keiko Fujimori como a próxima presidente do país, em um pleito recheado de acusações de interferência, inclusive estrangeira. O candidato à Presidência do Peru Roberto Sánchez denunciou "fraude" na contagem dos votos e não reconheceu a vitória de Fujimori, convocando seus apoiadores a uma "resistência patriótica". Tendo passado por uma instabilidade política crônica marcada por recorrentes impeachments — até mesmo uma tentativa de autogolpe em 2025 —, o país espera que esse ciclo eleitoral termine essa tradição. Contudo, o que parece ser é mais um capítulo de turbulência no país sul-americano.

Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Lucas Berti, mestrando em ciência política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avaliou que a vitória de Keiko Fujimori representa o retorno de uma força política que, segundo ele, carrega um histórico autoritário no país. Também pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) e do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global (Grisul), lembrou que esse movimento esteve associado à ascensão de Alberto Fujimori, pai de Keiko e ex-ditador do país, que governou o Peru entre 1990 e 2000 em um regime marcado por medidas autoritárias.

Para Berti, o fujimorismo volta ao poder como uma corrente que se apresenta como resposta ao combate à corrupção, mas que, na sua avaliação, possui características autoritárias. "É um movimento disfarçado de combate à corrupção, mas que, na verdade, é o oposto disso", declarou. Sobre os questionamentos feitos pelo candidato derrotado, Roberto Sánchez, o pesquisador explicou que a contestação do resultado ocorre após um processo eleitoral já marcado por incertezas. Como conta, a disputa desde o primeiro turno foi apertada e controversa, com uma pequena diferença entre os candidatos que avançaram para a fase final.

Berti destacou que a margem entre Fujimori e Sánchez ficou próxima de 40 mil votos, com a candidata alcançando vantagem quando considerados também os votos do exterior. "O Roberto Sánchez ganhou no território peruano, mas a Keiko virou e levou, possivelmente, a eleição por causa dos votos do exterior." O pesquisador ressaltou que a principal alegação de Sánchez envolve a recontagem de atas eleitorais, especialmente as vindas de fora do país. Como o Peru usa cédulas de papel, o candidato argumenta que existe maior possibilidade de questionamentos durante a apuração. No entanto, Berti ponderou que não há evidências concretas de fraude no processo eleitoral. "Claro que eu não estou dizendo que houve ou não houve fraude. Essa é a alegação que o Roberto Sánchez utiliza", afirmou. Para ele, a contestação também segue uma tradição recente da própria Keiko Fujimori, que questionou resultados em eleições anteriores em que saiu derrotada. "É algo que a própria Keiko fez nas últimas três eleições em que ela perdeu. Então, agora, finalmente, em uma eleição que possivelmente ela leve, quem está perdendo começou a dar esse choro também."

Geopoliticamente falando, a vitória de Fujimori representa, em sua avaliação, uma mudança no equilíbrio ideológico da América Latina, com o fortalecimento de governos e forças políticas mais alinhadas à direita, especialmente na América do Sul. O resultado peruano ocorre em um momento de avanço de discursos conservadores na região, principalmente ligados à segurança pública, ao combate ao narcotráfico e ao enfrentamento do chamado "narcoterrorismo". Embora Keiko Fujimori não represente exatamente o discurso anti-establishment por carregar o sobrenome de uma tradicional família política peruana, sua vitória faz parte de um movimento regional mais amplo."Estamos em um momento em que o discurso anti-establishment, antissistema, está voltando com muita força", afirmou Berti. Ele citou como exemplo o avanço de lideranças e forças de direita em diferentes países sul-americanos, como Argentina, Chile, Bolívia e Colômbia. Para ele, esse movimento também representa uma aproximação maior com os Estados Unidos, não apenas em termos comerciais, mas também ideológicos. Em destaque, essa aproximação pode alterar as relações políticas dentro da América do Sul e aumentar o isolamento de governos com posições ideológicas diferentes, como o Brasil.

Questionado sobre o fato de Keiko Fujimori carregar o legado político do pai, Alberto Fujimori, condenado por corrupção e violações de direitos humanos, Berti afirmou que o peso do sobrenome continua a ser um fator relevante na política peruana. Parte do eleitorado busca referências familiares e símbolos já conhecidos. "O eleitor busca um sobrenome, busca uma verdade que já está meio estabelecida", explicou.

Berti comparou o cenário peruano com a política brasileira, afirmando que a força de sobrenomes tradicionais também influencia eleições no Brasil. "É essa necessidade da memória, um sobrenome que traga, que acenda esse movimento que há muitos anos é forte no Peru. É a mesma coisa aqui no Brasil", disse, referindo-se à família Bolsonaro e ao pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro.

Para Ghaio Nicodemos, pesquisador de pós-doutorado em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Atores e Agendas de Política Externa (NEAAPE) e pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), a vitória de Keiko Fujimori também pode provocar mudanças na inserção internacional do Peru, especialmente no equilíbrio entre Estados Unidos e China na América Latina. Segundo Nicodemos, Fujimori tende a adotar uma política externa mais próxima dos Estados Unidos, com uma postura econômica menos autônoma em comparação com governos anteriores. "Keiko tem uma projeção muito voltada para o oceano Pacífico, mas principalmente para os Estados Unidos", afirmou o pesquisador, destacando também a relação histórica do fujimorismo com o Japão.

Apesar dessa aproximação, Nicodemos ressalta que o Peru mantém uma forte dependência econômica da China, que é um dos principais destinos das exportações peruanas. Por isso, avalia que uma mudança de alinhamento não deve ocorrer de forma simples.

<><> "Não vai ser um alinhamento fácil de ser conduzido."

Assim, a relação entre Peru, Estados Unidos e China será um dos principais pontos de atenção do novo governo. Uma aproximação maior com Washington pode gerar dificuldades nas negociações com Pequim, especialmente em uma região que se tornou estratégica na disputa de influência entre as duas potências. Nicodemos explicou ainda que a política externa peruana costuma funcionar a partir do conceito de "cordas separadas", em que diferentes áreas do governo seguem orientações distintas. Enquanto o Ministério do Comércio Exterior tende a adotar uma postura mais pragmática, o Ministério das Relações Exteriores costuma ter uma abordagem mais ideológica. Dessa maneira, os nomes escolhidos para essas áreas serão determinantes para definir os rumos da política externa de Fujimori.

Sobre o retorno do fujimorismo ao poder, o pesquisador afirmou que o movimento político nunca desapareceu completamente do Peru. "O fujimorismo nunca foi embora. A Keiko foi a candidatura mais competitiva nas últimas quatro eleições do Peru." Na avaliação de Nicodemos, uma das principais diferenças entre Keiko e seu pai está no perfil internacional. Enquanto o governo de Alberto Fujimori tinha uma agenda mais voltada à segurança interna e ao combate ao Sendero Luminoso, Keiko apresenta uma postura mais alinhada a uma agenda liberal econômica e internacionalista. Segundo o pesquisador, o novo governo pode ampliar o espaço de influência de atores econômicos nas decisões públicas, em um país que já enfrenta fragilidades sociais e institucionais. Ele destacou que a pandemia evidenciou problemas na infraestrutura de saúde e assistência social do Peru, além de uma crise de confiança nas instituições. Nicodemos avalia que esse cenário pode aumentar tensões sociais durante o mandato. Para ele, movimentos camponeses e grupos ligados às populações indígenas devem ser setores críticos ao projeto político de Keiko Fujimori, em razão das diferenças históricas entre regiões urbanas e rurais do país.

¨      Governo Fujimori será caracterizado por 'fortes conflitos de poder e interesses', diz especialista

A decisão do candidato Roberto Sánchez de não reconhecer a vitória de Keiko Fujimori pode facilitar uma "onda de violência" e perpetuar a instabilidade política, disse o analista Martín Manco à Sputnik. O cientista político José Carlos Requena acredita que Sánchez pode estar buscando consolidar sua posição como um líder "anti-Fujimori". Embora os órgãos eleitorais ainda não tenham proclamado oficialmente sua vitória, a vantagem de Keiko Fujimori na contagem de votos já é considerada insuperável, posicionando-a como a próxima presidente do país sul-americano. No entanto, seu oponente no segundo turno, Roberto Sánchez, reafirmou sua recusa em reconhecer a vitória dela.

Em uma publicação em suas redes sociais, Sánchez reiterou a posição de seu partido, Juntos por el Perú (Juntos pelo Peru), de que os votos dos peruanos no exterior devem ser anulados devido a mudanças regulamentares no procedimento de envio e transmissão desses resultados. Em entrevista à Sputnik, o analista político peruano José Carlos Requena afirmou que, embora a proclamação oficial ainda esteja pendente, Keiko Fujimori se tornará a próxima presidente do Peru em 28 de julho, já que os recursos de Sánchez não terão sucesso nos órgãos eleitorais do país. Por esse motivo, o especialista acredita que o posicionamento de Sánchez é "mais simbólico" do que realista, embora seja improvável que o líder recue nos próximos dias, visto que esse papel poderia fortalecer sua posição como principal líder da oposição. "É inegável que Sánchez será a oposição mais difícil que Keiko Fujimori enfrentará, e acredito que isso poderá consolidar o núcleo de votos no qual ela baseou seu crescimento rumo ao segundo turno e ajudá-la a olhar para as próximas eleições em 2031 ou até mesmo antes", opinou o analista político.

Consultado também pela Sputnik, o analista Martín Manco afirmou que as ações de Sánchez constituem "uma atitude grave" que pode afetar tudo, da economia à governabilidade do futuro governo em um país que emerge de uma década de instabilidade política. Manco acredita que o candidato do Juntos por el Perú busca apelar para a "retórica patriótica e erguer as bandeiras do nacionalismo" em uma tentativa de incitar uma reação popular contra a posse de Fujimori. Embora considere improvável que "grandes massas tomem as ruas", os apelos à ação podem levar a bloqueios de estradas no sul do país — onde Sánchez tem maior apoio — e a protestos em Lima que poderiam agravar as tensões. "Haverá pessoas que sairão às ruas para protestar e provavelmente haverá pessoas que acabarão feridas porque, obviamente, a ordem interna terá que ser restaurada. Não será fácil governar um país com uma onda de violência", alertou o especialista, enfatizando que "isso é imprevisível: podemos estar brandindo nitroglicerina ou uma bala do século XVIII que não explode". Por ora, Sánchez convocou uma manifestação para 27 de junho, que ele chamou de "vigília democrática e pacífica". O candidato também esclareceu que não está "incitando uma insurreição civil", mas sim defendendo os direitos democráticos de seu partido político.

Requena, por sua vez, expressou mais ceticismo quanto à capacidade de Sánchez de mobilizar apoio, mas afirmou que o candidato "poderia se radicalizar mais com sua postura anti-Fujimori" e, assim, concentrar o apoio do eleitorado "antiestablishment e anticlasse política tradicional". Esse perfil poderia até aproximá-lo, explicou o analista, de um eleitorado "descontente com o espectro político de esquerda", tornando-o uma figura representativa para "renegados de todas as correntes políticas".

<><> Um 'conflito de poderes'

Na visão de Requena, o maior problema para o futuro governo de Keiko Fujimori não estará tanto nas ruas, mas sim no Congresso, onde Sánchez também desempenhará um papel significativo como líder da oposição e onde o partido governista, Força Popular, poderá ter dificuldades para chegar a acordos com outros partidos que, à primeira vista, parecem ser aliados, como a Renovação Popular, liderada pelo ex-prefeito de Lima, Rafael López Aliaga. "Embora Keiko Fujimori tenha um terço dos votos no Senado e quase um terço na Câmara dos Deputados, estando protegida de consequências extremas, não podemos descartar moções de censura ou o bloqueio de certas leis", explicou.

Manco previu que o mandato de Fujimori poderá ser caracterizado por "fortes conflitos de poder e interesses", alimentados por um "ressentimento" que prevalece entre o partido governista e a oposição e que poderá transformar o Peru "em uma bomba-relógio". "Acredito que Fujimori governará com um gosto amargo na boca por não ter sido eleita por 15 anos, e a esquerda peruana estará na oposição com um gosto amargo na boca por ter visto seus candidatos serem afastados do poder", aventou o especialista. Segundo Manco, Fujimori deveria considerar que sua vitória eleitoral "foi mínima, uma vitória de Pirro", e levar em conta o contexto de um país profundamente dividido. Diante disso, o analista expressou seu receio de que esse contexto de divisão leve o Peru "a repetir os mesmos erros dos últimos 20 anos de constante troca de presidentes".

•        Guinada à direita na Colômbia fortalece bloco conservador na América Latina

A vitória do advogado nacionalista Abelardo De La Espriella na eleição presidencial da Colômbia consolidou uma nova guinada à direita na América Latina e aprofundou o enfraquecimento da chamada “onda rosa”, que havia levado governos progressistas ao poder no início da década de 2020. Segundo análise publicada pelo Valor Econômico, a eleição de Espriella, um novato na política, ocorre em um momento de avanço de forças conservadoras em diversos países da região. O movimento já inclui Argentina, Chile, Equador, Bolívia e Panamá, e pode ganhar novo impulso no Peru, onde a conservadora Keiko Fujimori lidera por margem estreita a lenta apuração dos votos contestados do segundo turno presidencial de 7 de junho.

Na Colômbia, a apuração preliminar indicou vitória de Espriella por 49,66% dos votos, contra 48,70% do senador de esquerda Iván Cepeda, candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro. Pela legislação colombiana, porém, é necessária uma contagem final validada, supervisionada por tabeliães e juízes, que estava quase concluída no fim da noite de domingo. Caso o resultado seja confirmado, a Colômbia passará a integrar um bloco regional cada vez mais inclinado à direita, revertendo parte do ciclo político que levou Petro ao poder como o primeiro presidente de esquerda da história colombiana.

<><> Crise econômica e segurança impulsionam a direita

O avanço conservador na América Latina ocorre em meio a economias frágeis, inflação persistente, déficits fiscais e aumento da criminalidade. Esses fatores remodelaram as prioridades dos eleitores e abriram espaço para candidatos de direita que prometem repressão mais dura ao crime, redução de impostos, cortes no Estado e flexibilização de regras para empresas.

Na avaliação de especialistas citados pela reportagem, a ascensão desses governos também se conecta a um cenário global de fortalecimento do nacionalismo de direita. Esse ambiente favorece o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que busca conter a influência crescente da China na América Latina e ampliar o controle norte-americano sobre a região. "Este é um alinhamento incomum dos astros para Trump", afirmou Steven Levitsky, professor de Estudos Latino-Americanos e de governo da Universidade Harvard. "Raramente se vê um grande número de governos tão convergentes ideologicamente quanto estamos vendo agora." O alinhamento ideológico regional ganha relevância em um momento de maior presença dos Estados Unidos em questões de segurança e energia na América Latina. Ao longo do último ano, Trump ordenou ataques que mataram mais de 150 pessoas em supostas embarcações do narcotráfico no Caribe, lançou uma aliança regional de direita apelidada de “Escudo das Américas” e capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma operação realizada em Caracas.

<><> Espriella se aproxima de Trump e promete ruptura com Petro

A vitória de Espriella representa uma mudança profunda em relação ao governo de Gustavo Petro, um dos críticos mais contundentes de Trump na região. As posições de Petro lhe renderam ameaças de ação militar e sanções por parte de Washington.

Espriella, por outro lado, é admirador declarado do presidente norte-americano. Cidadão dos Estados Unidos naturalizado e ex-residente de Miami, ele manifestou apoio público a Trump e recebeu seu endosso antes do segundo turno colombiano.

Durante a campanha, o presidente eleito prometeu aderir ao Escudo das Américas, endurecer o combate ao narcotráfico, reduzir impostos, flexibilizar regulações para empresas e retomar projetos de petróleo e gás interrompidos durante o governo Petro. A pauta energética deve ocupar lugar central em sua gestão. A Colômbia enfrenta escassez de gás em meio a um cenário internacional pressionado pela guerra contra o Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz, fatores que abalaram os mercados globais de energia.

<><> Energia, petróleo e mineração entram no centro da disputa regional

A guinada à direita também tem implicações econômicas e geopolíticas. Com vastas reservas de petróleo na Guiana e na Venezuela, além de uma das maiores formações de xisto do mundo na Argentina, especialistas avaliam que a América Latina pode se consolidar como uma potência energética global. Nesse contexto, líderes conservadores da Argentina, do Chile, do Peru e da Colômbia vêm defendendo políticas voltadas à expansão da mineração, dos combustíveis fósseis e da exploração energética. A promessa é atrair investimentos e destravar projetos paralisados por questões ambientais, regulatórias ou políticas. No entanto, os novos governos de direita enfrentam uma contradição: ao mesmo tempo em que prometem crescimento e desregulação, lidam com déficits orçamentários elevados, pressão social e necessidade de cortes de gastos. As medidas de austeridade já provocaram protestos em diferentes países. Na Bolívia, o governo declarou estado de emergência e começou a desobstruir bloqueios que paralisaram o país por mais de 50 dias. Sindicatos e outros grupos protestavam contra medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.

<><> Protestos e violência desafiam governos conservadores

No Chile, o índice de aprovação do presidente José Antonio Kast despencou depois que a guerra contra o Irã levou seu governo a elevar os preços dos combustíveis. Na Argentina, as medidas de austeridade do presidente Javier Milei também vêm sendo recebidas com protestos recorrentes.As dificuldades não se limitam à economia. A segurança pública, uma das principais bandeiras eleitorais da direita regional, segue como desafio central. No Equador, os homicídios aumentaram 30% no ano passado, segundo a reportagem, e o governo do presidente Daniel Noboa atribuiu a alta às disputas territoriais entre facções criminosas fragmentadas.

Na Costa Rica, os homicídios também dispararam sob o governo do populista de direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, Laura Fernandez, prometeu uma guerra contra o crime, mas os assassinatos continuaram elevados, em meio ao crescimento do país como ponto de passagem para carregamentos de cocaína sul-americana destinados aos Estados Unidos e à Europa. Na Colômbia, o narcotráfico, a mineração ilegal e a presença limitada do Estado em partes do território devem impor um teste difícil a Espriella. O país tem dimensões, conflitos internos e estruturas institucionais muito mais complexas do que outros casos frequentemente citados pela direita latino-americana.

<><> Congresso dividido deve limitar ambições de Espriella

Embora tenha vencido a eleição, Espriella chega ao poder com margem inferior a 1% e terá de governar com um Congresso dividido. O Pacto Histórico, partido de seu rival Iván Cepeda, tem mais cadeiras do que qualquer outra legenda, o que pode dificultar a aprovação de reformas mais radicais. O estilo de vestir do presidente eleito e sua promessa de construir megapresídios levaram a comparações com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que se autodenomina o “ditador mais descolado do mundo”. Espriella, porém, nega estar copiando o modelo salvadorenho.

Para Sergio Guzman, fundador da Colombia Risk Analysis, a transposição desse modelo para a realidade colombiana não seria simples. "A Colômbia é um país muito maior e muito mais complexo de administrar do que El Salvador, e importar as soluções de segurança salvadorenhas para a Colômbia não é viável, seja do ponto de vista jurídico, orçamentário ou das relações internacionais", afirmou. Levitsky também avalia que Espriella terá de operar dentro das instituições democráticas colombianas para aprovar sua agenda. Segundo ele, o presidente eleito deverá enfrentar dificuldades "se tentar ser mais radical".

 

Fonte: Sputnik Brasil/Brasil 247

 

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