Prisão
perpétua, futebol e saúde mental
Em
1993, um ex-jogador da Seleção Brasileira foi impedido, pela comissão técnica
da época, de entrar na Granja Comary, onde os comandados canarinhos treinavam.
Esse jogador não era qualquer um, era Moacir Barbosa, ou melhor, o goleiro
Barbosa da Copa de 1950, que foi transformado no bode expiatório da perda do
título em pleno Maracanã. Quarenta e três anos após o final daquele jogo,
Barbosa ainda era humilhado como a representação do mau agouro e o responsável
pela derrota não de um time, mas de toda uma nação.
Barbosa
comentava que, "no Brasil, a pena máxima por um crime é de 30 anos. Eu
pago há mais de 40 por um crime que não cometi". Ele faleceu em 2000, três
anos após a perda de sua grande companheira, que sempre foi seu pilar emocional
e que o apoiou uma vida inteira da perseguição e do julgamento públicos. Sem
ela, Barbosa passou os últimos três anos de vida mergulhado em uma profunda
solidão. Ele faleceu sem nunca ter recebido o perdão oficial de um país que,
injustamente, transferiu às suas mãos a responsabilidade de uma derrota
coletiva.
A
história de Barbosa é uma lição sobre o impacto emocional do esporte
profissional na vida de um atleta; e, particularmente o futebol, com todas as
nuances associadas ao jogo, está repleto dessas histórias. O futebol, entre
todos os esportes, tem as maiores taxas de imprevisibilidade de resultados, e
isso está ligado diretamente a um maior interesse público e de audiência. Como
torcedores, buscamos histórias de superação, traçamos paralelos entre jogos,
jogadores e times com nossas vidas, com a história de povos e nações. A Copa do
Mundo, maior evento esportivo mundial, ocorrido a cada quatro anos, é repleta
dessas histórias que entrelaçam paixão, política, conflitos e identidade
nacional. Estima-se que a final da Copa do Mundo de 2026 será assistida por mais
de 1,5 bilhão de pessoas simultaneamente. Literalmente, os olhos de todo o
planeta acompanharão a disputa entre 22 jogadores por pelo menos 90 minutos.
Diante de números astronômicos, é de se questionar qual o peso emocional que um
esporte e evento de tamanha magnitude traz na vida de um jogador?
Em
1994, Roberto Baggio era o grande nome italiano daquela Copa, ele carregou a
Squadra Azzurra até a final contra o Brasil. Porém, coube a ele bater o
derradeiro pênalti, e foi em seu chute para fora que o tetracampeonato
brasileiro foi conquistado. Praticante do budismo, Baggio teve de buscar alento
na espiritualidade para processar a culpa que carregou. Em uma entrevista em
2014, confidenciou: "Eu senti como se estivesse morrendo. Eu pensei na
reação dos italianos quando perdi. Mesmo agora eu ainda não aceitei isso. Eu
chutei o final feliz do meu sonho fora, e não somente o meu sonho, mas o sonho
de cada italiano. Eu ainda sinto muito por isso".
Hoje,
um jogador de elite precisa enfrentar a indissociável relação entre estresse
mental e exaustão física. Em um mercado que movimenta dezenas de bilhões de
dólares, o calendário esportivo demanda cada vez mais por datas de eventos
esportivos. Além disso, vivemos a ultraexposição pelas redes sociais, onde cada
jogador transforma o próprio nome em uma empresa com marcas, funcionários,
prazos, metas e compromissos extracampo. A vida pessoal do atleta também faz
parte do business, e sua exposição não é só à imprensa, mas a todo tipo de
interação instantânea massiva, inescapável e interminável das redes sociais.
Talvez,
a vítima mais emblemática desses novos tempos do esporte tenha sido Ronaldo
Nazário em 1998. No ápice da pressão psicológica atrelada ao seu nome, sofreu
uma crise convulsiva horas antes da final da Copa contra a França. Mesmo sem
condições físicas e mentais ideais, Ronaldo exigiu jogar. O sentimento era de
responsabilidade descomunal com uma nação, com patrocínios e com a própria
história esportiva. O resultado foi uma atuação apagada, reflexo do esgotamento
físico e do trauma emocional sofrido poucas horas antes.
Hoje, a
ciência esportiva entende que a humanidade dos atletas profissionais deve ser
respeitada — apesar do desejo dos espectadores de enxergá-los como
super-humanos em campo — e oscilações emocionais, medo e ansiedade pré-jogo são
reações naturais diante do gigantismo de uma Copa do Mundo. O papel hoje não é
apagar tais emoções, mas evitar a desorganização psíquica do atleta. O enfoque
está na capacidade de gerenciar as próprias emoções e não em suprimi-las.
Ronaldo
teve sua redenção em 2002, Baggio uma carreira vitoriosa pós 1994 e o
julgamento de Barbosa ocorreu em 8 de julho de 2014 em Belo Horizonte,
absolvido por 7 votos a 1, quando, em seu lugar, outros 11 réus foram
condenados, porque a catarse da culpabilização se faz necessária no imaginário
coletivo. E, talvez, esse seja o preço e risco a se pagar pela busca da glória.
O esporte é uma atividade saudável em nossas vidas comuns; o esporte
profissional, não é. Nem para o corpo, nem para a mente.
Quem
segue por esse caminho tem que saber que a luta irá muito além da melhor
condição física, dependerá muito de sua saúde mental também. Não podemos dizer
ainda quais serão as histórias a serem contadas desta Copa de 2026, isso
dependerá de incontáveis variáveis que tornam o futebol, a dor e a glória
mágicos. Não é só um jogo.
Fonte:
Correio Braziliense

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