Eleições
sob pressão: o avanço da desinformação e dos ataques cibernéticos
Há mais
de uma década, as chamadas ameaças híbridas deixaram de ser apenas um conceito
acadêmico para se tornar uma realidade capaz de influenciar sociedades em todo
o mundo. Entre os momentos mais vulneráveis a esse tipo de ação estão os
períodos eleitorais. Segundo especialistas, os seis meses que antecedem um
pleito concentram os maiores riscos de interferência no debate público e na
confiança dos eleitores.
Em uma
sociedade cada vez mais digital e interdependente, os conflitos também assumem
novas formas. Não se trata mais apenas de bombardeios, invasões ou ataques
militares convencionais. Ciberataques, campanhas de desinformação e pressões
econômicas também podem ser utilizados para influenciar países e sociedades.
Esse conjunto de estratégias é conhecido como ameaças híbridas, ações capazes
de comprometer a estabilidade política, a segurança nacional e a economia de
países em todo o mundo.
Em
Helsinque, na Finlândia, está localizada a sede do Centro Europeu de Excelência
para o Combate às Ameaças Híbridas (Hybrid CoE). Criada em 2017 em parceria com
a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em um
contexto de crescente preocupação dos governos com o avanço desse tipo de ação,
a instituição apoia seus 35 países membros com pesquisas, treinamentos e
análises voltados à prevenção e ao combate dessas ameaças.
Martha
Turnbull, diretora da área de Influência Híbrida do Hybrid CoE, ressalta que um
dos cenários que mais tem registrado o aumento de ameaças híbridas é o período
eleitoral. “Vemos uma grande quantidade de desinformação nos cerca de seis
meses que antecedem a eleição. Isso se encaixa em um padrão mais amplo que
temos observado, no qual esses atores procuram minar a confiança do público no
sistema eleitoral e no governo atual”, afirma.
Turnbull
explica que, à medida que a eleição se aproxima, essas atividades passam a se
concentrar em partidos políticos e candidatos específicos, além de tentar
desencorajar a participação dos eleitores. “Isso não termina no dia da eleição.
Essas atividades continuam nas semanas seguintes, buscando desacreditar os
resultados”, complementa.
Não são
apenas atores externos que impõem ameaças, mas também internos. “No contexto
eleitoral atual, observamos que existe uma ligação entre ameaças externas e
atores domésticos em muitos países", afirma Turnbull. "Em alguns
casos, essa ligação é direta, quando o ator externo orienta diretamente grupos
ou indivíduos que estão dentro do país realizando algum tipo de atividade. Em
outros casos, a ligação não é tão clara, mas, de forma geral, o que estamos
vendo é uma conexão cada vez maior entre esses atores”, diz a especialista.
O
principal alvo das ameaças híbridas durante períodos eleitorais são justamente
os eleitores. Por isso, de acordo com o Hybrid CoE, combater esse fenômeno
também envolve fortalecer a educação midiática da população, para que as
pessoas consigam identificar e resistir à desinformação.
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IA muda o cenário das ameaças híbridas
Além do
cenário eleitoral, o avanço da inteligência artificial (IA) vem transformando a
forma como ameaças híbridas são produzidas e combatidas. Segundo Turnbull,
atores envolvidos nesse tipo de atividade utilizam modelos de linguagem e
outras ferramentas de IA para ampliar sua capacidade de atuação, aumentar a
escala das operações e acelerar respostas.
“Isso,
obviamente, é muito desafiador. Além disso, algumas dessas tecnologias tornam
essas atividades muito mais difíceis de rastrear e, consequentemente, mais
difíceis de atribuir responsabilidade e de responder a elas”, ressalta.
Também
existe, no entanto, um aspecto positivo. Governos e instituições vêm utilizando
a IA para fortalecer sistemas de monitoramento e resposta a ameaças híbridas. O
saldo dessa transformação, porém, ainda é incerto. "Acho que, neste
momento, a balança ainda não pendeu claramente para um lado ou para o
outro", avalia Turnbull.
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Europa vê Rússia como principal preocupação
O
Hybrid CoE está localizado em um ponto simbólico. Helsinque fica a menos de 200
quilômetros da fronteira com a Rússia, país apontado por especialistas como a
principal fonte de ameaças híbridas ao continente europeu na última década.
“Consideramos que a principal ameaça para a Europa vem da Rússia, mas também
observamos o aumento de ameaças por parte do Irã e da China”, afirma Martha
Turnbull.
Desde a
invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, o Hybrid CoE afirma
ter observado um aumento significativo das atividades relacionadas a ameaças
híbridas. “Temos observado uma atividade concentrada, particularmente por parte
da Rússia, no campo da desinformação, que busca enfraquecer o apoio à Ucrânia e
minar a disposição do país de continuar lutando com o apoio que recebe de seus
aliados”, diz Turnbull.
Essas
ações podem assumir diferentes formas. “Pode ser propaganda para tentar
desgastar a população e conquistá-la para o seu lado. Também pode envolver
ataques cibernéticos. Pode incluir ainda atividades militares de pequena
escala, como cruzar fronteiras, violar espaços aéreos ou interferir em sinais
de GPS”, ressalta.
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Brasil: a desinformação no centro das ameaças híbridas
No
Brasil, o tema também vem sendo acompanhado por pesquisadores. O professor de
antropologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Piero Leirner,
autor do livro O Brasil no espectro de uma guerra híbrida, afirma que, no
contexto político brasileiro, a principal preocupação está em dinâmicas de
desinformação.
“Os
principais atores que manejaram estratégias híbridas de desinformação e de
manipulação política aqui são atores 100% internos, embora ligados a atores
externos. Eu acredito que a desinformação não é apenas no sentido de fake news.
Isso é uma parte ínfima do problema. Na verdade, é uma estrutura geral que eu
chamo de dissonância cognitiva e que muita gente chama de polarização”, diz
Leirner.
À
medida que o Brasil se aproxima das eleições presidenciais de 2026, marcadas
para outubro, a desinformação retorna ao centro das atenções no cenário
político. Embora as redes sociais tenham ampliado seu alcance e velocidade, o
uso dessa estratégia para influenciar o debate público faz parte das campanhas
há décadas. Para Leirner, em especial, ataques à credibilidade do sistema
eleitoral devem voltar a ocupar espaço no debate público.
O
pesquisador avalia ainda que as instituições brasileiras não estão preparadas
para prevenir e responder a esse tipo de ameaça. “A principal ameaça é o fato
de que as nossas principais instituições políticas estão embebidas nesse
ambiente, e elas próprias fazem uso disso [da desinformação]”, ressalta.
Fonte:
Por Julia Valente, para RFI

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