Lojas
Americanas: anatomia de um golpe em seis peças
É o
maior escândalo da história do moderno mercado de capitais brasileiro. Durante
anos, uma das campeãs da B3, a Americanas, escondeu um passivo que, pelas
últimas atualizações, chegou a R$ 40 bilhões. E tudo sob a tutela dos três
maiores bilionários do país — Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel
Telles, da 3G —, que se tornaram, nas últimas décadas, o símbolo máximo do
capitalismo financeiro brasileiro.
Na
época do estouro da Americanas, Jornal GGN foi o único a explicar os principais
lances do golpe, que mostravam uma articulação entre os controladores –
representado por Beto Sucupira – e a diretoria da Americanas.
São os
mais bem sucedidos representantes dos chamados “piranhas financeiras”, a
geração que ascendeu com a financeirização da economia, seguindo as lições de
Jack Welch – o trágico gestor que afundou a GE, a mais tradicional empresa
industrial norte-americana. Seu modelo é o de assumir o controle de empresas e
depena-la até o último dividendo, cortando investimentos, manutenção, planos
estratégicos em favor unicamente dos dividendos.
O
gráfico de desempenho do papel já dá a medida do rombo imposto aos mais de 150
mil acionistas e a inúmeros bancos credores. Mas há muito mais do que um tombo
de bolsa: pelas informações disponíveis, o buraco começou a ser cavado há pelo
menos dez anos, sob uma relação de cumplicidade entre controladores e diretores
estatutários. Vamos por partes, para entender o jogo.
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Peça 1 — como o golpe começa a ser armado
No caso
da Americanas, o primeiro passo do golpe foi mudar a composição acionária, com
os sócios da 3G se afastando do Conselho de Administração e reduzindo sua
participação na Americanas.
Em 3 de
novembro de 2021 deu-se o movimento inicial: a fusão da Lojas Americanas com a
Americanas S.A. Os controladores — a 3G — reduziram a participação e deixaram
de ser controladores formais. Lemann e Telles pediram demissão do Conselho de
Administração; Beto Sicupira passou a “acionista de referência”. Abriram mão de
parte das ordinárias sem exigir prêmio — quando um acionista troca ordinárias
por preferenciais, o normal é embolsar um ágio pela troca; o 3G, generosamente,
abriu mão dele. A participação caiu para 29,2% na empresa combinada.
Segundo
a UOL, um laudo encomendado pela própria Lojas Americanas avaliou seu
patrimônio líquido em R$ 10,3 bilhões, contra R$ 25,9 bilhões da Americanas. Os
controladores tinham 38,2% da Lojas Americanas, com 60,8% das ordinárias.
O
mercado reagiu mal. Mas o presidente Miguel Gutierrez tratou de acalmar, em
registro que hoje soa como deboche: “Tudo na vida tem um amadurecimento. Como
os bons vinhos, vão decantando, criando corpo, criando novas perspectivas.”
A
partir daí, passaram a se desfazer de ações em bolsa. Em 1º de novembro de
2021, a AMER3 estava cotada a R$ 31,22 — a Americanas valia em bolsa R$ 28,2
bilhões, e a Lojas Americanas, R$ 9,7 bilhões. No último fechamento antes da
quebra, o papel valia R$ 1,98.
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Peça 2 — a cumplicidade dos executivos
O
segundo movimento foi obter a adesão dos executivos, compensando o risco penal
com remunerações altíssimas.
Miguel
Gutierrez era subordinado a Beto Sicupira, e as reuniões do Conselho de
Administração eram presididas pelo próprio Sicupira. A PwC, auditora da
companhia, atuava sob esse comando. Seria impossível, nesse arranjo, que os
controladores não soubessem das manobras contábeis. Ainda em 2019, um analista
de mercado, na reunião de apresentação do balanço, apontou para as
discrepâncias contábeis.
Ainda
assim, choveram bônus milionários. Em 2018, decisão do TRF da 2ª Região
derrubou liminar de 2010 e obrigou a CVM a divulgar os salários dos executivos
de empresas abertas: o do presidente da Lojas Americanas era o sexto mais alto
do país, acima de Vale, Bradesco, Ambev e Braskem. Os diretores estatutários
receberam cerca de R$ 34 milhões em 2019, R$ 35 milhões em 2020 e R$ 36 milhões
em 2021. Com os maus resultados escondidos nos balanços, a única explicação
plausível para essa generosidade é o cala-boca — o preço da cumplicidade.
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Peça 3 — o fator Sérgio Rial
O
terceiro movimento foi trazer Sérgio Rial para montar a estratégia de saída.
Rial
foi presidente festejado do Santander, um dos credores da Americanas. Em 19 de
agosto de 2022, seu nome foi anunciado para a presidência do grupo. O anúncio
causou estranheza: ele presidia o Conselho da Vibra e não tinha experiência em
varejo. Mesmo assim, as ações, que vinham caindo, subiram 22,5% no primeiro
pregão seguinte e 18,3% no segundo.
Foi
justamente nesse período que, segundo dados da CVM, os diretores da Americanas
venderam R$ 223 milhões em ações entre julho e outubro de 2022, a um preço
médio de R$ 16,22. Como observou o Metrópoles, entre o anúncio de Rial e
outubro de 2022 — véspera das eleições — as ações dispararam 61%, e a venda de
R$ 223 milhões foi um movimento na contramão da alta.
Rial
ficou na prateleira até o fim do ano. Assumiu em 2 de janeiro de 2023. No dia
11, a Americanas divulgou fato relevante informando “inconsistências contábeis”
de R$ 20 bilhões. No dia seguinte, em videoconferência organizada pelo BTG
Pactual, comunicou a renúncia — alegando ter tomado conhecimento dos fatos nos
dias anteriores, hipótese improvável para um executivo de seu porte, que teve
cinco meses para se inteirar da empresa. Admitiu que os problemas vinham da
década de 1990.
O rombo
não atingiu só os acionistas: contaminou os impostos pagos pelos bancos
credores. Se um banco provisiona R$ 3 bilhões, o lucro cai R$ 1,8 bilhão e os
tributos a pagar recuam mais de R$ 1,2 bilhão. Pelos cálculos de mercado, o
fator Americanas deveria reduzir o lucro do Bradesco em R$ 1,8 bilhão, o do
Itaú em R$ 1 bilhão e o do Banco do Brasil em R$ 400 milhões.
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Peça 4 — a estratégia Rial
O
quarto movimento foi Rial deixar a empresa e assumir a direção de estratégia da
própria 3G.
A
defesa da Americanas se armou nos campos financeiro e jurídico. Menos de três
horas antes do fato relevante, a empresa tentou resgatar R$ 800 milhões
investidos no BTG. Ao mesmo tempo, obteve liminar do juiz Paulo Estefan, da 4ª
Vara Empresarial do Rio, impedindo qualquer antecipação de pagamento a credores
e ainda obrigando o BTG a devolver R$ 1,2 bilhão que já recuperara.
Pelo
contrato com a Americanas, o foro correto seria São Paulo. O juiz não só
aceitou o pedido como indicou para a administração judicial o escritório
Zveiter, de Sérgio Zveiter — irmão do ex-presidente do TJ-RJ Luiz Zveiter e
membro de uma família de larga influência nos tribunais fluminenses. O detalhe
curioso: o mesmo Zveiter atua como advogado da Americanas. O BTG recorreu, mas
a decisão foi mantida pelo desembargador de plantão, Luiz Roldão de Freitas
Gomes Filho.
No
mesmo movimento em que pedia demissão da presidência, Rial trocava o terno e
assumia a função de assessor dos acionistas de referência — os mesmos que
armaram o golpe. Falou da necessidade de capitalizar a empresa em R$ 5 bilhões,
mas avisou que o grupo responsável pelo rombo só ajudaria “desde que se consiga
visualizar um cenário de rentabilidade consistente para a Americanas”.
Fantástico.
Veio
então nova retificação, que elevou a estimativa de passivos a R$ 40 bilhões. As
ações caíram a R$ 1,98. A esse preço, investindo apenas 6,6% do que arrecadaram
com a venda dos papéis, a 3G recompraria a mesma participação de antes. No fim
do dia, Rial renunciou também ao posto de assessor do trio, substituído pela
Rothschild.
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Peça 5 — o histórico da 3G
Não é o
primeiro golpe do grupo no mercado. No agravo de instrumento, os advogados do
BTG traçam um pequeno histórico.
Em
2005, o administrador da Ambev Luiz Felipe Pedreira Dutra Leite teria
autorizado transferência indevida de ações ordinárias, divulgando informações
incorretas ao mercado e desvirtuando o plano de opção de compra da companhia,
de modo a ampliar a fatia dos controladores em prejuízo dos minoritários. Em
2019, foi a vez de um escândalo internacional com a Kraft Heinz, adquirida pela
3G: descobriu-se a supervalorização de ativos entre 2015 e 2018, e a companhia
teve de fazer um ajuste de US$ 15,4 bilhões no balanço.
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Peça 6 — as consequências jurídicas e o caso Eletrobras
A
Americanas lançou ADRs nos Estados Unidos e, com isso, expõe-se à class action
dos acionistas locais. No Brasil, corre inquérito criminal conduzido pelo
Ministério Público Federal.
Mas o
ponto central é outro: o episódio expõe o estilo do grupo que assumiu, de fato,
o controle da Eletrobras. O grande crescimento da 3G se deu sobre lobbies junto
ao setor público.
Foi
assim na aprovação, pelo Cade, da compra da Antarctica pela Brahma — já sob o
comando dos três futuros bilionários. A aprovação foi um dos episódios
suspeitos do governo Fernando Henrique Cardoso, e resultou na destruição da
rede de distribuidores da Antarctica e na cartelização do mercado de cervejas.
Para abrir caminho, a empresa contratou Milton Seligman, ex-Ministro de FHC.
Depois
veio a Eletrobras. Primeiro, uma avaliação que subvalorizou a estatal. Em
seguida, uma emissão de ações que captou cerca de R$ 35 bilhões e retirou a
União do bloco de controle. O passo seguinte foi usar o caixa para recomprar
ações — jogada perniciosa para o futuro da companhia. O resultado é uma
anomalia: detendo participação acionária ínfima, o 3G passou a indicar a
maioria do conselho e a comandar de fato a empresa que responde por cerca de
30% da geração e por perto de 40% da transmissão de energia do país. Se nada
for feito, tende a esvaziar a energia contratada — aquela que assegura preços
módicos a pequenos consumidores e residências — e, na primeira crise hídrica,
terá poder quase absoluto sobre os preços.
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A delação final
A
manobra foi revelada na delação do ex-diretor financeiro Fabio Abrate, o “plano
B” da estratégia dos controladores da Americanas era a entrada da companhia em
recuperação judicial.
Esse
plano precisou ser acionado rapidamente porque a estratégia inicial — que
consistia em negociar com os bancos para tentar aprovar uma manobra de “baixa
contábil” pagando menos do que o devido — deu errado e não foi bem recebida
pelas instituições financeiras.
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De acordo com o delator, o acionamento do plano B ocorreu da seguinte forma:
• Preparação prévia: Abrate relatou que,
no próprio dia da divulgação do fato relevante ao mercado (11 de janeiro de
2023), já existia o rascunho de um pedido de tutela antecipada na Justiça
desenhado para impedir que os credores bloqueassem os bens da varejista.
• A ordem de execução: Após a reunião
inicial com os bancos naquele mesmo dia, o executivo Sergio Rial mandou
executar imediatamente essa medida judicial de proteção, pois sabia que os
bancos “iam vir com força” contra a empresa. Essa tutela antecipada foi a
movimentação que culminou na recuperação judicial, oficializando o plano B.
• O perfil de Sergio Rial: Abrate sugeriu
que Rial foi o nome escolhido a dedo pelos controladores (porque tinha o perfil
ideal para a crise: se o plano de acordo desse errado, ele já saberia como
lidar com credores e conduzir perfeitamente uma recuperação judicial.
Essa
delação fundamentou a decisão da Polícia Federal de providenciar busca e
apreensão em endereços de controladores e executivos.
A
Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (25/6/2026) a segunda fase da
Operação Disclosure, com apoio do MPF, cumprindo nove mandados de busca e
apreensão — inclusive buscas pessoais — no Rio e em São Paulo. A 10ª Vara
Federal Criminal do Rio determinou ainda o sequestro de bens e valores dos
investigados até o limite de R$ 54 bilhões.
A
diferença em relação à primeira fase é exatamente o alvo. Em junho de 2024, a
primeira fase mirou a antiga diretoria estatutária — foi quando Miguel
Gutierrez chegou a ser preso na Espanha e depois solto —, e, em março de 2025,
o MPF denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários por maquiar resultados e
ocultar a situação real da empresa. Agora a investigação rompe a bolha da
diretoria e avança sobre os donos do capital e sobre o sistema financeiro. O
foco passou a ser os acionistas de referência, operadores ligados aos sócios e
executivos de bancos que mantinham relação com a varejista no período das
supostas irregularidades.
Entre
os alvos, no núcleo dos sócios: os acionistas de referência Carlos Alberto da
Veiga Sicupira e Paulo Alberto Lemann, além de Eduardo Saggioro Garcia,
apontado como operador direto dos sócios. No núcleo bancário — e este é o
desdobramento novo, que a coluna original não alcançava —, são alvos José de
Castro Araújo Rudge Júnior e Gustavo Balassiano (Itaú Unibanco), Carlos
Henrique Villela Pedras (Bradesco) e André Juaçaba de Almeida e Alexandre Lian
Abdo (Santander).
Provavelmente
a investigação dos executivos de bancos está sendo realizada com apoio dos
bancos, já que eles também foram vítimas das jogadas da Americanas.
Fonte:
Por Luís Nassif, no Jornal GGN

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