Leonardo
Attuch: Fortalecer o Sul Global é construir a Paz Mundial
A
expressão “Sul Global” costuma designar um conjunto heterogêneo de países e
sociedades que, embora situados em diferentes regiões, compartilham
experiências históricas de colonialismo, dependência, subalternização
tecnológica e assimetrias no sistema internacional. Nesta perspectiva, a noção
de Sul Global não é apenas geográfica: é política e normativa. Ela remete a um
projeto de reorganização das relações internacionais sob bases de soberania,
desenvolvimento e cooperação, deslocando o eixo de decisões de um centro
hegemônico para arranjos plurais e multilaterais.
Parto
de uma hipótese simples: fortalecer o Sul Global é, no horizonte contemporâneo,
uma forma concreta de construir a paz mundial. Em um contexto marcado por
conflitos armados, escaladas militares e por uma disputa de cosmologias –
visões de mundo em choque sobre a dignidade humana, o direito internacional e a
legitimidade do uso da força –, a articulação Sul–Sul pode operar como vetor de
contenção da barbárie e de afirmação de um universalismo substantivo baseado em
direitos, autodeterminação e cooperação.
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Sul Global, paz e a bifurcação do nosso tempo
O mundo
atravessa uma encruzilhada em que se torna cada vez mais visível a tensão entre
civilização e barbárie. Essa bifurcação não é apenas moral: ela é institucional
e comunicacional. Instituições internacionais são pressionadas por veto,
seletividade e instrumentalização; ao mesmo tempo, a arena pública global é
crescentemente ocupada por narrativas que naturalizam a violência e
hierarquizam vidas, como se viu recentemente em Gaza. Diante disso, a agenda do
Sul Global assume centralidade como campo de resistência e de construção de
alternativas.
Nesse
cenário, atos de solidariedade internacional ganham um significado político
mais amplo: afirmam a primazia da vida e do direito humanitário acima da lógica
de segurança que, não raro, criminaliza a compaixão. O Sul Global, enquanto
projeto, depende dessa ética prática e da capacidade de transformá-la em
política pública, diplomacia ativa e cooperação duradoura.
<><>
Comunicação como infraestrutura de consenso e desenvolvimento
Uma
dimensão frequentemente subestimada da disputa contemporânea é a comunicação.
No Ocidente, é comum que o debate sobre a China seja capturado por uma chave
reducionista centrada na acusação de “censura”. A observação direta de seu
ecossistema comunicacional, contudo, sugere uma arquitetura mais complexa: um
sistema orientado a metas públicas, com forte capacidade de coordenação e,
sobretudo, voltado à construção de consensos sociais, em vez da fabricação
sistemática de conflitos.
Essa
diferença importa porque comunicação é infraestrutura política. Meios que
operam prioritariamente pela lógica de escândalo, polarização e “causas”
performáticas tendem a corroer pactos mínimos e a produzir instabilidade
social, encarecendo o desenvolvimento e ampliando a desconfiança nas
instituições. Por contraste, um ecossistema capaz de articular prioridades
coletivas – sem negar a pluralidade, mas reconhecendo a necessidade de
coordenação – pode funcionar como mecanismo de coesão social e de orientação
para objetivos nacionais de longo prazo.
Essa
constatação conduz a uma provocação normativa: se a comunicação é um bem
público, seu desenho institucional deveria protegê-la de capturas privadas que
subordinam a esfera pública a interesses particulares. Em termos analíticos,
não se trata de negar a existência de iniciativas privadas, mas de reconhecer
que a dominância do privado na comunicação tende a amplificar assimetrias
econômicas na produção de sentidos, influenciando agenda pública e decisões
coletivas.
<><>
Da cooperação cultural à “cooperação ideológica”
Durante
visita recente que fiz à Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS), tive
contato com uma interpretação relevante sobre a evolução da diplomacia chinesa
para a América Latina. A ideia central é que a cooperação não se restringiria
ao campo cultural ou acadêmico: ela incorporaria também uma dimensão
ideológica. Entendo aqui “cooperação ideológica” como cooperação na produção e
circulação de interpretações do mundo: a disputa de narrativas, a afirmação de
agendas de desenvolvimento e a construção de legitimidade para um
multilateralismo efetivo.
Nesse
sentido, a cooperação entre think tanks, universidades e meios de comunicação
torna-se estratégica. Ela permite traduzir debates especializados para públicos
mais amplos, reduzir assimetrias informacionais e contrabalançar a
predominância de enquadramentos produzidos por grandes conglomerados midiáticos
do Norte. Em outras palavras, trata-se de criar pontes para que o noticiário
internacional seja mais fiel às prioridades do Sul Global, e menos dependente
do filtro de interesses geopolíticos externos.
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Experiências de diplomacia midiática e redes de parceria
A
experiência de cooperação editorial entre veículos brasileiros e chineses
oferece um exemplo concreto dessa agenda. Parcerias com meios
como Guancha, Diário do Povo, Global
Times e Xinhua foram estruturadas para ampliar o intercâmbio de
conteúdos e perspectivas. Um desenho simbólico e prático desse movimento é a
criação de seções recíprocas: uma seção Brasil 247 em veículo chinês e, de
forma correspondente, uma seção chinesa no Brasil 247. A finalidade é clara:
reforçar a diversidade de fontes e ampliar o repertório interpretativo sobre
temas internacionais.
A
diplomacia midiática, nessa chave, não é propaganda. Ela é cooperação
institucional para pluralizar o ecossistema informacional e reduzir o monopólio
de interpretação exercido por centros hegemônicos. Quando bem desenhada, ela
pode promover transparência, ampliar a capacidade de diálogo e sustentar uma
opinião pública internacional mais informada sobre os dilemas do
desenvolvimento e sobre a busca de paz.
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Ações concretas, governança global e integração Sul–Sul
Uma
observação adicional diz respeito à ênfase em ações concretas na agenda
internacional chinesa. No âmbito de encontros multilaterais, foi anunciada uma
Iniciativa de Governança Global baseada em princípios como soberania e
multilateralismo, mas com destaque para sua dimensão operacional. Para o Sul
Global, o critério de “concretude” é decisivo: não basta formular valores; é
necessário convertê-los em mecanismos, projetos, financiamento e cooperação
técnica.
Nesse
quadro, espaços como a cúpula China–CELAC ampliam a coordenação regional e
inter-regional, conectando América Latina e Caribe a agendas asiáticas de
desenvolvimento e integração. A consolidação de redes Sul–Sul — econômicas,
acadêmicas e comunicacionais — fortalece a autonomia estratégica das regiões e
reduz a dependência de canais tradicionais de influência.
A
construção de uma paz mundial duradoura, nas condições do século XXI, exige
mais do que apelos normativos. Ela requer um campo de forças capaz de defender
a vida, o direito internacional e a soberania dos povos contra a naturalização
da violência. O Sul Global, enquanto projeto político, pode oferecer esse campo
de forças desde que consolide instituições, amplie a integração e desenvolva
uma infraestrutura comunicacional capaz de produzir consenso social e sustentar
agendas de desenvolvimento.
A
experiência de cooperação midiática com a China sugere que a disputa
contemporânea passa, cada vez mais, pela capacidade de construir narrativas
públicas orientadas a objetivos coletivos. Ao articular universidades, think
tanks e meios de comunicação, a “cooperação ideológica” pode complementar a
cooperação cultural e acadêmica, pluralizando fontes e fortalecendo o
multilateralismo.
Em
síntese, fortalecer o Sul Global é construir as condições políticas,
institucionais e simbólicas para a paz.
¨
Tempos sombrios rondam a América Latina. Por Danilo
Espindola Catalano
Recentemente,
dois presidentes venceram eleições na região: na Colômbia, um candidato outsider,
semelhante ao que foi Jair Bolsonaro em 2018; e, por outro lado, no Peru, a
eleição de uma presidenta que, segundo seus críticos, vem manipulando a
estrutura política do país desde 2016, consolidando formalmente um processo que
já estava em curso.
Keiko
Fujimori e Abelardo de la Espriella possuem contextos ao mesmo tempo distintos
e semelhantes, que se consolidam na região de maneira diferente da observada em
outros governos. Enquanto uma se aproxima do legado ditatorial de seu pai, o
outro busca a estratégia do espetáculo midiático para se consolidar por meio de
fake news e de ataques que geram medo entre a população.
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Os
Estados Unidos de Donald Trump estão desesperados. O país perde espaço em uma
região que sempre considerou seu quintal. Ao mesmo tempo, o poder da China vem
se consolidando cada vez mais, inclusive em países historicamente aliados aos
estadunidenses, como Chile, Colômbia e Honduras. Consequentemente, esses países
estiveram entre os que mais ocuparam os holofotes recentemente e hoje passam a
incorporar líderes que podem contribuir para a consolidação de um novo Plano
Cóndor, denominado Escudo de las Américas.
Mas não
é apenas isso. No processo democrático, observa-se uma guinada à direita que se
consolida por meio da relação com as redes sociais. Se pensarmos que, desde
2018, as eleições têm sido fortemente influenciadas pelas principais
plataformas digitais, como X, Facebook, TikTok e Instagram, percebemos que elas
se tornaram fundamentais para vencer eleições e mobilizar massas que,
anteriormente, eram protagonizadas pelos protestos e pela luta nas ruas.
Ruas
estas que voltaram a ser mobilizadas pela Geração Z no Peru e no Paraguai, com
reivindicações ao Estado para que garantisse trabalho digno e estável, sem que
os jovens fossem explorados por grandes corporações estrangeiras. Isso
evidenciou um resultado estrutural do capitalismo contemporâneo e sua relação
com as redes sociais. Por isso, nos países que recentemente trocaram de
presidente, os mais jovens votaram majoritariamente na esquerda, e não na
direita.
A
direita democrática e tradicional parece ter morrido, buscando sobreviver nas
garras dessa nova ultradireita de caráter fascista. No entanto, as diferenças
entre ambas tornam-se perceptíveis diante de suas práticas políticas, ao se
separarem, quando percebem resultados adversos, como demonstram os casos das
investigações de corrupção no Brasil, da derrota na Colômbia e na Argentina e,
também, de seu apagamento da política em El Salvador.
Diante
de todo esse contexto político, as novas lutas que ganham protagonismo na
Argentina, Bolívia, Chile, Peru, Equador e Colômbia parecem representar um
respiro de esperança. Elas podem conduzir a resultados positivos diante do
cenário atual, uma vez que as crises democráticas e políticas se consolidam
regionalmente em meio a mudanças estruturais e de paradigmas. Essas
transformações podem resultar em uma nova ressurreição popular, capaz de
protagonizar os acontecimentos que estão por vir.
¨
Bancos de desenvolvimento podem impulsionar uma nova
etapa de crescimento na América Latina
Em um cenário internacional marcado pela
fragmentação geopolítica, pelas mudanças climáticas e pela transição para uma
ordem multipolar, os bancos de desenvolvimento podem desempenhar um papel
decisivo na construção de um novo ciclo de crescimento da América Latina e do
Caribe.
Essa é a principal tese do artigo "Os
bancos de desenvolvimento na América Latina e no Caribe como catalisadores do
crescimento regional", de Christian Asinelli,
vice-presidente corporativo de Programação Estratégica do Banco de
Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), publicado na edição nº 40
da revista Tempo do Mundo, lançada nesta semana pelo Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Brasília.
Segundo o autor, a função dos bancos
multilaterais de desenvolvimento vai muito além da concessão de crédito.
Instituições como a CAF, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o
Banco Mundial e outros organismos regionais atuam como plataformas de
coordenação política, produção de conhecimento e fortalecimento da capacidade
dos Estados para enfrentar desafios que nenhum país consegue resolver
isoladamente.
O estudo sustenta que, diante da
reorganização da economia mundial, América Latina e Caribe dispõem de ativos
estratégicos — como biodiversidade, água doce, energias renováveis, minerais
críticos e produção de alimentos — que podem transformar a região em
protagonista do desenvolvimento global, desde que exista capacidade
institucional para coordenar investimentos de longo prazo.
<><> A crise do multilateralismo
exige novas respostas
O artigo parte da constatação de que a
arquitetura financeira internacional construída após a Segunda Guerra Mundial
já não responde adequadamente aos desafios do século XXI.
Segundo Asinelli, problemas como mudanças
climáticas, desigualdade, pandemias, revolução digital e transição demográfica
exigem mecanismos multilaterais mais flexíveis e capazes de coordenar respostas
globais.
Ao mesmo tempo, observa o estudo, cresce a
multipolaridade internacional, reduzindo a capacidade das instituições criadas
em Bretton Woods de atender às necessidades das economias emergentes.
Nesse contexto, os bancos regionais de
desenvolvimento ganham importância crescente.
Sua proximidade com os países permite
compreender melhor as necessidades locais e formular soluções mais adaptadas às
realidades econômicas e sociais da região.
<><> CAF vai além do
financiamento
Segundo o autor, a principal transformação da
CAF nas últimas décadas foi deixar de ser apenas um banco de crédito para
tornar-se um verdadeiro bem público regional.
Além do financiamento de infraestrutura, a
instituição atua hoje na produção de conhecimento, capacitação de gestores
públicos, fortalecimento institucional, promoção da integração regional e apoio
à formulação de políticas públicas.
Essa atuação, afirma Asinelli, permite que os
projetos financiados tenham impacto mais duradouro, ao fortalecer também a
capacidade dos governos de planejar, executar e avaliar políticas de
desenvolvimento.
Para o autor, financiamento sem instituições
sólidas dificilmente produz resultados sustentáveis.
<><> Infraestrutura continua
sendo prioridade
O estudo destaca que o núcleo histórico da
atuação da CAF permanece concentrado na infraestrutura.
Até abril de 2026, a carteira de operações da
instituição havia ultrapassado US$ 40 bilhões, financiando projetos em
transporte, mobilidade urbana, energia, saneamento, saúde, educação,
conectividade digital e infraestrutura logística.
Entre os exemplos citados estão a
modernização do Ferrocarril Belgrano Sur e do Gasoduto Néstor Kirchner, na
Argentina; a eletrificação do transporte público e a recuperação ferroviária na
Colômbia; investimentos em mobilidade urbana e saneamento em Cabo de Santo
Agostinho, no Brasil; e a modernização da infraestrutura aeroportuária de El
Salvador.
Segundo o artigo, essas obras não representam
apenas investimentos físicos, mas instrumentos para integrar territórios,
ampliar serviços públicos e estimular o desenvolvimento regional.
<><> Banco verde da América
Latina
Outra prioridade destacada pelo estudo é a
agenda ambiental.
Desde 2021, a CAF passou a perseguir o
objetivo de tornar-se o banco verde da América Latina e do Caribe.
Para isso, promoveu uma capitalização
histórica de US$ 7 bilhões e estabeleceu a meta de que 40% de suas operações
possuíssem componentes ambientais até 2026.
Segundo Asinelli, esse objetivo foi alcançado
antes do prazo previsto.
Atualmente, 43% das operações do banco já
incorporam iniciativas relacionadas à sustentabilidade, à adaptação climática e
à preservação ambiental.
<><> Conhecimento também é
infraestrutura
O artigo introduz um conceito que o autor
denomina "infraestrutura institucional".
Trata-se do conjunto de iniciativas voltadas
ao fortalecimento das capacidades estatais, da formação de lideranças e da
produção de conhecimento para orientar políticas públicas.
Segundo Asinelli, desenvolvimento sustentável
exige não apenas recursos financeiros, mas também governos capazes de formular,
implementar e avaliar políticas de qualidade.
A CAF investe na elaboração de estudos
econômicos, programas de formação, cursos para gestores públicos, produção de
indicadores e parcerias com universidades latino-americanas.
O objetivo é fortalecer a capacidade dos
Estados de responder aos desafios contemporâneos.
<><> Integração regional
permanece estratégica
Outro eixo central do artigo é a integração
física da América Latina.
Segundo o autor, a CAF participa
historicamente do financiamento de corredores logísticos, obras de
conectividade, infraestrutura fronteiriça e projetos de integração regional.
Recentemente, a instituição anunciou
investimentos de US$ 10 bilhões em infraestrutura logística voltada à nova
geopolítica internacional.
A integração, porém, não se limita às
estradas.
Também envolve digitalização do Estado,
governo eletrônico, transparência, inovação institucional e cooperação entre os
países.
<><> América Latina pode
tornar-se região solução
Na parte final do estudo, Asinelli apresenta
uma visão otimista sobre o papel da América Latina na nova economia mundial.
Segundo ele, a região concentra mais de 50%
da biodiversidade do planeta, mais de 30% das reservas globais de água doce,
uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e capacidade para alimentar
mais de 1,3 bilhão de pessoas.
Além disso, possui enormes reservas de
minerais críticos indispensáveis à transição energética.
Ao mesmo tempo, continua sendo a região mais
desigual do planeta, convivendo com profundas disparidades sociais, limitações
institucionais e déficits de infraestrutura.
Para o autor, transformar esse enorme
potencial em desenvolvimento dependerá da capacidade de combinar investimento
público, financiamento multilateral, fortalecimento institucional e integração
regional.
<><> O desenvolvimento exige
coordenação política
Nas conclusões, Christian Asinelli afirma que
os bancos multilaterais não podem ser vistos apenas como instituições
financeiras.
Na sua avaliação, eles funcionam como
instrumentos permanentes de coordenação política entre os países, permitindo
mobilizar recursos, compartilhar conhecimento e construir agendas comuns para
enfrentar desafios globais.
O artigo sustenta que o desenvolvimento
latino-americano dependerá menos da disponibilidade de recursos naturais —
abundantes na região — e mais da capacidade de organizar instituições sólidas,
ampliar a cooperação regional e formular estratégias comuns de longo prazo.
Nesse contexto, conclui o autor, bancos de
desenvolvimento como a CAF tornam-se peças centrais para transformar as
vantagens naturais da América Latina em crescimento econômico, inclusão social
e maior autonomia estratégica diante das profundas mudanças da ordem
internacional.
Fonte:
Brasil 247

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