terça-feira, 30 de junho de 2026

Leonardo Attuch: Fortalecer o Sul Global é construir a Paz Mundial

A expressão “Sul Global” costuma designar um conjunto heterogêneo de países e sociedades que, embora situados em diferentes regiões, compartilham experiências históricas de colonialismo, dependência, subalternização tecnológica e assimetrias no sistema internacional. Nesta perspectiva, a noção de Sul Global não é apenas geográfica: é política e normativa. Ela remete a um projeto de reorganização das relações internacionais sob bases de soberania, desenvolvimento e cooperação, deslocando o eixo de decisões de um centro hegemônico para arranjos plurais e multilaterais.

Parto de uma hipótese simples: fortalecer o Sul Global é, no horizonte contemporâneo, uma forma concreta de construir a paz mundial. Em um contexto marcado por conflitos armados, escaladas militares e por uma disputa de cosmologias – visões de mundo em choque sobre a dignidade humana, o direito internacional e a legitimidade do uso da força –, a articulação Sul–Sul pode operar como vetor de contenção da barbárie e de afirmação de um universalismo substantivo baseado em direitos, autodeterminação e cooperação.

<><> Sul Global, paz e a bifurcação do nosso tempo

O mundo atravessa uma encruzilhada em que se torna cada vez mais visível a tensão entre civilização e barbárie. Essa bifurcação não é apenas moral: ela é institucional e comunicacional. Instituições internacionais são pressionadas por veto, seletividade e instrumentalização; ao mesmo tempo, a arena pública global é crescentemente ocupada por narrativas que naturalizam a violência e hierarquizam vidas, como se viu recentemente em Gaza. Diante disso, a agenda do Sul Global assume centralidade como campo de resistência e de construção de alternativas.

Nesse cenário, atos de solidariedade internacional ganham um significado político mais amplo: afirmam a primazia da vida e do direito humanitário acima da lógica de segurança que, não raro, criminaliza a compaixão. O Sul Global, enquanto projeto, depende dessa ética prática e da capacidade de transformá-la em política pública, diplomacia ativa e cooperação duradoura.

<><> Comunicação como infraestrutura de consenso e desenvolvimento

Uma dimensão frequentemente subestimada da disputa contemporânea é a comunicação. No Ocidente, é comum que o debate sobre a China seja capturado por uma chave reducionista centrada na acusação de “censura”. A observação direta de seu ecossistema comunicacional, contudo, sugere uma arquitetura mais complexa: um sistema orientado a metas públicas, com forte capacidade de coordenação e, sobretudo, voltado à construção de consensos sociais, em vez da fabricação sistemática de conflitos.

Essa diferença importa porque comunicação é infraestrutura política. Meios que operam prioritariamente pela lógica de escândalo, polarização e “causas” performáticas tendem a corroer pactos mínimos e a produzir instabilidade social, encarecendo o desenvolvimento e ampliando a desconfiança nas instituições. Por contraste, um ecossistema capaz de articular prioridades coletivas – sem negar a pluralidade, mas reconhecendo a necessidade de coordenação – pode funcionar como mecanismo de coesão social e de orientação para objetivos nacionais de longo prazo.

Essa constatação conduz a uma provocação normativa: se a comunicação é um bem público, seu desenho institucional deveria protegê-la de capturas privadas que subordinam a esfera pública a interesses particulares. Em termos analíticos, não se trata de negar a existência de iniciativas privadas, mas de reconhecer que a dominância do privado na comunicação tende a amplificar assimetrias econômicas na produção de sentidos, influenciando agenda pública e decisões coletivas.

<><> Da cooperação cultural à “cooperação ideológica”

Durante visita recente que fiz à Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS), tive contato com uma interpretação relevante sobre a evolução da diplomacia chinesa para a América Latina. A ideia central é que a cooperação não se restringiria ao campo cultural ou acadêmico: ela incorporaria também uma dimensão ideológica. Entendo aqui “cooperação ideológica” como cooperação na produção e circulação de interpretações do mundo: a disputa de narrativas, a afirmação de agendas de desenvolvimento e a construção de legitimidade para um multilateralismo efetivo.

Nesse sentido, a cooperação entre think tanks, universidades e meios de comunicação torna-se estratégica. Ela permite traduzir debates especializados para públicos mais amplos, reduzir assimetrias informacionais e contrabalançar a predominância de enquadramentos produzidos por grandes conglomerados midiáticos do Norte. Em outras palavras, trata-se de criar pontes para que o noticiário internacional seja mais fiel às prioridades do Sul Global, e menos dependente do filtro de interesses geopolíticos externos.

<><> Experiências de diplomacia midiática e redes de parceria

A experiência de cooperação editorial entre veículos brasileiros e chineses oferece um exemplo concreto dessa agenda. Parcerias com meios como Guancha, Diário do Povo, Global Times e Xinhua foram estruturadas para ampliar o intercâmbio de conteúdos e perspectivas. Um desenho simbólico e prático desse movimento é a criação de seções recíprocas: uma seção Brasil 247 em veículo chinês e, de forma correspondente, uma seção chinesa no Brasil 247. A finalidade é clara: reforçar a diversidade de fontes e ampliar o repertório interpretativo sobre temas internacionais.

A diplomacia midiática, nessa chave, não é propaganda. Ela é cooperação institucional para pluralizar o ecossistema informacional e reduzir o monopólio de interpretação exercido por centros hegemônicos. Quando bem desenhada, ela pode promover transparência, ampliar a capacidade de diálogo e sustentar uma opinião pública internacional mais informada sobre os dilemas do desenvolvimento e sobre a busca de paz.

<><> Ações concretas, governança global e integração Sul–Sul

Uma observação adicional diz respeito à ênfase em ações concretas na agenda internacional chinesa. No âmbito de encontros multilaterais, foi anunciada uma Iniciativa de Governança Global baseada em princípios como soberania e multilateralismo, mas com destaque para sua dimensão operacional. Para o Sul Global, o critério de “concretude” é decisivo: não basta formular valores; é necessário convertê-los em mecanismos, projetos, financiamento e cooperação técnica.

Nesse quadro, espaços como a cúpula China–CELAC ampliam a coordenação regional e inter-regional, conectando América Latina e Caribe a agendas asiáticas de desenvolvimento e integração. A consolidação de redes Sul–Sul — econômicas, acadêmicas e comunicacionais — fortalece a autonomia estratégica das regiões e reduz a dependência de canais tradicionais de influência.

A construção de uma paz mundial duradoura, nas condições do século XXI, exige mais do que apelos normativos. Ela requer um campo de forças capaz de defender a vida, o direito internacional e a soberania dos povos contra a naturalização da violência. O Sul Global, enquanto projeto político, pode oferecer esse campo de forças desde que consolide instituições, amplie a integração e desenvolva uma infraestrutura comunicacional capaz de produzir consenso social e sustentar agendas de desenvolvimento.

A experiência de cooperação midiática com a China sugere que a disputa contemporânea passa, cada vez mais, pela capacidade de construir narrativas públicas orientadas a objetivos coletivos. Ao articular universidades, think tanks e meios de comunicação, a “cooperação ideológica” pode complementar a cooperação cultural e acadêmica, pluralizando fontes e fortalecendo o multilateralismo.

Em síntese, fortalecer o Sul Global é construir as condições políticas, institucionais e simbólicas para a paz.

¨      Tempos sombrios rondam a América Latina. Por Danilo Espindola Catalano

Recentemente, dois presidentes venceram eleições na região: na Colômbia, um candidato outsider, semelhante ao que foi Jair Bolsonaro em 2018; e, por outro lado, no Peru, a eleição de uma presidenta que, segundo seus críticos, vem manipulando a estrutura política do país desde 2016, consolidando formalmente um processo que já estava em curso.

Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella possuem contextos ao mesmo tempo distintos e semelhantes, que se consolidam na região de maneira diferente da observada em outros governos. Enquanto uma se aproxima do legado ditatorial de seu pai, o outro busca a estratégia do espetáculo midiático para se consolidar por meio de fake news e de ataques que geram medo entre a população.

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Os Estados Unidos de Donald Trump estão desesperados. O país perde espaço em uma região que sempre considerou seu quintal. Ao mesmo tempo, o poder da China vem se consolidando cada vez mais, inclusive em países historicamente aliados aos estadunidenses, como Chile, Colômbia e Honduras. Consequentemente, esses países estiveram entre os que mais ocuparam os holofotes recentemente e hoje passam a incorporar líderes que podem contribuir para a consolidação de um novo Plano Cóndor, denominado Escudo de las Américas.

Mas não é apenas isso. No processo democrático, observa-se uma guinada à direita que se consolida por meio da relação com as redes sociais. Se pensarmos que, desde 2018, as eleições têm sido fortemente influenciadas pelas principais plataformas digitais, como X, Facebook, TikTok e Instagram, percebemos que elas se tornaram fundamentais para vencer eleições e mobilizar massas que, anteriormente, eram protagonizadas pelos protestos e pela luta nas ruas.

Ruas estas que voltaram a ser mobilizadas pela Geração Z no Peru e no Paraguai, com reivindicações ao Estado para que garantisse trabalho digno e estável, sem que os jovens fossem explorados por grandes corporações estrangeiras. Isso evidenciou um resultado estrutural do capitalismo contemporâneo e sua relação com as redes sociais. Por isso, nos países que recentemente trocaram de presidente, os mais jovens votaram majoritariamente na esquerda, e não na direita.

A direita democrática e tradicional parece ter morrido, buscando sobreviver nas garras dessa nova ultradireita de caráter fascista. No entanto, as diferenças entre ambas tornam-se perceptíveis diante de suas práticas políticas, ao se separarem, quando percebem resultados adversos, como demonstram os casos das investigações de corrupção no Brasil, da derrota na Colômbia e na Argentina e, também, de seu apagamento da política em El Salvador.

Diante de todo esse contexto político, as novas lutas que ganham protagonismo na Argentina, Bolívia, Chile, Peru, Equador e Colômbia parecem representar um respiro de esperança. Elas podem conduzir a resultados positivos diante do cenário atual, uma vez que as crises democráticas e políticas se consolidam regionalmente em meio a mudanças estruturais e de paradigmas. Essas transformações podem resultar em uma nova ressurreição popular, capaz de protagonizar os acontecimentos que estão por vir.

¨      Bancos de desenvolvimento podem impulsionar uma nova etapa de crescimento na América Latina

Em um cenário internacional marcado pela fragmentação geopolítica, pelas mudanças climáticas e pela transição para uma ordem multipolar, os bancos de desenvolvimento podem desempenhar um papel decisivo na construção de um novo ciclo de crescimento da América Latina e do Caribe. 

Essa é a principal tese do artigo "Os bancos de desenvolvimento na América Latina e no Caribe como catalisadores do crescimento regional", de Christian Asinelli, vice-presidente corporativo de Programação Estratégica do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), publicado na edição nº 40 da revista Tempo do Mundo, lançada nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Brasília.

Segundo o autor, a função dos bancos multilaterais de desenvolvimento vai muito além da concessão de crédito. Instituições como a CAF, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco Mundial e outros organismos regionais atuam como plataformas de coordenação política, produção de conhecimento e fortalecimento da capacidade dos Estados para enfrentar desafios que nenhum país consegue resolver isoladamente.

O estudo sustenta que, diante da reorganização da economia mundial, América Latina e Caribe dispõem de ativos estratégicos — como biodiversidade, água doce, energias renováveis, minerais críticos e produção de alimentos — que podem transformar a região em protagonista do desenvolvimento global, desde que exista capacidade institucional para coordenar investimentos de longo prazo.

<><> A crise do multilateralismo exige novas respostas

O artigo parte da constatação de que a arquitetura financeira internacional construída após a Segunda Guerra Mundial já não responde adequadamente aos desafios do século XXI.

Segundo Asinelli, problemas como mudanças climáticas, desigualdade, pandemias, revolução digital e transição demográfica exigem mecanismos multilaterais mais flexíveis e capazes de coordenar respostas globais.

Ao mesmo tempo, observa o estudo, cresce a multipolaridade internacional, reduzindo a capacidade das instituições criadas em Bretton Woods de atender às necessidades das economias emergentes.

Nesse contexto, os bancos regionais de desenvolvimento ganham importância crescente.

Sua proximidade com os países permite compreender melhor as necessidades locais e formular soluções mais adaptadas às realidades econômicas e sociais da região.

<><> CAF vai além do financiamento

Segundo o autor, a principal transformação da CAF nas últimas décadas foi deixar de ser apenas um banco de crédito para tornar-se um verdadeiro bem público regional.

Além do financiamento de infraestrutura, a instituição atua hoje na produção de conhecimento, capacitação de gestores públicos, fortalecimento institucional, promoção da integração regional e apoio à formulação de políticas públicas.

Essa atuação, afirma Asinelli, permite que os projetos financiados tenham impacto mais duradouro, ao fortalecer também a capacidade dos governos de planejar, executar e avaliar políticas de desenvolvimento.

Para o autor, financiamento sem instituições sólidas dificilmente produz resultados sustentáveis.

<><> Infraestrutura continua sendo prioridade

O estudo destaca que o núcleo histórico da atuação da CAF permanece concentrado na infraestrutura.

Até abril de 2026, a carteira de operações da instituição havia ultrapassado US$ 40 bilhões, financiando projetos em transporte, mobilidade urbana, energia, saneamento, saúde, educação, conectividade digital e infraestrutura logística.

Entre os exemplos citados estão a modernização do Ferrocarril Belgrano Sur e do Gasoduto Néstor Kirchner, na Argentina; a eletrificação do transporte público e a recuperação ferroviária na Colômbia; investimentos em mobilidade urbana e saneamento em Cabo de Santo Agostinho, no Brasil; e a modernização da infraestrutura aeroportuária de El Salvador.

Segundo o artigo, essas obras não representam apenas investimentos físicos, mas instrumentos para integrar territórios, ampliar serviços públicos e estimular o desenvolvimento regional.

<><> Banco verde da América Latina

Outra prioridade destacada pelo estudo é a agenda ambiental.

Desde 2021, a CAF passou a perseguir o objetivo de tornar-se o banco verde da América Latina e do Caribe.

Para isso, promoveu uma capitalização histórica de US$ 7 bilhões e estabeleceu a meta de que 40% de suas operações possuíssem componentes ambientais até 2026.

Segundo Asinelli, esse objetivo foi alcançado antes do prazo previsto.

Atualmente, 43% das operações do banco já incorporam iniciativas relacionadas à sustentabilidade, à adaptação climática e à preservação ambiental.

<><> Conhecimento também é infraestrutura

O artigo introduz um conceito que o autor denomina "infraestrutura institucional".

Trata-se do conjunto de iniciativas voltadas ao fortalecimento das capacidades estatais, da formação de lideranças e da produção de conhecimento para orientar políticas públicas.

Segundo Asinelli, desenvolvimento sustentável exige não apenas recursos financeiros, mas também governos capazes de formular, implementar e avaliar políticas de qualidade.

A CAF investe na elaboração de estudos econômicos, programas de formação, cursos para gestores públicos, produção de indicadores e parcerias com universidades latino-americanas.

O objetivo é fortalecer a capacidade dos Estados de responder aos desafios contemporâneos.

<><> Integração regional permanece estratégica

Outro eixo central do artigo é a integração física da América Latina.

Segundo o autor, a CAF participa historicamente do financiamento de corredores logísticos, obras de conectividade, infraestrutura fronteiriça e projetos de integração regional.

Recentemente, a instituição anunciou investimentos de US$ 10 bilhões em infraestrutura logística voltada à nova geopolítica internacional.

A integração, porém, não se limita às estradas.

Também envolve digitalização do Estado, governo eletrônico, transparência, inovação institucional e cooperação entre os países.

<><> América Latina pode tornar-se região solução

Na parte final do estudo, Asinelli apresenta uma visão otimista sobre o papel da América Latina na nova economia mundial.

Segundo ele, a região concentra mais de 50% da biodiversidade do planeta, mais de 30% das reservas globais de água doce, uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e capacidade para alimentar mais de 1,3 bilhão de pessoas.

Além disso, possui enormes reservas de minerais críticos indispensáveis à transição energética.

Ao mesmo tempo, continua sendo a região mais desigual do planeta, convivendo com profundas disparidades sociais, limitações institucionais e déficits de infraestrutura.

Para o autor, transformar esse enorme potencial em desenvolvimento dependerá da capacidade de combinar investimento público, financiamento multilateral, fortalecimento institucional e integração regional.

<><> O desenvolvimento exige coordenação política

Nas conclusões, Christian Asinelli afirma que os bancos multilaterais não podem ser vistos apenas como instituições financeiras.

Na sua avaliação, eles funcionam como instrumentos permanentes de coordenação política entre os países, permitindo mobilizar recursos, compartilhar conhecimento e construir agendas comuns para enfrentar desafios globais.

O artigo sustenta que o desenvolvimento latino-americano dependerá menos da disponibilidade de recursos naturais — abundantes na região — e mais da capacidade de organizar instituições sólidas, ampliar a cooperação regional e formular estratégias comuns de longo prazo.

Nesse contexto, conclui o autor, bancos de desenvolvimento como a CAF tornam-se peças centrais para transformar as vantagens naturais da América Latina em crescimento econômico, inclusão social e maior autonomia estratégica diante das profundas mudanças da ordem internacional.

 

Fonte: Brasil 247

 

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