terça-feira, 30 de junho de 2026

Pode o Brasil preservar sua soberania em uma nova era de intervencionismo?

A política externa brasileira enfrenta um dos maiores desafios desde a redemocratização. Em um cenário internacional marcado pelo retorno do unilateralismo dos Estados Unidos, pela fragmentação política da América do Sul e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais, o Brasil precisa encontrar um delicado equilíbrio entre a defesa histórica da soberania dos Estados, a condenação de violações democráticas e a preservação de seus próprios interesses estratégicos.

Essa é a principal conclusão do artigo "Entre a altivez e a sensatez: os dilemas brasileiros pós-intervenção dos Estados Unidos na Venezuela", assinado pelas pesquisadoras Marsílea Gombata (FAAP/Nupri-USP) e Carolina Pedroso (Unifesp), publicado na edição nº 40 da revista Tempo do Mundo, lançada nesta semana pelo Ipea, em Brasília.

O estudo parte de um cenário prospectivo em que os Estados Unidos realizam uma intervenção militar na Venezuela e capturam Nicolás Maduro. Embora se trate de um exercício analítico de caráter prospectivo, as autoras utilizam esse cenário para discutir questões extremamente atuais: o futuro da política externa brasileira, a crise da integração sul-americana, a revitalização da Doutrina Monroe sob Donald Trump e os limites da capacidade diplomática brasileira diante da crescente competição geopolítica entre grandes potências.

<><> A política externa brasileira diante de um mundo mais hostil

Segundo as autoras, o terceiro governo Lula encontrou um ambiente internacional muito diferente daquele que permitiu ao Brasil exercer uma política externa "ativa e altiva" durante os anos 2000.

Naquele período, havia uma conjuntura favorável: crescimento econômico, expansão do multilateralismo, fortalecimento dos BRICS e governos progressistas ocupando boa parte da América do Sul.

Hoje, argumentam, o cenário é praticamente oposto.

A região vive um processo de fragmentação política, as instituições regionais perderam força, a rivalidade entre Estados Unidos e China passou a organizar a geopolítica mundial e Washington voltou a tratar a América Latina como espaço prioritário de influência estratégica.

Diante desse novo contexto, defendem que o Brasil precisa substituir parte da antiga "altivez" por uma combinação de firmeza diplomática e pragmatismo estratégico.

<><> O colapso da integração sul-americana

Um dos eixos centrais do trabalho é a análise da deterioração do projeto de integração regional construído durante os primeiros governos Lula.

As pesquisadoras recordam que iniciativas como a Unasul e a Celac nasceram em um ambiente político favorável à cooperação regional e à busca de maior autonomia em relação aos Estados Unidos.

Entretanto, mudanças eleitorais, polarização ideológica, crises econômicas e a própria crise venezuelana contribuíram para desmontar esse processo.

Hoje, argumentam, a América do Sul apresenta níveis inéditos de fragmentação política, dificultando qualquer resposta coletiva diante de crises internacionais.

Segundo o artigo, essa falta de coordenação reduz significativamente a capacidade do Brasil de exercer liderança regional.

<><> Venezuela tornou-se o principal fator de divisão

Outro ponto desenvolvido pelas autoras é o papel desempenhado pela Venezuela na polarização política regional.

Elas reconhecem que o governo Maduro foi responsável por um processo acelerado de deterioração democrática, acompanhado de forte crise econômica, hiperinflação, êxodo populacional e concentração crescente de poder nas mãos do Executivo.

Ao mesmo tempo, observam que as sucessivas tentativas internacionais de mediação fracassaram, aprofundando as divisões entre os países latino-americanos.

Enquanto alguns governos passaram a defender maior pressão sobre Caracas, outros insistiram na busca de soluções negociadas e na defesa do princípio da não intervenção.

Nesse contexto, o Brasil passou a enfrentar um dilema permanente: preservar sua tradição diplomática de defesa da soberania sem deixar de reconhecer os problemas democráticos existentes na Venezuela.

<><> Trump e a retomada da Doutrina Monroe

O artigo dedica ampla atenção à política externa do segundo governo Donald Trump.

Na avaliação das autoras, Washington passa a recuperar elementos clássicos da Doutrina Monroe, reinterpretando a América Latina como área prioritária de segurança nacional.

Nesse novo contexto estratégico, a Venezuela seria tratada simultaneamente como:

  • foco do narcotráfico;
  • espaço de influência chinesa, russa e iraniana;
  • produtor estratégico de petróleo;
  • ameaça à segurança hemisférica.

Segundo o estudo, essa combinação serviria como justificativa para uma intervenção militar norte-americana inédita na América do Sul.

As autoras observam ainda que o combate ao narcotráfico aparece como elemento central da nova estratégia norte-americana, associado à ampliação dos poderes presidenciais para realizar operações militares extraterritoriais.

<><> Brasil entre Washington e Caracas

A hipótese da intervenção coloca o governo brasileiro diante de uma situação extremamente delicada.

Condenar a ação militar significaria reafirmar princípios históricos da diplomacia brasileira.

Mas ignorar os problemas internos da Venezuela também poderia gerar custos políticos internos e externos.

Segundo as pesquisadoras, o governo Lula tenderia a optar por uma posição intermediária: rejeitar a violação da soberania venezuelana, ao mesmo tempo em que reconheceria os graves problemas institucionais acumulados pelo chavismo.

Essa posição, entretanto, dificilmente produziria consenso regional, dada a profunda polarização existente na América do Sul.

<><> O impacto da política doméstica

Outro aspecto relevante destacado pelo artigo é a crescente influência da política interna sobre a política externa brasileira.

As autoras observam que temas internacionais — especialmente Venezuela e relações com os Estados Unidos — passaram a influenciar diretamente o debate eleitoral brasileiro.

Pesquisas de opinião citadas no estudo mostram que parte significativa da sociedade considera que o governo Lula demonstrou excesso de proximidade com Maduro, enquanto outra parcela vê preocupação na crescente influência norte-americana sobre a região.

Essa divisão limita a margem de manobra diplomática do governo.

<><> Conter e engajar

Inspirando-se nos trabalhos do cientista político Feliciano de Sá Guimarães, o artigo propõe que o Brasil adote uma estratégia baseada em dois movimentos simultâneos:

  • conter iniciativas unilaterais capazes de ameaçar a soberania regional;
  • manter canais permanentes de diálogo com Washington, evitando isolamento diplomático.

Essa política permitiria ao Brasil preservar autonomia sem romper relações com os Estados Unidos, especialmente em temas como comércio, tecnologia, segurança e combate ao crime organizado.

<><> A sensatez como complemento da altivez

Na conclusão, Marsílea Gombata e Carolina Pedroso sustentam que o Brasil já não dispõe das mesmas condições estruturais que permitiram sua projeção internacional durante os primeiros governos Lula.

Num ambiente internacional mais conflituoso, marcado pela crise do multilateralismo, pela competição entre grandes potências e pela fragmentação política da América do Sul, a diplomacia brasileira precisaria combinar firmeza na defesa da soberania com flexibilidade para negociar em condições adversas.

A "sensatez", afirmam as autoras, não substitui a tradicional "altivez" da política externa brasileira. Ela passa a ser seu complemento indispensável diante de um mundo cada vez mais instável, no qual preservar autonomia exige não apenas princípios, mas também capacidade de adaptação estratégica.

¨      Washington Araújo: Brasil amplia autonomia ao acessar capital chinês

Há notícias que faço questão de ler duas ou três vezes antes de escrever. Aprendi, depois de décadas acompanhando economia e relações internacionais, que algumas decisões aparentemente técnicas acabam revelando mudanças muito mais profundas do que deixam transparecer na primeira leitura. Foi exatamente essa impressão que tive ao conhecer a intenção do governo brasileiro de emitir, pela primeira vez, títulos soberanos em yuan no mercado doméstico chinês. Quem enxergar apenas uma operação financeira estará olhando para a árvore e ignorando a floresta.

Durante muito tempo, acostumei-me a ver o Brasil recorrer quase sempre aos mesmos caminhos quando precisava dialogar com o mercado internacional de capitais. Nova York ocupava posição central. Londres aparecia logo depois. Em alguns momentos, Frankfurt ampliava esse circuito. Era como se o mapa financeiro mundial tivesse poucos endereços realmente relevantes. A realidade de hoje é outra. A economia global tornou-se mais distribuída, a Ásia consolidou-se como centro de produção, investimento e inovação, e a China deixou de ser apenas a grande fábrica do planeta para transformar-se também em uma das maiores fontes de crédito e liquidez internacionais. Ignorar essa transformação seria interpretar o presente com categorias do passado.

É por isso que considero tão importante a decisão brasileira. O Tesouro Nacional prepara uma emissão de até 5 bilhões de yuans, cerca de US$ 735 milhões, por meio dos chamados Panda Bonds, títulos colocados diretamente no mercado financeiro chinês. Em termos fiscais, a operação pouco altera o perfil da dívida pública brasileira, medida em trilhões de reais. Seu alcance, porém, vai muito além do valor captado. Pela primeira vez, o Estado brasileiro convida investidores chineses a participarem diretamente do financiamento de sua dívida soberana. Isso altera a natureza da relação entre os dois países. Até agora, a China era principalmente nossa maior compradora de produtos. Passa, gradualmente, a tornar-se também financiadora do Estado brasileiro.

Não interpreto esse movimento como simples diversificação cambial. Vejo nele uma mudança estratégica de posicionamento internacional. Em abril deste ano, o Brasil voltou ao mercado europeu depois de mais de uma década sem emissões naquele ambiente, captando 5 bilhões de euros. A procura superou 16 bilhões de euros, demonstrando forte confiança dos investidores internacionais na economia brasileira. Agora surge uma terceira avenida financeira. O país deixa de depender exclusivamente dos mercados tradicionais para construir uma presença também no maior mercado de capitais da Ásia. Essa sequência não parece casual. Ela revela planejamento.

Sempre desconfiei da ideia de que autonomia nacional se constrói apenas com discursos diplomáticos. Países fortalecem sua soberania quando ampliam suas possibilidades de escolha. Quem depende de uma única moeda, de um único mercado financeiro ou de um único centro de crédito aceita, consciente ou inconscientemente, viver sob limitações que não controla. Diversificar não significa romper relações com parceiros históricos. Significa reduzir vulnerabilidades. É exatamente isso que as grandes economias procuram fazer quando o cenário internacional se torna mais imprevisível.

Os números ajudam a compreender essa decisão. Desde 2009, a China ocupa a posição de maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, o intercâmbio entre os dois países ultrapassou US$ 170 bilhões, respondendo por mais de um quarto de todo o comércio exterior brasileiro. Nenhum outro parceiro possui hoje essa dimensão econômica nas relações com o Brasil. Continuar concentrando nossas fontes de financiamento apenas nos mercados ocidentais, enquanto a maior relação comercial brasileira se fortalece na Ásia, passou a representar uma assimetria difícil de justificar.

Também não estamos diante de uma experiência isolada. Portugal abriu esse caminho em 2019, tornando-se o primeiro integrante da zona do euro a emitir títulos soberanos em yuan. A Hungria aprofundou essa estratégia e lançou uma emissão de 5 bilhões de yuans em 2025. O Egito captou 3,5 bilhões de yuans em 2023. A Eslovênia realizou uma emissão de 4 bilhões de yuans neste ano. O Cazaquistão estreou recentemente nesse mercado com 3,4 bilhões de yuans, registrando demanda muito superior à oferta. O Paquistão também prepara sua entrada. Cada país possui motivações distintas, mas todos chegaram à mesma conclusão: ampliar as alternativas de financiamento fortalece a posição internacional do Estado.

O caso brasileiro, contudo, possui uma característica própria. Diferentemente de alguns desses países, o Brasil não enfrenta sanções econômicas, não perdeu acesso aos mercados em dólar nem necessita recorrer ao yuan por falta de opções. Está fazendo uma escolha, não respondendo a uma emergência. Essa diferença muda completamente a leitura geopolítica da operação. Não se trata de procurar uma saída. Trata-se de construir novas possibilidades antes que elas se tornem indispensáveis.

Outro aspecto merece atenção. Empresas brasileiras como Vale e WEG já demonstraram interesse em acessar o mercado financeiro chinês. Para grupos que produzem, investem e vendem intensamente naquele país, captar recursos em yuan reduz riscos cambiais e aproxima receitas das obrigações financeiras. A emissão soberana do Tesouro cria uma referência importante para futuras operações privadas, funcionando como porta de entrada para um relacionamento financeiro muito mais amplo entre as duas economias.

Vejo um erro recorrente em parte do debate brasileiro. Ainda insistimos em interpretar qualquer aproximação com a China como se representasse, automaticamente, um afastamento dos Estados Unidos. Essa lógica talvez tenha feito sentido durante a Guerra Fria. Hoje ela empobrece a análise. As grandes potências defendem seus interesses nacionais com clareza. A China faz isso. Os Estados Unidos também. A União Europeia, igualmente. Não encontro razão para que o Brasil seja o único país chamado a justificar permanentemente suas escolhas estratégicas.

Ao observar essa emissão em yuan, não penso em substituição de moedas nem em disputas ideológicas. Penso em autonomia. Penso na capacidade de um país negociar simultaneamente com diferentes centros financeiros, diferentes investidores e diferentes moedas, preservando maior liberdade para tomar decisões. Essa me parece ser a verdadeira novidade.

Continuo convencido de que o futuro pertencerá às nações capazes de ampliar suas opções, e não às que permanecerem presas às estruturas que organizaram a economia mundial durante tantas décadas. O Brasil possui alimentos, energia, água, biodiversidade, capacidade industrial e um mercado interno entre os maiores do planeta. Não há razão para comportar-se como economia periférica quando pode atuar como protagonista. A emissão soberana em yuan não muda, sozinha, a posição brasileira no mundo. Mas sinaliza que começamos, finalmente, a compreender que independência econômica não nasce de discursos. Nasce da coragem de construir alternativas.

 

Fonte: Brasil 247

 

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