terça-feira, 30 de junho de 2026

As mentiras de Washington e o silêncio dos amigos de Trump no Brasil

O senador brasileiro Flávio Bolsonaro perdeu mais alguns pontos de apoio junto ao empresariado e na população em geral devido às repercussões negativas de sua viagem. Esse desgaste político é reflexo direto de sua postura irresponsável diante da crise comercial que ameaça o setor produtivo nacional.

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos propôs recentemente uma elevação tarifária agressiva de 25% sobre as exportações de 7 importantes setores produtivos brasileiros, camuflando seu protecionismo unilateral sob o pretexto infundado de revanchismo contra, entre outras coisas, o sistema de pagamentos instantâneos do Pix. Essa medida arbitrária ameaça asfixiar a indústria nacional de calçados, madeira, papel-cartão e metalurgia, revelando o cinismo e a desonestidade, mascarados como frieza pragmática, com que o governo norte-americano ignora tratados de cooperação em prol de sua agenda eleitoralista interna.

Diante deste grave cenário de agressão econômica e risco iminente de desemprego em massa para os trabalhadores do nosso país, o senador brasileiro Flávio Bolsonaro preferiu embarcar para os Estados Unidos com o pretexto inicial de assistir a partidas esportivas em solo americano. O principal candidato de oposição utilizou o momento de vulnerabilidade nacional para promover uma jornada de turismo político privado, demonstrando pouca ou nenhuma preocupação com o destino das indústrias nacionais afetadas.

Enquanto o senador viajava, seu irmão, o deputado federal brasileiro Eduardo Bolsonaro, passou a publicar intensamente nas redes sociais digitais a narrativa fantasiosa de que o parlamentar estaria realizando uma missão de salvação nacional junto a autoridades em Washington. A máquina de propaganda da extrema-direita brasileira tentou convencer a opinião pública de que a proximidade ideológica com o Partido Republicano seria suficiente para blindar os produtos nacionais contra as sanções iminentes.

No entanto, essa encenação de relações públicas não resistiu aos fatos da diplomacia internacional e serviu apenas para expor o isolamento de quem coloca o partidarismo ideológico acima das políticas de Estado. A politização infantil de um complexo contencioso comercial de âmbito estatal enfraqueceu os esforços conjuntos das representações setoriais que buscavam uma solução técnica e apartidária para o problema.

O desfecho dessa incursão turística resultou em um claro constrangimento político quando o secretário de Estado dos Estados Unidos Marco Rubio enviou uma correspondência oficial extremamente fria ao senador da oposição brasileira. Na mensagem oficial, o chefe da diplomacia norte-americana asseverou que a aplicação das barreiras alfandegárias seguirá critérios estritamente domésticos, descartando qualquer privilégio motivado por afinidades partidárias de caráter pessoal.

O episódio demonstra de forma pedagógica que o presidente dos Estados Unidos Donald Trump comanda uma máquina governamental voltada prioritariamente para o isolacionismo econômico. A administração americana recusa-se a acolher até mesmo as advertências técnicas de seus próprios importadores e indústrias domésticas, que dependem dos insumos e produtos manufaturados provenientes de parceiros comerciais brasileiros.

Na verdade, a atual burocracia governamental norte-americana responde quase que exclusivamente às pressões econômicas exercidas pelo complexo industrial-militar do setor de armamentos e munições. O outro grande vetor de influência geopolítica que pauta as decisões de Washington é o lobby israelense, ao qual a extrema-direita brasileira costuma prestar reverência contínua e submissão ideológica incondicional.

Além disso, o governo dos Estados Unidos está refém dos desejos tirânicos do presidente norte-americano Donald Trump, que despreza a diplomacia tradicional em suas negociações bilaterais. Ele compreende apenas a coação econômica e a agressividade como instrumentos válidos para lidar com os desafios e disputas comerciais de seu país.

É exatamente perante estes núcleos de poder estrangeiro que a família Bolsonaro e seus aliados no congresso nacional costumam prostrar-se em discursos marcados por bajulação. Esse comportamento submisso, porém, recebe como resposta um desprezo pragmático do governo americano, demonstrando que a soberania nacional não pode ser defendida por meio de manifestações de vassalagem política.

Em uma perspectiva estritamente técnica, a Confederação Nacional da Indústria apresentou um relatório detalhado evidenciando que a maioria esmagadora das representações na audiência do governo americano rejeitou o aumento tarifário. Especialistas industriais e importadores norte-americanos alertaram que as sobretaxas punitivas elevarão os custos de produção no próprio mercado americano e prejudicarão o consumo de bens de alta qualidade.

Apesar de toda a contestação documental formulada pelas entidades brasileiras e americanas, a associação industrial projeta que Washington manterá as tarifas elevadas como forma de sinalização política interna. Essa estimativa pessimista comprova que o processo de consulta pública promovido pela representação comercial americana serviu apenas como uma etapa meramente protocolar para validar restrições previamente concebidas.

Em termos relativos, esses produtos sob ameaça representam expressivos 18,60% de todas as vendas brasileiras destinadas aos Estados Unidos e 1,81% de nossa pauta exportadora global. Além disso, o mercado norte-americano consome 26,18% do volume total desses bens exportados pelo Brasil para o mundo, o que demonstra a forte dependência setorial em relação aos consumidores daquele país.

A dimensão desse ataque contra o trabalho nacional é evidenciada pelos números consolidados do sistema ComexStat, os quais registram que as exportações brasileiras sob risco acumularam US$ 6,51 bilhões nos últimos 12 meses. Setores tradicionais como a metalurgia de ferro gusa de Minas Gerais e a indústria calçadista do Ceará enfrentarão duras perdas financeiras e desemprego estrutural caso a sobretaxação seja implementada.

Diante deste cenário desafiador, a preservação dos empregos industriais e a proteção da economia brasileira exigem uma mobilização séria e coordenada pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. O país precisa aprender com este episódio que a salvaguarda de seus interesses comerciais estratégicos faz-se com diplomacia de Estado altiva, e nunca por meio de infantilidades político-partidárias de caráter subserviente.

•        Otoni de Paula denuncia "subserviência" de Flávio Bolsonaro a Trump e "atentado à soberania nacional"

O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), ex-aliado do clã Bolsonaro, afirmou neste sábado (27) que a resposta enviada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) expõe uma relação de “subserviência” da família Bolsonaro ao governo de Donald Trump e representa um “atentado à soberania nacional”. Em vídeo publicado nas redes sociais, Otoni disse que o debate eleitoral brasileiro passa a ter como eixo central a soberania do país diante da postura atribuída ao presidenciável bolsonarista.

Segundo Otoni de Paula, a carta de Marco Rubio a Flávio Bolsonaro é especialmente grave porque, além de manter a posição favorável às tarifas comerciais contra o Brasil, registra que o senador teria colocado uma eventual equipe de transição de governo à disposição de representantes norte-americanos.

“A carta de Marco Rubio para Flávio Bolsonaro, quando ele faz um pedido hipócrita para que a América não tarife o Brasil — hipócrita porque, na verdade, toda essa tarifação contra o Brasil foi uma proposta da família Bolsonaro contra o governo Lula, atingindo todo o Brasil, uma proposta eleitoreira”, iniciou Otoni.

O deputado acusou a família Bolsonaro de agir movida por interesses próprios e não por uma preocupação com o país. Para ele, as movimentações políticas em torno das tarifas impostas pelos Estados Unidos teriam como objetivo atingir o governo do presidente Lula (PT), ainda que os efeitos recaíssem sobre a economia brasileira como um todo. “Não vou permitir que você esqueça que Eduardo Bolsonaro disse que, para ele, tanto faz se isso aqui viraria uma terra arrasada ou não, desde que ele pudesse se vingar dos algozes do seu pai. Portanto, nunca foi pelo Brasil. Sempre foi por eles, pela família Bolsonaro. Isso é um fato”, declarou.

A crítica mais dura de Otoni se concentrou no trecho em que Rubio agradece a Flávio Bolsonaro pela disposição de colaborar com uma equipe norte-americana em uma eventual transição presidencial. Para o deputado, esse ponto ultrapassa o campo da disputa política e atinge diretamente a soberania nacional. “Agora, o que chama atenção nessa carta não é o fato do Marco Rubio dizer que vai continuar com essas tarifas. Isso a gente já sabia. O que me chama atenção é ele agradecer ao presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar a transição do seu governo à disposição de uma equipe norte-americana. O que é isto? Um candidato à Presidência da República colocando uma futura e possível transição do seu governo à disposição de um outro país, de uma equipe norte-americana?”, questionou.

O parlamentar afirmou ainda que não há previsão legal no Brasil para que uma transição de governo seja submetida a outro país. Na avaliação de Otoni, a iniciativa atribuída a Flávio Bolsonaro configura uma ameaça institucional e política à autonomia brasileira. “As leis brasileiras não prevêem este absurdo, este atentado à soberania nacional. Minha gente, o que estamos discutindo nessa eleição a partir de agora, com essa sandice e essa subserviência declarada da família Bolsonaro ao Trump, é soberania nacional”, disse.

Otoni de Paula também afirmou que a discussão não deve ser reduzida a uma defesa do presidente Lula, mas tratada como um tema de Estado. Segundo ele, a atitude atribuída à família Bolsonaro cria um precedente preocupante sobre a relação entre uma eventual administração brasileira e o governo dos Estados Unidos. “Esse tema não começa com Lula. Começa com uma ameaça clara e velada da família Bolsonaro. Como vai sujeitar uma transição de governo a um outro país? Isso é um absurdo! Isto é um absurdo!”, afirmou.

Na sequência, o deputado pediu atenção ao rumo político indicado pela aproximação entre Flávio Bolsonaro e o governo Trump. Ele afirmou que a família Bolsonaro estaria conduzindo o país a uma situação de dependência em relação aos interesses norte-americanos. “Então preste atenção para onde nós estamos indo, independentemente se você gosta ou não do Flávio ou de Bolsonaro. Veja para onde, para que lugar, para que ponto esta família está levando o país”, declarou.

Otoni também comparou a postura da família Bolsonaro às acusações feitas anteriormente contra Lula em relação à China. Para ele, os bolsonaristas nunca comprovaram que o atual presidente teria submetido o Brasil a interesses chineses, enquanto a carta de Rubio evidenciaria a proximidade deles com Washington. “Eles que tanto acusaram o Lula — e não estou defendendo o Lula aqui não — de proteger a China e de entregar o Brasil aos interesses chineses. E nunca provaram isso. Só que nós temos provas da subserviência deles aos norte-americanos. E a carta de Marco Rubio coloca isso com muita clareza”, concluiu.

Na resposta oficial a Flávio Bolsonaro, Marco Rubio reafirmou o apoio do governo Donald Trump à aplicação de novas tarifas comerciais contra o Brasil e à classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O secretário de Estado também destacou que permanecem divergências relevantes entre Brasil e Estados Unidos na área comercial.

Rubio mencionou ainda a investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que poderá resultar na adoção de sobretaxas contra produtos brasileiros. Segundo a correspondência, o representante comercial americano, Jamieson Greer, já havia indicado que os dois países seguem com “diferenças substanciais” sobre a conclusão do processo.

O secretário de Estado afirmou que Greer propôs a abertura de uma fase de consulta pública antes da decisão definitiva da administração norte-americana. No início da carta, Rubio também agradeceu a mensagem enviada por Flávio Bolsonaro e a visita do senador a Washington, ressaltando convergências políticas entre ambos.

Ao encerrar a correspondência, Rubio citou o otimismo manifestado por Flávio Bolsonaro em relação às eleições presidenciais brasileiras de outubro. Segundo o conteúdo divulgado, o senador informou ao governo dos Estados Unidos que colocaria à disposição uma “equipe de transição” caso fosse eleito presidente da República. O secretário afirmou que a proposta foi registrada por Washington e disse que os Estados Unidos estão dispostos a trabalhar com os líderes escolhidos pelo povo brasileiro em busca de uma estrutura de investimentos considerada mutuamente benéfica.

•        Flávio Bolsonaro recebeu de Rubio “tratamento adequado de legítimo vira-latas”, diz Pedro Uczai

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai, publicou duas críticas à extrema direita brasileira nesta sexta-feira (26) após a carta enviada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em um documento que defendia o tarifaço de 25% sobre parte dos produtos brasileiros exportados para o país presidido por Donald Trump.

“O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, viajou até Washington para fazer lobby e acabou recebendo o tratamento adequado de um legítimo vira-latas”, escreveu o petista na rede social X. De acordo com o deputado do Partido dos Trabalhadores, “a política externa de submissão da extrema direita brasileira acaba de render mais um capítulo vergonhoso”.

Conforme o líder do PT, a carta enviada por Rubio ao senador brasileiro “escancara o que todo mundo já sabe: a família Bolsonaro (Flávio, Eduardo e o clã inteiro) não passa de um grupo de ‘lambe-botas’ de Donald Trump”. “Eles humilham o Brasil no cenário internacional, batem palma para os líderes norte-americanos que quebram as nossas indústrias e acham que vão governar o país de joelhos para Washington”, continuou.

“Em resposta oficial à sua carta, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, reafirmou as pesadas taxações americanas sobre o Brasil. Um deboche com o nosso setor produtivo e com o nosso povo. Eles defendem os interesses dos bilionários americanos, enquanto o trabalhador e o empresário brasileiro pagam a conta. Que vergonha!”, desabafou Uczai.

Outras lideranças, como os deputados federais Lindbergh Farias (PT-RJ), Carlos Zarattini (PT-SP) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ), também se pronunciaram sobre a carta, defenderam a soberania brasileira e demonstraram repúdio às articulações feitas pela família Bolsonaro junto ao governo do presidente dos EUA, Donald Trump.

<><> Entenda

No começo de junho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) defendeu tarifas de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. O órgão fez críticas ao Pix e, mesmo sem provas, acusou o governo brasileiro de implementar ações ilegais na área do comércio.

Também no início deste mês, os EUA classificaram as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Por consequência, a medida estimula sanções contra o Brasil.

O motivo para a guerra comercial lançada pelos EUA e para a classificação das facções são as condenações em investigações sobre tentativas de golpe. O Supremo Tribunal Federal condenou 29 pessoas no inquérito da trama golpista. Jair Bolsonaro (PL) recebeu a pena mais alta: 27 anos de cadeia.

O STF também determinou mais de 1,4 mil condenações no inquérito sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram o Palácio do Planalto, onde fica o gabinete presidencial. O STF e o Congresso Nacional também foram invadidos pelos participantes das manifestações terroristas.

Outra punição do Judiciário brasileiro foi anunciada em novembro de 2022, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aplicou uma multa de R$ 22,9 milhões ao PL, partido de Jair Bolsonaro, após a legenda questionar a confiança das urnas eletrônicas.

Práticas golpistas são defendidas tanto por bolsonaristas no Brasil como por trumpistas nos EUA. Em janeiro de 2021, quando Trump perdeu a eleição, vários apoiadores dele invadiram o Legislativo e acusaram o sistema eleitoral de ser fraudulento.

 

Fonte: O Cafezinho/Brasil 247

 

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