terça-feira, 30 de junho de 2026

Elisabeth Lopes: A ameaça trumpista às eleições de outubro no Brasil e as truculências no interior da família Bolsonaro

A América do Sul está passando por uma virada de chave em direção à extrema direita.  Atualmente são sete países nesse campo ultra liberal, com algumas nuances fascistas: Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru. Há fortes ilações que explicam essa virada. Até que ponto os EUA têm a ver com essa guinada? 

De doze países restaram cinco de esquerda: Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai. Ainda que a Venezuela esteja num momento oscilante, como refém do governo Trumpista. Que motivações moveram os eleitores sul-americanos para escolhas de candidatos extremistas de direita tão distantes de suas escolhas anteriores? A interferência estadunidense nas eleições dos países sul-americanos já não se preocupa em ser discreta, pelo contrário têm se realizado em alto e bom som. Nas eleições da Colômbia, por exemplo, Donald Trump chegou a participar da campanha, pedindo votos para o candidato da extrema direita

Nesta semana, Trump publicizou um texto do site americano NewsMax na sua plataforma Truth Social em que refere que as eleições do Brasil é seu próximo desafio. Segundo reportagem do UOL, 26/05/26, o texto menciona que Trump ainda precisa superar quatro grandes desafios. De acordo com a análise, os países mencionados são Cuba, Nicarágua, Venezuela e Brasil. A publicação refere ainda que: “A eleição já vem provocando um intenso debate sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro e sobre se a disputa será realizada de forma livre, justa e reconhecida por todos os envolvidos.” 

Outra sinalização inquestionável da ingerência norte-americana, além da reincidência do tarifaço, da classificação Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas globais, dos ataques ao Pix e das últimas declarações de Donald Trump de que o Brasil seria o próximo desafio, diz respeito à abertura de um edital do Departamento de Estado dos EUA destinado ao financiamento de organizações da sociedade civil voltadas ao monitoramento e à denúncia de supostas práticas de censura e de restrições à liberdade de expressão no país. A iniciativa prevê o acompanhamento de temas como decisões judiciais, liberdade de expressão, regulação das plataformas digitais e a atuação das autoridades eleitorais brasileiras. As inscrições permanecerão abertas até 23 de julho de 2026, e apenas um projeto será selecionado para execução, com duração prevista entre 18 e 24 meses. O programa será desenvolvido por meio de um acordo de cooperação que pressupõe a participação ativa do governo norte-americano. O edital autoriza a candidatura de organizações não governamentais sediadas tanto nos Estados Unidos quanto em outros países. Diante dessas provocações de Trump, a céu aberto, a interferência do governo estadunidense nas eleições de outubro no Brasil constitui um fato consumado. 

Com base nesse horizonte ameaçador, a coordenação do processo eleitoral brasileiro deve permanecer em estado de atenção permanente, atuando de forma preventiva diante de interferências internas e externas. Além da proteção das urnas, é fundamental resguardar o espaço público de campanhas de desinformação, ingerências estrangeiras e operações de manipulação da opinião pública, assegurando que a soberania popular expressa livremente nas urnas seja o único fator a determinar os rumos da nação brasileira. Sob essa perspectiva, o ministro Kassio Nunes Marques será posto à prova na presidência do TSE. Caberá a ele demonstrar se no comando da Justiça Eleitoral resguardará a integridade do processo eleitoral ou retribuirá a indicação política que o projetou nacionalmente.

Nesse clima sul-americano sob a égide da intromissão do EUA, a vitória, ainda que apertadíssima de Abelardo de la Espariella à presidência da Colômbia reforça o grotesco capítulo do extremismo de direita da América do Sul. Figura histriônica, multimilionária, visceralmente contrária ao multilateralismo combinado a uma subserviência canina e constrangedora a Donald Trump, um padrinho político, que faz da mentira o motor de seu governo, desacreditado não só pelo partido democrata, mas pela maioria da população norte-americana e, sobretudo, no plano mundial.

Antes de se lançar à política, o empresário e advogado Espriella construiu uma carreira extremamente lucrativa e controversa. Advogou para comandantes paramilitares e narcotraficantes da Autodefensas Unidas de Colômbia (AUC), figuras de destaque das desmobilizadas AUC, um violento grupo paramilitar de extrema-direita, para operadores e financiadores de esquemas de lavagem de dinheiro, para políticos envolvidos em corrupção de alto escalão, como congressistas, governadores e prefeitos investigados no escândalo conhecido na Colômbia como "Parapolítica" (a aliança ilegal entre políticos e paramilitares para fraudar eleições e desviar fundos públicos). Vale assinalar que a produção e tráfico de cocaína na Colômbia triplicou na última década representando 72% do mercado global espalhada em múltiplos cartéis e facções e o homem que cobrou honorários milionários para livrar criminosos da cadeia agora assume o poder com a promessa de governar com mão de ferro. A grande ironia é que ele não vai mais precisar de procuração para lidar com os novos chefões do narcotráfico, agora, ele tem a própria faixa presidencial.

O delírio autocrático de Espriella nutre-se, declaradamente, da admiração que ele devota a referências do bloco de degeneração democrática: Donald Trump, Javier Milei, Nayib Bukele e Benjamin Netanyahu. Ao inspirar-se nesse quarteto, ele absorve a prepotência imperialista de Trump, a subserviência de Milei aos Estados Unidos, o autoritarismo de Bukele, marcado pelo atropelo das garantias constitucionais em nome de uma ordem extrema, e o desprezo de Netanyahu pelas instâncias multilaterais, subordinando-as à lógica da sobrevivência política a qualquer custo. Essa combinação de influências deixa evidente que seu projeto representa uma síntese do que há de mais nocivo na nova extrema direita global.

No Brasil, a poucos meses das eleições para a presidência da República e para mandatos no Congresso, as expectativas são tensas. Desta vez os eleitores não podem errar nas escolhas de seus candidatos. É primordial mudar o panorama da atual composição majoritária, formada por parlamentares da direita oportunista e da extrema direita, tanto no Senado, como na Câmara de Deputados. A virada para uma bancada progressista, com propostas consistentes para o desenvolvimento sustentável do país, voltadas à melhoria das condições de vida da população é crucial. 

A produção da atual bancada de oposição ao governo, tem revelado um quadro rarefeito de produções legislativas que efetivamente sejam voltadas às necessidades da população. Quando esses segmentos se movem, fazem-no em benefício próprio ou de poderosas corporações aliadas no toma-lá-dá-cá que garante a sobrevivência em seus redutos eleitorais e, não raro, alimenta o duto de propinas viabilizado por emendas parlamentares cada vez mais suspeitas de graves ilicitudes. Em certa medida, as ações legislativas dessa ala sombria e manifestamente antipovo diferenciam-se em algumas nuances. Enquanto o Centrão se dedica ao pragmatismo rasteiro de ampliar seu poder, barganhar cargos e controlar verbas públicas, a exemplo do senador Ciro Nogueira (PP-PI), entre outros, a extrema direita se notabiliza por transformar as redes sociais em um palco de desinformação, difundindo um verdadeiro tsunami de mentiras, como faz o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG); por destinar emendas parlamentares até mesmo para clubes de tiro, como no caso da deputada da coroa de flores Júlia Zanatta (PL-SC); por manter vultosas quantias de dinheiro em espécie em casa, como ocorreu com o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ); além de cultivar, de forma permanente, o barulho das pautas ideológicas, o moralismo conservador e uma oposição obsessiva ao governo.

Essa fisionomia majoritariamente horrenda do Congresso Nacional, bem como de muitas assembleias legislativas estaduais, câmaras de vereadores e governos estaduais controlados pelo Centrão e pela extrema direita, foi eleita em massa na onda do desprezível bolsonarismo, que tantos prejuízos causou e continua causando ao povo brasileiro, mantido refém da mentira, dos desvios de recursos públicos para interesses privados, do populismo, do engodo incomensurável e de falsos outsiders que se apresentaram sob a enganosa hashtag do antissistema. O mais preocupante é que o país ainda permaneça sob essa atmosfera bolsonarista, grotesca e deletéria, o que leva parte da população a acreditar que a única alternativa ao campo da esquerda progressista se resume aos integrantes da família Bolsonaro ou a outros representantes da direita que orbitam esse mesmo universo político, como Ronaldo Caiado (União Brasil) e Romeu Zema (Novo).

Essa permanência, contudo, não significa coesão interna. Embora a família Bolsonaro viva frequentes disputas por protagonismo político, o capital eleitoral construído ao longo dos últimos anos continua sendo disputado pelos seus integrantes. Um exemplo disso foi o recente embate entre Michelle Bolsonaro e seu enteado, Flávio Bolsonaro, materializado em um longo vídeo publicado nas redes sociais, com desabafos sobre a postura autoritária e grosseira do enteado com ela, repleto de recados subliminares e divulgado, deliberadamente, no mesmo dia de um importante jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

Sobre esse episódio, há várias elucubrações na tentativa de explicar o teor do vídeo publicado por Michelle. Na minha avaliação, todas as hipóteses levantadas por comentaristas, tanto da mídia corporativa quanto da mídia progressista independente, podem ser viáveis, com exceção de que ela se revelou como feminista. Ao contrário de que ela atuaria como uma defensora das causas femininas, sua conduta aponta para o pragmatismo político. O verdadeiro objetivo parece ser a busca por protagonismo e visibilidade, elementos essenciais para angariar suas ambições e projetos de poder. Não se pode descartar que a verdadeira motivação seja a mais inesperada e só venha a ser compreendida mais adiante. Nessa família, tudo parece possível, inclusive aquilo que hoje sequer imaginamos como explicação. Quando se trata dos Bolsonaro, à exceção das inúmeras trapalhadas protagonizadas pelos integrantes homens da família, Michelle se destaca pela capacidade de articulação, pela astúcia e pela habilidade com que transita tanto nos espaços estritamente políticos quanto naqueles que, em aparência, não o são.

Diante dos desdobramentos políticos internos que antecedem as eleições de outubro e das crescentes ameaças de Donald Trump à América do Sul, expressas no discurso de retomar a região como o "quintal" dos Estados Unidos e em iniciativas destinadas a influenciar o cenário político brasileiro em favor de um candidato alinhado à extrema direita, como Flávio Bolsonaro, ou de qualquer outro representante desse campo político subserviente, o panorama nacional aponta para tempos desafiadores. Essa postura intervencionista dos Estados Unidos persiste mesmo após a resposta diplomática do secretário de Estado Marco Rubio à carta de Flávio Bolsonaro, nesta semana. Embora a negativa à isenção tarifária tenha frustrado as expectativas sabujas de Flávio, a declaração final de Rubio, de que os EUA estão prontos para cooperar com os líderes que o povo brasileiro eleger, em uma agenda “mutuamente benéfica” revela a continuidade de um desejo de tutela, disfarçado cinicamente de cooperação.

Esse ambiente de pressões externas soma-se à atuação de uma direita oportunista e de uma extrema direita local atoladas até o pescoço em escândalos de corrupção, chantagens, produção massiva de fake news e no fisiologismo sem precedentes da distribuição de emendas parlamentares para alimentar seus currais eleitorais. Para agravar ainda mais esse quadro, a elite econômica, representada pelos barões da Faria Lima, e a mídia corporativa atuam de forma sistemática para inviabilizar a reeleição de Lula, relegando a segundo plano resultados expressivos alcançados em seu governo. Entre eles estão a retirada do Brasil do Mapa da Fome, a aprovação da histórica reforma tributária, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco salários mínimos, a retomada e expansão do programa Minha Casa, Minha Vida, inclusive para a classe média, além dos recordes na geração de empregos e da política de valorização do salário mínimo acima da inflação. Frente a esse poderoso entrelaçamento entre desinformação, poder econômico, fisiologismo político e pressões geopolíticas, as forças progressistas de esquerda enfrentarão enormes dificuldades para romper a bolha informacional e conscientizar os brasileiros sobre o que realmente estará em jogo para o futuro do país e para as condições de vida de sua população.

¨      Crise dos EUA e avanço da extrema direita expõem disputa global, diz Afonso de Albuquerque

A crise interna dos Estados Unidos tem ampliado a disputa global conduzida pela extrema direita e tornado mais instável a atuação internacional de Washington, avaliou o professor Afonso de Albuquerque, nesta terça-feira (23). Segundo ele, o governo Donald Trump expressa um cenário de fragmentação política, perda de consistência estratégica e acirramento das disputas em escala internacional. As informações são do Giro das Onze, da TV 247. Durante o programa, Afonso analisou o avanço da extrema direita na América Latina, a soberania digital, o papel das big techs, a influência histórica dos Estados Unidos sobre a região e a crise envolvendo Jaques Wagner.

<><> Ordem global em transição

Para o professor, o mundo atravessa um período de transição, no qual a ordem antiga já perdeu estabilidade, mas uma nova ainda não foi consolidada. Esse intervalo, afirmou, produz caos, disputas e incertezas, mas não deve ser interpretado apenas como motivo para pessimismo. “A gente tá vivendo o momento transição, né? Aquela famosa frase do Gramsci de que o velho mundo está morrendo e o novo ainda não surgiu. Acho que esse é o momento que nós estamos”, afirmou. Afonso avaliou que a extrema direita se beneficia do desgaste das instituições democráticas, mas não consegue oferecer uma alternativa institucional consistente quando chega ao poder. Segundo ele, esse traço aparece em diferentes países da América Latina e ajuda a explicar crises de legitimidade após vitórias eleitorais desse campo político.“Houve ali um desgaste das instituições, né? E a extrema direita ela surfa nisso, no desgaste das instituições. Aí quando a extrema direita assume, ela não é capaz de propor novas instituições”, disse.

<><> Estratégia dos EUA perdeu unidade

Na leitura do professor, os Estados Unidos deixaram de operar com uma estratégia externa unificada, como ocorria em outros períodos históricos. A antiga elite bipartidária, que sustentava políticas de Estado entre governos democratas e republicanos, perdeu força diante de uma disputa interna mais fragmentada. “As pessoas falam os Estados Unidos, a estratégia dos Estados Unidos, e me parece bastante claro que não existe mais isso”, afirmou. Para Afonso, a política externa de Trump não representa uma orientação nacional estável, mas uma agenda antidemocrata projetada internacionalmente. Ele também ponderou que uma eventual política democrata tenderia a funcionar como reação antirrepublicana, o que enfraquece a continuidade da ação externa norte-americana. “A política do Trump não é uma política dos Estados Unidos, é uma política antidemocrata em escala internacional”, declarou.

<><> Washington mais perigosa

Apesar disso, Afonso alertou que a instabilidade norte-americana não reduz os riscos para outros países. Na avaliação dele, Washington se tornou mais perigosa justamente porque perdeu parte da noção de limite, embora esteja menos sólida estruturalmente do que no passado. “A gente tá lidando com os Estados Unidos que são mais perigosos porque de alguma forma perderam a noção de limite”, afirmou. Segundo o professor, os Estados Unidos ainda têm capacidade de causar danos no cenário internacional, mas já não dispõem da mesma legitimidade e consistência de outros momentos históricos. Para ele, essa combinação de poder remanescente e instabilidade política torna a conjuntura especialmente sensível.

<><> América Latina no centro da disputa

Afonso também analisou o impacto dessa crise sobre a América Latina. Para ele, a região voltou a ser um espaço decisivo na disputa política internacional, especialmente diante do avanço de lideranças de extrema direita alinhadas ao trumpismo. O professor afirmou que o Brasil não deve analisar o cenário regional com medo, mas com consciência dos riscos. Segundo ele, o medo tende a produzir decisões ruins e a reduzir a capacidade de mobilização política. “Quando a gente tem medo, eu acho que a gente desiste de lutar, né? E quando a gente desiste de lutar, a gente perde”, afirmou. Na avaliação de Afonso, o Brasil possui características próprias em relação a outros países da região, sobretudo pela existência de forças sociais, partidárias e institucionais mais estruturadas. Essa diferença, disse, pode ser decisiva diante das pressões internacionais e do avanço da extrema direita.

<><> Soberania digital e big techs

O professor também relacionou a crise dos Estados Unidos à disputa por soberania digital. Segundo ele, a dependência brasileira de infraestruturas privadas estrangeiras representa uma vulnerabilidade estratégica, especialmente porque essas empresas estão submetidas a obrigações legais e políticas ligadas ao governo norte-americano. “Nós dependemos de uma infraestrutura privada estrangeira que legalmente deve obrigações de segurança com o governo dos Estados Unidos. Então, eu diria, essa é a grande apreensão”, disse. Para Afonso, o Brasil precisa enfrentar esse debate de forma estrutural. Ele defendeu a criação de plataformas públicas, inclusive em formatos transnacionais, como resposta ao poder das big techs e à dependência tecnológica. “Eu tenho insistido, né? Eu acho que as plataformas, teremos que criar plataformas públicas”, afirmou. Segundo ele, a questão digital deixou de ser apenas tecnológica e passou a integrar o núcleo da soberania nacional. O controle sobre dados, infraestrutura e comunicação, afirmou, tornou-se parte da disputa política global.

<><> “Otimista e proativo”

Apesar do diagnóstico crítico, Afonso rejeitou uma leitura paralisante da conjuntura. Para ele, o caos pode ser entendido como parte de uma transição histórica, e não apenas como sinal de derrota. “O caos tem duas maneiras de olhar o caos. A primeira é você dizer: ‘Perdemos a ordem’. A segunda maneira é dizer: ‘A antiga ordem apodreceu, nós estamos rumando para uma nova ordem’. No intervalo entre essas duas ordens é caos”, afirmou. O professor disse preferir uma postura ativa diante da instabilidade política e internacional. Segundo ele, o pessimismo tende a produzir reação defensiva, enquanto a ação propositiva permite disputar o sentido da nova ordem em formação. “Eu prefiro ser otimista e proativo do que pessimista, porque o pessimista tende a ser reativo”, declarou.

 

Fonte: Brasil 247

 

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