terça-feira, 30 de junho de 2026

Oliveiros Marques: Ideias para renovar as esquerdas

Não pude resistir à aventura de comentar esta obra. De escrita fluida, de coesão que não permite fugas, de conteúdo articulado e pensamento absurdamente contemporâneo, Ideias para renovar as esquerdas, de Juliano Medeiros, publicada pela editora Contracorrente, embora tenha menos de uma semana de lançamento, já reúne páginas fundamentais para que compreendamos o momento presente e nos lancemos à militância de hoje e de amanhã — se não com mais respostas, ao menos com as perguntas necessárias a serem feitas.

Juliano foi militante do movimento estudantil, presidente nacional do PSOL e hoje preside a federação Rede-PSOL, além de coordenar a Rede Futuro, uma plataforma militante de articulação que reúne militantes e dirigentes de movimentos sociais e organizações de esquerda de toda a América Latina. É a partir desse lugar de observação e atuação que, recorrendo a autores importantes da filosofia, da sociologia, da economia e da ciência política, ele aguça o olhar — como quem maneja estetoscópios, lupas e microscópios — para contribuir com este tão necessário debate sobre o futuro das esquerdas, em especial na América Latina.

A obra começa com uma observação fundamental que, na maioria das vezes, parece escapar à percepção de dirigentes e lideranças de esquerda: insistindo em repetir velhas análises e estratégias já desgastadas, muitos não percebem que o mundo mudou — e que, tendo o mundo mudado, as mulheres e os homens de hoje também são outros.

Juliano desmonta o falso debate que opõe “lutas de classe” a “lutas identitárias”. Sem afirmá-lo diretamente, deixa claro que essa separação é uma grande bobagem, pois hoje “a classe trabalhadora e o conflito entre capital e trabalho são atravessados por outras formas de opressão que são igualmente funcionais ao sistema do capital, como o machismo, o racismo e a homofobia”.

Nesse sentido, o autor sugere que não basta pensar a redistribuição da riqueza restrita à sua dimensão econômica. É aqui que entram, por exemplo, a questão climática e a redução da jornada de trabalho. E, no debate sobre o tempo destinado ao trabalho, Juliano insere categorias que considero fundamentais para pensarmos a atuação das esquerdas no Brasil e no mundo: família e cuidado. Não vou me alongar em discorrer sobre esses pontos, pois considero essencial que você, que lê estas poucas e mal traçadas linhas, beba diretamente da fonte e leia o livro. Mas destaco que a luz que Juliano projeta sobre essas duas categorias deveria estar presente nos capacetes de mineiro que usamos em nossos movimentos diários, emitindo raios de atenção sobre elas. Trata-se de uma disputa de grande envergadura, especialmente no Brasil, frente à apropriação indevida que o bolsonarismo fez de ambos os conceitos — transformando “família” em bandeira de conservadorismo moral e “cuidado” em discurso esvaziado de qualquer compromisso com políticas públicas efetivas.

A obra, no entanto, destaca diversas outras agendas que podem contribuir para a renovação das esquerdas — entre elas, a reinvenção das formas de organização política, o enfrentamento da crise de representação e a construção de novas narrativas capazes de dialogar com as subjetividades contemporâneas. Mas concluo, a partir da leitura, que família e cuidado podem ser a chave para retomarmos o diálogo revolucionário com os homens e mulheres de hoje.

Vale a leitura. E, acima de tudo, vale o debate que essa leitura certamente provocará. Sem verdades absolutas, mas com as provocações necessárias — afinal, nos últimos anos, a adoção de uma práxis pela práxis tem absorvido boa parte da capacidade de pensar e refletir do nosso campo.

•        “'A esquerda precisa trazer o debate da economia para nós'”, diz dirigente do MST

O integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, afirmou que a esquerda brasileira precisa colocar a economia no centro do debate político e programático para responder aos desafios enfrentados pela classe trabalhadora e construir um novo projeto nacional de desenvolvimento. A declaração foi dada durante entrevista ao programa Brasil Popular, da TV 247.

Segundo Rodrigues, os problemas enfrentados pela população não podem ser discutidos apenas a partir das pautas tradicionais de direitos ou da organização política dos movimentos sociais. Para ele, questões como endividamento das famílias, emprego, industrialização, juros e novas formas de trabalho precisam ocupar lugar central nas formulações da esquerda.

“O debate da economia define a vida real das pessoas”, afirmou. Na avaliação do dirigente, a discussão sobre projeto nacional passa necessariamente pela construção de alternativas concretas para trabalhadores urbanos e rurais, especialmente diante das transformações provocadas pela digitalização da economia e pelo avanço da inteligência artificial.

Rodrigues argumentou que parte da nova geração de trabalhadores está sendo atraída por discursos ligados ao empreendedorismo individual e que os movimentos populares precisam apresentar respostas econômicas capazes de dialogar com essa realidade. Para ele, a defesa de direitos continua importante, mas não é suficiente para mobilizar amplos setores da população.

O dirigente citou como exemplo a situação de pequenos produtores rurais. Segundo ele, garantir a permanência dessas famílias no campo exige enfrentar problemas relacionados à produtividade, ao acesso à tecnologia, à industrialização da produção e à renda. Sem isso, afirmou, discursos simplificados sobre sucesso individual tendem a ganhar espaço.

A mesma lógica, segundo Rodrigues, vale para trabalhadores urbanos submetidos à precarização e à chamada uberização do trabalho. Ele defendeu que a esquerda apresente propostas para regular as plataformas digitais e construir formas de organização econômica que garantam renda e proteção social.

Outro ponto destacado foi o impacto da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. Rodrigues avaliou que o tema ainda não ocupa o espaço necessário nas discussões políticas e sindicais. Para ele, o avanço tecnológico deve ser orientado para reduzir o esforço físico dos trabalhadores, ampliar o tempo livre e aumentar a capacidade produtiva do país.

“O governo federal tem feito um esforço muito grande, mas nós vamos ser atropelados pela inteligência artificial. A esquerda precisa discutir isso”, afirmou.

Na entrevista, o dirigente também relacionou o debate econômico à necessidade de um projeto nacional mais amplo, capaz de enfrentar a dependência financeira do país, estimular a industrialização e gerar empregos. Segundo ele, temas como a política de juros, o papel do Banco Central e a destinação dos recursos públicos precisam ser incorporados ao cotidiano das organizações populares.

Para Rodrigues, a construção de um novo ciclo político exige que movimentos sociais, sindicatos, universidades e organizações populares debatam não apenas reivindicações específicas, mas também os rumos da economia brasileira. Ele defendeu que a elaboração desse projeto ocorra paralelamente à disputa eleitoral e continue após as eleições, como parte de um processo permanente de mobilização social.

Ao final da entrevista, o dirigente reafirmou que discutir economia é condição para enfrentar problemas estruturais do país e aproximar a política da vida concreta da população. “Por que o Banco Central não baixa o juro? Por que temos tanto endividamento? Esses assuntos precisam estar na pauta, porque são eles que definem a vida real das pessoas”, concluiu.

 

Fonte: Brasil 247

 

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