Oliveiros
Marques: Ideias para renovar as esquerdas
Não
pude resistir à aventura de comentar esta obra. De escrita fluida, de coesão
que não permite fugas, de conteúdo articulado e pensamento absurdamente
contemporâneo, Ideias para renovar as esquerdas, de Juliano Medeiros, publicada
pela editora Contracorrente, embora tenha menos de uma semana de lançamento, já
reúne páginas fundamentais para que compreendamos o momento presente e nos
lancemos à militância de hoje e de amanhã — se não com mais respostas, ao menos
com as perguntas necessárias a serem feitas.
Juliano
foi militante do movimento estudantil, presidente nacional do PSOL e hoje
preside a federação Rede-PSOL, além de coordenar a Rede Futuro, uma plataforma
militante de articulação que reúne militantes e dirigentes de movimentos
sociais e organizações de esquerda de toda a América Latina. É a partir desse
lugar de observação e atuação que, recorrendo a autores importantes da
filosofia, da sociologia, da economia e da ciência política, ele aguça o olhar
— como quem maneja estetoscópios, lupas e microscópios — para contribuir com
este tão necessário debate sobre o futuro das esquerdas, em especial na América
Latina.
A obra
começa com uma observação fundamental que, na maioria das vezes, parece escapar
à percepção de dirigentes e lideranças de esquerda: insistindo em repetir
velhas análises e estratégias já desgastadas, muitos não percebem que o mundo
mudou — e que, tendo o mundo mudado, as mulheres e os homens de hoje também são
outros.
Juliano
desmonta o falso debate que opõe “lutas de classe” a “lutas identitárias”. Sem
afirmá-lo diretamente, deixa claro que essa separação é uma grande bobagem,
pois hoje “a classe trabalhadora e o conflito entre capital e trabalho são
atravessados por outras formas de opressão que são igualmente funcionais ao
sistema do capital, como o machismo, o racismo e a homofobia”.
Nesse
sentido, o autor sugere que não basta pensar a redistribuição da riqueza
restrita à sua dimensão econômica. É aqui que entram, por exemplo, a questão
climática e a redução da jornada de trabalho. E, no debate sobre o tempo
destinado ao trabalho, Juliano insere categorias que considero fundamentais
para pensarmos a atuação das esquerdas no Brasil e no mundo: família e cuidado.
Não vou me alongar em discorrer sobre esses pontos, pois considero essencial
que você, que lê estas poucas e mal traçadas linhas, beba diretamente da fonte
e leia o livro. Mas destaco que a luz que Juliano projeta sobre essas duas
categorias deveria estar presente nos capacetes de mineiro que usamos em nossos
movimentos diários, emitindo raios de atenção sobre elas. Trata-se de uma
disputa de grande envergadura, especialmente no Brasil, frente à apropriação
indevida que o bolsonarismo fez de ambos os conceitos — transformando “família”
em bandeira de conservadorismo moral e “cuidado” em discurso esvaziado de
qualquer compromisso com políticas públicas efetivas.
A obra,
no entanto, destaca diversas outras agendas que podem contribuir para a
renovação das esquerdas — entre elas, a reinvenção das formas de organização
política, o enfrentamento da crise de representação e a construção de novas
narrativas capazes de dialogar com as subjetividades contemporâneas. Mas
concluo, a partir da leitura, que família e cuidado podem ser a chave para
retomarmos o diálogo revolucionário com os homens e mulheres de hoje.
Vale a
leitura. E, acima de tudo, vale o debate que essa leitura certamente provocará.
Sem verdades absolutas, mas com as provocações necessárias — afinal, nos
últimos anos, a adoção de uma práxis pela práxis tem absorvido boa parte da
capacidade de pensar e refletir do nosso campo.
• “'A esquerda precisa trazer o debate da
economia para nós'”, diz dirigente do MST
O
integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), João Paulo Rodrigues, afirmou que a esquerda brasileira precisa colocar
a economia no centro do debate político e programático para responder aos
desafios enfrentados pela classe trabalhadora e construir um novo projeto
nacional de desenvolvimento. A declaração foi dada durante entrevista ao
programa Brasil Popular, da TV 247.
Segundo
Rodrigues, os problemas enfrentados pela população não podem ser discutidos
apenas a partir das pautas tradicionais de direitos ou da organização política
dos movimentos sociais. Para ele, questões como endividamento das famílias,
emprego, industrialização, juros e novas formas de trabalho precisam ocupar
lugar central nas formulações da esquerda.
“O
debate da economia define a vida real das pessoas”, afirmou. Na avaliação do
dirigente, a discussão sobre projeto nacional passa necessariamente pela
construção de alternativas concretas para trabalhadores urbanos e rurais,
especialmente diante das transformações provocadas pela digitalização da
economia e pelo avanço da inteligência artificial.
Rodrigues
argumentou que parte da nova geração de trabalhadores está sendo atraída por
discursos ligados ao empreendedorismo individual e que os movimentos populares
precisam apresentar respostas econômicas capazes de dialogar com essa
realidade. Para ele, a defesa de direitos continua importante, mas não é
suficiente para mobilizar amplos setores da população.
O
dirigente citou como exemplo a situação de pequenos produtores rurais. Segundo
ele, garantir a permanência dessas famílias no campo exige enfrentar problemas
relacionados à produtividade, ao acesso à tecnologia, à industrialização da
produção e à renda. Sem isso, afirmou, discursos simplificados sobre sucesso
individual tendem a ganhar espaço.
A mesma
lógica, segundo Rodrigues, vale para trabalhadores urbanos submetidos à
precarização e à chamada uberização do trabalho. Ele defendeu que a esquerda
apresente propostas para regular as plataformas digitais e construir formas de
organização econômica que garantam renda e proteção social.
Outro
ponto destacado foi o impacto da inteligência artificial sobre o mercado de
trabalho. Rodrigues avaliou que o tema ainda não ocupa o espaço necessário nas
discussões políticas e sindicais. Para ele, o avanço tecnológico deve ser
orientado para reduzir o esforço físico dos trabalhadores, ampliar o tempo
livre e aumentar a capacidade produtiva do país.
“O
governo federal tem feito um esforço muito grande, mas nós vamos ser
atropelados pela inteligência artificial. A esquerda precisa discutir isso”,
afirmou.
Na
entrevista, o dirigente também relacionou o debate econômico à necessidade de
um projeto nacional mais amplo, capaz de enfrentar a dependência financeira do
país, estimular a industrialização e gerar empregos. Segundo ele, temas como a
política de juros, o papel do Banco Central e a destinação dos recursos
públicos precisam ser incorporados ao cotidiano das organizações populares.
Para
Rodrigues, a construção de um novo ciclo político exige que movimentos sociais,
sindicatos, universidades e organizações populares debatam não apenas
reivindicações específicas, mas também os rumos da economia brasileira. Ele
defendeu que a elaboração desse projeto ocorra paralelamente à disputa
eleitoral e continue após as eleições, como parte de um processo permanente de
mobilização social.
Ao
final da entrevista, o dirigente reafirmou que discutir economia é condição
para enfrentar problemas estruturais do país e aproximar a política da vida
concreta da população. “Por que o Banco Central não baixa o juro? Por que temos
tanto endividamento? Esses assuntos precisam estar na pauta, porque são eles
que definem a vida real das pessoas”, concluiu.
Fonte:
Brasil 247

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