Jorge
Santana: Passou da hora de proibir as bets
Durante
décadas, o Brasil discutiu se deveria ou não legalizar cassinos e o argumento
contrário sempre foi conhecido: o jogo de azar estimula o vício, destrói
patrimônios e produz graves consequências sociais. Curiosamente, enquanto esse
debate permanecia aberto, permitimos que um cassino infinitamente maior fosse
instalado no bolso de praticamente todos os brasileiros, bastando um telefone
celular para acessá-lo.
As
plataformas de apostas esportivas transformaram o jogo em um produto disponível
vinte e quatro horas por dia, acessível em poucos segundos e impulsionado por
uma máquina de publicidade sem precedentes. Hoje, artistas, jogadores de
futebol, influenciadores digitais e até clubes esportivos disputam contratos
milionários para convencer seus seguidores de que apostar é diversão,
inteligência ou até uma forma de ganhar dinheiro. Só que as bets são um negócio
cuja sobrevivência depende exatamente do contrário.
Toda
bet parte de uma verdade matemática incontornável: se os apostadores ganhassem,
as empresas quebrariam. O lucro permanente dessas plataformas só existe porque,
no conjunto, a imensa maioria perde. Essa não é uma opinião, mas a lógica
estatística que sustenta qualquer jogo de azar.
Ainda
assim, milhões de brasileiros acreditam que podem vencer as probabilidades. Não
porque desconheçam completamente a matemática, mas porque compartilham uma das
mais antigas fragilidades humanas: acreditar que serão a exceção. As bets
vendem exatamente essa esperança estatisticamente falsa, exibindo os poucos
vencedores para esconder os incontáveis perdedores. Assim, alimentam a ilusão
do ganho, quando, na realidade, a vantagem permanece sempre do lado da banca.
O
resultado já pode ser percebido nos orçamentos familiares, quando recursos que
deveriam financiar alimentação, educação, saúde ou poupança migram para
plataformas cuja única finalidade é capturar renda privada. O aumento do
endividamento das famílias brasileiras possui diversas causas, mas é impossível
ignorar o papel crescente das apostas on-line nesse cenário. O dinheiro que
desaparece nas bets deixa de circular na economia real, enfraquece o comércio,
compromete investimentos familiares e amplia situações de vulnerabilidade
social.
Os
defensores da atividade costumam invocar a liberdade individual: cada um
deveria ser livre para gastar seu dinheiro como desejar. Em tese, parece um
argumento irrefutável, mas na prática nenhuma liberdade é absoluta quando seus
efeitos recaem sobre toda a sociedade. O Estado restringe inúmeras atividades
potencialmente danosas justamente porque os custos sociais superam os
benefícios privados, por isso o debate sobre as bets deve ser tratado sob essa
mesma perspectiva.
Outro
argumento recorrente é o da arrecadação de impostos e da geração de empregos,
uma tentativa de inverter a lógica do problema, uma vez que também atividades
nocivas podem arrecadar tributos. A verdadeira pergunta é outra: o benefício
fiscal compensa o aumento do endividamento, da dependência, da desestruturação
familiar e da perda de produtividade? Quando uma atividade econômica prospera à
custa da destruição financeira de parte significativa de seus consumidores, é
hora de reconhecer que ela produz mais prejuízos do que riqueza.
Se uma
sociedade entende que algum tipo de jogo deve existir, as loterias oficiais já
cumprem esse papel histórico, sob rígido controle estatal e com publicidade
muito mais limitada. Não há qualquer necessidade social que justifique milhares
de plataformas privadas estimulando apostas ininterruptamente por meio de
campanhas publicitárias agressivas e algoritmos concebidos para manter o
usuário permanentemente conectado.
Nesse
cenário, merece especial reprovação o comportamento de artistas, atletas e
influenciadores que emprestam sua credibilidade a esse mercado. Não se trata de
anunciar um refrigerante, um automóvel ou uma marca de roupas, mas de usar
prestígio e poder de influência para incentivar uma atividade cujo modelo de
negócios depende da perda financeira recorrente de seus próprios seguidores. Ao
aceitarem contratos milionários, tornam-se legitimadores e cúmplices de um
mecanismo que transfere renda justamente daqueles que menos podem perdê-la.
Costuma-se
dizer que o Estado não deve tratar adultos como criança, mas acredito que
também não deva agir como um incentivador de cassino. Ao autorizar,
regulamentar e arrecadar sobre um modelo de negócios que prospera quando a
maioria perde, o poder público deixa de cumprir sua missão de proteger o
interesse coletivo para tornar-se beneficiário de um problema social.
O
Brasil não precisa de mais apostas e sim de mais poupança, mais investimento,
mais produção e mais oportunidades reais de ascensão econômica. Já convivemos
há décadas com as loterias oficiais, não havendo qualquer necessidade de abrir
as portas para um sistema muito mais invasivo, permanente e destrutivo. Algumas
atividades simplesmente produzem mais danos do que benefícios e as bets já
demonstraram pertencer a essa categoria, portanto está na hora de reconhecer
esse erro e corrigi-lo, proibindo-as o mais rapidamente possível.
• Viúva de policial diz que vício em bets
destruiu a família e relembra morte do marido: ‘Não é só um joguinho’
A
enfermeira Raquel Maria publicou um vídeo nas redes sociais para alertar sobre
os riscos das apostas on-line. Viúva do tenente da Polícia Militar de Goiás
Danilo Lopes Negrão, ela afirmou que o marido começou a apostar durante a Copa
do Mundo de 2022, desenvolveu um vício, acumulou uma dívida de quase R$ 1
milhão e a situação acabou destruindo a família.
O vídeo
foi publicado na quarta-feira (24) e rapidamente repercutiu nas redes sociais.
Desde então, segundo Raquel, ela passou a receber dezenas de mensagens de
pessoas que também enfrentam problemas com apostas.
"Eu
quero deixar um alerta aqui para vocês: gente, não joguem. Não joguem porque
pode ser um caminho sem volta", disse.
Ela
explicou que decidiu gravar o relato justamente em um dia de jogo da Copa do
Mundo para tentar conscientizar outras pessoas sobre os impactos que, segundo
ela, as bets podem causar: "Esse jogo veio para destruir vidas, sim. E é
onde a gente menos espera", afirmou.
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Início das apostas
No
vídeo, Raquel descreve Danilo como um homem trabalhador, dedicado à família e
admirado por quem o conhecia. Segundo ela, a mudança começou quando ele passou
a apostar.
"Ele
era uma pessoa admirável, um homem incrível, honrado, provedor, trabalhador,
honesto, um bom pai de família. Quem conheceu ele sabe que ele era
maravilhoso", contou.
De
acordo com a enfermeira, o marido começou ganhando dinheiro nas apostas, mas,
com o passar do tempo, passou a perder grandes quantias.
"Tudo
o que ele ganhava ele já jogava ali de imediato. Foi muito dinheiro",
relatou.
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Apoio da família
Raquel
contou ao g1 que a dívida acumulada por Danilo chegou a quase R$ 1 milhão.
Segundo ela, o policial passou a fazer empréstimos para continuar apostando,
enquanto a família tentava ajudá-lo.
"Ele
começou a pegar dinheiro emprestado. A família tentou ajudar, acolheu ele. Todo
mundo tentou, de alguma forma, ajudar ele a sair desse vício", disse.
Ainda
segundo Raquel, o marido apresentou sintomas de ansiedade e depressão. Ele
chegou a buscar atendimento psicológico e médico.
"Ele
entrou numa depressão porque estava devendo muito dinheiro e viu que estava
perdendo a dignidade dele como homem", afirmou.
Danilo
Negrão morreu aos 41 anos, cerca de sete meses após o fim da Copa do Mundo de
2022.
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Alerta para outras famílias
Ao
longo do vídeo, Raquel afirma que o objetivo não é julgar quem aposta, mas
evitar que outras famílias enfrentem uma situação semelhante.
"Não
joguem. Não joguem com consciência, não joguem pouco, não joguem muito, não
joguem nada. Esse jogo não vai te levar para lugar nenhum", disse.
Ela
contou ainda que passou a receber mensagens de pessoas que vivem situações
parecidas. "Virei a noite respondendo as pessoas pedindo socorro. Tem
gente por um fio de fazer besteira. Pessoas que acabaram casamento, perderam
casa, carro e o emprego", relatou ao g1.
Segundo
Raquel, ela pretende divulgar formas de bloquear o acesso às plataformas de
apostas para incentivar pessoas que desejam abandonar o hábito.
"Eu
só quero poder, de alguma forma, ajudar alguém com a minha história. A tragédia
é real. É uma tragédia anunciada. Se você puder parar, pare de jogar",
declarou.
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Reconstruindo a vida
Um ano
após a morte do marido, Raquel escreveu nas redes sociais que convivia com
"a dor da saudade, do trauma e da culpa". Atualmente, ela diz que os
sentimentos mudaram.
"A
saudade ficou. Mas eu vi que não foi culpa minha. Eu tentei ajudar ele e até
adoeci na época por causa da situação. Todos da família tentaram ajudar, mas o
desespero falou mais alto. Ninguém tinha noção do tamanho da dívida, só
descobri depois da morte", contou.
Raquel
diz que a filha do casal, de 8 anos, é o principal motivo para seguir em
frente.
"Graças
a Deus eu consigo seguir, até porque nunca pude parar. Nunca tive tempo de
sofrer o luto, porque tinha uma criança para cuidar. Ela é meu combustível. E
sofre muito com a saudade do pai", afirmou
Fonte:
Brasil 247/g1

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