terça-feira, 30 de junho de 2026

Jorge Santana: Passou da hora de proibir as bets

Durante décadas, o Brasil discutiu se deveria ou não legalizar cassinos e o argumento contrário sempre foi conhecido: o jogo de azar estimula o vício, destrói patrimônios e produz graves consequências sociais. Curiosamente, enquanto esse debate permanecia aberto, permitimos que um cassino infinitamente maior fosse instalado no bolso de praticamente todos os brasileiros, bastando um telefone celular para acessá-lo.

As plataformas de apostas esportivas transformaram o jogo em um produto disponível vinte e quatro horas por dia, acessível em poucos segundos e impulsionado por uma máquina de publicidade sem precedentes. Hoje, artistas, jogadores de futebol, influenciadores digitais e até clubes esportivos disputam contratos milionários para convencer seus seguidores de que apostar é diversão, inteligência ou até uma forma de ganhar dinheiro. Só que as bets são um negócio cuja sobrevivência depende exatamente do contrário.

Toda bet parte de uma verdade matemática incontornável: se os apostadores ganhassem, as empresas quebrariam. O lucro permanente dessas plataformas só existe porque, no conjunto, a imensa maioria perde. Essa não é uma opinião, mas a lógica estatística que sustenta qualquer jogo de azar.

Ainda assim, milhões de brasileiros acreditam que podem vencer as probabilidades. Não porque desconheçam completamente a matemática, mas porque compartilham uma das mais antigas fragilidades humanas: acreditar que serão a exceção. As bets vendem exatamente essa esperança estatisticamente falsa, exibindo os poucos vencedores para esconder os incontáveis perdedores. Assim, alimentam a ilusão do ganho, quando, na realidade, a vantagem permanece sempre do lado da banca.

O resultado já pode ser percebido nos orçamentos familiares, quando recursos que deveriam financiar alimentação, educação, saúde ou poupança migram para plataformas cuja única finalidade é capturar renda privada. O aumento do endividamento das famílias brasileiras possui diversas causas, mas é impossível ignorar o papel crescente das apostas on-line nesse cenário. O dinheiro que desaparece nas bets deixa de circular na economia real, enfraquece o comércio, compromete investimentos familiares e amplia situações de vulnerabilidade social.

Os defensores da atividade costumam invocar a liberdade individual: cada um deveria ser livre para gastar seu dinheiro como desejar. Em tese, parece um argumento irrefutável, mas na prática nenhuma liberdade é absoluta quando seus efeitos recaem sobre toda a sociedade. O Estado restringe inúmeras atividades potencialmente danosas justamente porque os custos sociais superam os benefícios privados, por isso o debate sobre as bets deve ser tratado sob essa mesma perspectiva.

Outro argumento recorrente é o da arrecadação de impostos e da geração de empregos, uma tentativa de inverter a lógica do problema, uma vez que também atividades nocivas podem arrecadar tributos. A verdadeira pergunta é outra: o benefício fiscal compensa o aumento do endividamento, da dependência, da desestruturação familiar e da perda de produtividade? Quando uma atividade econômica prospera à custa da destruição financeira de parte significativa de seus consumidores, é hora de reconhecer que ela produz mais prejuízos do que riqueza.

Se uma sociedade entende que algum tipo de jogo deve existir, as loterias oficiais já cumprem esse papel histórico, sob rígido controle estatal e com publicidade muito mais limitada. Não há qualquer necessidade social que justifique milhares de plataformas privadas estimulando apostas ininterruptamente por meio de campanhas publicitárias agressivas e algoritmos concebidos para manter o usuário permanentemente conectado.

Nesse cenário, merece especial reprovação o comportamento de artistas, atletas e influenciadores que emprestam sua credibilidade a esse mercado. Não se trata de anunciar um refrigerante, um automóvel ou uma marca de roupas, mas de usar prestígio e poder de influência para incentivar uma atividade cujo modelo de negócios depende da perda financeira recorrente de seus próprios seguidores. Ao aceitarem contratos milionários, tornam-se legitimadores e cúmplices de um mecanismo que transfere renda justamente daqueles que menos podem perdê-la.

Costuma-se dizer que o Estado não deve tratar adultos como criança, mas acredito que também não deva agir como um incentivador de cassino. Ao autorizar, regulamentar e arrecadar sobre um modelo de negócios que prospera quando a maioria perde, o poder público deixa de cumprir sua missão de proteger o interesse coletivo para tornar-se beneficiário de um problema social.

O Brasil não precisa de mais apostas e sim de mais poupança, mais investimento, mais produção e mais oportunidades reais de ascensão econômica. Já convivemos há décadas com as loterias oficiais, não havendo qualquer necessidade de abrir as portas para um sistema muito mais invasivo, permanente e destrutivo. Algumas atividades simplesmente produzem mais danos do que benefícios e as bets já demonstraram pertencer a essa categoria, portanto está na hora de reconhecer esse erro e corrigi-lo, proibindo-as o mais rapidamente possível.

•        Viúva de policial diz que vício em bets destruiu a família e relembra morte do marido: ‘Não é só um joguinho’

A enfermeira Raquel Maria publicou um vídeo nas redes sociais para alertar sobre os riscos das apostas on-line. Viúva do tenente da Polícia Militar de Goiás Danilo Lopes Negrão, ela afirmou que o marido começou a apostar durante a Copa do Mundo de 2022, desenvolveu um vício, acumulou uma dívida de quase R$ 1 milhão e a situação acabou destruindo a família.

O vídeo foi publicado na quarta-feira (24) e rapidamente repercutiu nas redes sociais. Desde então, segundo Raquel, ela passou a receber dezenas de mensagens de pessoas que também enfrentam problemas com apostas.

"Eu quero deixar um alerta aqui para vocês: gente, não joguem. Não joguem porque pode ser um caminho sem volta", disse.

Ela explicou que decidiu gravar o relato justamente em um dia de jogo da Copa do Mundo para tentar conscientizar outras pessoas sobre os impactos que, segundo ela, as bets podem causar: "Esse jogo veio para destruir vidas, sim. E é onde a gente menos espera", afirmou.

<><> Início das apostas

No vídeo, Raquel descreve Danilo como um homem trabalhador, dedicado à família e admirado por quem o conhecia. Segundo ela, a mudança começou quando ele passou a apostar.

"Ele era uma pessoa admirável, um homem incrível, honrado, provedor, trabalhador, honesto, um bom pai de família. Quem conheceu ele sabe que ele era maravilhoso", contou.

De acordo com a enfermeira, o marido começou ganhando dinheiro nas apostas, mas, com o passar do tempo, passou a perder grandes quantias.

"Tudo o que ele ganhava ele já jogava ali de imediato. Foi muito dinheiro", relatou.

<><> Apoio da família

Raquel contou ao g1 que a dívida acumulada por Danilo chegou a quase R$ 1 milhão. Segundo ela, o policial passou a fazer empréstimos para continuar apostando, enquanto a família tentava ajudá-lo.

"Ele começou a pegar dinheiro emprestado. A família tentou ajudar, acolheu ele. Todo mundo tentou, de alguma forma, ajudar ele a sair desse vício", disse.

Ainda segundo Raquel, o marido apresentou sintomas de ansiedade e depressão. Ele chegou a buscar atendimento psicológico e médico.

"Ele entrou numa depressão porque estava devendo muito dinheiro e viu que estava perdendo a dignidade dele como homem", afirmou.

Danilo Negrão morreu aos 41 anos, cerca de sete meses após o fim da Copa do Mundo de 2022.

<><> Alerta para outras famílias

Ao longo do vídeo, Raquel afirma que o objetivo não é julgar quem aposta, mas evitar que outras famílias enfrentem uma situação semelhante.

"Não joguem. Não joguem com consciência, não joguem pouco, não joguem muito, não joguem nada. Esse jogo não vai te levar para lugar nenhum", disse.

Ela contou ainda que passou a receber mensagens de pessoas que vivem situações parecidas. "Virei a noite respondendo as pessoas pedindo socorro. Tem gente por um fio de fazer besteira. Pessoas que acabaram casamento, perderam casa, carro e o emprego", relatou ao g1.

Segundo Raquel, ela pretende divulgar formas de bloquear o acesso às plataformas de apostas para incentivar pessoas que desejam abandonar o hábito.

"Eu só quero poder, de alguma forma, ajudar alguém com a minha história. A tragédia é real. É uma tragédia anunciada. Se você puder parar, pare de jogar", declarou.

<><> Reconstruindo a vida

Um ano após a morte do marido, Raquel escreveu nas redes sociais que convivia com "a dor da saudade, do trauma e da culpa". Atualmente, ela diz que os sentimentos mudaram.

"A saudade ficou. Mas eu vi que não foi culpa minha. Eu tentei ajudar ele e até adoeci na época por causa da situação. Todos da família tentaram ajudar, mas o desespero falou mais alto. Ninguém tinha noção do tamanho da dívida, só descobri depois da morte", contou.

Raquel diz que a filha do casal, de 8 anos, é o principal motivo para seguir em frente.

"Graças a Deus eu consigo seguir, até porque nunca pude parar. Nunca tive tempo de sofrer o luto, porque tinha uma criança para cuidar. Ela é meu combustível. E sofre muito com a saudade do pai", afirmou

 

Fonte: Brasil 247/g1

 

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