segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Jean Marc von der Weid: “Em política, o que parece, é”

Dizia um amigo português, militante da luta contra o fascismo na “velha terrinha”, que tudo o que sobrou dos muitos anos de discursos e escritos de António Salazar foi uma frase, a que escolhi como título deste artigo. Parece pouco para tanto tempo do ditador na política, mas não deixa de ser algo a ser considerado sábio.

Lembrei-me deste dito “histórico” ao matutar sobre as reações de vários lados sobre o caso do banco Master.

Nas palavras do ministro da Fazenda, este deve ser o mais importante caso de falcatrua bancária da nossa República, não só pelos (até agora) 41 bilhões de desfalques, mas porque envolve cada vez mais figuras poderosas dos bancos, de administrações estaduais e municipais, do Congresso, do TCU, da CVM, de tribunais de primeiro grau e do próprio STF. De quebra encontramos uma penca de influenciadores digitais, pagos por Daniel Vorcaro para usar suas redes para defendê-lo.

Ficaram de fora o e Executivo Federal (inicialmente), a Polícia Federal e o Banco Central e os partidos de esquerda (PT, PSOL e PcdoB). Do ponto de vista político (e criminal), o caso Master vem comprometendo cada vez mais personagens da direita.

O presidente Lula, após um longo silëncio, baixou um malho indignado em um “cidadão” que afanou 41 bilhões (Daniel Vorcaro, claramente) e em “gente sem vergonha na cara” que estaria tentando salvar o estafador. Pelo contexto da fala ele pareceu se referir ao ministro do STF, Dias Toffoli. Ponto para Lula.

Muita gente que vem defendendo o STF nas redes socais, em nome do seu papel na luta pela democracia, deve ter enfiado a carapuça do discurso do presidente. Tenho lido inúmeras mensagens que atribuem as críticas ao papel de Dias Toffoli e as suspeitas do papel de Xandão a uma nova “operação Lava Jato”, visando enfraquecer o Supremo e, através deste, a democracia.

O ataque à jornalista que denunciou os dois ministros foi do tipo arrasa quarteirão, como se investigar fatos suspeitos fosse parte de um “complô da mídia” e do bolsonarismo. Isto é, para mim, desviar o foco da crise, aliviando a direitalha que aparece cada vez mais implicada no affaire. Ao comparar o caso Master com a Lava Jato, a parte da esquerda que emburacou nesta ofensiva, só mostrou o quanto ainda se sente vulnerável com os casos do mensalão e do petrolão.

Isto me leva a outra lembrança, a de uma piada velhíssima sobre o cego que tentou descobrir qual era o animal que ele tinha diante de si através do tato. Ele toca na tromba, nas patas, no chifre e nas orelhas de um elefante, mas erra o tipo de animal da charada. No caso da Lava Jato, tínhamos dúzias de réus confessos e muitos milhões de recursos desviados devolvidos, mas os nossos cegos não concluíram que havia corrupção, e sim que tudo era um golpe da mídia antipetista e do juizinho mequetrefe da “república de Curitiba”. É como confundir elefante com beija flor.

É claro que houve lawfare e que o juizinho extrapolou e manipulou a lei para implicar o governo de Dilma Rousseff. No entanto, apesar do uso político do processo, os dados concretos apresentados permitiam concluir a existência do elefante da corrupção. O mesmo Dias Toffoli foi lavajatista, como, até metade do segundo tempo da partida, o conjunto do STF também, ao ponto de enfiarem Lula na cadeia. Como a conjuntura política mudou, o STF passou um pano, um verdadeiro esfregão, na Lava Jato, com Dias Toffoli (e Gilmar Mendes e outros), anulando o processo por razões técnicas.

A esquerda passou a proclamar a inocência dos acusados, livrando réus petistas e muitos outros, políticos do Centrão, beneficiários dos desvios. Na verdade, ninguém foi inocentado por estas anulações, apenas os processos foram invalidados e prescreveram. Mas, como dizia António Salazar, em política o que parece, é.

E tudo parecia indicar a existência de um esquema de corrupção em curso para permitir comprar maiorias eventuais no Congresso. O que meus camaradas da esquerda não perceberam é que o público ficou com um gosto amargo e entendeu tudo isto como uma traição dos partidos que se criaram e cresceram denunciando a falta de ética na política sobretudo, por sua importância, o PT.

Hoje o elefante é outro, mas segue sendo um elefante e não pode ser confundido com qualquer outro animal. Temos um caso espetacular de corrupção, desta vez com a direita em bloco envolvida nas teias de Vorcaro. Defender o STF em nome da democracia é tentar abafar o caso e isto a esquerda vem fazendo, para a alegria da direita.

Dias Toffoli está se enrolando dia a dia na sua descarada tentativa de travar a investigação da Polícia Federal. Xandão está na muda e não responde a pergunta óbvia: quais os serviços prestados pelo escritório de advocacia da sua esposa ao banco Master, com valores milionários muito superiores aos do mercado? Ou, se ele acha que é ela quem tem que responder, por que não o faz?

Xandão, e todo o STF, votaram pela permissão de seus parentes advogarem para acusados em processos que chegam à Corte Suprema. O atual presidente do STF, Fachin, sensível ao desgaste da instituição, propõe a criação de um código de ética e seus pares fazem ouvidos de mercador. Claramente, este código de ética não deixaria de incluir o impedimento de escritórios de parentes em processos julgados pela Corte. Também impediria que ministros recebessem benesses, como caronas em jatinhos de advogados envolvidos em processos ou a participação em festanças, como a já notória “Gilmarpaloosa”, que se repete a cada ano. E em outras prebendas mais.

Andam explicando que Toffoli viajou em um jatinho de Daniel Vorcaro e em companhia de um de seus advogados, mas antes do processo chegar à Corte Suprema. A emenda é pior do que o soneto, pois foi justamente depois deste voo de torcedores que Dias Toffoli chamou para si o processo do Master, que corria em primeira instância, usando um pretexto tão frágil que o cheiro de queimado varreu a Praça dos Três Poderes. Foi só o primeiro de uma série de gestos que alentaram os defensores de Daniel Vorcaro e que não vou apresentar aqui por serem bem conhecidos.

Edson Fachin deu um tiro no pé do STF ao dar sustentação a Dias Toffoli frente à maré de denúncias de atos e relações suspeitos do  ministro e que vem freando a ação da PF. Nesta defesa foi secundado, publicamente, por Gilmar Mendes e Xandão.  O discurso soou como o das redes sociais: a democracia está sendo atacada pelas críticas ao comportamento de alguns dos ministros do STF.

A persistir a caradura de Dias Toffoli na sua campanha para livrar Daniel Vorcaro, a lama vai mais que respingar, vai lambuzar a imagem da Corte frente ao público e este estrago sim, vai enfraquecer a democracia. É tudo que a direita quer.

Devíamos estar atacando os partidos cujos prefeitos e governadores investiram pesadamente (e suspeitosamente) no banco Master e se encontram no vórtice das investigações. Começando com o PL, em que três executivos comprometeram mais de um bilhão dos recursos públicos sob seu controle. Seguem-se o Solidariedade (400 milhões), PSD (212 mi), Podemos (60 mi), União Brasil (50 mi), MDB (47 mi), PSDB (14,5 mi), PSB (14 mi) e PP (1,2 mi).

Os dados (parciais) vêm das investigações da “imprensa burguesa”, que está cumprindo o seu papel jornalístico. Entre os poíticos e executivos de maior realce encontramos Ciro Nogueira, Ibaneis Rocha e Claudio Castro. Com tanta munição para atacar os links entre políticos da extrema direita, direita, centrão et caterva os partidos da esquerda ainda não pediram uma CPI e quem está articulando são partidos da oposição. Talvez a direita espere poder controlar a CPI e focá-la no governo e nos partidos de esquerda, mas é um jogo arriscado com tanta informação comprometendo-os.

Estranhamente, a esquerda está mais ativa na defesa do STF, entendida como defesa da democracia e tendo como resultado aparecer (direta ou indiretamente) defendendo Dias Toffoli e Xandão. E o governo estava, até poucos dias atrás, quieto, ao ponto da PF e do Banco Central se queixarem de falta de apoio. Há quem considere que o governo ajudou discretamente Dias Toffoli pela posição do Procurador Geral da República, que indeferiu o pedido de afastamento deste último, feito por parlamentares da oposição.

Dirão os defensores do governo que a PGR é um organismo autônomo e independente do executivo, mas a nossa história desde a Constituinte mostra que os procuradores sempre são afinadíssimos com os desejos do presidente do momento.

O problema é que o jornalismo investigativo vem abrindo novas frentes de influência de Daniel Vorcaro e já começam a surgir notícias que chamuscam o governo com perguntas sem resposta até agora. Não apareceu nada diretamente comprometedor, mas já aparecem situações suspeitas.

Primeiro foi a notícia de uma intervenção de Lula, indicando para Daniel Vorcaro o nome de Guido Mantega para um cargo no banco Master com remuneração mensal milionária, mas agora sugiu o ex-ministro (do Supremo e do governo) Ricardo Lewandowski com seu escritório trabalhando para Daniel Vorcaro.

O senador Jacques Wagner assumiu a indicação “a pedidos”, sem que ele diga de quem, mas que só pode ser de Daniel Vorcaro ou de um seu sócio. E para fechar o cerco, noticiou-se, sem que tenha havido contestação, que Lula recebeu Daniel Vorcaro, levado por Guido Mantega, em dezembro de 2024, para uma reunião na Granja do Torto, com uma agenda que não foi revelada.

Lula parece ter queimado as pontes com o seu discurso, já citado. Mas as perguntas sem resposta vão aumentando o cheiro de queimado. Se, de fato, onde há fumaça há fogo, ficaria explicada a posição dúbia e reticente do Planalto e da esquerda, mas espero que o discurso agressivo de Lula dê o sinal para a esquerda tomar a ofensiva. E deveria começar por explicar a reunião com Vorcaro.

A outra explicação para a falta de combatividade da esquerda neste caso do banco Master é o que eu chamo de síndrome do telhado de vidro. Apesar da gritaria contra a Lava Jato e a desmoralização desta investigação, a esquerda saiu torrada frente à opinião pública e fica sem moral para cobrar ética dos outros. Infelizmente, apesar de militantes de peso do PT terem proposto um processo de autocrítica para buscar recuperar a supremacia moral que gozou na sociedade brasileira até a eleição de 2002, a posição foi derrotada e o partido enterrou-se para sempre na postura de negar insistentemente fatos evidentes e culpar SérgioMoro, a mídia e a direita pelo massacre que sofreu.

A posição defensiva é explicável do ponto de vista tático. Admitir a corrupção seria desastroso do ponto de vista processual, até porque sería difícilílimo livrar o próprio Lula das acusações de participação. A tática de negar tudo até o absurdo funcionou do ponto de vista legal, com o desmonte da Lava Jato. Mas politicamente (e estrategicamente) o público não se deixou enganar e criou-se uma posição antipetista derivada da decepção em relação à postura ética.

A esquerda não entendeu até hoje que corrupção não é um problema menor a ser esquecido frente aos avanços sociais promovidos pelos governos populares ( seria a volta do “rouba mas faz?”). A corrupção é parte integrante da lógica do sistema capitalista (e também de muitos sistemas ditos socialistas) e tem que ser combatida com firmeza.

Escrevi no tempo em que Lula assumiu seu primeiro governo que, um governo petista tinha que ser mais puro do que a mulher de César (que não só devia ser honesta, mas parecer honesta). Em outras palavras, o governo Lula tinha que estar acima de qualquer suspeita.

Mas, como o próprio Lula declarou na época do mensalão, o PT fez o que “todo mundo sempre fez”. Ele assumia a prática do “caixa dois”, praticada por todos os partidos da direita e do centro. Era uma confissão disfarçada e minimizada de corrupção pois a famosa caixa dois não era outra coisa senão dinheiro doado “por fora” aos partidos por empresários os quais, é claro, buscavam compensações em contratos públicos onde reinavam os superfaturamentos.

Na ânsia de obter recursos para competir com os partidos da direita, o PT buscou contribuições ilegais de empresários, sem entender que nesta disputa a direita sempre sai ganhando, por sua afinidade natural com o empresariado. Houve um pragmatismo do tipo: já que não se consegue controlar o financiamento ilegal da direita vamos pelo menos garantir uma parte para nós. Mas para cada contribuição para a esquerda, os empresários dobravam a aposta na direita. Não é preciso explicar, penso eu, o fato de que os mecanismos da corrupção distorcem a democracia e garantem a continuidade do controle político pelos donos do dinheiro.

Seja pela síndrome do telhado de vidro ou, pior, seja pelo eventual envolvimento de personalidades do governo ou da esquerda nos esquemas de Vorcaro, o fato é que estamos perdendo uma ótima oportunidade de ferir a direita com o seu próprio veneno, desmascarando o falso discurso moralista de políticos e pastores ou de pastores políticos. Vai ficando difícil ganhar esta eleição.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Jeffrey Epstein trocou elogios sobre Bolsonaro com Steve Bannon: 'Mudou o jogo'

Uma troca de emails atribuída a Jeffrey Epstein, criminoso sexual condenado nos Estados Unidos e morto em 2019, e Steve Bannon, ex-conselheiro do presidente americano, Donald Trump, e estrategista político, faz diversas menções elogiosas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

"Bolsonaro mudou o jogo. Nenhum refugiado quer entrar. Bruxelas não lhe diz o que fazer. Ele só precisa reativar a economia. MASSIVO", diz uma mensagem atribuída a Epstein em 8 de outubro de 2018.

Na véspera, Bolsonaro disputava a eleição presidencial contra o petista Fernando Haddad e havia obtido 49,2 milhões de votos (46% dos válidos), ante 31,3 milhões de Haddad (29,28%), o que garantiu um segundo turno, do qual ele sairia vitorioso.

A comunicação está entre os documentos divulgados na última sexta-feira (30/1) pelo Departamento de Justiça dos EUA, relacionados ao caso Epstein.

As novas mensagens também fazem menção ao presidente Lula, em um contexto de diálogos entre Epstein e o filósofo Noam Chomsky (mais detalhes aqui).

Bannon respondeu a Epstein que era próximo ao grupo do ex-presidente. "Eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?"

Epstein responde: "É meio o argumento 'reino no inferno' de novo".

Bannon declarou apoio explícito a Bolsonaro naquele ano.

Em entrevista à BBC News Brasil à época, após meses de intensas especulações sobre uma eventual participação dele na campanha, o ex-estrategista de Trump descreveu Bolsonaro como "líder", "brilhante", "sofisticado" e "muito parecido com Trump".

Ele negou, no entanto, que fizesse parte da campanha.

"Diga a ele que o meu candidato vai ganhar no primeiro turno", respondeu Bannon, aparentemente se referindo ao Bolsonaro.

"Bolsonaro é de verdade", respondeu Epstein (a expressão usada foi "the real deal", no original em inglês).

Eles também discutiram uma ida de Bannon ao Brasil para apoiar Bolsonaro.

Epstein afirmou: "Se você está confiante na vitória [de Bolsonaro], pode ser bom para sua marca se você fosse visto lá".

Há ainda um trecho da conversa divulgado nos documentos do governo dos EUA em que Epstein diz que não gostou de Bolsonaro ter chamado de "fake news" uma associação com Bannon.

Naquela época, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, deu declarações à imprensa de que Bannon estaria à disposição da família.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, Eduardo chegou a participar, em novembro de 2018, de um jantar de aniversário de Bannon.

Em resposta às declarações do filho e aos questionamentos da imprensa, Jair Bolsonaro disse que a parceria não existia.

"Tenho que manter essa coisa do Jair nos bastidores", disse Bannon. "Meu poder vem do fato de não ter ninguém para me defender."

Bannon disse à época que "ficou impressionado" com a dinâmica "jovem" da campanha de Bolsonaro. E disse que deu conselhos à família.

"Minha preocupação número um foi que ele fosse assassinado. Eu nem perguntei ao filho, apenas disse diretamente: 'Vocês precisam de segurança'", disse ele à BBC News Brasil, em 2018.

Epstein também aconselhou Bannon, segundo conversa que aparece em outro documento, a evitar falar de Bolsonaro quando ele se encontrasse com Noam Chomsky, em um encontro facilitado pelo empresário no Arizona.

"A esposa dele é brasileira, então vá com calma ao falar de Bolsonaro. Eles [o casal Chomsky] são amigos do Lula. Mas ele é uma figura icônica e não se deve perder a chance de conversar sobre história e política. Vou colocar vocês em contato por e-mail, para que possam se coordenar diretamente."

Chomsky mantinha uma relação próxima com Epstein, que teria usado suas habilidades financeiras para ajudá-lo e até oferecido estadia em suas casas.

"Ele vai querer saber se você está do lado dos pequenos: corte de impostos, ataques à saúde pública e as ameaças bolsonaristas aos trabalhadores organizados", teria dito Epstein a Bannon, antes do encontro.

¨      Mensagens de Bannon no caso Epstein citam atuação nos bastidores da campanha de Jair Bolsonaro

Mensagens divulgadas nesta sexta-feira (30) pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos trouxeram à tona referências diretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em conversas privadas envolvendo o estrategista da direita internacional Steve Bannon. Os diálogos integram os arquivos do caso Jeffrey Epstein e foram trocados em outubro de 2018, poucos dias após o primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, disputadas por Bolsonaro e Fernando Haddad (PT).

A revelação foi publicada inicialmente pelo portal Brasil de Fato, que analisou trechos das conversas tornadas públicas. Em uma mensagem datada de sexta-feira (12), Bannon afirma que precisava “manter essa coisa do Jair [Bolsonaro] nos bastidores”, em referência à sua atuação no contexto eleitoral brasileiro. O interlocutor aparece com o nome ocultado por tarjas, mas, com base no conteúdo e em trocas anteriores, é possivelmente o próprio Jeffrey Epstein.

Na sequência do diálogo, a pessoa de identidade não revelada comenta a postura pública de Bolsonaro durante a campanha. “Não gostei de Bolsonaro chamando qualquer associação com você de ‘fake news’, embora eu compreenda”, afirma. Em seguida, acrescenta: “Eu preferiria um boné MBGA [possível menção a Make Brazil Great Again]”.

Bannon responde destacando sua estratégia de atuação política. “Tenho de manter a coisa do Jair nos bastidores. Meu poder vem de não ter ninguém me defendendo”, escreve o estrategista, conhecido por sua influência em articulações da extrema direita em diferentes países.

As mensagens mostram ainda que, dois dias antes, os dois já discutiam diretamente o cenário eleitoral brasileiro. O interlocutor descreve Bolsonaro como “um divisor de águas” e enumera pontos que considerava positivos. “Sem refugiados querendo entrar. Sem Bruxelas dizendo a ele o que fazer. Ele só tem de reiniciar a economia. Gigante. 1,8 trilhão PIB”, diz o texto. Bannon responde mencionando sua proximidade com aliados do então candidato: “Eu sou muito, muito próximo desses caras — eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?”.

Os diálogos reforçam informações já conhecidas sobre a aproximação entre Bannon e integrantes da família Bolsonaro. Em agosto de 2018, o estrategista encontrou-se com Eduardo Bolsonaro em Nova York, nos Estados Unidos. À época, o então deputado federal afirmou que Bannon era entusiasta da candidatura de Jair Bolsonaro e que ambos manteriam contato “para somar forças, principalmente contra o marxismo cultural”.

Jeffrey Epstein, bilionário norte-americano acusado de comandar um esquema de tráfico e exploração sexual de adolescentes envolvendo mais de mil vítimas, morreu em 2019 enquanto estava preso no Centro Correcional Metropolitano de Nova York. Ele foi encontrado morto em sua cela enquanto aguardava julgamento.

Na sexta-feira (30), o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou públicos mais de 3 milhões de páginas relacionadas ao caso, incluindo documentos, fotos e vídeos, alguns produzidos pelo próprio Epstein. Os arquivos também revelam acusações contra figuras públicas, entre elas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citado em denúncias de abuso sexual de uma adolescente.

¨      “Não duvido de absolutamente nada”, diz jurista

Novos documentos ligados ao caso Jeffrey Epstein, que voltam a associar Donald Trump a abusos sexuais, foram divulgados. No Brasil, a menção indireta ao nome de Jair Bolsonaro em conversas atribuídas a Steve Bannon também levantou questionamentos sobre possíveis vínculos obscuros do ex-presidente com figuras centrais da extrema direita global. De acordo com a advogada e jurista Soraia Mendes, embora ainda faltem informações concretas, não se pode descartar nenhum tipo de irregularidade envolvendo Bolsonaro.

“É uma figura que a gente também não pode duvidar de nada… o que eu duvido é que ele tivesse em algum momento cacife para estar numa ilha onde frequentada por príncipes e presidentes das maiores nações e o maior empresariado”. Para ela, a fala provavelmente estará ligada a esquemas de financiamento ou corrupção:

“Talvez é um escancarado financiamento, alguma coisa assim, para além daquilo que a gente já sabe que é a formação ideológica, enfim, que tomar de time a partir de fake news e tal, né? Não sei exatamente o que seria”, diz. A jurista também lembrou o histórico de declarações misóginas do ex-presidente, como a expressão “pintou um clima”, e disse não se surpreenderia com novas revelações. “Eu não duvido de nada, absolutamente nada. O Bannon é um estrategista.”

<><> Violência contra animais

O assassinato do cão Orelha, em Santa Catarina, e outros casos em diferentes regiões do país também foi comentado por Mendes. Há suspeitas de que o crime possa ter sido transmitido ao vivo pelo Discord, em meio a desafios sádicos que circulam na plataforma. Soraia afirmou ter evitado acompanhar os detalhes por considerar o episódio profundamente perturbador.

“Eu tenho uma posição que, segundo a qual, todas as vezes que nós estamos falando de violência contra mulheres, contra pessoas vulneráveis, contra animais, eu entendo que a resposta penal tem que ser a prisão.”

Mãe e “avó de PET”, ela ressaltou que esse tipo de crime é sintoma de um processo mais amplo de degradação social. “A gente tá passando por um período de trevas na civilização.” Para a jurista, a escalada da violência contra animais está diretamente conectada ao aumento do feminicídio e a um ambiente de brutalização generalizada: “Voltar-se em relação aos animais também faz parte desse retrocesso civilizatório”, disse.

Ela também apontou que plataformas como o Discord abrigam um “subterrâneo sem fundo” e defendeu regulação urgente. “Tudo isso demanda que se tenha, como nós já falamos há muito tempo aqui na Fórum, regulação para que essas coisas que acabam sendo também divulgadas e enaltecidas, infelizmente por muitas pessoas, não sejam transmitidas.”

<><> Dois pesos e duas medidas

Um dos pontos destacados pela jurista foi a crítica à forma desigual como jovens são tratados pela sociedade e pelo sistema de justiça, a depender de classe social e território. Ao comentar o caso dos rapazes acusados de matar o cachorro em Santa Catarina, cujas famílias teriam condições de enviá-los ao exterior, ela comparou com a realidade de adolescentes das periferias:

“Eu olho e aqui eu pessoalmente, mas a sociedade de uma forma geral numa determinada classe social olha para os seus filhos com 18, 19 e 20 anos e chama de garotos… mas é o bandido, o homem armado quando pertence a outra. São pessoas que tem absolutas condições de determinar quais são os limites da legislação e opções de vida.”

Para Soraia, não se trata de defender linchamentos, mas de exigir coerência. “Não são meninos realmente, são rapazes ou são homens que precisam responder pelos seus atos e precisam responder pelos seus atos muito fortemente.”

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Brasil/Fórum

 

Fórum Social Mundial, 25 anos: O que mudou

Neste janeiro de 2026 celebramos os 25 anos da primeira edição do Fórum Social Mundial realizada em Porto Alegre e que se lançou como um espaço de resistência e luta pela construção de um outro mundo possível, anticapitalista, anti-imperialista e radicalmente democrático.

Neste contexto de comemorações, é imprescindível refletirmos sobre o que é democracia nos dias atuais. Democracia seria o presidente Trump mobilizar o exército norte-americano contra seu próprio povo, com assassinatos, violências e deportações?  Democracia seria a invasão e sequestro de um presidente eleito, Nicolás Maduro, e de sua companheira, Cília Flores, em total desrespeito a soberania do povo venezuelano? Democracia seria o abandono das mesas de diálogos e negociações das Nações Unidas e a postura de xerife do mundo, praticada por Trump e seus asseclas? A resposta a essa pergunta é fundamental para entendermos o momento crítico que vivemos.

Para nós, democracia é o poder do povo, organizado e soberano, que decide sobre seu futuro através de processos eleitorais e participativos, com responsabilidade e sabedoria popular.

Hoje, o que está em jogo é esse modelo de democracia participativa, presente em vários países como Brasil, México, Colômbia, Uruguai, Cuba e Venezuela, onde o povo é convocado a decidir seu destino, em contraposição a um modelo autoritário que age única e exclusivamente em benefício do sistema capitalista, voltado para o lucro a qualquer custo e em detrimento da preservação da natureza e da vida humana. Trump e a extrema direita não representam a democracia, mas a face mais cruel sanguinária das ditaduras.

O FSM nasceu em tempos de desesperança. Naquela quadra histórica, vivíamos as consequências da queda do muro de Berlin, ocorrida em 9 de novembro de 1989 e da dissolução da União Soviética em 26 de dezembro de 1991. Em dois anos, duas derrotas profundas para o campo anticapitalista e que foram apresentadas como símbolo da vitória do capitalismo sobre a utopia socialista. Naquele momento era apresentado um caminho único para a humanidade: o neoliberalismo defendido pelo Fórum Econômico Mundial de Davos.

Neste contexto de derrotas e de desilusões, o Fórum Social Mundial nasceu em Porto Alegre, não como uma novidade de luta, mas como um espaço de encontros das diversas lutas populares que já existiam. Ele se tornou um catalisador para a resistência contra o pensamento único, reunindo forças que lutavam por um mundo mais justo, democrático e igualitário. Essa iniciativa encontrou em Porto Alegre um processo revolucionário, onde forças democráticas, de esquerda e progressistas mobilizavam a cidadania para a conquistas de direitos, invertendo prioridades na execução de políticas públicas e, através da democracia participativa, confrontando, nos marcos da democracia burguesa, o poder político e econômico das grandes elites capitalistas. Naquele 2001, em meio as decepções da luta internacional anticapitalista, havia uma experiência concreta que apontava para um outro mundo possível. Foi a prática inovadora que nos mostrou o caminho. E assim nasceu o Fórum Social Mundial.

Mas o mundo que gerou o FSM não existe mais. Vivemos uma era de extremos. A extrema direita opera de forma global, com seu programa máximo que tem a exclusão e a morte como modus operandi. O campo democrático e progressista em todo o mundo, se vê forçado a alianças com as forças capitalistas e neoliberais que necessitam da democracia burguesa. Há um ambiente de profunda incerteza e desorganização. Contraditoriamente, a realidade atual nos demonstra que vivemos um tempo em que há condições objetivas para a construção de uma sociedade planetária que atenda as necessidades de todos os seres humanos. A evolução tecnológica, que é fruto do trabalho humano, possui capacidade de produzir e suprir as necessidades de alimentação, moradia, saúde, educação, mobilidade, cultura e lazer em um planeta equilibrado e eficiente. O problema não é econômico, tecnológico ou social. O problema é político.

No entanto, nós, que somos a verdadeira alternativa para a humanidade, permanecemos desarticulados e sem capacidade de uma reação planetária realmente potente. Quando vamos cair na real que, para mudar esse quadro, é necessário superar a fragmentação dos movimentos sociais e reconhecer que a luta não se resume aos projetos individuais ou as pautas específicas?

Quando vamos parar de disputar narrativas, priorizar os dissensos e as pautas que nos desunem? Temos que aceitar que, unidos, podemos construir uma transição para uma outra realidade, pós-capitalista, e defender a sobrevivência da humanidade frente ao fascismo e este capitalismo apocalíptico. A China, o Brasil e o México, com todas as suas contradições e dificuldades, nos mostram um caminho.

É hora de incorporar as lições do passado e reunir forças em torno de estratégias comuns que sejam capazes de construir uma verdadeira alternativa ao capitalismo. Neste sentido, é preciso reconhecer que, para construir a unidade, o Fórum Social Mundial é uma experiência válida, embora não seja a única. Há inúmeros problemas e dissensos sobre como proceder. Mas precisamos exercitar a paciência histórica. E, em termos históricos, 25 anos é quase nada. Como processo ainda está engatinhando. Faz parte. As experiências das internacionais socialistas, por exemplo, não tiveram a capacidade de impedir o avanço do capitalismo neoliberal, no entanto, seguem gerando frutos para a luta anti-imperialista até os dias de hoje.

Mas estamos ficando sem tempo. Neste ano de 2026, há um desafio enorme para as esquerdas que é a reeleição do Presidente Lula, a eleição de Iván Cepeda na Colômbia e a derrota de Trump nas eleições de meio de mandato nos EUA. Mas passa também, pela reconstrução e fortalecimento da articulação dos povos e movimentos sociais latino-americanos em defesa de nossa soberania e pela retomada do processo de articulação e mobilização da cidadania internacional em defesa uma governança global multilateral e democrática. Diante desses desafios, o Fórum Social Mundial em agosto 2026 no Benin se torna ainda mais relevante, como um símbolo de resistência, de esperança e de reconstrução. Porto Alegre, 25 anos depois, segue cumprindo sua missão internacionalista e apoiando esse processo global ao realizar, de 26 a 29/3, a I Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos. Nos encontraremos lá. Pátria Livre! Venceremos!

 

Fonte: Por Mauri Cruz, em Outras Palavras

 

Tuberculose: a negligência é o que mata

As chamadas Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) continuam a ser tratadas como um “resto” da saúde pública — como se fossem um problema periférico, inevitável, quase naturalizado. Essa nomenclatura esconde uma verdade incômoda: não são as doenças que são negligenciadas, e sim as pessoas, os territórios e as vidas marcadas pela pobreza estrutural, pelo racismo, pelo estigma e pela exclusão histórica das políticas públicas.

 A negligência não é um acidente: é um efeito esperado de um sistema de exclusão que define quem terá cuidado, proteção e futuro — e quem será deixado para trás. De acordo com a OMS, no mundo, ainda em 2023, 1,495 bilhão de pessoas precisaram de intervenções contra DTNs, e as mortes relacionadas a essas doenças, embora em queda, permanecem na casa de centenas de milhares (estimadas em 119 mil em 2021).

Essa mesma lógica de exclusão se repete de modo emblemático na tuberculose (TB). Mesmo com diagnóstico e tratamento conhecidos — e com oferta gratuita no SUS — a TB segue persistente e letal onde o cuidado falha. Por isso, embora não seja formalmente classificada como DTN, a tuberculose precisa entrar aqui: ela é produzida pelos mesmos mecanismos que sustentam as DTNs (territorialização da pobreza, insegurança alimentar, moradia precária, prisões, barreiras de acesso, estigma). No plano global, o retrato é brutal: a OMS estima 1,23 milhão de mortes por TB em 2024, incluindo 150 mil entre pessoas vivendo com HIV. A contradição revela o núcleo do problema: comprar medicamentos não é o mesmo que garantir cuidado, e acesso não se esgota na existência formal de um esquema terapêutico. O que mata é a negligência.

É indispensável trazer também a dimensão da pesquisa e desenvolvimento (P&D) para o centro do debate político. Um artigo recente publicado na Frontiers in Public Health, expõe o subfinanciamento estrutural da resposta global à tuberculose: a P&D em TB permanece em torno de US$ 1 bilhão por ano, muito abaixo da meta política de US$ 5 bilhões anuais; e, dentro desse quadro, vacinas concentram o maior déficit — em 2023, o investimento combinado foi de US$ 227 milhões, menos de 20% da meta de US$ 1,25 bilhão. Ao mesmo tempo, existe um pipeline relevante, com 17 candidatas em ensaios clínicos, e um compromisso internacional de acelerar a P&D e o “roll-out” de vacinas pré e pós-exposição em cinco anos (prazo político para 2028).

A pergunta, então, não é apenas “se” haverá inovação, mas em que condições ela será financiada, governada e distribuída: até quando o mundo dirá que quer eliminar a TB sem pagar o preço político e financeiro de uma inovação orientada ao interesse público — e, quando paga, sem garantir que o resultado chegue como bem comum?

<><> Medicamentos viram negócio

A bedaquilina, medicamento para tuberculose resistente, ilustra essa contradição de forma concreta. O mesmo artigo lembra que tecnologias-chave para TB — como a própria bedaquilina — contaram com forte participação de financiamento público, mas ainda assim chegaram sob dinâmicas de monopólio e preço elevado, demandando mobilização social por transparência e redução de preços. Essa leitura global dialoga com o estudo de caso brasileiro sobre os obstáculos à produção pública da bedaquilina, que mostra como monopólios e barreiras de PI distorcem preços e ameaçam a sustentabilidade do acesso — e por que produzir no país é parte da solução.

Por isso, discutir negligência exige ligar três camadas que costumam ser separadas: 1) determinantes sociais e cuidado; 2) P&D e capacidade produtiva; e 3) monopólios, preços e falta de transparência. O modelo privado tende a negligenciar “doenças endêmicas de regiões pobres” porque elas não são os mercados mais rentáveis; e a resposta não pode ser torcer para que a boa vontade corporativa apareça. O que se impõe é um planejamento público de saúde que vá do laboratório à capacidade produtiva: defesa da pesquisa pública orientada ao interesse social, fortalecimento dos laboratórios oficiais, produção local de insumos farmacêuticos ativos, medicamentos e tecnologias, e enfrentamento dos monopólios farmacêuticos que inviabilizam o acesso.

No Brasil, o monitoramento de preços e compras públicas feito pelo GTPI/ABIA, como nas Tabelas Políticas, apresentado durante o 14º Abrascão, evidencia como os preços elevados de medicamentos, os monopólios, os contratos opacos e as escolhas políticas drenam recursos do sistema público. Cada real pago a mais em medicamentos é um real a menos para equipes de saúde, busca ativa de casos, acompanhamento contínuo, tratamento diretamente observado, assistência social e cuidado integral.

A Tabela Política de Tuberculose (2025), mostra discrepâncias importantes entre o que o Brasil paga e os menores preços internacionais. No esquema básico, por exemplo, o país paga R$ 443,52 enquanto preços internacionais de referência indicam valores em torno de R$ 206,08. Preços inflados não são um detalhe técnico: eles ameaçam a sustentabilidade do SUS e aprofundam desigualdades no acesso.

A política de acesso a medicamentos, quando dissociada da política de cuidado, produz uma ilusão perigosa: a de que basta comprar para garantir acesso. Não basta. Não existe tratamento efetivo sem água potável, coleta de lixo regular, saneamento, moradia digna, alimentação adequada e renda — essas condições não são “determinantes externos” abstratos; são parte constitutiva da política de saúde. E a experiência do cuidado — marcada por estigma, discriminação e relações desiguais entre serviços e usuários — interfere diretamente na adesão e perpetua ciclos de exclusão social, como vemos na tuberculose e em tantas DTNs. Quando o Estado paga caro e paga mal, falta recurso para o que salva vidas: vínculo, cuidado contínuo e proteção social, além das condições materiais de existência.

<><> Uma luta pela vida

Não se trata apenas de combater doenças. Trata-se de defender a vida, a democracia e o direito à saúde como princípio inegociável. Defesa da pesquisa pública orientada para o interesse social, fortalecimento dos laboratórios oficiais, produção pública e enfrentamento dos monopólios farmacêuticos que inviabilizam o acesso. Não existe tratamento efetivo sem condições dignas de vida. Por isso, insistir apenas na compra de medicamentos, sem enfrentar preços abusivos, desigualdades estruturais e falhas no cuidado, é insuficiente — e, em certa medida, cúmplice da reprodução dessas mortes.

É nesse contexto que o Programa Brasil Saudável – Unir para Cuidar (2024) representa um avanço ao reconhecer que tuberculose, hanseníase e outras doenças de determinação social só podem ser enfrentadas com políticas intersetoriais, integrando saúde, assistência, moradia, saneamento e combate à pobreza. Trata-se de uma resposta construída a partir de reivindicações históricas dos movimentos sociais e com potencial de se tornar referência internacional.

No entanto, causa perplexidade que um programa dessa envergadura não ocupe lugar central na agenda política do governo, nem do Ministério da Saúde, tampouco conte com orçamento garantido e execução efetiva. Sem prioridade política, recursos sustentáveis e compromisso institucional, corre o risco de se tornar letra morta, como denuncia  a Carta Aberta “Por um Brasil Saudável para Todas, Todes e Todos” publicada em agosto de 2025.

Enquanto a política de saúde não for integral — enfrentando preços abusivos, desigualdades estruturais e condições de vida — continuaremos comprando medicamentos e enterrando pessoas.

 

Fonte: Por Susana Van Der Ploeg, em Outra Saúde

 

 

FORMA DE PODER QUE DOMINA SEM PRECISAR CONVENCER: Imperialismo sem civilização

O imperialismo retorna ao centro do debate contemporâneo. Mas o faz sob uma forma historicamente distinta daquela que estruturou o passado. Há uma boa dose de evidências que apoiam essa perspectiva.

Apresenta-se como projeto de poder orientado para a conquista territorial.

Durante os séculos XIX e XX, o imperialismo se impôs por meio de um robusto aparato normativo e discursivo destinado a legitimar a dominação territorial, a racialização das populações colonizadas e a violência estrutural do governo imperial. A expansão imperial articulava hierarquias raciais, racismo institucionalizado e promessas de civilização, progresso e desenvolvimento que funcionavam menos como objetivos emancipatórios e mais como justificativas morais para a conquista e o controle.

O fato é que a violência imperial, ainda que brutal e sistemática, era envolta por uma narrativa civilizatória que buscava conferir sentido e legitimidade à dominação: o império apresentava-se como agente de governo e reforma, ao menos em seu próprio imaginário, dos territórios e populações submetidos à sua autoridade. No mundo contemporâneo, entretanto, essa lógica civilizatória já não é necessária. O imperialismo persiste, mas não se apresenta como projeto moral ou universalista, operando cada vez mais de forma desprovida de pretensões normativas.

Particularmente na política internacional, o imperialismo, compreendido como uma forma específica de exercício do poder, tem ocupado lugar central desde a consolidação do sistema europeu de Estados, moldando, ao longo de séculos, tanto os padrões de desenvolvimento econômico quanto a própria configuração da ordem internacional. Colonizar era, segundo essa lógica, civilizar: levar progresso, racionalidade, cristianismo, desenvolvimento, Estado e mercado a povos considerados atrasados. A missão civilizadora funcionava como linguagem legitimadora do império, ainda que seus efeitos concretos fossem expropriação, violência e morte.

O imperialismo não se apresenta como portador de valores universais nem promete um futuro compartilhado. Não é mais necessário justificar desestabilização externa e ocupação territorial com valores humanos supostamente elevados. O que se observa é a emergência de um imperialismo sem civilização: uma forma de poder que domina sem precisar convencer, ocupa sem integrar e exerce violência sem oferecer qualquer horizonte normativo em troca.

Exemplos recentes ilustram esse padrão: a ambição declarada do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de controlar a Groenlândia, incluindo a possibilidade de uso da força, demonstrou que a lógica imperial contemporânea pode operar mesmo entre aliados tradicionais, ameaçando arruinar a coesão da própria aliança do Atlântico Norte. Publicações nas redes sociais e imagens simuladas por inteligência artificial reforçaram a percepção de um projeto de dominação direta, sem necessidade de justificar-se por valores universais ou “missão civilizadora”.

Mesmo aliados históricos dos Estados Unidos, como Canadá, México ou países europeus, passaram a ser diretamente afetados pela assertividade nua da política de poder norte-americana. O que antes parecia restrito às periferias do sistema internacional – “o resto do mundo” – manifesta-se agora também entre parceiros tradicionais, seja nas relações transatlânticas, seja na relação entre Estados Unidos e Canadá.

O discurso do primeiro-ministro canadense em Davos, em 2026, é particularmente revelador. Ao reconhecer que a chamada “ordem internacional baseada em regras” sempre foi uma ficção funcional, marcada por aplicação seletiva do direito internacional, assimetrias na imposição das regras comerciais e exceções sistemáticas em favor dos mais fortes, o premiê não denuncia uma anomalia recente, mas explicita um pacto tácito. Essa ficção, admitiu, foi útil enquanto a hegemonia americana fornecia bens públicos, previsibilidade e proteção suficientes para que países como o Canadá pudessem sustentar políticas externas “baseadas em valores”.

Esa lógica de dominação não é nova. Cabe lembrar que, na Europa do século XIX, o império era amplamente concebido como uma forma legítima e desejável de organização do poder internacional. No debate intelectual europeu, o imperialismo era entendido como um mecanismo necessário à estabilidade da ordem internacional, capaz de produzir integração econômica e interdependência entre diferentes regiões do mundo. Essa compreensão associava diretamente a expansão imperial à ideia de progresso histórico e à missão civilizadora, apoiando-se em uma percepção generalizada de superioridade cultural e moral europeia em relação aos demais povos. Nos dias de hoje, contudo, essa lógica encontra-se profundamente esvaziada.

A diferença fundamental do presente reside menos na natureza da dominação do que na perda de centralidade desses regimes de justificação. Se no século XIX o império precisava se apresentar como portador de civilização e progresso, e se no pós-Segunda Guerra Mundial a hegemonia se legitimava por meio da promessa de regras, instituições e valores universais, hoje essa mediação normativa tornou-se politicamente dispensável. A dominação persiste, mas já não necessita nem da retórica civilizatória nem da ficção de uma ordem internacional baseada em regras para se exercer.

Esse deslocamento ajuda a compreender por que categorias como “hipocrisia liberal” ou “duplo padrão” parecem insuficientes para explicar a política internacional atual. Essas leituras partem do pressuposto de que ainda existiriam valores universais sendo traídos na prática. O problema, porém, é mais profundo: em muitos casos, tais valores simplesmente deixaram de ser relevantes como fundamento da ação imperial. Não se trata de violar normas, mas de operar com indiferença em relação a elas.

Não se trata de violar normas, mas de operar com indiferença em relação a elas. A guerra na Ucrânia, a devastação contínua de Gaza e as múltiplas formas de intervenção e coerção no hemisfério americano ilustram esse padrão. Em tais contextos, a linguagem do direito internacional, da proteção de civis ou da autodeterminação surge de forma seletiva e instrumental, quando não é simplesmente abandonada, enquanto a lógica que orienta a ação é a do controle territorial, da dissuasão estratégica e da imposição de custos ao adversário, independentemente das consequências políticas ou humanas.

Um dos sinais mais evidentes dessa transformação é o retorno do território como instrumento central do poder. No imperialismo clássico, o território colonial era um espaço a ser administrado, reorganizado e explorado: construíam-se instituições, infraestruturas, sistemas jurídicos e modelos econômicos voltados à integração subordinada ao império. Hoje, o território aparece cada vez mais como espaço de contenção, fragmentação e negação. Controla-se para impedir, bloquear, cercar ou desestabilizar, não para governar ou explorar.

Nesse contexto, o imperialismo sem civilização também se manifesta por meio do que podemos chamar de encontros imperiais. O mundo contemporâneo já não é estruturado por um único centro hegemônico capaz de impor sua narrativa universal, mas por zonas de fricção onde diferentes projetos imperiais (antigos e emergentes) se cruzam, se sobrepõem e se confrontam. Ao contrário do imperialismo clássico, que buscava ordenar o mundo a partir de uma hierarquia relativamente estável, os encontros imperiais produzem instabilidade crônica, fragmentação política e violência prolongada. O resultado não é a substituição de um império por outro, mas a multiplicação de formas de dominação que coexistem, colidem e se reforçam mutuamente, sem oferecer qualquer horizonte de reconstrução ou futuro compartilhado.

Essa lógica contribui para a proliferação de zonas militarizadas, fortificação e controle de fronteiras, áreas permanentemente instáveis e territórios convertidos em espaços de exceção. A soberania deixa de ser violada em nome de uma promessa universal e passa a ser simplesmente negada por razões estratégicas. O Outro já não precisa ser “civilizado”; basta que seja neutralizado, deslocado ou mantido em condição de vulnerabilidade permanente.

Essa forma de dominação produz um tipo específico de violência. Não há esforço consistente de reconstrução política, social ou econômica após intervenções, ocupações ou cercos, nem a pretensão de incorporar esses territórios a uma ordem internacional estável. Nessa configuração, sociedades inteiras passam a figurar como objetos de agressão imperial, reduzidas a espaços estratégicos a serem controlados ou neutralizados. Diante desse cenário, a afirmação da soberania deixa de ser apenas uma reivindicação normativa e torna-se uma necessidade política fundamental frente ao império. O imperialismo contemporâneo não oferece pertencimento, apenas dominação. Não produz mundos colonizados; administra ruínas e interesses imperiais.

O declínio da hegemonia liberal ajuda a explicar esse quadro, mas não no sentido frequentemente anunciado de um mundo pós-imperial. O que emerge é um mundo sem ordem internacional, marcado por imperialismos concorrentes, desprovidos de projeto civilizacional. Trata-se menos de exportar modelos e mais de controlar espaços estratégicos, rotas logísticas, recursos naturais e posições geopolíticas-chave. O império já não precisa ser admirado nem reconhecido como superior; basta ser temido.

Essa transformação tem implicações profundas para a forma como pensamos a política internacional. A crítica precisa deslocar-se do campo da incoerência moral para o da estrutura do poder, da geopolítica do território e da produção sistemática de desigualdade, insegurança e necropolíticas.

O imperialismo sem civilização é, nesse sentido, mais perigoso. Ao abandonar a promessa de progresso, ele também abdica de qualquer responsabilidade com o futuro dos territórios que domina. Governa menos, destrói mais. Prospera em um cenário de colapso das promessas modernas, como desenvolvimento, universalismo, progresso, sem que isso signifique o fim da dominação.

<><> Conclusão

Compreender essa nova forma de imperialismo é fundamental para evitar análises nostálgicas, que ainda esperam do poder global algum compromisso com valores que já não estruturam sua ação. O desafio político e intelectual do presente talvez seja este: pensar a resistência, a soberania e a justiça internacional em um mundo no qual o império já não sente sequer a necessidade de fingir que civiliza.

O imperialismo contemporâneo perde sua lógica civilizatória não por ter se tornado mais ético ou mais contido, mas porque civilizar deixou de ser funcional ao exercício do poder. Em um mundo marcado por disputas territoriais, encontros imperiais e pela centralidade da coerção geopolítica, já não importa integrar, convencer ou oferecer futuros compartilhados. Basta conquistar, conter e controlar. A promessa de civilização, que antes organizava hierarquias e legitimava a violência, torna-se dispensável diante de uma forma de dominação que opera pela indiferença e pela negação. O império já não governa para transformar; domina para impedir. Nesse deslocamento, não apenas se esgota a linguagem civilizatória, como se revela um traço inquietante do presente: um poder global que prescinde de sentido, de responsabilidade e de horizonte, e que, justamente por isso, se torna mais perigoso.

¨      Inteligência estratégica é o nome técnico do instinto de preservação. Por Washington Araújo

Há um dado que deveria ser repetido nas salas de conselho, nos gabinetes ministeriais e nas redações: em 2024, o comércio mundial de bens e serviços alcançou US$ 32,2 trilhões, com alta de 4% em relação ao ano anterior; serviços já respondem por 27,2% desse total, a maior fatia desde 2005. Mais um pouco e teremos os dados de 2025. A economia global virou um sistema nervoso exposto: qualquer choque numa ponta — tarifa, sanção, bloqueio logístico, crise política — provoca espasmos no corpo inteiro.

É nesse terreno, mais elétrico que estável, que a inteligência estratégica deixa de ser luxo e vira equipamento de segurança.

O que ela é, afinal, fora do jargão?

Um método para transformar fatos dispersos em decisão com lastro. Inclui análise de conjuntura, leitura de cenários, levantamento de dados e indicadores, produção de conteúdo que não confunde opinião com evidência e, sobretudo, monitoramento do processo decisório — Legislativo, Executivo, reguladores. Em linguagem direta: é o que impede que organizações caminhem de olhos fechados até a beira do precipício.

Os números ajudam a entender por quê.

A Organização Mundial do Comércio projetou desaceleração do volume do comércio de mercadorias em 2025, após 2,8% em 2024; em outubro de 2025, a OMC estimou crescimento de 2,4% em 2025 e apenas 0,5% em 2026, sob o peso de tensões geoeconômicas e incertezas de política comercial. O aviso mais duro veio quando a OMC alertou que a escalada tarifária anunciada pelos EUA poderia empurrar o comércio global de mercadorias a uma contração de 1%. Em tradução livre: o mundo pode encolher por decreto.

O Brasil vive essa interdependência com a pele exposta. Em 2024, exportou US$ 337 bilhões e importou US$ 262,5 bilhões, fechando superávit de US$ 74,6 bilhões — uma fotografia de potência comercial que, ao mesmo tempo, depende de rotas, preços e regras desenhadas fora do país.

Quando o vento muda em Washington, Bruxelas (i.e., União Europeia) ou Pequim, Brasília não sente “reflexos”: sente impacto.

A temporada 2025 das tarifas de Donald Trump funcionou como laboratório desse novo tempo. Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA, desde o início do segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025, Trump ampliou tarifas com base em diferentes instrumentos legais, incluindo a IEEPA e a seção 232, e a reação internacional incluiu retaliações. O “reciprocal tariff” foi formalizado por ordem executiva e publicado no Federal Register em abril de 2025, explicitando a arquitetura do movimento.

Três estudos de caso mostram, com nitidez jornalística, como a inteligência estratégica decide quem atravessa a crise e quem vira estatística.

O primeiro é Pequim.

Em maio de 2025, EUA e China fecharam uma trégua temporária para reduzir tarifas por 90 dias, numa tentativa de conter a espiral de punições e contra-punições. A resposta chinesa não foi uma bravata; foi engenharia de danos. Ao mesmo tempo em que negociava alívio, reorganizava cadeias, estimulava o frontloading de embarques e acelerava o redirecionamento de fluxos para outros mercados — um tipo de diplomacia comercial que combina análise de dados, leitura de risco logístico e coordenação estatal-empresarial. Não é “resiliência” no discurso; é cálculo: reduzir dependência de um único cliente e ganhar tempo para reconfigurar produção e destinos.

O segundo caso é o Brasil, atingido pelo desenho amplo das tarifas e, em especial, pelo nó do aço e do alumínio.

O Itamaraty registrou que a elevação tarifária dos EUA sobre esses produtos teria impacto relevante, lembrando que as exportações brasileiras de aço e alumínio para o mercado americano somaram cerca de US$ 3,2 bilhões em 2024. Em fevereiro de 2025, Lula sinalizou resposta por vias comerciais, mencionando a possibilidade de acionar a OMC ou taxar importações dos EUA — uma escolha típica de quem precisa manter dois instrumentos em mãos: o jurídico e o retaliatório. Em abril, o governo promulgou uma Lei de Reciprocidade Econômica, apresentada como reação estratégica a restrições unilaterais, estabelecendo base legal para contramedidas. Em julho, diante da ameaça de tarifa de 50% sobre exportações brasileiras, a estratégia combinou negociação preventiva e preparação para reciprocidade like-for-like, com o vice-presidente Geraldo Alckmin defendendo acordo antes do prazo de entrada em vigor. Aqui, a inteligência estratégica aparece como governança: monitorar sinais, construir arcabouço legal, mapear setores vulneráveis e manter a porta do diálogo aberta sem entrar desarmado.

O terceiro caso é a União Europeia, que tratou a ofensiva tarifária como tema de soberania econômica.

Em março e abril de 2025, Bruxelas anunciou contramedidas bilionárias sobre bens americanos, calibradas para pressionar politicamente e reduzir dano interno — tarifas que miravam produtos simbólicos e setores sensíveis, em etapas. Em paralelo, cresceu o debate sobre o uso do Anti-Coercion Instrument, mecanismo em vigor desde 2023 para responder à coerção econômica com medidas que vão além de tarifas, incluindo restrições em serviços e compras públicas. E a Europa não ficou só no contra-ataque: intensificou a diversificação via acordos comerciais, acelerando frentes com a Índia e reforçando o tabuleiro de parcerias para diminuir a exposição ao risco americano.

Há um traço comum nos três: inteligência estratégica não é “achar caminhos”, é construir opções antes que a crise dite a única saída.

Ela se alimenta de dados, mas não se ajoelha diante deles; transforma números em narrativa causal, e narrativa em plano.

Num planeta em que tarifas podem reescrever cadeias produtivas de uma semana para outra, o improviso custa caro — e, quase sempre, custa em silêncio: empregos que somem, investimentos que migram, reputações que racham.

Para o Brasil, a lição é concreta. Um país que exporta US$ 337 bilhões num ano não pode tratar monitoramento institucional, análise de cenários e gestão de risco regulatório como burocracia.

Inteligência estratégica é o nome técnico do instinto de preservação — aplicado com método, ética e visão de futuro.

 

Fonte: Por José Alejandro Sebastian Barrios Díaz, no Le Monde/Brasil 247


As cidades fantasmas do petróleo na Venezuela à espera do plano de Trump

Com suas organizadas fileiras de casas, marcadas por gramados e varandas, Miraflores poderia ser confundida com um típico subúrbio dos Estados Unidos.

Mas Miraflores está localizada no coração da indústria petrolífera da Venezuela, na Costa Leste do Lago de Maracaibo. E esse bairro tranquilo, aliás, já ajudou a transformar o país em um dos mais ricos da América Latina. Era um símbolo da prosperidade nacional.

Essa já foi uma das bacias petrolíferas mais produtivas do mundo e, junto com a cidade de Maracaibo, do outro lado do lago, é vista como peça-chave do plano do presidente americano, Donald Trump, para atrair empresas americanas a investir US$ 100 bilhões (cerca de R$ 530 bilhões) na reconstrução da indústria energética venezuelana. O país tem as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris. O Brasil, a título de comparação, tem 16 bilhões de barris, segundo dados da Opec.

Mas por ora, a região ao redor do Lago de Maracaibo é um lembrete contundente de quanto a fortuna do país declinou ao longo das décadas.

Há bombas e plataformas de petróleo espalhadas por toda parte — em esquinas, nos campos ao redor e emergindo do lago. Embora algumas tenham sido recentemente pintadas de amarelo, azul e vermelho, as cores da bandeira nacional, e continuem em operação, muitas outras não se movem há anos, enferrujam e se deterioram.

A decadência é evidente em cerca de 20 "campos petrolíferos" em estilo americano nas margens do lago, construídos originalmente por empresas internacionais para abrigar seus funcionários, após a exploração comercial do petróleo venezuelano decolar nos anos 1920.

As gigantes do setor como a Standard Oil of New Jersey (que depois se tornou a Exxon), a Chevron e a Shell investiram pesadamente em Maracaibo, a segunda maior cidade da Venezuela. O dinheiro do petróleo transformou antigas vilas de pescadores em comunidades prósperas, com hospitais, escolas e clubes sociais.

Em Miraflores, que abrigava os principais executivos do setor, muitas casas foram saqueadas e hoje estão abandonadas, com as janelas quebradas e a fiação arrancada.

Gladysmila Gil se mudou para um bairro mais modesto nas proximidades em 1968 com o marido, já falecido, que trabalhava na indústria do petróleo e recebeu a casa.

"Quando nos mudamos para esta casa, ela estava em boas condições", lembra, sentada em uma cadeira gasta e olhando a tinta rosa descascando das paredes.

"Se ficávamos doentes, íamos ao hospital e éramos atendidos. O lixo era recolhido dia sim, dia não, e não tínhamos essas quedas de energia", acrescenta, ao falar do declínio econômico vivido pela Venezuela nos últimos 13 anos.

Hoje, o lixo é recolhido apenas de forma esporádica e, apesar das reservas de petróleo, a região foi atingida por uma grave crise energética na última década, com apagões quase diários.

Um sistema de metrô leve inacabado, envolto em acusações de corrupção, um hospital central sucateado, descrito pelos pacientes como "um inferno" e a desigualdade crescente fazem do local um microcosmo do país. O Produto Interno Bruto (PIB, que é a soma de todas as riquezas produzidas) da Venezuela caiu mais de 70% desde que Nicolás Maduro se tornou presidente, em 2013.

"Você não vê crianças nessas ruas, não há jovens. Eu costumava viver aqui com nove parentes, e todos foram embora", diz José Gregorio Martínez, 64, filho de um ex-trabalhador do petróleo, sentado na varanda de casa.

Lutando contra as lágrimas, o professor aposentado explica que só sobrevive graças ao dinheiro enviado por parentes do exterior. Sua pensão estatal mensal é de US$ 2,80 (cerca de R$ 14,78) e não cobre nem as necessidades básicas.

Gil e Martínez recordam o que consideram os anos dourados e não estão sozinhos na esperança de que novos investimentos de empresas dos EUA transformem suas vidas.

Nos anos 1970, a Venezuela chegou a produzir até 3,5 milhões de barris de petróleo por dia, mais de 7% da produção global.

Na época, a produção era administrada por uma rede de empresas estrangeiras, muitas delas dos EUA, que operavam sob concessões governamentais, até que o setor foi nacionalizado em 1976 e assumido pela estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A)

<><> Sucateamento do setor

A indústria continuou a formar a espinha dorsal da economia do país, se beneficiando dos altos preços do petróleo nos anos 1970. Quando os preços caíram nos anos 1980 e a Venezuela entrou em crise econômica, a realidade se impôs. Houve protestos quando o governo introduziu medidas de austeridade para tentar equilibrar as contas.

Nos anos 1990, reformas abriram espaço para o investimento estrangeiro e, em 1999, o país ainda produzia cerca de 3,2 milhões de barris por dia, aproximadamente metade deles no estado de Zulia, a região ao redor do Lago de Maracaibo.

Então, veio a ascensão do Chavismo, uma ideologia nacionalista e antiamericana criada pelo antecessor de Maduro, Hugo Chávez.

Ele se tornou presidente em 1999, quando os preços do petróleo voltavam a subir, o que permitiu ao governo financiar grandes programas sociais destinados a tirar milhões da pobreza.

Mas, no fim de 2025, a produção de óleo havia caído para cerca de 860 mil barris por dia, menos de 1% da produção mundial de óleo bruto. A título de comparação, o Brasil produz cerca de 3,7 milhões de barris por dia.

Muitos apontam 2022 como um ponto de virada da indústria venezuelana, quando uma greve de petroleiros contra o governo Chávez foi seguida por uma grande reestruturação da PDVSA. É amplamente divulgado que até 22 mil pessoas foram demitidas.

"Você não pode perder 22 mil técnicos em uma empresa e esperar que nada aconteça", diz Jorge, nome fictício, que foi demitido na época. Ele diz que a reformulação buscou alinhar a empresa a prioridades políticas, e grande parte da gestão que resistiu, acabou perdendo o emprego.

Em 2007, o setor petrolífero foi transformado novamente, quando o governo Chávez assumiu o controle da indústria.

Algumas empresas estrangeiras permaneceram sob novas parcerias lideradas pelo Estado, enquanto outras, como a ExxonMobil, deixaram o país, e o declínio do setor se acelerou.

A má gestão e a corrupção têm sido problemas graves no setor, mas o governo atribui veementemente a queda às sanções dos EUA.

Amplas sanções econômicas foram impostas em 2017, durante o primeiro mandato de Trump, em resposta ao que o governo americano classificou como "graves violações de direitos humanos… estabelecimento de uma Assembleia Constituinte ilegítima, que usurpou o poder da Assembleia Nacional democraticamente eleita… corrupção pública desenfreada" e "perseguição e violência contra a oposição política".

O ponto de virada para os EUA aconteceu no início de janeiro deste ano (2026), quando militares americanos capturaram Nicolás Maduro em seu complexo em Caracas e o levaram a Nova York para responder a acusações de narcoterrorismo, que ele nega.

Trump afirmou que os EUA iriam "administrar" a Venezuela e controlar a venda de seu petróleo sancionado "indefinidamente", mas uma aliada de Maduro, Delcy Rodríguez, assumiu desde então o controle do governo, das Forças Armadas e das instituições do país.

Enquanto exige de forma desafiadora a libertação de Maduro, que afirma ter sido "sequestrado", Rodríguez cooperou com o governo Trump para reformar a legislação e permitir que as empresas petrolíferas estrangeiras e locais voltem a operar campos de petróleo, por meio de um novo modelo de contrato.

O Parlamento venezuelano, dominado por aliados de Maduro, aprovou essa mudança significativa na quinta-feira (29/1).

Muitos em Maracaibo estão otimistas com a possibilidade de investimento dos EUA.

Legenda da foto,Manchas de óleo podem ser vistas na água do Lago de Maracaibo

"Seria melhor, porque haveria trabalho, e nossos filhos não precisariam recorrer à pesca. Eles poderiam ter um futuro", diz Carlos Rodríguez. Hoje, já perto dos 30 anos, ele trabalha nessas águas desde a adolescência.

Ao arrastar para o lago o barco coberto de óleo, a vista impressiona. A beleza do céu contrasta fortemente com a água, por vezes azul, mas com frequência de um verde opaco devido às cianobactérias ou escurecida pelo petróleo. É fácil ver o óleo na superfície e, quando mergulho a mão, ela sai manchada de petróleo.

"Está piorando a cada dia. Verde, preta, oleosa", reclama Rodríguez. "E há menos peixes." Naquela manhã, ele não pescou nenhum.

Ele espera que, se as empresas petrolíferas internacionais retornarem, ajudem a limpar o lago.

Outros são cautelosos. "Não temos problema com [empresas estrangeiras] vindo explorar nossos recursos, perfurar poços e criar empregos", diz outro pescador, José Luzardo. "Mas não queremos ser colônia de ninguém."

Ele é um aliado fiel de Maduro, mas admite que tanto sua família quanto seus colegas passam por dificuldades.

Trump "pode vir, mas tem de nos pagar pelo petróleo… o petróleo pertence à Venezuela, pertence a todos os venezuelanos", diz, enquanto se prepara para zarpar.

Muitos outros — em especial os que se opõem ao governo — evitam falar de política por medo de represálias.

Mais tarde, o som das ondas do lago batendo na lateral da casa de Luzardo compete com o chiado do óleo quente. Em uma cozinha de paredes nuas, sem reboco, um grupo de mulheres frita os poucos peixes pescados naquela manhã. Luzardo diz que tiveram sorte. Às vezes, eles voltam para casa sem nada. Nesses dias, vão dormir com fome.

Tanto o governo quanto a oposição concordam sobre a necessidade de investimento.

Juan Romero, deputado que representa Zulia e líder local do partido governista PSUV, afirma que essa é a chave para a retomada do setor.

"No lago de Maracaibo, há aproximadamente 13 mil poços que poderiam ser recuperados, e existem reservas de 26 bilhões de barris de petróleo", diz Romero.

Com a retirada das sanções dos EUA, ele acredita que o "estrangulamento econômico" do setor chegará ao fim e que a Venezuela conseguirá atrair capital estrangeiro.

Mas analistas alertam que pode levar uma década e centenas de bilhões de dólares para restaurar a antiga produção do país. Além disso, os gigantes do setor permanecem cautelosos. O presidente-executivo da ExxonMobil, Darren Woods, classificou a Venezuela como "não investível" em seu estado atual.

Falando em uma reunião de cúpula na Casa Branca após a remoção de Maduro, Woods observou que a ExxonMobil teve seus ativos confiscados na Venezuela duas vezes, "então é possível imaginar que entrar pela terceira vez exigiria mudanças bastante significativas". Sem um novo arcabouço legal e proteções mais fortes para investidores, advertiu, os bilhões de dólares necessários para a reestruturação não se materializarão.

Ainda assim, para muitos em Maracaibo, permanece a esperança de que o investimento e a prosperidade retornem.

Entre eles está José Rodas, 93, trabalhador aposentado do setor petrolífero que ainda possui um Dodge Dart de edição especial, um "carrão" americano clássico comprado durante o boom do petróleo nos anos 1970.

"As coisas ficaram mais difíceis", diz. "No passado, a vida era mais fácil. Tínhamos conforto."

Ele faz referência ao "comissariado", um departamento central dentro dos campos petrolíferos que não apenas fornecia alimentos subsidiados, mas também cuidava da manutenção das casas dos trabalhadores, com novas demãos de tinta e lâmpadas novas.

Hoje, o "carrão" estacionado em sua varanda abandonada parece uma relíquia desbotada daquela vida passada.

¨      Venezuela anuncia anistia a presos políticos

A presidente interina da VenezuelaDelcy Rodríguez, anunciou nesta sexta-feira (30/01) uma lei de anistia que poderá levar à libertação de centenas de presos políticos, incluindo líderes de oposição, jornalistas e ativistas de direitos humanos.

A anistia é uma demanda antiga da oposição venezuelana, agora encorajada desde a deposição do presidente Nicolás Maduro, capturado em 3 de janeiro por forças americanas e levado preso aos Estados Unidos para responder a acusações de narcoterrorismo.

Numa fala televisionada proferida diante de ministros, juízes, generais e outros membros do governo, Rodríguez prometeu que a Assembleia Nacional – controlada pelo partido governista, do qual a presidente interina faz parte – analisará o projeto de lei com urgência. 

"Que esta lei sirva para curar as feridas deixadas pela confrontação política alimentada pela violência e pelo extremismo", disse no discurso pré-gravado. "Que sirva para redirecionar a justiça em nosso país, e que sirva para redirecionar a coexistência entre venezuelanos."

O texto da lei ainda não foi revelado, e por isso não está claro quem poderá se beneficiar da anistia.

Segundo Rodríguez, a "lei geral de anistia" cobrirá "todo o período de violência política de 1999 até o presente", mas não beneficiará condenados por homicídio, tráfico de drogas, corrupção ou violações de direitos humanos.

"Uma anistia geral é bem-vinda, desde que seus elementos e condições incluam toda a sociedade civil, sem discriminação, e que não se torne uma capa de impunidade, e que contribua para desmantelar o aparato repressivo de perseguição política", declarou o presidente da ONG venezuelana Foro Penal, Alfredo Romero, via redes sociais.

<><> Prisão apontada como "centro de tortura" será fechada

Rodriguez se comprometeu ainda a fechar o Helicóide, prisão em Caracas famosa por receber presos políticos e que é apontada por ativistas de direitos humanos como centro de tortura e violações de direitos humanos. O local, segundo ela, será transformado em um centro esportivo, social e cultural.

As promessas de Rodríguez foram feitas diante de alguns dos oficiais acusados por ex-prisioneiros e ativistas de comandarem os abusos no Helicóide e em outras prisões.

O Foro Penal estima que haja 711 presos políticos em toda a América do Sul. Destes, apenas 183 foram julgados e condenados.

Entre os oposicionistas detidos após as eleições venezuelanas de 2024 e ainda não libertados estão o ex-parlamentar Freddy Superlano, o ex-governador Juan Pablo Guanipa e o advogado Perkins Rocha, que atuou para a líder de oposição e prêmio Nobel da paz María Corina Machado .

Machado foi impedida de disputar a eleição de 2024 contra Maduro, que acabou declarado reeleito apesar das suspeitas de fraude na apuração dos votos. 

O governo interino venezuelano anunciou, em 8 de janeiro, planos para libertar um número significativo de prisioneiros, em um gesto de boa vontade, mas parentes dos presos queixam-se de que a libertação tem demorado.

Segundo o Foro Penal, desde então houve 303 solturas. 

<><> Anúncio é "resposta à pressão dos EUA", afirma líder de oposição

A líder venezuelana de oposição María Corina Machado disse que as ações anunciadas por Rodríguez não eram "voluntárias, e sim uma resposta à pressão do governo americano".

"O aparato de repressão do regime é brutal e respondeu às numerosas forças criminosas que reagem a este regime", afirmou Machado em nota. "Quando a repressão desaparecer e o medo for perdido, será o fim da tirania."

 

Fonte: BBC News Mundo, Reporting from,Lago de Maracaibo, Venezuela/DW Brasil