Jean
Marc von der Weid: “Em política, o que parece, é”
Dizia
um amigo português, militante da luta contra o fascismo na “velha terrinha”,
que tudo o que sobrou dos muitos anos de discursos e escritos de António
Salazar foi uma frase, a que escolhi como título deste artigo. Parece pouco
para tanto tempo do ditador na política, mas não deixa de ser algo a ser
considerado sábio.
Lembrei-me
deste dito “histórico” ao matutar sobre as reações de vários lados sobre o caso
do banco Master.
Nas
palavras do ministro da Fazenda, este deve ser o mais importante caso de
falcatrua bancária da nossa República, não só pelos (até agora) 41 bilhões de
desfalques, mas porque envolve cada vez mais figuras poderosas dos bancos, de
administrações estaduais e municipais, do Congresso, do TCU, da CVM, de
tribunais de primeiro grau e do próprio STF. De quebra encontramos uma penca de
influenciadores digitais, pagos por Daniel Vorcaro para usar suas redes para
defendê-lo.
Ficaram
de fora o e Executivo Federal (inicialmente), a Polícia Federal e o Banco
Central e os partidos de esquerda (PT, PSOL e PcdoB). Do ponto de vista
político (e criminal), o caso Master vem comprometendo cada vez mais
personagens da direita.
O
presidente Lula, após um longo silëncio, baixou um malho indignado em um
“cidadão” que afanou 41 bilhões (Daniel Vorcaro, claramente) e em “gente sem
vergonha na cara” que estaria tentando salvar o estafador. Pelo contexto da
fala ele pareceu se referir ao ministro do STF, Dias Toffoli. Ponto para Lula.
Muita
gente que vem defendendo o STF nas redes socais, em nome do seu papel na luta
pela democracia, deve ter enfiado a carapuça do discurso do presidente. Tenho
lido inúmeras mensagens que atribuem as críticas ao papel de Dias Toffoli e as
suspeitas do papel de Xandão a uma nova “operação Lava Jato”, visando
enfraquecer o Supremo e, através deste, a democracia.
O
ataque à jornalista que denunciou os dois ministros foi do tipo arrasa
quarteirão, como se investigar fatos suspeitos fosse parte de um “complô da
mídia” e do bolsonarismo. Isto é, para mim, desviar o foco da crise, aliviando
a direitalha que aparece cada vez mais implicada no affaire. Ao comparar o caso
Master com a Lava Jato, a parte da esquerda que emburacou nesta ofensiva, só
mostrou o quanto ainda se sente vulnerável com os casos do mensalão e do
petrolão.
Isto me
leva a outra lembrança, a de uma piada velhíssima sobre o cego que tentou
descobrir qual era o animal que ele tinha diante de si através do tato. Ele
toca na tromba, nas patas, no chifre e nas orelhas de um elefante, mas erra o
tipo de animal da charada. No caso da Lava Jato, tínhamos dúzias de réus
confessos e muitos milhões de recursos desviados devolvidos, mas os nossos
cegos não concluíram que havia corrupção, e sim que tudo era um golpe da mídia
antipetista e do juizinho mequetrefe da “república de Curitiba”. É como
confundir elefante com beija flor.
É claro
que houve lawfare e que o juizinho extrapolou e manipulou a lei para implicar o
governo de Dilma Rousseff. No entanto, apesar do uso político do processo, os
dados concretos apresentados permitiam concluir a existência do elefante da
corrupção. O mesmo Dias Toffoli foi lavajatista, como, até metade do segundo
tempo da partida, o conjunto do STF também, ao ponto de enfiarem Lula na
cadeia. Como a conjuntura política mudou, o STF passou um pano, um verdadeiro
esfregão, na Lava Jato, com Dias Toffoli (e Gilmar Mendes e outros), anulando o
processo por razões técnicas.
A
esquerda passou a proclamar a inocência dos acusados, livrando réus petistas e
muitos outros, políticos do Centrão, beneficiários dos desvios. Na verdade,
ninguém foi inocentado por estas anulações, apenas os processos foram
invalidados e prescreveram. Mas, como dizia António Salazar, em política o que
parece, é.
E tudo
parecia indicar a existência de um esquema de corrupção em curso para permitir
comprar maiorias eventuais no Congresso. O que meus camaradas da esquerda não
perceberam é que o público ficou com um gosto amargo e entendeu tudo isto como
uma traição dos partidos que se criaram e cresceram denunciando a falta de
ética na política sobretudo, por sua importância, o PT.
Hoje o
elefante é outro, mas segue sendo um elefante e não pode ser confundido com
qualquer outro animal. Temos um caso espetacular de corrupção, desta vez com a
direita em bloco envolvida nas teias de Vorcaro. Defender o STF em nome da
democracia é tentar abafar o caso e isto a esquerda vem fazendo, para a alegria
da direita.
Dias
Toffoli está se enrolando dia a dia na sua descarada tentativa de travar a
investigação da Polícia Federal. Xandão está na muda e não responde a pergunta
óbvia: quais os serviços prestados pelo escritório de advocacia da sua esposa
ao banco Master, com valores milionários muito superiores aos do mercado? Ou,
se ele acha que é ela quem tem que responder, por que não o faz?
Xandão,
e todo o STF, votaram pela permissão de seus parentes advogarem para acusados
em processos que chegam à Corte Suprema. O atual presidente do STF, Fachin,
sensível ao desgaste da instituição, propõe a criação de um código de ética e
seus pares fazem ouvidos de mercador. Claramente, este código de ética não
deixaria de incluir o impedimento de escritórios de parentes em processos
julgados pela Corte. Também impediria que ministros recebessem benesses, como
caronas em jatinhos de advogados envolvidos em processos ou a participação em
festanças, como a já notória “Gilmarpaloosa”, que se repete a cada ano. E em
outras prebendas mais.
Andam
explicando que Toffoli viajou em um jatinho de Daniel Vorcaro e em companhia de
um de seus advogados, mas antes do processo chegar à Corte Suprema. A emenda é
pior do que o soneto, pois foi justamente depois deste voo de torcedores que
Dias Toffoli chamou para si o processo do Master, que corria em primeira
instância, usando um pretexto tão frágil que o cheiro de queimado varreu a
Praça dos Três Poderes. Foi só o primeiro de uma série de gestos que alentaram
os defensores de Daniel Vorcaro e que não vou apresentar aqui por serem bem
conhecidos.
Edson
Fachin deu um tiro no pé do STF ao dar sustentação a Dias Toffoli frente à maré
de denúncias de atos e relações suspeitos do ministro e que vem freando a
ação da PF. Nesta defesa foi secundado, publicamente, por Gilmar Mendes e
Xandão. O discurso soou como o das redes sociais: a democracia está sendo
atacada pelas críticas ao comportamento de alguns dos ministros do STF.
A
persistir a caradura de Dias Toffoli na sua campanha para livrar Daniel
Vorcaro, a lama vai mais que respingar, vai lambuzar a imagem da Corte frente
ao público e este estrago sim, vai enfraquecer a democracia. É tudo que a
direita quer.
Devíamos
estar atacando os partidos cujos prefeitos e governadores investiram
pesadamente (e suspeitosamente) no banco Master e se encontram no vórtice das
investigações. Começando com o PL, em que três executivos comprometeram mais de
um bilhão dos recursos públicos sob seu controle. Seguem-se o Solidariedade (400 milhões), PSD (212 mi), Podemos (60 mi),
União Brasil (50 mi), MDB (47 mi), PSDB (14,5 mi), PSB (14 mi) e PP (1,2 mi).
Os
dados (parciais) vêm das investigações da “imprensa burguesa”, que está
cumprindo o seu papel jornalístico. Entre os poíticos e executivos de maior
realce encontramos Ciro Nogueira, Ibaneis Rocha e Claudio Castro. Com tanta
munição para atacar os links entre políticos da extrema direita, direita,
centrão et caterva os partidos da esquerda ainda não pediram uma CPI e quem
está articulando são partidos da oposição. Talvez a direita espere poder
controlar a CPI e focá-la no governo e nos partidos de esquerda, mas é um jogo
arriscado com tanta informação comprometendo-os.
Estranhamente,
a esquerda está mais ativa na defesa do STF, entendida como defesa da
democracia e tendo como resultado aparecer (direta ou indiretamente) defendendo
Dias Toffoli e Xandão. E o governo estava, até poucos dias atrás, quieto, ao
ponto da PF e do Banco Central se queixarem de falta de apoio. Há quem
considere que o governo ajudou discretamente Dias Toffoli pela posição do
Procurador Geral da República, que indeferiu o pedido de afastamento deste
último, feito por parlamentares da oposição.
Dirão
os defensores do governo que a PGR é um organismo autônomo e independente do
executivo, mas a nossa história desde a Constituinte mostra que os procuradores
sempre são afinadíssimos com os desejos do presidente do momento.
O
problema é que o jornalismo investigativo vem abrindo novas frentes de
influência de Daniel Vorcaro e já começam a surgir notícias que chamuscam o
governo com perguntas sem resposta até agora. Não apareceu nada diretamente
comprometedor, mas já aparecem situações suspeitas.
Primeiro
foi a notícia de uma intervenção de Lula, indicando para Daniel Vorcaro o nome
de Guido Mantega para um cargo no banco Master com remuneração mensal
milionária, mas agora sugiu o ex-ministro (do Supremo e do governo) Ricardo
Lewandowski com seu escritório trabalhando para Daniel Vorcaro.
O
senador Jacques Wagner assumiu a indicação “a pedidos”, sem que ele diga de
quem, mas que só pode ser de Daniel Vorcaro ou de um seu sócio. E para fechar o
cerco, noticiou-se, sem que tenha havido contestação, que Lula recebeu Daniel
Vorcaro, levado por Guido Mantega, em dezembro de 2024, para uma reunião na
Granja do Torto, com uma agenda que não foi revelada.
Lula
parece ter queimado as pontes com o seu discurso, já citado. Mas as perguntas
sem resposta vão aumentando o cheiro de queimado. Se, de fato, onde há fumaça
há fogo, ficaria explicada a posição dúbia e reticente do Planalto e da
esquerda, mas espero que o discurso agressivo de Lula dê o sinal para a
esquerda tomar a ofensiva. E deveria começar por explicar a reunião com
Vorcaro.
A outra
explicação para a falta de combatividade da esquerda neste caso do banco Master
é o que eu chamo de síndrome do telhado de vidro. Apesar da gritaria contra a
Lava Jato e a desmoralização desta investigação, a esquerda saiu torrada frente
à opinião pública e fica sem moral para cobrar ética dos outros. Infelizmente,
apesar de militantes de peso do PT terem proposto um processo de autocrítica
para buscar recuperar a supremacia moral que gozou na sociedade brasileira até
a eleição de 2002, a posição foi derrotada e o partido enterrou-se para sempre
na postura de negar insistentemente fatos evidentes e culpar SérgioMoro, a
mídia e a direita pelo massacre que sofreu.
A
posição defensiva é explicável do ponto de vista tático. Admitir a corrupção
seria desastroso do ponto de vista processual, até porque sería difícilílimo
livrar o próprio Lula das acusações de participação. A tática de negar tudo até
o absurdo funcionou do ponto de vista legal, com o desmonte da Lava Jato. Mas
politicamente (e estrategicamente) o público não se deixou enganar e criou-se
uma posição antipetista derivada da decepção em relação à postura ética.
A
esquerda não entendeu até hoje que corrupção não é um problema menor a ser
esquecido frente aos avanços sociais promovidos pelos governos populares (
seria a volta do “rouba mas faz?”). A corrupção é parte integrante da lógica do
sistema capitalista (e também de muitos sistemas ditos socialistas) e tem que
ser combatida com firmeza.
Escrevi
no tempo em que Lula assumiu seu primeiro governo que, um governo petista tinha
que ser mais puro do que a mulher de César (que não só devia ser honesta, mas
parecer honesta). Em outras palavras, o governo Lula tinha que estar acima de
qualquer suspeita.
Mas,
como o próprio Lula declarou na época do mensalão, o PT fez o que “todo mundo
sempre fez”. Ele assumia a prática do “caixa dois”, praticada por todos os
partidos da direita e do centro. Era uma confissão disfarçada e minimizada de
corrupção pois a famosa caixa dois não era outra coisa senão dinheiro doado
“por fora” aos partidos por empresários os quais, é claro, buscavam
compensações em contratos públicos onde reinavam os superfaturamentos.
Na
ânsia de obter recursos para competir com os partidos da direita, o PT buscou
contribuições ilegais de empresários, sem entender que nesta disputa a direita
sempre sai ganhando, por sua afinidade natural com o empresariado. Houve um
pragmatismo do tipo: já que não se consegue controlar o financiamento ilegal da
direita vamos pelo menos garantir uma parte para nós. Mas para cada
contribuição para a esquerda, os empresários dobravam a aposta na direita. Não
é preciso explicar, penso eu, o fato de que os mecanismos da corrupção
distorcem a democracia e garantem a continuidade do controle político pelos
donos do dinheiro.
Seja
pela síndrome do telhado de vidro ou, pior, seja pelo eventual envolvimento de
personalidades do governo ou da esquerda nos esquemas de Vorcaro, o fato é que
estamos perdendo uma ótima oportunidade de ferir a direita com o seu próprio
veneno, desmascarando o falso discurso moralista de políticos e pastores ou de
pastores políticos. Vai ficando difícil ganhar esta eleição.
Fonte:
A Terra é Redonda





