segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Uma a cada 7 crianças latino-americanas está ameaçada pelo El Niño

Este é o ano mais seco já registrado em Tegucigalpa. Oitenta por cento de Honduras está sob alerta vermelho, e a capital vem racionando água potável a cada 12 dias no último mês. A falta de chuvas complica ainda mais as plantações de milho e feijão na Guatemala, principal fonte de alimentos do país, que apresenta o maior índice de desnutrição infantil crônica da região. O Canal do Panamá começou a restringir o tráfego de navios devido à escassez de água na bacia, e os rios áridos da Amazônia estão isolando dezenas de comunidades ribeirinhas do Brasil e dificultando a vida dos pescadores.

Essa distopia tem um nome: El Niño, um fenômeno climático que persistirá até março de 2027 e que colocou em risco o continente americano. As crianças são um grupo particularmente vulnerável. Segundo a UNICEF, 25,8 milhões de crianças estão expostas aos riscos relacionados às secas e inundações severas causadas por essa anomalia climática. Isso equivale a quase uma em cada sete crianças.

A seca que afeta os rios está interrompendo o trajeto das escolas e impactando o abastecimento básico de alimentos para as famílias mais vulneráveis, tornando a busca por água uma tarefa hercúlea. Como resultado, pelo menos 9 milhões de pessoas precisarão de ajuda humanitária. Essas são as estimativas iniciais do UNICEF, baseadas em dados dos municípios mais afetados. Lenay Alexandra Blason, assessora regional de emergências do UNICEF para a região, está particularmente preocupada com a América Central e o Caribe. "Estamos muito preocupados com o impacto que isso poderá ter em áreas já vulneráveis, como o Corredor Seco, Cuba e Haiti. Isso agravará muito as situações precárias nesses países."

O El Niño faz parte do sistema climático do Pacífico. Pesquisas paleoclimatológicas — baseadas no estudo de corais antigos, sedimentos marinhos e anéis de árvores — confirmam que esses episódios ocorrem de forma semelhante há milhares de anos. É por isso que os cientistas insistem que o problema não é a sua existência, mas sim a sua frequência e intensidade incomuns, devido ao aquecimento global. Rodney Martínez, representante da Organização Meteorológica Mundial (OMM) das Nações Unidas para a América do Norte, América Central e Caribe, descreve um cenário "particularmente crítico" que se manifesta de maneiras opostas em todo o continente.

Em toda a América Central (com exceção da Costa Rica), o El Niño se manifestou como secas devastadoras, enquanto no Equador, Peru, Uruguai e Paraguai, a consequência tem sido inundações atípicas e chuvas torrenciais. Nesta época do ano, aliás, cerca de sete furacões já teriam se formado no Atlântico, mas até o momento não houve nenhum. Embora isso possa parecer uma boa notícia, Martínez insiste: "A ausência total de furacões é muito negativa do ponto de vista meteorológico, pois eles são responsáveis por distribuir a umidade para as ilhas do Caribe. É por isso que estamos enfrentando grandes déficits hídricos e temperaturas muito acima do normal para esta época do ano."

O especialista também destaca que "ainda temos muito a dizer sobre o El Niño", já que o pico desse fenômeno é esperado nos próximos três meses. "O que sabemos é que, no momento, podemos classificá-lo como o evento climático mais forte dos últimos 80 anos."

Tanto Martínez quanto Blason enfatizam o mesmo ponto: a prevenção é fundamental. "Ao contrário de furacões ou terremotos, esses eventos podem ser mitigados", explica a representante do UNICEF. De acordo com estudos da organização, cada dólar investido em prevenção pode economizar até US$ 15 em custos de recuperação após um evento climático adverso. "A mitigação envolve trabalhar com governos, prestar atenção às informações fornecidas pela comunidade científica, engajar o setor privado e também as comunidades para que elas possam se organizar", explica ela. "Precisamos trabalhar em todos os níveis e alocar recursos antes que esses eventos ocorram, não apenas depois."

•        “Super El Niño” ameaça 25 milhões de crianças e pode aumentar desigualdade na América Latina

Os impactos do “Super El Niño” podem afetar pelo menos 25,8 milhões de crianças na América Latina e no Caribe, de acordo com estimativas do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Segundo a organização, uma em cada sete crianças da região enfrenta riscos crescentes devido à seca e às inundações mais severas, o que exacerba desigualdades e vulnerabilidades e interrompe o acesso a serviços essenciais.

Uma das áreas mais impactadas será a América Central, que já sofre com os efeitos de uma forte seca. O chamado “Corredor Seco”, que inclui partes da Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua, enfrenta condições mais severas de estiagem que devem afetar a produção agrícola, aumentando a insegurança alimentar e os riscos de desnutrição. A seca também deve causar problemas no Caribe, ao mesmo tempo em que as águas quentes do mar seguem representando um risco de formação de tempestades e furacões intensos.

Já na costa do Pacífico, do México ao Chile, no sul do Brasil, e em partes da Argentina, Paraguai e Uruguai, as chuvas acima da média devem aumentar o risco de inundações, danos às infraestruturas e interrupções em serviços, como escolas, postos de saúde e sistemas de abastecimento de água. Na Amazônia, o problema será a falta de água, que deve reduzir os níveis dos rios, isolando comunidades ribeirinhas e indígenas.

“Os efeitos cada vez mais visíveis e severos do El Niño ameaçam empurrar ainda mais crianças para uma situação de maior vulnerabilidade e aumentar as desigualdades já existentes. Precisamos agir agora para fortalecer a preparação, proteger os serviços essenciais e garantir que as crianças recebam o apoio de que precisam”, destacou Roberto Benes, diretor regional do UNICEF para a América Latina e Caribe.

Para fortalecer a resposta à crise, o UNICEF pediu aos governos, parceiros e doadores mais recursos para ações preventivas, adaptação climática e financiamento específico para a infância. Para 2026, o órgão da ONU solicitou US$ 53,8 milhões (R$ 280,7 milhões) para preparação e resposta à crise na América Latina e Caribe. No entanto, até 30 de junho, ainda persistia uma lacuna de financiamento de 55%.

 

Fonte: El País/ClimaInfo

 

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