segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Sociedade sem classes na atualidade

Embora o verão extremamente quente, que finalmente começa a arrefecer, tenha quebrado todos os recordes europeus de temperatura, as reações públicas foram relativamente contidas. As estatísticas meteorológicas foram rotineiramente processadas como mais uma prova do processo em curso de aquecimento global e como confirmação de previsões de estações igualmente desagradáveis em um futuro próximo; contudo, o verão quente não desencadeou, de modo algum, um clima acalorado na mídia.

Também o tom das reportagens sobre a Copa do Mundo de futebol, o único acontecimento de atenção global durante os últimos meses, foi dominado por uma estranha convergência entre fatos de grande escala e expectativas confirmadas. Nunca o número de seleções participantes havia sido tão grande, nem tantos gols haviam sido marcados e tantos espectadores registrados quanto entre meados de junho e julho de 2026, entretanto, falou-se pouco de partidas dramáticas ou de verdadeiras surpresas.

As quatro seleções semifinalistas corresponderam às posições anteriores no ranking da FIFA e, como favorito confiável dos especialistas, a Espanha venceu a final contra a Argentina, campeã do torneio de 2022. Milhões de torcedores celebraram devidamente seus heróis no centro de Madri como “Reis do Mundo”, antes que as preocupações dos cidadãos, assim como os órgãos governamentais, voltassem rapidamente – e afinal com sucesso – ao combate aos incêndios florestais.

Da mesma forma, entre o vazio de notícias pouco empolgantes do verão e os acontecimentos políticos previstos para o início do outono não deveriam surgir descontinuidades marcantes. As guerras no território da antiga União Soviética e em torno do estreito de Ormuz continuarão entretendo a opinião pública mundial com negociações fracassadas ou ofensivas repelidas e oferecendo aos observadores eticamente engajados a oportunidade de manter o tom menor de sua indignação contra Donald Trump e Vladimir Putin.

Como não se prevê um conflito ideologicamente carregado entre as duas potências mundiais incontestáveis, separadas pela distância do Pacífico, não surgirá motivo urgente para que os países europeus finalmente reconheçam para si mesmos seu status, em muitos aspectos, tornado periférico. Friedrich Merz e o governo federal alemão poderão continuar, por enquanto, administrando a estagnação com a retórica já comprovada de planos gerais de reforma.

Vivemos em um estado de espírito vago, de um presente que não se deixa nem perturbar nem interromper pelas mudanças, e essa impressão provavelmente aponta para uma fragilidade da concepção tradicional de “história” no registro dos movimentos atuais. Ela se manifesta, por exemplo, na maneira como observamos a transformação ocorrida no conceito e na realidade das “nações”.

O páthos, deslocado no tempo, de suas bandeiras e hinos solenes, só o ouvimos ainda em competições de esportes mundialmente populares, nas quais as derrotas das respectivas seleções ou atletas, evidentemente, já não provocam estados de depressão coletiva, como ficou demonstrado após a eliminação precoce dos jogadores alemães diante do Paraguai. Mesmo em caso de vitória, não teria ocorrido uma nova edição do “conto de fadas de verão” de vinte anos atrás. E com quais referências coletivas nos identificamos entre as Olimpíadas e as Copas do Mundo? Será que sua posição outrora indiscutivelmente superior já não pertence ao nosso entendimento cotidiano de nós mesmos?

Num mundo de redistribuições motivadas pela social-democracia e de diferenças de renda possivelmente cada vez maiores, as antigas categorias populares como “cidadão” ou “proletário”, “funcionário público” ou “profissional liberal”, “protestante” ou “católico praticante” perderam, em todo caso, muito de sua atratividade.

Da mesma forma, tornou-se difícil identificar tipos sociais com base em atividades preferidas, porque quase nenhuma forma de comportamento ainda está vinculada a regras de acesso ou mesmo a privilégios. Jogar tênis ou golfe, frequentar apresentações de ópera e realizar viagens educacionais tematicamente especializadas, até mesmo cruzeiros em alto-mar e, de todo modo, estudos universitários estão abertos a todos os contemporâneos que vivem na chamada “classe média”, em constante expansão.

No lugar das comunidades abrangentes, das hierarquias de classes que impulsionavam a ambição de ascensão ou mesmo das lutas de classes, estabeleceu-se uma “individualidade plana”, mais preocupada em perseguir ininterruptamente interesses e preferências do que em cultivar perfis integrados.

Na era do conhecimento acessível eletronicamente, pode-se desejar durante toda a vida saber mais sobre a carreira de Elvis Presley ou sobre insetos da Patagônia, visitar continuamente novos monumentos da arquitetura barroca e cozinhar pratos até então desconhecidos segundo receitas exóticas. Como um tabu bem-intencionado proíbe perguntas sobre o valor existencial de tais paixões isentas de sofrimento, elas desembocam em horizontes crescentes de banalidade, cujas variantes extremas a legislação moderna envolve, como ganho de independência, com proteção jurídica.

Diante dessas mudanças elementares nas estruturas da vida social cotidiana, forma-se uma concentração na concretude dos corpos e um desejo de cultivá-los por meio de exercícios austeros. Nesse contexto, a individualidade plana desenvolve múltiplas atividades físicas que convidam ao engajamento como participante ou espectador.

Da corrida matinal às viagens transatlânticas com componentes de caminhada, passando por gastos especiais com moda e restaurantes sofisticados, nossos corpos são cercados por um horizonte de possibilidades de investimento que subjetivamente são vivenciadas como experiências estéticas e, para os observadores externos, são supérfluas. Entre esses “peripécias de luxo” e o impulso migratório que explodiu na crise de Ceuta do mês passado, como expressão de necessidades subjetivas sem resposta política, pode haver uma afinidade que parece paradoxal apenas à primeira vista.

Na realidade, os discursos de análise sócio-histórica ainda correntes nas culturas ocidentais já não fazem justiça ao tipo de mudanças que se acelerou visivelmente desde a dissolução das referências coletivas de comportamento por volta da virada do milênio. É justamente por isso que nos faltam, ao olhar retrospectivamente para o verão deste ano, aqueles tons de surpresa, aplauso ou protesto aos quais nos acostumamos.

Eles haviam surgido da concepção de “história”, central e obrigatória para toda a elaboração da experiência desde o final do século XVIII, que pressupunha, como agentes de qualquer movimento, grupos de pessoas unidos por necessidades e projetos; isto é, pertencem a um esquema de percepção incapaz de apreender tanto a passagem para uma individualidade plana quanto a concentração na corporeidade.

Acima de tudo, porém, a “história” havia pressuposto uma transformação incessante de todos os fenômenos como efeito fundamental do tempo e, portanto, pressuposto como necessário o contraste entre um passado que fica para trás da presença, entendida como momento de transição, e um futuro passível de configuração, contraste do qual as formas de experiência hoje se afastam cada vez mais.

Para podermos identificar e explicar os estados de espírito ainda vagos de continuidade, serenidade ou resignação que encontramos atualmente sem conseguir encontrar para eles um lugar na concepção de “história”, é indispensável conceber conceitualmente um tempo cotidiano que já não seja histórico, ao qual se possa aplicar o nome de “presente amplo”. Pois, em vez do presente no sentido da visão histórica de mundo, em lugar do presente como momento fugaz de uma transformação constante, a individualidade plana pressupõe uma esfera na qual as pessoas existem lado a lado como corpos sem vínculo com grupos. Esse presente amplo, literalmente sem classes, já não é cercado por um futuro de projetos a serem realizados nem por um passado que deva ser constantemente superado por esses projetos.

O passado do presente amplo fornece opções para o comportamento atual, e seu futuro se realiza como confronto produtivo com desafios ameaçadores. Entre eles estão fenômenos como a mudança climática, a inteligência artificial como dinâmica de algoritmos eletrônicos não controlável pelos seres humanos e, em breve, também o fim da expansão demográfica da humanidade.

Especialmente na prática política, a mudança para um futuro não ocupado por visões de mundo tem consequências profundas, frequentemente experimentadas como uma crise. Desde a era das revoluções burguesas, as expectativas em relação aos políticos haviam sido moldadas por um conceito de ação que relacionava o comportamento a tais visões – em terminologia sociológica: a motivações. Elas se orientavam por ideologias como sistemas coerentes de valores e determinavam tanto as identidades dos políticos quanto as preferências de seus eleitores.

Se, porém, o horizonte futuro ocupado por essas identidades perde progressivamente seu status de orientação para a ação, então a nitidez tradicional das posições políticas e da ação orientada para objetivos é substituída por uma forma de negociação de curto prazo. Negociar não significa realizar projetos ou visões, mas estabelecer relações individualmente favoráveis entre objetivos alcançados e concessões inevitáveis.

Com a prática da negociação no presente amplo, a rivalidade entre diferentes partidos e ideologias também se transforma em disposição para formar coalizões, cuja duração e eficácia dependem das respectivas situações problemáticas.

Quanto mais complexas se tornam as coalizões, menos elas podem reivindicar representar “camadas eleitorais” socialmente homogêneas. Em outras palavras: a passagem para outra temporalidade enfraquece o princípio de representação de grupos sociais, surgido sob os pressupostos da visão histórica de mundo e sobre o qual se fundamenta a democracia parlamentar.

Como sintoma dessa situação, o conceito de “populismo” deve seu uso hoje inflacionário e predominantemente crítico à dificuldade de atribuir as formas práticas de negociação a posições ideológicas clássicas. Ao mesmo tempo, ele contém uma referência à certeza de que muitos contemporâneos não veem motivo de objeção nessa evolução. Pois, embora os índices de participação eleitoral tenham caído ligeiramente em todo o mundo, figuras como Georgia Meloni, Javier Milei ou mesmo Donald Trump encontram apoio entre cidadãos sem se ajustarem a identidades sociais que têm cada vez menos importância para desejos e autoimagens.

Esse diagnóstico político corresponde ao estado de espírito ainda sem nome destas semanas, que reduz de maneira surpreendente o impacto de acontecimentos que antes eram vivenciados como destinos dramáticos. No presente amplo, uma coexistência de formas individuais de vida ocupou o espaço histórico das tensões entre grupos sociais e retirou das mudanças em curso a ressonância habitual.

Com isso, surgiram, sob novas premissas, estruturas que lembram o conceito de “sociedade sem classes” inventado por Karl Marx para designar o fim redentor e coletivamente feliz da história. E, embora essa sociedade realmente sem classes não tenha eliminado por completo a pobreza humana, o número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza de fato caiu, dentro de uma população mundial ainda lentamente crescente, de 2,2 bilhões no ano 2000 para cerca de 800 milhões. Permanece, entretanto, não cumprida a promessa de felicidade que sempre esteve ligada às utopias.

Particularmente entre as gerações mais jovens das sociedades ocidentais, a satisfação com a própria vida está diminuindo. Isso não fala nem a favor nem contra o cotidiano que surgiu sem contornos de classe – ao menos enquanto a reflexão sobre suas relações com os novos estados de espírito ainda não tiver alcançado uma certeza definitiva.

 

Fonte: Por Hans Ulrich Gumbrecht, em A Terra é Redonda

 

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