Samuel
Kilsztajn: A era das migrações
Até a
Segunda Guerra Mundial, por gerações, por séculos a fio, minha família vivia
circunscrita a uma restrita área do Leste Europeu. Mas iam dormir em um país e
acordavam noutro – Polônia, Reino da Prússia, Império Austro-Húngaro, Império
Russo, Alemanha, Polônia de novo, União Soviética, Alemanha. As pessoas viviam
praticamente imóveis; as fronteiras é que mudavam de lugar. E, a cada novo
país, embora continuassem sobre o mesmo chão, tinham que se adaptar à língua
oficial, às instituições e às novas leis vigentes. Eu nasci andando, da
Palestina à Alemanha, a caminho dos Estados Unidos, mas fui preso em Munich aos
dois anos de idade, como imigrante ilegal, e o destino acabou me levando a
ancorar em Santos…
Hoje,
300 milhões de pessoas vivem em países onde não nasceram – imigrantes
naturalizados, residentes permanentes, temporários, refugiados, asilados ou
indocumentados. O país com maior número de imigrantes, em termos absolutos, são
os Estados Unidos, que abrigam 50 milhões de imigrantes entre seus 340 milhões
de habitantes (15%); e a metrópole com maior número de imigrantes, em termos
absolutos, é Nova York, com 6 milhões de imigrantes entre 20 milhões de
habitantes (30%; a Região Metropolitana de Nova York compreende a Cidade de
Nova York e condados circunvizinhos localizados nos estados de Nova York e New
Jersey).
As
estimativas para os Estados Unidos, grosso modo, são: imigrantes naturalizados,
26 milhões; residentes permanentes, temporários, refugiados e asilados, 10
milhões; e indocumentados, 14 milhões. Para a Região Metropolitana de Nova
York, grosso modo, são: 3 milhões de imigrantes naturalizados; 2 milhões de
residentes permanentes, temporários, refugiados e asilados; e 1 milhão de
indocumentados.
Como
explicitado, a Região Metropolitana de Nova York, com seus 20 milhões de
habitantes e 6 milhões de imigrantes, inclui condados circunvizinhos. Vamos
agora alterar o espaço de análise para o Estado de Nova York e a Cidade de Nova
York (NYC), que reúne cinco distritos: Manhattan, Brooklyn, Queens, Bronx e
Staten Island. O Estado, com 20 milhões de habitantes, abriga 5 milhões de
imigrantes; e NYC, com 9 milhões de habitantes, abriga 3 milhões de imigrantes
– ou seja, um em cada quatro habitantes do Estado e um em cada três habitantes
de NYC são imigrantes.
Nova
York é a cidade mais dinâmica do mundo e não há no planeta cidade com maior
diversidade étnica, cultural e linguística – Zohran Mamdani, imigrante
muçulmano nascido em Uganda, de origem indiana, que o diga. Embora um a cada
três habitantes de NYC seja imigrante, metade dos novaiorquinos fala em casa
uma língua que não é o inglês. Nas ruas, todos interagem em suas mais diversas
indumentárias, costumes, línguas e sotaques. Basta caminhar algumas quadras
para atravessar países e continentes sem sair da cidade. NYC parece ter
transformado a imigração, mais do que em fenômeno demográfico, em modo de vida.
<><> ICE – U.S. Immigration and Customs
Enforcement
Em meio
ao auge do verão novaiorquino, quando a cidade vive um deslumbre, a operação Rotten
Apple do ICE, realizada de 27 de julho a 29 de agosto de 2026, prendeu
2.197 imigrantes em todo o Estado de Nova York. O governo não divulgou a
distribuição geográfica das detenções, não sendo possível saber quantos foram
detidos especificamente em NYC. A intervenção foi uma provocação de Donald
Trump – basta ver o nome oficial atribuído à operação na metrópole mais
dinâmica do mundo, “Maçã Podre”. O Governo Federal declarou que buscou
enfrentar políticos das cidades-santuário que se recusam a cooperar com a política
migratória federal, como o prefeito socialista Zohran Mamdani e a governadora
democrata Kathy Hochul.
NYC,
com seus 3 milhões de imigrantes, abriga 535 mil imigrantes indocumentados e os
demais municípios do Estado de Nova York, com seus 2 milhões de imigrantes,
abrigam outros 385 mil imigrantes indocumentados – um total de 920 mil
imigrantes sem status migratório regular no Estado. Os indocumentados
compreendem imigrantes que entraram no país sem autorização e os com visto
vencido. A entrada irregular nos Estados Unidos pode constituir crime; a
permanência após o vencimento do período autorizado, embora não seja
classificada como tal, constitui uma violação das leis de imigração e pode
levar à deportação.
<><>
A questão migratória
A
questão migratória não se resume a números. A humanidade sempre se deslocou,
mas o mundo contemporâneo transformou a migração em um tema central da
política, da economia e da própria vida social. Até o século XIX, havia
relativa liberdade de circulação internacional e não existia um sistema
universal e padronizado de controle da mobilidade. A generalização de
passaportes se intensificou durante a Primeira Guerra Mundial. A grande
novidade não é que as pessoas migrem, mas que hoje uma parcela sem precedentes
da população mundial viva permanentemente entre países, culturas e sistemas
jurídicos distintos.
Durante
séculos, a mobilidade esteve submetida sobretudo à distância. Hoje, ela
encontra-se submetida a fronteiras. O avião reduziu a distância entre
continentes a algumas horas de viagem; o telefone e a internet praticamente
eliminaram a distância na comunicação. O capital atravessa fronteiras em
frações de segundo, mas as pessoas se deparam com divisas, vistos, autorizações
de residência, controles migratórios e deportações – uma pessoa sem papel vale
menos do que um papel sem pessoa.
Há,
assim, uma contradição característica da globalização: enquanto mercadorias,
capitais, informações e empresas circulam cada vez mais livremente pelo mundo,
a circulação das pessoas permanece submetida à soberania territorial dos
Estados nacionais. O capital pode procurar trabalhadores em qualquer parte do
planeta; o trabalhador precisa de autorização para poder atravessar as
fronteiras.
A
migração internacional tornou-se, desse modo, uma espécie de espelho da
desigualdade mundial. Até a Revolução Industrial, as diferenças de riqueza
entre as nações eram relativamente pequenas. As pessoas hoje migram porque o
lugar onde nasceram oferece menos oportunidades, menor renda, segurança ou
perspectiva de futuro. E, ao atravessarem as fronteiras, carregam consigo as
desigualdades do mundo de onde vieram. O site do Center for Migration Studies,
além do país de origem, apresenta uma série de informações sobre a situação
socioeconômica dos imigrantes indocumentados e sua inserção na sociedade
norte-americana.
Os
Estados, por sua vez, procuram distinguir entre aqueles que têm direito a
entrar e permanecer e aqueles que não têm. Daí a multiplicação das categorias
jurídicas: cidadão natural, naturalizado, residente permanente, temporário,
refugiado, asilado e imigrante sem documentação. A mesma pessoa pode ser
perfeitamente regular em um país e ilegal a partir do instante em que atravessa
uma fronteira.
O
imigrante indocumentado é, nesse sentido, uma figura particularmente reveladora
do nosso tempo. Ele trabalha, consome, paga aluguel, frequenta escolas,
constrói casas, cuida de crianças e idosos e participa da vida econômica da
sociedade em que vive; mas, perante o Estado, sua presença pode ser considerada
irregular. A sociedade depende de seu trabalho ao mesmo tempo em que o Estado
questiona o seu direito de permanência.
É nesse
terreno que a imigração se transformou em um dos grandes campos de batalha
política do século XXI. De um lado, Estados e movimentos nacionalistas
reivindicam o direito soberano de controlar suas fronteiras. De outro, cidades,
organizações sociais e movimentos de defesa dos imigrantes reivindicam direitos
para pessoas que já vivem e trabalham em seu território, independentemente de
seu status migratório.
Nova
York talvez seja um dos lugares em que essa contradição aparece de forma mais
evidente. A cidade foi construída por sucessivas ondas de imigração – os
indígenas, seus habitantes originais, foram exterminados – e ocupa hoje o posto
de maior concentração de população estrangeira do planeta. Ao mesmo tempo,
permanece submetida às leis migratórias do governo federal dos Estados Unidos
sob a administração Trump.
É nesse
contexto que se deve compreender a operação Rotten Apple. Mais do que
uma operação de fiscalização migratória, ela tornou visível o conflito entre
duas concepções de poder: a do governo federal, que reivindica a autoridade
sobre as fronteiras e a imigração; e a das autoridades locais que procuram
proteger, em maior ou menor medida, a população imigrante que vive em suas
cidades.
A velha
questão das fronteiras reaparece, portanto, sob uma nova forma. Minha família,
durante séculos, permaneceu praticamente no mesmo lugar, enquanto as fronteiras
se moviam em torno dela. Hoje, milhões de pessoas atravessam as fronteiras
enquanto os territórios permanecem onde sempre estiveram. Mudou o sentido do
movimento: antes, eram os Estados que se deslocavam sobre as pessoas; agora,
são as pessoas que se deslocam entre os Estados.
Talvez
seja essa a característica mais marcante da Era das Migrações: nunca foi tão
fácil atravessar distâncias e nunca foi tão difícil, para quem as atravessa,
saber de que lado da fronteira se encontra.
¨
Os problema migratórios
Em
setembro de 2026, o cenário imigratório global foi marcado por um forte
endurecimento das políticas de controle de fronteiras, respostas a crises
humanitárias localizadas e mudanças drásticas nos fluxos legais de trânsito
tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.
As
principais tensões e problemas imigratórios registrados ao longo do mês
incluem:
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1. Desdobramentos da Crise de Ceuta na União Europeia
A
invasão migratória em massa ocorrida em julho em Ceuta (território espanhol no
Norte da África) continuou gerando forte instabilidade política e social em
setembro de 2026:
- Crise
Humanitária Local: Milhares de migrantes permaneceram acampados nas
praias e ruas de Ceuta enfrentando chuvas e falta de abrigo. No início de
setembro, as autoridades locais precisaram implantar esquemas especiais de
segurança policial nas portas das escolas devido ao aumento de tensões e
relatos de violência.
- Protestos e
Pressão Política: Em 26 de setembro, cerca de 20 mil pessoas
marcharam em Madri sob slogans conservadores contra a política migratória
do primeiro-ministro Pedro Sánchez.
- Respostas da UE: Em 29 de
setembro, a Comissão Europeia apresentou um plano focado em acelerar
deportações, expandir os poderes de ação rápida da agência Frontex e
avançar na criação de return hubs (centros de detenção fora do
bloco, com negociações envolvendo países como Ruanda). Simultaneamente,
países como a Grécia propuseram formalmente a suspensão do direito de
asilo na UE durante crises migratórias de grande escala.
>>>
2. Endurecimento Massivo nos Estados Unidos
Sob a
administração americana atual, setembro consolidou uma das fases mais rígidas
na aplicação das leis de imigração:
- Queda Crítica e
Prisões Recordes: Atuações do ICE (Immigration and Customs
Enforcement) focaram em uma abordagem mais capilarizada e coordenada
com polícias locais através de acordos federais ampliado. A imigração
líquida para o país registrou marcas historicamente baixas no período.
- Pausa na Emissão
de Vistos:
Todos os vistos de imigrantes para indivíduos de dezenas de países foram
pausados temporariamente enquanto oficiais recebem novos treinamentos
sobre a política de "carga pública" (public charge).
- Corte de
Benefícios a Refugiados: Entraram em vigor cortes orçamentários
severos que retiraram o acesso de refugiados e imigrantes legais a
programas como o Medicaid e o SNAP (auxílio-alimentação) nos EUA,
sobrecarregando agências de acolhimento.
>>>
3. Impacto Operacional nos Aeroportos da Europa (EES)
Para os
viajantes frequentes e turistas — incluindo brasileiros — setembro de 2026
representou um marco de preocupação logística.
- O término do
prazo de flexibilização para a implementação do Sistema de Entrada e Saída
(EES) da União Europeia em 6 de setembro levantou alertas em países como
Portugal sobre o risco iminente do retorno de longas filas nos aeroportos
por causa da necessidade de coleta de dados biométricos rigorosos nas
fronteiras do Espaço Schengen.
>>>>
4. Cenário na América Latina e Brasil
- O Desafio da
Permanência:
No Brasil, a questão imigratória deixou de ser focada puramente na entrada
de novos fluxos pelas fronteiras e se concentrou no desafio de integração
econômica e empregabilidade, com mais de 740 mil venezuelanos já
estabelecidos no país através do suporte contínuo de iniciativas como a
Operação Acolhida.
- Retornos
Voluntários:
Paralelamente, dados consolidados em setembro mostraram um aumento de 52%
no número de cidadãos brasileiros solicitando apoio do governo de Portugal
para retornar voluntariamente ao Brasil devido a dificuldades de adaptação
e custo de vida no território europeu.
¨ Imigrações atuais no
Brasil vêm expandindo-se exponencialmente ao longo dos últimos anos
A
história sempre narrou diversos ciclos de imigrações para o Brasil, seja
durante o período de colonização, seja durante os tempos posteriores. Ao longo
dos séculos, vários povos ocuparam o nosso país, a maioria formada por
europeus, mas também chineses, japoneses, latino-americanos, entre outros. No
entanto, podemos dizer que o Brasil vive um novo momento no que diz respeito ao
tema das imigrações internacionais.
Ao
longo dos últimos anos, houve um movimento crescente de grupos estrangeiros no
Brasil, advindos tanto de países desenvolvidos quanto de países
subdesenvolvidos. Segundo dados do Conare (Comitê Nacional para Refugiados) e
do Ministério da Justiça, só entre os anos de 2010 e 2012, o número de pessoas
pedindo refúgio para o Brasil triplicou.
A
tendência é que as imigrações atuais no Brasil continuem aumentando, sobretudo
de populações advindas de países subdesenvolvidos ou com uma precária situação
econômica, além de povos de regiões marcadas por grandes conflitos, com
destaque para povos da Palestina.
Nos
últimos anos, uma grande leva de haitianos veio para o Brasil, através da
Amazônia, em busca de emprego e melhores condições de vida. Durante a Copa do
Mundo de 2014, o mesmo processo ocorreu, destacando-se os imigrantes oriundos
de Gana, que se deslocaram para o Brasil em função do torneio, mas não
retornaram para o seu país de origem. Outros países que se destacaram no envio
de imigrantes foram Bangladesh, Senegal, Angola, entre outros.
Da
mesma forma que o número de estrangeiros no Brasil vem aumentando, o número de
brasileiros no exterior vem diminuindo. Entre 2004 e 2012, a presença de
brasileiros fora do país caiu pela metade, de 4 milhões para 2 milhões, com o
principal destino de moradia sendo Portugal.
O que
se percebe é que as recentes evoluções do Brasil no cenário econômico, além da
relativa prosperidade dos países emergentes frente à crise financeira no mundo
desenvolvido, vêm contribuindo para que países em desenvolvimento –
principalmente os do grupo do BRICS – tornem-se lugares atrativos para as rotas
migratórias internacionais.
Mas a
expansão das imigrações atuais no Brasil vem acompanhada por uma série de
fatores, a saber:
a) aumento da xenofobia:
- o
Brasil, apesar de sua internacionalmente reconhecida receptividade, vem
aumentando os casos de xenofobia, sobretudo para com as populações advindas de
países subdesenvolvidos. Para parte da população, os grupos estrangeiros trazem
doenças, “roubam” vagas de empregos e “ameaçam” a identidade cultural do país.
O curioso é que esses argumentos são semelhantes aos impostos aos brasileiros
no exterior, notadamente na Europa.
b) condições
de vida precárias:
- muitos
dos estrangeiros no Brasil sofrem com as precárias condições de vida que aqui
encontram, sobretudo no momento em que chegam, quando ainda não dispõem de
emprego, moradia, comida e dinheiro, além de sequer conhecerem o idioma
português. Isso demanda maiores esforços das autoridades para atender as
necessidades básicas desses povos, a fim de que condições básicas de direitos
humanos sejam cumpridas. Não são poucos os casos de trabalhos análogos ao
escravo praticados no país, sobretudo com migrantes haitianos na região Norte.
c) aumento
do tráfico de pessoas:
- com o
Brasil tornando-se um novo centro de atração de imigrantes ilegais, aumenta o
número de tráfico de pessoas. Atualmente, os principais esforços do governo
brasileiro é de investigar e punir a prática desses grupos, que além de
cobrarem alto pela “ajuda” na imigração ilegal, cometem vários crimes contra os
direitos humanos durante o percurso.
Muitas
pessoas imaginam que os imigrantes sejam prejudiciais para a economia,
sobretudo no sentido de elevar o desemprego, mas isso não é totalmente uma
verdade. Em muitos casos, registra-se a presença de imigrantes com formação em
nível superior ocupando cargos que muitas vezes ficam ociosos por aqui por
falta de capacitação técnica, embora o número de pessoas com formação superior
no Brasil tenha aumentado significativamente na última década. Além disso,
mesmo com o aumento de imigrantes, o desemprego no Brasil vem caindo nos
últimos tempos.
Apesar
de ser necessário o estabelecimento de um maior controle sobre o número de
imigrações atuais no Brasil, além de um maior empenho no combate a quadrilhas
de tráfico de pessoas, é preciso também atender as necessidades básicas
daqueles que aqui chegam. Um exemplo é o caso dos migrantes advindos do Haiti:
eles não poderiam permanecer no Brasil segundo nossas leis de imigração, mas
muitos receberam vistos humanitários, haja vista que uma deportação em massa e
imediata poderia transformar-se em um terrível crime de violação aos Direitos
Humanos.
Fonte:
Outras Palavras/Folhapress/Brasil Escola

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