sábado, 3 de outubro de 2026

Samuel Kilsztajn: A era das migrações

Até a Segunda Guerra Mundial, por gerações, por séculos a fio, minha família vivia circunscrita a uma restrita área do Leste Europeu. Mas iam dormir em um país e acordavam noutro – Polônia, Reino da Prússia, Império Austro-Húngaro, Império Russo, Alemanha, Polônia de novo, União Soviética, Alemanha. As pessoas viviam praticamente imóveis; as fronteiras é que mudavam de lugar. E, a cada novo país, embora continuassem sobre o mesmo chão, tinham que se adaptar à língua oficial, às instituições e às novas leis vigentes. Eu nasci andando, da Palestina à Alemanha, a caminho dos Estados Unidos, mas fui preso em Munich aos dois anos de idade, como imigrante ilegal, e o destino acabou me levando a ancorar em Santos…

Hoje, 300 milhões de pessoas vivem em países onde não nasceram – imigrantes naturalizados, residentes permanentes, temporários, refugiados, asilados ou indocumentados. O país com maior número de imigrantes, em termos absolutos, são os Estados Unidos, que abrigam 50 milhões de imigrantes entre seus 340 milhões de habitantes (15%); e a metrópole com maior número de imigrantes, em termos absolutos, é Nova York, com 6 milhões de imigrantes entre 20 milhões de habitantes (30%; a Região Metropolitana de Nova York compreende a Cidade de Nova York e condados circunvizinhos localizados nos estados de Nova York e New Jersey).

As estimativas para os Estados Unidos, grosso modo, são: imigrantes naturalizados, 26 milhões; residentes permanentes, temporários, refugiados e asilados, 10 milhões; e indocumentados, 14 milhões. Para a Região Metropolitana de Nova York, grosso modo, são: 3 milhões de imigrantes naturalizados; 2 milhões de residentes permanentes, temporários, refugiados e asilados; e 1 milhão de indocumentados.

Como explicitado, a Região Metropolitana de Nova York, com seus 20 milhões de habitantes e 6 milhões de imigrantes, inclui condados circunvizinhos. Vamos agora alterar o espaço de análise para o Estado de Nova York e a Cidade de Nova York (NYC), que reúne cinco distritos: Manhattan, Brooklyn, Queens, Bronx e Staten Island. O Estado, com 20 milhões de habitantes, abriga 5 milhões de imigrantes; e NYC, com 9 milhões de habitantes, abriga 3 milhões de imigrantes – ou seja, um em cada quatro habitantes do Estado e um em cada três habitantes de NYC são imigrantes.

Nova York é a cidade mais dinâmica do mundo e não há no planeta cidade com maior diversidade étnica, cultural e linguística – Zohran Mamdani, imigrante muçulmano nascido em Uganda, de origem indiana, que o diga. Embora um a cada três habitantes de NYC seja imigrante, metade dos novaiorquinos fala em casa uma língua que não é o inglês. Nas ruas, todos interagem em suas mais diversas indumentárias, costumes, línguas e sotaques. Basta caminhar algumas quadras para atravessar países e continentes sem sair da cidade. NYC parece ter transformado a imigração, mais do que em fenômeno demográfico, em modo de vida.

<><> ICE – U.S. Immigration and Customs Enforcement

Em meio ao auge do verão novaiorquino, quando a cidade vive um deslumbre, a operação Rotten Apple do ICE, realizada de 27 de julho a 29 de agosto de 2026, prendeu 2.197 imigrantes em todo o Estado de Nova York. O governo não divulgou a distribuição geográfica das detenções, não sendo possível saber quantos foram detidos especificamente em NYC. A intervenção foi uma provocação de Donald Trump – basta ver o nome oficial atribuído à operação na metrópole mais dinâmica do mundo, “Maçã Podre”. O Governo Federal declarou que buscou enfrentar políticos das cidades-santuário que se recusam a cooperar com a política migratória federal, como o prefeito socialista Zohran Mamdani e a governadora democrata Kathy Hochul.

NYC, com seus 3 milhões de imigrantes, abriga 535 mil imigrantes indocumentados e os demais municípios do Estado de Nova York, com seus 2 milhões de imigrantes, abrigam outros 385 mil imigrantes indocumentados – um total de 920 mil imigrantes sem status migratório regular no Estado. Os indocumentados compreendem imigrantes que entraram no país sem autorização e os com visto vencido. A entrada irregular nos Estados Unidos pode constituir crime; a permanência após o vencimento do período autorizado, embora não seja classificada como tal, constitui uma violação das leis de imigração e pode levar à deportação.

<><> A questão migratória

A questão migratória não se resume a números. A humanidade sempre se deslocou, mas o mundo contemporâneo transformou a migração em um tema central da política, da economia e da própria vida social. Até o século XIX, havia relativa liberdade de circulação internacional e não existia um sistema universal e padronizado de controle da mobilidade. A generalização de passaportes se intensificou durante a Primeira Guerra Mundial. A grande novidade não é que as pessoas migrem, mas que hoje uma parcela sem precedentes da população mundial viva permanentemente entre países, culturas e sistemas jurídicos distintos.

Durante séculos, a mobilidade esteve submetida sobretudo à distância. Hoje, ela encontra-se submetida a fronteiras. O avião reduziu a distância entre continentes a algumas horas de viagem; o telefone e a internet praticamente eliminaram a distância na comunicação. O capital atravessa fronteiras em frações de segundo, mas as pessoas se deparam com divisas, vistos, autorizações de residência, controles migratórios e deportações – uma pessoa sem papel vale menos do que um papel sem pessoa.

Há, assim, uma contradição característica da globalização: enquanto mercadorias, capitais, informações e empresas circulam cada vez mais livremente pelo mundo, a circulação das pessoas permanece submetida à soberania territorial dos Estados nacionais. O capital pode procurar trabalhadores em qualquer parte do planeta; o trabalhador precisa de autorização para poder atravessar as fronteiras.

A migração internacional tornou-se, desse modo, uma espécie de espelho da desigualdade mundial. Até a Revolução Industrial, as diferenças de riqueza entre as nações eram relativamente pequenas. As pessoas hoje migram porque o lugar onde nasceram oferece menos oportunidades, menor renda, segurança ou perspectiva de futuro. E, ao atravessarem as fronteiras, carregam consigo as desigualdades do mundo de onde vieram. O site do Center for Migration Studies, além do país de origem, apresenta uma série de informações sobre a situação socioeconômica dos imigrantes indocumentados e sua inserção na sociedade norte-americana.

Os Estados, por sua vez, procuram distinguir entre aqueles que têm direito a entrar e permanecer e aqueles que não têm. Daí a multiplicação das categorias jurídicas: cidadão natural, naturalizado, residente permanente, temporário, refugiado, asilado e imigrante sem documentação. A mesma pessoa pode ser perfeitamente regular em um país e ilegal a partir do instante em que atravessa uma fronteira.

O imigrante indocumentado é, nesse sentido, uma figura particularmente reveladora do nosso tempo. Ele trabalha, consome, paga aluguel, frequenta escolas, constrói casas, cuida de crianças e idosos e participa da vida econômica da sociedade em que vive; mas, perante o Estado, sua presença pode ser considerada irregular. A sociedade depende de seu trabalho ao mesmo tempo em que o Estado questiona o seu direito de permanência.

É nesse terreno que a imigração se transformou em um dos grandes campos de batalha política do século XXI. De um lado, Estados e movimentos nacionalistas reivindicam o direito soberano de controlar suas fronteiras. De outro, cidades, organizações sociais e movimentos de defesa dos imigrantes reivindicam direitos para pessoas que já vivem e trabalham em seu território, independentemente de seu status migratório.

Nova York talvez seja um dos lugares em que essa contradição aparece de forma mais evidente. A cidade foi construída por sucessivas ondas de imigração – os indígenas, seus habitantes originais, foram exterminados – e ocupa hoje o posto de maior concentração de população estrangeira do planeta. Ao mesmo tempo, permanece submetida às leis migratórias do governo federal dos Estados Unidos sob a administração Trump.

É nesse contexto que se deve compreender a operação Rotten Apple. Mais do que uma operação de fiscalização migratória, ela tornou visível o conflito entre duas concepções de poder: a do governo federal, que reivindica a autoridade sobre as fronteiras e a imigração; e a das autoridades locais que procuram proteger, em maior ou menor medida, a população imigrante que vive em suas cidades.

A velha questão das fronteiras reaparece, portanto, sob uma nova forma. Minha família, durante séculos, permaneceu praticamente no mesmo lugar, enquanto as fronteiras se moviam em torno dela. Hoje, milhões de pessoas atravessam as fronteiras enquanto os territórios permanecem onde sempre estiveram. Mudou o sentido do movimento: antes, eram os Estados que se deslocavam sobre as pessoas; agora, são as pessoas que se deslocam entre os Estados.

Talvez seja essa a característica mais marcante da Era das Migrações: nunca foi tão fácil atravessar distâncias e nunca foi tão difícil, para quem as atravessa, saber de que lado da fronteira se encontra.

¨      Os problema migratórios

Em setembro de 2026, o cenário imigratório global foi marcado por um forte endurecimento das políticas de controle de fronteiras, respostas a crises humanitárias localizadas e mudanças drásticas nos fluxos legais de trânsito tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.

As principais tensões e problemas imigratórios registrados ao longo do mês incluem:

>>> 1. Desdobramentos da Crise de Ceuta na União Europeia

A invasão migratória em massa ocorrida em julho em Ceuta (território espanhol no Norte da África) continuou gerando forte instabilidade política e social em setembro de 2026:

  • Crise Humanitária Local: Milhares de migrantes permaneceram acampados nas praias e ruas de Ceuta enfrentando chuvas e falta de abrigo. No início de setembro, as autoridades locais precisaram implantar esquemas especiais de segurança policial nas portas das escolas devido ao aumento de tensões e relatos de violência.
  • Protestos e Pressão Política: Em 26 de setembro, cerca de 20 mil pessoas marcharam em Madri sob slogans conservadores contra a política migratória do primeiro-ministro Pedro Sánchez.
  • Respostas da UE: Em 29 de setembro, a Comissão Europeia apresentou um plano focado em acelerar deportações, expandir os poderes de ação rápida da agência Frontex e avançar na criação de return hubs (centros de detenção fora do bloco, com negociações envolvendo países como Ruanda). Simultaneamente, países como a Grécia propuseram formalmente a suspensão do direito de asilo na UE durante crises migratórias de grande escala.

>>> 2. Endurecimento Massivo nos Estados Unidos

Sob a administração americana atual, setembro consolidou uma das fases mais rígidas na aplicação das leis de imigração:

  • Queda Crítica e Prisões Recordes: Atuações do ICE (Immigration and Customs Enforcement) focaram em uma abordagem mais capilarizada e coordenada com polícias locais através de acordos federais ampliado. A imigração líquida para o país registrou marcas historicamente baixas no período.
  • Pausa na Emissão de Vistos: Todos os vistos de imigrantes para indivíduos de dezenas de países foram pausados temporariamente enquanto oficiais recebem novos treinamentos sobre a política de "carga pública" (public charge).
  • Corte de Benefícios a Refugiados: Entraram em vigor cortes orçamentários severos que retiraram o acesso de refugiados e imigrantes legais a programas como o Medicaid e o SNAP (auxílio-alimentação) nos EUA, sobrecarregando agências de acolhimento.

>>> 3. Impacto Operacional nos Aeroportos da Europa (EES)

Para os viajantes frequentes e turistas — incluindo brasileiros — setembro de 2026 representou um marco de preocupação logística.

  • O término do prazo de flexibilização para a implementação do Sistema de Entrada e Saída (EES) da União Europeia em 6 de setembro levantou alertas em países como Portugal sobre o risco iminente do retorno de longas filas nos aeroportos por causa da necessidade de coleta de dados biométricos rigorosos nas fronteiras do Espaço Schengen.

>>>> 4. Cenário na América Latina e Brasil

  • O Desafio da Permanência: No Brasil, a questão imigratória deixou de ser focada puramente na entrada de novos fluxos pelas fronteiras e se concentrou no desafio de integração econômica e empregabilidade, com mais de 740 mil venezuelanos já estabelecidos no país através do suporte contínuo de iniciativas como a Operação Acolhida.
  • Retornos Voluntários: Paralelamente, dados consolidados em setembro mostraram um aumento de 52% no número de cidadãos brasileiros solicitando apoio do governo de Portugal para retornar voluntariamente ao Brasil devido a dificuldades de adaptação e custo de vida no território europeu.

¨      Imigrações atuais no Brasil vêm expandindo-se exponencialmente ao longo dos últimos anos

A história sempre narrou diversos ciclos de imigrações para o Brasil, seja durante o período de colonização, seja durante os tempos posteriores. Ao longo dos séculos, vários povos ocuparam o nosso país, a maioria formada por europeus, mas também chineses, japoneses, latino-americanos, entre outros. No entanto, podemos dizer que o Brasil vive um novo momento no que diz respeito ao tema das imigrações internacionais.

Ao longo dos últimos anos, houve um movimento crescente de grupos estrangeiros no Brasil, advindos tanto de países desenvolvidos quanto de países subdesenvolvidos. Segundo dados do Conare (Comitê Nacional para Refugiados) e do Ministério da Justiça, só entre os anos de 2010 e 2012, o número de pessoas pedindo refúgio para o Brasil triplicou.

A tendência é que as imigrações atuais no Brasil continuem aumentando, sobretudo de populações advindas de países subdesenvolvidos ou com uma precária situação econômica, além de povos de regiões marcadas por grandes conflitos, com destaque para povos da Palestina.

Nos últimos anos, uma grande leva de haitianos veio para o Brasil, através da Amazônia, em busca de emprego e melhores condições de vida. Durante a Copa do Mundo de 2014, o mesmo processo ocorreu, destacando-se os imigrantes oriundos de Gana, que se deslocaram para o Brasil em função do torneio, mas não retornaram para o seu país de origem. Outros países que se destacaram no envio de imigrantes foram Bangladesh, Senegal, Angola, entre outros.

Da mesma forma que o número de estrangeiros no Brasil vem aumentando, o número de brasileiros no exterior vem diminuindo. Entre 2004 e 2012, a presença de brasileiros fora do país caiu pela metade, de 4 milhões para 2 milhões, com o principal destino de moradia sendo Portugal.

O que se percebe é que as recentes evoluções do Brasil no cenário econômico, além da relativa prosperidade dos países emergentes frente à crise financeira no mundo desenvolvido, vêm contribuindo para que países em desenvolvimento – principalmente os do grupo do BRICS – tornem-se lugares atrativos para as rotas migratórias internacionais.

Mas a expansão das imigrações atuais no Brasil vem acompanhada por uma série de fatores, a saber:

a)   aumento da xenofobia:

- o Brasil, apesar de sua internacionalmente reconhecida receptividade, vem aumentando os casos de xenofobia, sobretudo para com as populações advindas de países subdesenvolvidos. Para parte da população, os grupos estrangeiros trazem doenças, “roubam” vagas de empregos e “ameaçam” a identidade cultural do país. O curioso é que esses argumentos são semelhantes aos impostos aos brasileiros no exterior, notadamente na Europa.

b) condições de vida precárias:

- muitos dos estrangeiros no Brasil sofrem com as precárias condições de vida que aqui encontram, sobretudo no momento em que chegam, quando ainda não dispõem de emprego, moradia, comida e dinheiro, além de sequer conhecerem o idioma português. Isso demanda maiores esforços das autoridades para atender as necessidades básicas desses povos, a fim de que condições básicas de direitos humanos sejam cumpridas. Não são poucos os casos de trabalhos análogos ao escravo praticados no país, sobretudo com migrantes haitianos na região Norte.

c) aumento do tráfico de pessoas:

- com o Brasil tornando-se um novo centro de atração de imigrantes ilegais, aumenta o número de tráfico de pessoas. Atualmente, os principais esforços do governo brasileiro é de investigar e punir a prática desses grupos, que além de cobrarem alto pela “ajuda” na imigração ilegal, cometem vários crimes contra os direitos humanos durante o percurso.

Muitas pessoas imaginam que os imigrantes sejam prejudiciais para a economia, sobretudo no sentido de elevar o desemprego, mas isso não é totalmente uma verdade. Em muitos casos, registra-se a presença de imigrantes com formação em nível superior ocupando cargos que muitas vezes ficam ociosos por aqui por falta de capacitação técnica, embora o número de pessoas com formação superior no Brasil tenha aumentado significativamente na última década. Além disso, mesmo com o aumento de imigrantes, o desemprego no Brasil vem caindo nos últimos tempos.

Apesar de ser necessário o estabelecimento de um maior controle sobre o número de imigrações atuais no Brasil, além de um maior empenho no combate a quadrilhas de tráfico de pessoas, é preciso também atender as necessidades básicas daqueles que aqui chegam. Um exemplo é o caso dos migrantes advindos do Haiti: eles não poderiam permanecer no Brasil segundo nossas leis de imigração, mas muitos receberam vistos humanitários, haja vista que uma deportação em massa e imediata poderia transformar-se em um terrível crime de violação aos Direitos Humanos.

 

Fonte: Outras Palavras/Folhapress/Brasil Escola

 

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