sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Revelações sobre alertas antes do 7 de outubro colocam Netanyahu sob pressão

As falhas de segurança relacionadas aos ataques de 7 de outubro de 2023 estão no centro da campanha para as eleições legislativas em Israel, marcadas para 27 de outubro. Três anos após a ofensiva do Hamas, os israelenses querem saber quais informações o governo possuía para tentar evitá-la e se houve falhas na resposta das autoridades.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirma que não foi acordado na manhã de 7 de outubro para ser informado sobre o ataque. No início de setembro, ele criticou duramente o Exército, acusando a cúpula militar de tê-lo mantido deliberadamente afastado das informações, a fim de evitar o que chamou de “erro de cálculo” que poderia levar a uma escalada militar com o Hamas.

Seu principal rival nas eleições, Gadi Eisenkot, respondeu com um videogame lançado em uma plataforma de jogos que ironiza a situação. Batizado de Bibi, o Dorminhoco, o jogo propõe ao participante ajudar “Bibi” a continuar dormindo tranquilamente, desviando de todos os alertas de segurança que surgem pelo caminho.

<><> Abu Dhabi: o primeiro alerta

A julgar pelas reportagens publicadas nos últimos dias, os alertas não faltaram. O primeiro teria vindo dos Emirados Árabes Unidos, segundo o jornal israelense Haaretz. A publicação relata que o presidente emiratense, Mohamed bin Zayed, telefonou para Benjamin Netanyahu antes de 7 de outubro para alertá-lo de que Yahya Sinwar, mentor dos ataques, preparava uma ação de grande porte contra Israel.

Segundo a reportagem, Bin Zayed teria informado pessoalmente o primeiro-ministro israelense sobre a ameaça em uma conversa que teria durado 45 minutos.

Benjamin Netanyahu nega categoricamente a versão. Ainda assim, o Haaretz afirma que, no último fim de semana, o chefe de governo israelense esteve em Abu Dhabi para tentar convencer Mohamed bin Zayed a desmentir a existência desse telefonema.

<><> O Egito também teria feito alertas

Além disso, o Wall Street Journal revelou que o chefe da inteligência egípcia, Abbas Kamel, também ligou para Benjamin Netanyahu poucos dias antes dos ataques do Hamas para alertá-lo sobre uma ameaça iminente vinda de Gaza.

Os primeiros alertas teriam sido enviados em junho de 2023. Depois, segundo a revista The Atlantic, em 26 de setembro, apenas onze dias antes, Abbas Kamel viajou a Israel e reforçou o aviso. Segundo ele, a situação em Gaza era desastrosa e poderia “explodir na cara de todo mundo”.

Na ocasião, as autoridades israelenses teriam respondido que “tudo estava sob controle”. Mais uma vez, o gabinete do primeiro-ministro negou as informações.

Vale ressaltar que nenhum desses alertas continha informações precisas sobre a data ou a magnitude do ataque planejado. Benjamin Netanyahu também recebeu avisos de seus próprios serviços de inteligência. Entre março e julho de 2023, ele recebeu quatro relatórios de alerta da Diretoria de Inteligência Militar e uma advertência do Shin Bet, o serviço de segurança interna de Israel.

O primeiro-ministro israelense sempre se recusou a criar uma comissão de inquérito independente para investigar as circunstâncias que cercaram os ataques do Hamas.

¨      Teerã diz que negociações com EUA estão 'mais sérias’ após enviar proposta de cessar-fogo

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, declarou nesta terça-feira (29/09) que as negociações com os Estados Unidos parecem estar “mais sérias” desta vez.

Teerã apresentou uma proposta de cessar-fogo na semana passada e aguarda a resposta da Casa Branca. Segundo Araghchi, as negociações realizadas por intermédio do Paquistão e do Catar levaram muito tempo nas rodadas anteriores, mas agora a expectativa é de avanços mais rápidos.

O presidente iraniano Masoud Pezeshkian também se manifestou. Ele reiterou que o país está disposto a negociar sobre seu programa nuclear e outras questões, mas rejeitou qualquer acordo baseado em “intimidação ou coerção”.

“O Irã não busca a guerra, mas se defenderá contra pressões, ameaças e ataques”, acrescentou, ao lembrar que o país já concordou diversas vezes que não irá “desenvolver armas nucleares”.

No sábado (26/09), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a proposta iraniana “não era aceitável”, mas que estava aberto às negociações.

Nesta segunda-feira (28/09), a Axios e a CNN afirmaram, citando autoridades norte-americanas, que o governo estaria disposto a aliviar sanções e liberar fundos iranianos caso Teerã demonstrasse “progresso concreto” na questão nuclear. Trump, no entanto, negou: “isso não é verdade. Eu não ofereci NADA a eles”, escreveu na Truth Social.

<><> Teerã continua se armando

Em paralelo às negociações, o brigadeiro-general Hossein Mohebbi afirmou que o Irã continua desenvolvendo novas armas, modernizando equipamentos existentes e produzindo sistemas de defesa em larga escala.

Segundo ele, o país utiliza “todas as tecnologias disponíveis no mundo” para proteger seu território e sua população e “levará novas armas para o campo de batalha” caso a guerra “assuma uma forma diferente”.

Mohebbi também afirmou que as bases militares norte-americanas na região “não conseguiam nem se defender” e que a maioria delas estaria “completamente inutilizável”.

Ele acrescentou que Washington não conseguirá interromper as “rotas de comunicação e os laços de longa data” entre o Irã e seus vizinhos. De acordo com o militar, os países da região perceberam que a presença de bases americanas em seus territórios “causa insegurança”.

“Os Estados Unidos não têm outra opção a não ser admitir a derrota e deixar a região, e nossa campanha terminará com esse resultado”, afirmou o general.

¨      ‘Vocês podem impedir futuro sombrio’, diz Exército iraniano em carta enviada aos estadunidenses

“Vocês, o povo americano, têm o poder de impedir esse destino sombrio”, é com esse apelo que o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) se dirige diretamente à população dos Estados Unidos em uma extensa carta aberta, divulgada nesta terça-feira (29/09).

O documento é um chamamento para que os norte-americanos atuem e pressionem o governo Trump pelo cessar-fogo. A Guarda Revolucionária afirma que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem levando o país ao declínio e defende uma mudança profunda na política externa de Washington.

O documento, dirigido nominalmente ao “honrado povo” dos Estados Unidos, seus estudantes, acadêmicos e imprensa, separa o governo dos Estados Unidos e sua população e traz a visão iraniana das últimas sete décadas da relação Washington/Teerã.

Segundo a Guarda Revolucionária, de maneiras diferentes, tanto o Irã quanto o povo norte-americano são vítimas de uma mesma elite política e econômica. O texto frisa que as políticas externas de Washington prejudicam tanto outros povos quanto os próprios cidadãos norte-americanos e pede para que eles efetivamente atuem para mudar os rumos do país.

A relação dos Estados Unidos com Israel também é mencionada. A Guarda acusa sucessivos governos norte-americanos de colocarem os interesses israelenses acima dos da própria população dos EUA e responsabiliza o apoio político, financeiro e militar de Washington pela continuidade dos massacres em Gaza.

“O genocídio na Palestina, no Líbano e as guerras intermináveis em outras partes do mundo são financiados com o dinheiro dos seus impostos”, diz o texto. Os militares iranianos também pedem para que os estadunidenses imaginem situações semelhantes ocorrendo em seu próprio território; e que obriguem seu governo a “se distanciar de Israel”, afirmando que “em breve, a Palestina será libertada”.

<><> ‘Detenham Trump’

Outro parte do documento é dedicada ao declínio dos Estados Unidos. A Guarda relaciona o custo da ampla presença militar norte-americana no exterior e de suas sucessivas guerras com o crescimento da dívida, a desigualdade econômica e a perda da capacidade industrial do país. O documento recupera o Afeganistão e o Iraque como exemplos de intervenções que provocaram enormes custos humanos e econômicos aos Estados Unidos.

Teerã frisa que o mundo inteiro espera que o povo norte-americano detenha o governo Trump. “Agora é a hora”, diz o texto, ao elencar medidas criticadas neste segundo mandato do republicano, como a política tarifária e a prioridade do seu governo dada às guerras.

A Guarda elenca algumas mudanças que os Estados Unidos devem realizar, entre elas: a desativação das bases militares pelo mundo e o retorno dos que nelas estão ao país, fim da ajuda a Israel, interrupção das guerras de intervenção e desmantelamento de estruturas utilizadas para promover golpes de Estado e desestabilizar outros países.

Os recursos economizados devem ser direcionados à pesquisa científica, à indústria e ao desenvolvimento de tecnologias avançadas nos Estados Unidos, sugerem os militares iranianos.  Eles também pedem à população que escolham dirigentes com “conhecimento, integridade e honestidade”, afirmando que o país possui recursos suficientes para assegurar prosperidade à sua população sem precisar explorar outras nações.

A carta também pede que os norte-americanos pressionem seus representantes no Congresso para responsabilizar o governo pelas mortes de crianças iranianas, em particular, as vítimas do ataque à escola infantil, em Minab, no primeiro dia do conflito.

A Guarda também adverte que, caso Washington mantenha sua atual política, a reação contra os interesses norte-americanos poderá se ampliar internacionalmente e atingir economicamente toda a população. “Vocês, o povo americano, têm o poder de impedir esse destino sombrio”, diz o texto.

“Podemos viver juntos em coexistência pacífica”, acrescenta a Guarda, ao reiterar à população para que “remova do poder os políticos maus, enganadores e violentos que são responsáveis pelo estado atual dos Estados Unidos. Confiem seus assuntos aos sábios, não aos astutos. Certifiquem-se de que seus políticos entendam que o mundo mudou”.

A mensagem evoca, ainda, o retorno de Jesus Cristo e do Imam Mahdi, figura central da fé xiita, que, segundo o texto, estarão ao lado dos oprimidos contra os opressores.  Neste dia, afirma a Guarda iraniana, “nós, o povo do Irã, gostaríamos de ver vocês, o povo americano, ao nosso lado”.

<><> Números da Guerra

No texto, a Guarda Revolucionária se declara vencedora da guerra e diz que o confronto, iniciado em 28 de fevereiro, matou mais de 3.600 iranianos, “a grande maioria civis”, entre eles 400 crianças; além de atingir universidades, hospitais e escolas. Os militares citam perdas como o assassinato do então líder supremo Ali Khamenei e de integrantes de sua família.

Segundo a IRGC, Washington e Israel iniciaram a guerra com objetivos de mudança de regime e fragmentação territorial do Irã e, diante do fracasso, passaram a modificar sucessivamente as metas da ofensiva. O Irã atribui a Trump pelo menos 13 objetivos anunciados em diferentes momentos.

Entre eles estão: obter a rendição incondicional iraniana, assumir o controle da Ilha de Kharg e do petróleo do país, destruir as infraestruturas energética, industrial e nuclear, eliminar a capacidade iraniana de produzir mísseis e drones, controlar o Estreito de Ormuz e acabar com o apoio de Teerã aos grupos da chamada Frente de Resistência. Nenhum desses objetivos foi alcançado, afirma o texto.

O documento apresenta ainda uma extensa relação de perdas  ds forças norte-americanas, como a neutralização de mais de 200 drones estratégicos, 30 caças, 12 aeronaves de transporte e reabastecimento, pelo menos uma aeronave AWACS, além de helicópteros, radares e sistemas de defesa aérea. A Guarda afirma ainda ter destruído ou danificado mais de 350 estruturas em instalações militares e reduzido a capacidade operacional de 18 bases norte-americanas a “quase zero”.

Também sustenta que o Irã passou a exercer controle operacional sobre o Estreito de Ormuz e obrigou navios militares norte-americanos a recuarem para o Oceano Índico.

Aos norte-americanos, a Guarda se define como uma força criada após a Revolução Islâmica de 1979 para proteger a independência, a soberania e as instituições do país, rechaçando a denominação de “organização terrorista” dada por Washington.  Os militares afirmam que a classificação é uma represália à resistência do Irã contra as sucessivas tentativas norte-americanas de derrubar ou de enfraquecer o governo iraniano.

E, neste quesito, os militares recuperam, com fôlego e detalhes, cada uma dessas tentativas desde o golpe de 1953, contra o primeiro-ministro Mohammad Mosadedegh, até os dias atuais. 

 

Fonte: Opera Mundi

 

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