sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Brasil ergue “barreira” para evitar interferência dos EUA nas eleições, aponta o New York Times

O Brasil está erguendo uma “barreira” de proteção para tentar resguardar a votação do próximo domingo (4) contra uma possível interferência dos Estados Unidos, em um pleito classificado como o maior teste para a direita na América Latina e para o histórico recente de sucesso da influência de Donald Trump na região, avalia reportagem do jornal norte-americano New York Times.

De acordo com o diário nova-iorquino, desde que assumiu o cargo na Casa Branca, Trump se tornou um “fiel articulador eleitoral”, de maneira que candidatos de direita alinhados a Washington venceram as últimas sete disputas regionais — com o republicano endossando explicitamente o vencedor em duas delas. Diante da preparação dos brasileiros para ir às urnas, a questão central que paira no ar é qual será o próximo movimento do chefe do Executivo norte-americano.

“O líder americano não declarou abertamente apoio a nenhum candidato brasileiro. Mas o governo Trump, de forma mais sutil, impulsionou o candidato de direita Flávio Bolsonaro, que concorre contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda. Tendo observado o Sr. Trump interferir em outras eleições e vivenciado sua tentativa fracassada de ajudar o pai do Sr. Bolsonaro a evitar a prisão por conspiração para um golpe de Estado, o Brasil está erguendo uma barreira para tentar proteger sua votação crucial de uma possível interferência dos EUA”, escreveu a publicação internacional.

Com base em entrevistas com mais de uma dezena de servidores e funcionários do sistema eleitoral, além de policiais, agentes de inteligência e diplomatas, a reportagem apurou que a movimentação preventiva do governo brasileiro inclui o monitoramento ostensivo do grupos de pressão estrangeiros e da desinformação, o combate a alegações falsas sobre fraude eleitoral e a busca do apoio diplomático de nações da Europa, da Ásia e de outras regiões.

A apreensão central de autoridades brasileiras é que, em uma disputa tão acirrada pela Presidência da República, uma ajuda vinda de Trump possa pender a balança em favor do senador Flávio Bolsonaro. Integrantes do governo brasileiro apontaram que essa ajuda externa poderia vir acompanhada de “outras medidas” para prejudicar a imagem de Lula, após o anúncio de sanções contra ministros e magistrados brasileiros sob o pretexto de defesa de condenados pela trama golpista, além da imposição de sobretaxas contra produtos nacionais.

A influência por meio de redes digitais também acendeu alertas nas autoridades brasileiras. “Muitos também se preocupam com campanhas online vindas do exterior que podem estar ajudando o Sr. Bolsonaro. Uma recente onda de publicações pagas nas redes sociais, compartilhadas por contas proeminentes da direita americana, intensificou esses temores”, destacou o periódico norte-americano, exemplificando com publicações que apontaram a alta de Flávio Bolsonaro nos mercados de apostas, como o Polymarket.

O jornal descreveu o presidente Lula (PT) como “um dos poucos líderes mundiais a confrontar Trump” e assinalou que o chefe de Estado “deixou claro que está preparado para defender os interesses do seu país”. O texto destacou o discurso pronunciado pelo presidente contra a ingerência externa nas eleições durante a abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, além do bloqueio feito pelo governo do Brasil à visita de emissários dos Estados Unidos que pretendiam acompanhar o sistema eleitoral do país.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro reforçaria os planos ambiciosos de Washington para expandir sua influência na América Latina por meio de aliados de direita, cenário no qual o Brasil representa “o maior prêmio restante”. Conforme a avaliação do New York Times, sob uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro, o Brasil provavelmente se alinharia de maneira mais direta com os Estados Unidos em tópicos estratégicos como o combate ao crime organizado e a exploração de minerais críticos — pautas que Lula rechaçou entregar sem contrapartidas e que, conforme documentos vazados escritos por um aliado bolsonarista, indicaram ser uma suposta moeda de troca por apoio político.

O periódico lembrou ainda o precedente das últimas eleições presidenciais, quando o então presidente norte-americano Joe Biden reconheceu a vitória de Lula logo após a divulgação do resultado das urnas em 2022. O gesto diplomático, contudo, não impediu que apoiadores bolsonaristas invadissem os prédios dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, nem deteve o andamento do processo judicial da trama golpista, que resultou na condenação de Jair Bolsonaro (PL) e de outros envolvidos — diferentemente dos apoiadores de Trump na invasão do Capitólio em 2021.

Diante do iminente dia de votação, o jornal ressaltou a apreensão quanto ao comportamento da oposição em caso de derrota. “Caso seu filho, Flávio, perca, há indícios de que o candidato poderá lançar acusações semelhantes de fraude eleitoral — e seus aliados esperam encontrar apoio em Trump”, sublinhou o New York Times.

¨      Trump desvia fundos de direitos humanos para campanha contra o STF e promoção de movimentos de extrema-direita

O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, direcionou mais de US$ 175 milhões de um dos principais fundos do Departamento de Estado para direitos humanos a projetos ligados a pautas conservadoras, entre eles uma iniciativa de US$ 1 milhão destinada a organizações da sociedade civil que contestem decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil. As informações foram publicadas nesta quarta-feira (30) pelo jornal britânico The Guardian.

43 projetos, que somam US$ 176,9 milhões, concentram a maior parte dos US$ 205 milhões aprovados pelo Congresso norte-americano para o Human Rights and Democracy Fund (HRDF), fundo voltado originalmente ao apoio a direitos humanos e democracia no exterior.

O programa relacionado ao Brasil recebeu o nome de “Combatendo o lawfare e a censura no Brasil”. De acordo com o documento consultado pelo jornal, US$ 1 milhão seriam destinados a grupos da sociedade civil que atuem contra o que a própria proposta classifica como “excesso judicial” e “censura” praticados pelo Supremo brasileiro.

A iniciativa ocorre depois de uma escalada de atritos entre o governo Trump e o STF, especialmente em torno do ministro Alexandre de Moraes. Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu Moraes na lista de sanções da Lei Global Magnitsky, acusando-o de violações de direitos humanos e restrições à liberdade de expressão. As acusações expressam a posição oficial do governo norte-americano.

Em setembro daquele ano, Washington ampliou as medidas e sancionou também Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e o Lex Instituto de Estudos Jurídicos. Na ocasião, o Tesouro afirmou que as novas punições estavam relacionadas ao suposto apoio financeiro ao magistrado.

<><> Recursos foram liberados às vésperas do prazo

Segundo uma fonte familiarizada com as negociações ouvida pelo Guardian, o Departamento de Estado formalizou a destinação dos recursos poucas horas antes do fim do prazo, em 30 de setembro, apesar das objeções apresentadas por integrantes do Congresso. O departamento não respondeu especificamente ao jornal se havia ignorado bloqueios parlamentares relacionados às verbas.

Uma assessoria democrata do Congresso afirmou que a senadora Jeanne Shaheen, principal democrata no Comitê de Relações Exteriores do Senado, mantinha dez bloqueios envolvendo US$ 22 milhões em projetos relacionados ao Brasil, África do Sul e Nigéria, além de programas no Reino Unido e em outros países europeus.

Ainda de acordo com esse assessor, o secretário de Estado, Marco Rubio, teria assinado pessoalmente um memorando determinando que os bloqueios fossem desconsiderados e que os recursos fossem comprometidos. A informação é atribuída pelo Guardian à assessoria democrata.

Shaheen criticou a mudança de orientação do fundo.

“O Congresso destinou dinheiro ao fundo para a democracia, de forma bipartidária, para apoiar defensores dos direitos humanos, ajudar vítimas de violações de direitos humanos e promover o crescimento da democracia no exterior”, afirmou a senadora.

Segundo ela, as propostas apresentadas pelo governo Trump usariam “dinheiro dos contribuintes para promover organizações e programas de extrema direita em democracias consolidadas”.

“Isso é um desperdício de recursos e prejudica os valores dos Estados Unidos e as relações com parceiros democráticos, incluindo aliados na Europa”, declarou.

<><> Maior projeto receberá US$ 40 milhões

A maior concessão prevista é de US$ 40 milhões e tem como beneficiário um consórcio liderado pela Victims of Communism Memorial Foundation (VOC), organização anticomunista sediada nos Estados Unidos.

Documentos de verificação analisados pelo Guardian mostram que a fundação havia recebido cerca de US$ 97 mil em contratos do Departamento de Estado nos cinco anos anteriores, todos referentes ao ano fiscal de 2022. O novo montante, portanto, representa uma ampliação expressiva dos recursos destinados à organização.

O documento também identifica Andrew Bremberg, ex-assessor de política doméstica da Casa Branca durante o governo Trump e ex-embaixador dos Estados Unidos junto ao escritório europeu das Nações Unidas, como um dos dirigentes da instituição.

Segundo fontes ouvidas pelo jornal, integrantes do próprio governo fizeram pressão em favor de determinadas concessões. Os programas estariam relacionados a prioridades defendidas por figuras centrais da administração, incluindo as críticas do vice-presidente JD Vance aos rumos políticos e culturais da Europa e a agenda migratória defendida pelo assessor da Casa Branca Stephen Miller.

Uma pessoa familiarizada com as discussões afirmou que os programas receberam atenção direta dos níveis mais altos do governo.

“Para mim, a história é a atenção de alto nível — inclusive orientada pela Casa Branca — dada a esses programas”, declarou a fonte ao jornal.

Segundo ela, as concessões “foram apresentadas aos níveis mais altos do departamento e têm o aval da Casa Branca”.

<><> Europa também é alvo dos programas

Além do Brasil, os projetos incluem ações na Europa relacionadas a imigração, anticomunismo, proteção de cristãos, regulação econômica e oposição ao que os documentos chamam de “ideologia de gênero”.

Uma iniciativa intitulada “Promovendo aliados da civilização ocidental” receberá US$ 2 milhões e, segundo o documento, deverá selecionar organizações que não adotem aquilo que o programa descreve como “relatos ideologicamente instrumentalizados dos direitos humanos, como a ideologia de gênero”.

Polônia, Eslováquia, República Tcheca, Hungria e países dos Bálcãs aparecem como potenciais destinos dos recursos, especialmente para organizações de orientação anticomunista ou baseadas no conceito de “direitos naturais”.

Outro projeto prevê documentar o que chama de “retrocesso democrático” na Europa associado à “migração em massa e ilegal” e a medidas adotadas por organismos supranacionais. Há ainda US$ 1 milhão previsto para um consórcio jornalístico que questione mecanismos de classificação de veículos considerados confiáveis e US$ 2 milhões destinados a redes de proteção de cristãos na Nigéria.

No Reino Unido, uma concessão direta de US$ 3 milhões está prevista para a Jobs Foundation, comandada por Matthew Elliott, um dos líderes da campanha pelo Brexit. O programa busca incentivar políticas favoráveis às empresas e reduzir regulações consideradas obstáculos ao investimento norte-americano.

<><> Departamento de Estado defende orientação

O Departamento de Estado não comentou individualmente as concessões, mas afirmou ao Guardian que os programas ainda estavam sob “deliberação ativa” e que os beneficiários precisariam cumprir as normas federais para o recebimento de recursos.

Um representante da pasta defendeu a política para a Europa e afirmou que a estratégia busca trabalhar com aliados na defesa de direitos, soberania e liberdade política.

“Nossa programação na Europa busca apoiar nossos aliados europeus na defesa desses direitos e princípios, juntamente com sua autoconfiança civilizacional e soberania”, declarou.

O representante acrescentou que a estratégia de segurança nacional do governo prevê “promover a liberdade política, promover a liberdade de expressão e colaborar com parceiros europeus”.

A nova distribuição dos recursos representa uma mudança nas prioridades tradicionais do fundo, historicamente utilizado pelos Estados Unidos para financiar dissidentes, organizações da sociedade civil e defensores de direitos humanos, especialmente em países governados por regimes autoritários. A atual lista inclui projetos em democracias consolidadas e iniciativas diretamente relacionadas a disputas políticas internas de países aliados.

Parte das propostas inicialmente consideradas acabou abandonada. Um repasse direto de US$ 5 milhões para a britânica Free Speech Union foi marcado como retirado, enquanto outro projeto de US$ 7 milhões destinado ao think tank 878 já havia sido descartado após resistências no Congresso.

¨      Campanha anti-STF patrocinada pelos EUA é “alerta para a soberania brasileira”, diz Jorge Messias

Reportagem publicada pelo jornal britânico The Guardian acende um importante alerta para a soberania brasileira, aponta o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, em publicação realizada nesta quinta-feira (1º). O posicionamento do ministro ocorre após a revelação de que recursos de um fundo do governo dos Estados Unidos estariam sendo redirecionados para financiar pautas conservadoras e de extrema-direita em diferentes países, incluindo o Brasil.

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Segundo reportagem do The Guardian, o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, direcionou mais de US$ 175 milhões do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado para projetos alinhados a pautas conservadoras. Ao todo, 43 projetos somam US$ 176,9 milhões, concentrando a maior parte dos US$ 205 milhões aprovados pelo Congresso norte-americano para a iniciativa voltada ao apoio a direitos humanos e democracia no exterior.

No caso brasileiro, os documentos consultados pelo jornal revelam a criação de um programa denominado “Combatendo a guerra jurídica e a censura no Brasil”, no valor de US$ 1 milhão. A verba destina-se a financiar organizações da sociedade civil que atuem diretamente contra o que a proposta classifica como “excesso judicial” e “censura” praticados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Diante do cenário, Jorge Messias classificou as revelações como gravíssimas e ressaltou que decisões sobre o país pertencem unicamente à população brasileira. “A informação é especialmente grave diante do processo eleitoral brasileiro e dos episódios recentes de pressão externa sobre nossas instituições. Divergências entre governos são próprias das relações internacionais. O que não se pode admitir é que interesses políticos estrangeiros pretendam interferir no funcionamento das instituições brasileiras ou influenciar, direta ou indiretamente, as escolhas que pertencem exclusivamente ao povo brasileiro”, declarou o ministro da AGU.

Em recado aos bolsonaristas, o chefe da AGU criticou a atuação de atores políticos internos que buscam apoio internacional para atacar órgãos da República. “É igualmente preocupante quando projetos políticos nacionais buscam respaldo no exterior para confrontar instituições da própria República. Nenhuma disputa interna justifica subordinar interesses nacionais a governos, partidos ou movimentos estrangeiros. Há algo maior em jogo: o país que deixaremos às próximas gerações. É o direito de cada geração de brasileiros decidir livremente o seu destino, proteger suas instituições e entregar aos seus filhos um país que não aceite que decisões sobre o Brasil sejam tomadas fora do Brasil. Nossa democracia pertence aos brasileiros. E assim deve permanecer”, concluiu Messias.

¨      Histórico de sanções e pressões externas

A iniciativa de financiamento surge após uma escalada de atritos entre o governo Trump e a Suprema Corte brasileira, tendo como alvo central o ministro Alexandre de Moraes. Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu o magistrado brasileiro na lista de sanções da Lei Global Magnitsky, sob alegações de violações de direitos humanos e restrições à liberdade de expressão, acusações que expressam a posição oficial de Washington.

A ofensiva norte-americana teve novos desdobramentos em setembro do mesmo ano, quando o governo dos Estados Unidos ampliou as punições financeiras ao sancionar a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e a instituição Lex Instituto de Estudos Jurídicos. Na oportunidade, o Tesouro dos EUA justificou as medidas afirmando que as novas sanções estavam vinculadas a um suposto suporte financeiro prestado ao integrante do STF.

 

Fonte: Brasil 247

 

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