Brasil
ergue “barreira” para evitar interferência dos EUA nas eleições, aponta o New
York Times
O
Brasil está erguendo uma “barreira” de proteção para tentar resguardar a
votação do próximo domingo (4) contra uma possível interferência dos Estados
Unidos, em um pleito classificado como o maior teste para a direita na América
Latina e para o histórico recente de sucesso da influência de Donald Trump na
região, avalia reportagem do jornal norte-americano New York Times.
De
acordo com o diário nova-iorquino, desde que assumiu o cargo na Casa Branca,
Trump se tornou um “fiel articulador eleitoral”, de maneira que candidatos de
direita alinhados a Washington venceram as últimas sete disputas regionais —
com o republicano endossando explicitamente o vencedor em duas delas. Diante da
preparação dos brasileiros para ir às urnas, a questão central que paira no ar
é qual será o próximo movimento do chefe do Executivo norte-americano.
“O
líder americano não declarou abertamente apoio a nenhum candidato brasileiro.
Mas o governo Trump, de forma mais sutil, impulsionou o candidato de direita
Flávio Bolsonaro, que concorre contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
de esquerda. Tendo observado o Sr. Trump interferir em outras eleições e
vivenciado sua tentativa fracassada de ajudar o pai do Sr. Bolsonaro a evitar a
prisão por conspiração para um golpe de Estado, o Brasil está erguendo uma
barreira para tentar proteger sua votação crucial de uma possível interferência
dos EUA”, escreveu a publicação internacional.
Com
base em entrevistas com mais de uma dezena de servidores e funcionários do
sistema eleitoral, além de policiais, agentes de inteligência e diplomatas, a
reportagem apurou que a movimentação preventiva do governo brasileiro inclui o
monitoramento ostensivo do grupos de pressão estrangeiros e da desinformação, o
combate a alegações falsas sobre fraude eleitoral e a busca do apoio
diplomático de nações da Europa, da Ásia e de outras regiões.
A
apreensão central de autoridades brasileiras é que, em uma disputa tão acirrada
pela Presidência da República, uma ajuda vinda de Trump possa pender a balança
em favor do senador Flávio Bolsonaro. Integrantes do governo brasileiro
apontaram que essa ajuda externa poderia vir acompanhada de “outras medidas”
para prejudicar a imagem de Lula, após o anúncio de sanções contra ministros e
magistrados brasileiros sob o pretexto de defesa de condenados pela trama
golpista, além da imposição de sobretaxas contra produtos nacionais.
A
influência por meio de redes digitais também acendeu alertas nas autoridades
brasileiras. “Muitos também se preocupam com campanhas online vindas do
exterior que podem estar ajudando o Sr. Bolsonaro. Uma recente onda de
publicações pagas nas redes sociais, compartilhadas por contas proeminentes da
direita americana, intensificou esses temores”, destacou o periódico
norte-americano, exemplificando com publicações que apontaram a alta de Flávio
Bolsonaro nos mercados de apostas, como o Polymarket.
O
jornal descreveu o presidente Lula (PT) como “um dos poucos líderes mundiais a
confrontar Trump” e assinalou que o chefe de Estado “deixou claro que está
preparado para defender os interesses do seu país”. O texto destacou o discurso
pronunciado pelo presidente contra a ingerência externa nas eleições durante a
abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, além do bloqueio feito pelo
governo do Brasil à visita de emissários dos Estados Unidos que pretendiam
acompanhar o sistema eleitoral do país.
Uma
vitória de Flávio Bolsonaro reforçaria os planos ambiciosos de Washington para
expandir sua influência na América Latina por meio de aliados de direita,
cenário no qual o Brasil representa “o maior prêmio restante”. Conforme a
avaliação do New York Times, sob uma eventual gestão de Flávio
Bolsonaro, o Brasil provavelmente se alinharia de maneira mais direta com os
Estados Unidos em tópicos estratégicos como o combate ao crime organizado e a
exploração de minerais críticos — pautas que Lula rechaçou entregar sem
contrapartidas e que, conforme documentos vazados escritos por um aliado
bolsonarista, indicaram ser uma suposta moeda de troca por apoio político.
O
periódico lembrou ainda o precedente das últimas eleições presidenciais, quando
o então presidente norte-americano Joe Biden reconheceu a vitória de Lula logo
após a divulgação do resultado das urnas em 2022. O gesto diplomático, contudo,
não impediu que apoiadores bolsonaristas invadissem os prédios dos Três Poderes
em 8 de janeiro de 2023, nem deteve o andamento do processo judicial da trama
golpista, que resultou na condenação de Jair Bolsonaro (PL) e de outros
envolvidos — diferentemente dos apoiadores de Trump na invasão do Capitólio em
2021.
Diante
do iminente dia de votação, o jornal ressaltou a apreensão quanto ao
comportamento da oposição em caso de derrota. “Caso seu filho, Flávio, perca,
há indícios de que o candidato poderá lançar acusações semelhantes de fraude
eleitoral — e seus aliados esperam encontrar apoio em Trump”, sublinhou o New
York Times.
¨ Trump desvia fundos
de direitos humanos para campanha contra o STF e promoção de movimentos de
extrema-direita
O
governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, direcionou mais de US$
175 milhões de um dos principais fundos do Departamento de Estado para direitos
humanos a projetos ligados a pautas conservadoras, entre eles uma iniciativa de
US$ 1 milhão destinada a organizações da sociedade civil que contestem decisões
do Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil. As informações foram publicadas
nesta quarta-feira (30) pelo jornal britânico The Guardian.
43
projetos, que somam US$ 176,9 milhões, concentram a maior parte dos US$ 205
milhões aprovados pelo Congresso norte-americano para o Human Rights and
Democracy Fund (HRDF), fundo voltado originalmente ao apoio a direitos humanos
e democracia no exterior.
O
programa relacionado ao Brasil recebeu o nome de “Combatendo o lawfare e a
censura no Brasil”. De acordo com o documento consultado pelo jornal, US$ 1
milhão seriam destinados a grupos da sociedade civil que atuem contra o que a
própria proposta classifica como “excesso judicial” e “censura” praticados pelo
Supremo brasileiro.
A
iniciativa ocorre depois de uma escalada de atritos entre o governo Trump e o
STF, especialmente em torno do ministro Alexandre de Moraes. Em julho de 2025,
o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu Moraes na lista de sanções
da Lei Global Magnitsky, acusando-o de violações de direitos humanos e
restrições à liberdade de expressão. As acusações expressam a posição oficial
do governo norte-americano.
Em
setembro daquele ano, Washington ampliou as medidas e sancionou também Viviane
Barci de Moraes, mulher do ministro, e o Lex Instituto de Estudos Jurídicos. Na
ocasião, o Tesouro afirmou que as novas punições estavam relacionadas ao
suposto apoio financeiro ao magistrado.
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Recursos foram liberados às vésperas do prazo
Segundo
uma fonte familiarizada com as negociações ouvida pelo Guardian, o
Departamento de Estado formalizou a destinação dos recursos poucas horas antes
do fim do prazo, em 30 de setembro, apesar das objeções apresentadas por
integrantes do Congresso. O departamento não respondeu especificamente ao
jornal se havia ignorado bloqueios parlamentares relacionados às verbas.
Uma
assessoria democrata do Congresso afirmou que a senadora Jeanne Shaheen,
principal democrata no Comitê de Relações Exteriores do Senado, mantinha dez
bloqueios envolvendo US$ 22 milhões em projetos relacionados ao Brasil, África
do Sul e Nigéria, além de programas no Reino Unido e em outros países europeus.
Ainda
de acordo com esse assessor, o secretário de Estado, Marco Rubio, teria
assinado pessoalmente um memorando determinando que os bloqueios fossem
desconsiderados e que os recursos fossem comprometidos. A informação é
atribuída pelo Guardian à assessoria democrata.
Shaheen
criticou a mudança de orientação do fundo.
“O
Congresso destinou dinheiro ao fundo para a democracia, de forma bipartidária,
para apoiar defensores dos direitos humanos, ajudar vítimas de violações de
direitos humanos e promover o crescimento da democracia no exterior”, afirmou a
senadora.
Segundo
ela, as propostas apresentadas pelo governo Trump usariam “dinheiro dos
contribuintes para promover organizações e programas de extrema direita em
democracias consolidadas”.
“Isso é
um desperdício de recursos e prejudica os valores dos Estados Unidos e as
relações com parceiros democráticos, incluindo aliados na Europa”, declarou.
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Maior projeto receberá US$ 40 milhões
A maior
concessão prevista é de US$ 40 milhões e tem como beneficiário um consórcio
liderado pela Victims of Communism Memorial Foundation (VOC), organização
anticomunista sediada nos Estados Unidos.
Documentos
de verificação analisados pelo Guardian mostram que a fundação havia
recebido cerca de US$ 97 mil em contratos do Departamento de Estado nos cinco
anos anteriores, todos referentes ao ano fiscal de 2022. O novo montante,
portanto, representa uma ampliação expressiva dos recursos destinados à organização.
O
documento também identifica Andrew Bremberg, ex-assessor de política doméstica
da Casa Branca durante o governo Trump e ex-embaixador dos Estados Unidos junto
ao escritório europeu das Nações Unidas, como um dos dirigentes da instituição.
Segundo
fontes ouvidas pelo jornal, integrantes do próprio governo fizeram pressão em
favor de determinadas concessões. Os programas estariam relacionados a
prioridades defendidas por figuras centrais da administração, incluindo as
críticas do vice-presidente JD Vance aos rumos políticos e culturais da Europa
e a agenda migratória defendida pelo assessor da Casa Branca Stephen Miller.
Uma
pessoa familiarizada com as discussões afirmou que os programas receberam
atenção direta dos níveis mais altos do governo.
“Para
mim, a história é a atenção de alto nível — inclusive orientada pela Casa
Branca — dada a esses programas”, declarou a fonte ao jornal.
Segundo
ela, as concessões “foram apresentadas aos níveis mais altos do departamento e
têm o aval da Casa Branca”.
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Europa também é alvo dos programas
Além do
Brasil, os projetos incluem ações na Europa relacionadas a imigração,
anticomunismo, proteção de cristãos, regulação econômica e oposição ao que os
documentos chamam de “ideologia de gênero”.
Uma
iniciativa intitulada “Promovendo aliados da civilização ocidental” receberá
US$ 2 milhões e, segundo o documento, deverá selecionar organizações que não
adotem aquilo que o programa descreve como “relatos ideologicamente
instrumentalizados dos direitos humanos, como a ideologia de gênero”.
Polônia,
Eslováquia, República Tcheca, Hungria e países dos Bálcãs aparecem como
potenciais destinos dos recursos, especialmente para organizações de orientação
anticomunista ou baseadas no conceito de “direitos naturais”.
Outro
projeto prevê documentar o que chama de “retrocesso democrático” na Europa
associado à “migração em massa e ilegal” e a medidas adotadas por organismos
supranacionais. Há ainda US$ 1 milhão previsto para um consórcio jornalístico
que questione mecanismos de classificação de veículos considerados confiáveis e
US$ 2 milhões destinados a redes de proteção de cristãos na Nigéria.
No
Reino Unido, uma concessão direta de US$ 3 milhões está prevista para a Jobs
Foundation, comandada por Matthew Elliott, um dos líderes da campanha pelo
Brexit. O programa busca incentivar políticas favoráveis às empresas e reduzir
regulações consideradas obstáculos ao investimento norte-americano.
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Departamento de Estado defende orientação
O
Departamento de Estado não comentou individualmente as concessões, mas afirmou
ao Guardian que os programas ainda estavam sob “deliberação ativa” e que
os beneficiários precisariam cumprir as normas federais para o recebimento de
recursos.
Um
representante da pasta defendeu a política para a Europa e afirmou que a
estratégia busca trabalhar com aliados na defesa de direitos, soberania e
liberdade política.
“Nossa
programação na Europa busca apoiar nossos aliados europeus na defesa desses
direitos e princípios, juntamente com sua autoconfiança civilizacional e
soberania”, declarou.
O
representante acrescentou que a estratégia de segurança nacional do governo
prevê “promover a liberdade política, promover a liberdade de expressão e
colaborar com parceiros europeus”.
A nova
distribuição dos recursos representa uma mudança nas prioridades tradicionais
do fundo, historicamente utilizado pelos Estados Unidos para financiar
dissidentes, organizações da sociedade civil e defensores de direitos humanos,
especialmente em países governados por regimes autoritários. A atual lista
inclui projetos em democracias consolidadas e iniciativas diretamente
relacionadas a disputas políticas internas de países aliados.
Parte
das propostas inicialmente consideradas acabou abandonada. Um repasse direto de
US$ 5 milhões para a britânica Free Speech Union foi marcado como retirado,
enquanto outro projeto de US$ 7 milhões destinado ao think tank 878 já havia
sido descartado após resistências no Congresso.
¨ Campanha anti-STF
patrocinada pelos EUA é “alerta para a soberania brasileira”, diz Jorge Messias
Reportagem
publicada pelo jornal britânico The Guardian acende um importante alerta
para a soberania brasileira, aponta o ministro da Advocacia-Geral da União
(AGU), Jorge Messias, em publicação realizada nesta quinta-feira (1º). O
posicionamento do ministro ocorre após a revelação de que recursos de um fundo
do governo dos Estados Unidos estariam sendo redirecionados para financiar
pautas conservadoras e de extrema-direita em diferentes países, incluindo o
Brasil.
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Segundo
reportagem do The Guardian, o governo do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, direcionou mais de US$ 175 milhões do Fundo de Direitos Humanos e
Democracia do Departamento de Estado para projetos alinhados a pautas
conservadoras. Ao todo, 43 projetos somam US$ 176,9 milhões, concentrando a
maior parte dos US$ 205 milhões aprovados pelo Congresso norte-americano para a
iniciativa voltada ao apoio a direitos humanos e democracia no exterior.
No caso
brasileiro, os documentos consultados pelo jornal revelam a criação de um
programa denominado “Combatendo a guerra jurídica e a censura no Brasil”, no
valor de US$ 1 milhão. A verba destina-se a financiar organizações da sociedade
civil que atuem diretamente contra o que a proposta classifica como “excesso
judicial” e “censura” praticados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Diante
do cenário, Jorge Messias classificou as revelações como gravíssimas e
ressaltou que decisões sobre o país pertencem unicamente à população
brasileira. “A informação é especialmente grave diante do processo eleitoral
brasileiro e dos episódios recentes de pressão externa sobre nossas
instituições. Divergências entre governos são próprias das relações
internacionais. O que não se pode admitir é que interesses políticos
estrangeiros pretendam interferir no funcionamento das instituições brasileiras
ou influenciar, direta ou indiretamente, as escolhas que pertencem
exclusivamente ao povo brasileiro”, declarou o ministro da AGU.
Em
recado aos bolsonaristas, o chefe da AGU criticou a atuação de atores políticos
internos que buscam apoio internacional para atacar órgãos da República. “É
igualmente preocupante quando projetos políticos nacionais buscam respaldo no
exterior para confrontar instituições da própria República. Nenhuma disputa
interna justifica subordinar interesses nacionais a governos, partidos ou
movimentos estrangeiros. Há algo maior em jogo: o país que deixaremos às
próximas gerações. É o direito de cada geração de brasileiros decidir
livremente o seu destino, proteger suas instituições e entregar aos seus filhos
um país que não aceite que decisões sobre o Brasil sejam tomadas fora do
Brasil. Nossa democracia pertence aos brasileiros. E assim deve permanecer”,
concluiu Messias.
¨ Histórico de sanções
e pressões externas
A
iniciativa de financiamento surge após uma escalada de atritos entre o governo
Trump e a Suprema Corte brasileira, tendo como alvo central o ministro
Alexandre de Moraes. Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos Estados
Unidos incluiu o magistrado brasileiro na lista de sanções da Lei Global
Magnitsky, sob alegações de violações de direitos humanos e restrições à
liberdade de expressão, acusações que expressam a posição oficial de
Washington.
A
ofensiva norte-americana teve novos desdobramentos em setembro do mesmo ano,
quando o governo dos Estados Unidos ampliou as punições financeiras ao
sancionar a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e a
instituição Lex Instituto de Estudos Jurídicos. Na oportunidade, o Tesouro dos
EUA justificou as medidas afirmando que as novas sanções estavam vinculadas a
um suposto suporte financeiro prestado ao integrante do STF.
Fonte:
Brasil 247

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