sábado, 3 de outubro de 2026

Eleições no Brasil podem colocar 95% da Amazônia nas mãos da direita

Em 2027, cinco dos nove países amazônicos poderão estar sob o comando de governos de direita e de extrema direita. Segundo especialistas, esse cenário traria uma série de novos riscos ao bioma sul-americano. Fronteira afora, países vizinhos do Brasil, como Peru, Colômbia, Bolívia e Equador, já elegeram presidentes que explicitamente favorecem o agronegócio e a mineração em detrimento de pautas ambientais e de conservação.

O Brasil, a depender do desfecho das eleições de outubro, poderia ser a próxima nação a entrar na lista — um cenário com impactos significativos, uma vez que o país abriga mais de 60% da Amazônia. Pesquisas revelam um cenário incerto na corrida presidencial, marcada pela disputa entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro.

Filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), cuja gestão foi marcada pelo desmonte da fiscalização ambiental e pelo aumento dos índices de desmatamento, Flávio concorre no lugar do pai, declarado inelegível e atualmente preso por tentativa de golpe de Estado.

De acordo com especialistas, a eleição brasileira será decisiva para a Amazônia e os demais biomas do país, sobretudo à medida que o filho do ex-mandatário se mostra disposto a retomar as políticas ambientais que marcaram a gestão de Jair.

Nessa equação também está inserida a Venezuela, cujo governo está há meses sob intervenção econômica e política dos Estados Unidos. A interferência do governo de Donald Trump também pressiona Caracas a ampliar a agenda petrolífera e a assinar novos acordos no setor de mineração, o que vem despertando novas preocupações ambientais.

Juntos, esses seis países da América do Sul abrangem até 95% da Amazônia.

“Mesmo sob um governo que mostra algum grau de compromisso contra o desmatamento, a tarefa já é muito difícil. E quando há governos que estão do lado oposto, acreditando que a motosserra está correta e que as leis de preservação estão incorretas, a situação se torna quase impossível”, afirmou Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Entre 2025 e 2026, eleitores bolivianos, peruanos e colombianos elegeram líderes que fizeram campanha contra a proteção ambiental e a favor da militarização, da mineração e do avanço do agronegócio. No Equador, o presidente Daniel Noboa, reeleito em 2025, também se ampara em pautas ultraconservadoras na área da segurança pública, ao mesmo tempo em que reabre as portas do país à mineração e enfraquece os órgãos ambientais.

Segundo analistas, nesse sentido, o resultado da eleição brasileira poderia dar vida a uma “aliança conservadora” à frente da Amazônia a partir do próximo ano — ou mesmo obrigar Lula a governar em condição de isolamento diplomático durante um eventual quarto mandato.

As mudanças políticas também poderiam reformular a cooperação em temas de fronteira. As discussões sobre uma estratégia conjunta de proteção da floresta e de suas populações correm o risco de dar lugar a uma agenda de “tolerância zero” no combate ao crime organizado, cujos impactos são especialmente sentidos em áreas fronteiriças.

O futuro de entidades intergovernamentais dedicadas ao desenvolvimento sustentável e aos direitos indígenas, como a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), também seria jogado à incerteza caso a conservação deixasse de ser prioridade regional. Já projetos de infraestrutura transamazônica, atualmente muito criticados por seus potenciais impactos ambientais, poderiam ganhar tração.

“O desafio [para a Amazônia] vai continuar enorme”, disse Astrini. “O ponto de influência de um governo brasileiro que olha para o meio ambiente já é limitado. Você pode contar com ações complementares dos países [vizinhos] — desde que estejam dispostos. Mas, a partir do momento em que um novo governo chega e nega a mudança climática, a capacidade de influência de outro governo, seja ele qual for, [em termos de conservação] é muito baixa”.

Segundo dados do Programa de Monitoramento da Amazônia Andina (Maap), o desmatamento em toda a Amazônia oscilou nos últimos anos. O ano de 2024 registrou um impacto recorde de incêndios, com danos a cerca de 2,8 milhões de hectares em meio às secas extremas associadas ao El Niño; o desmatamento total aumentou em 34%.

Em 2025 houve uma recuperação parcial, com redução da área atingida pelo fogo e o menor nível de perda florestal por desmatamento dos últimos dez anos. Até agora, aproximadamente 13% do bioma foi desmatado, ainda segundo o Maap.

<><> Guinada à direita

Em 2023, quando Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto acompanhado por representantes da sociedade civil, ao seu lado estava o cacique Raoni Metuktire. O ato foi uma resposta direta a Jair Bolsonaro — que se recusou a passar a faixa presidencial — e ao legado de crise ambiental deixado pelo governo anterior. Com a retomada de políticas ambientais sob Lula, o desmatamento na Amazônia brasileira atingiu o menor nível em dez anos.

No sentido oposto, na Bolívia, a vitória em 2025 do presidente Rodrigo Paz Pereira e de seu lema de “capitalismo para todos” encerrou quase 20 anos de governos de esquerda sob o outrora dominante Movimento ao Socialismo (MAS) e provocou mudanças ambientais significativas.

Observadores ressaltam que os resultados concretos das gestões do MAS no campo do desmatamento, da exploração de petróleo e da mineração na Amazônia são ambíguos e ainda estão em debate. Ainda assim, desde o início, a gestão de Paz Pereira deixou claro que enfrentar essas questões não estaria entre as prioridades do governo, ao contrário do que ocorria durante as duas décadas de domínio do MAS.

Com um plano centrado em questões econômicas e fiscais e ao defender iniciativas mais voltadas à “redução do Estado” e à “diminuição da burocracia”, Paz Pereira eliminou o Ministério do Meio Ambiente da Bolívia em agosto de 2026. O órgão acabou rebaixado a um vice-ministério subordinado à pasta do Desenvolvimento Produtivo, Assuntos Rurais e Água.

Paz Pereira também acelerou, por meio de decreto, uma série de medidas vistas como um retrocesso nas normas ambientais, flexibilizando os controles para atrair investimento estrangeiro direto e capital privado para os setores energético e mineral do país. As primeiras decisões do governo levaram grupos indígenas amazônicos às ruas, em protesto contra um possível “boom” de mineração.

Valentina Figuera Martínez, coordenadora de campanhas de justiça de gênero e florestas da aliança internacional Global Forest Coalition, manifestou preocupação diante das mudanças legais no território boliviano, sobretudo quando consideradas no contexto regional.

“Na Bolívia, a Lei de Mineração estabelece a realização de consultas livres, prévias e informadas, a realização de estudos ambientais e a aprovação pela Assembleia Legislativa Plurinacional. No entanto, foram criados atalhos administrativos para permitir a operação de projetos de mineração sem aprovação legislativa, em violação dos direitos territoriais”, disse à Mongabay.

Segundo ela, há paralelos entre os países amazônicos. Ela citou o caso do Brasil, dizendo que o Congresso brasileiro enfraqueceu a fiscalização e a legislação ambientais, e o da Venezuela, que avançou em acordos pouco transparentes com os Estados Unidos no tema do petróleo. Na visão de Martínez, as respostas globais continuam priorizando a exploração de combustíveis fósseis em detrimento de uma transição climática justa. “É a maior erosão de direitos e de soberania dos últimos anos”, afirmou.

No Equador, desde 2023, as políticas ambientais também mudaram sob a agenda conservadora de Noboa. Seu governo enfrenta a resistência de grupos indígenas e de especialistas ao promover projetos de mineração e de combustíveis fósseis na Amazônia. Ao mesmo tempo, reportagens da organização Amazon Underworld indicam que a política militarista que Noboa adota contra o crime vem alimentando a violência relacionada ao garimpo ilegal de ouro e ao tráfico de drogas.

O governo em Quito também gerou debate ao integrar o Ministério do Meio Ambiente ao Ministério de Energia e Minas, ao aprovar novas leis que fortalecem o setor de mineração — por meio da alteração de exigências de licenciamento ambiental — e ao promover planos de expansão de petróleo e gás avaliados em mais de 45 bilhões de dólares, o que despertou críticas de grupos indígenas equatorianos.

“A onda de governos de extrema direita e de direita na América Latina e no Caribe está contribuindo para acelerar a extinção da vida no planeta por meio do negacionismo climático, da violação de direitos e da destruição das regulamentações ambientais”, disse Martínez.

“Para que servem as regulamentações ambientais? Qual é o seu objetivo? Supõe-se que tenham sido criadas para assegurar um mínimo de proteção legal e garantir direitos, apesar das falhas na implementação, das lacunas jurídicas e da escassez de recursos. O que existe, porém, é violado, ou buscam-se mecanismos para atrasar a implementação ou reverter os direitos conquistados.”

<><> Militarização paira sobre a cordilheira andina

Em 2026, alguns meses antes das eleições no Brasil, duas plataformas ultraconservadoras venceram — por margens mínimas — em dois países amazônicos vizinhos. Em julho, Keiko Fujimori, filha do falecido ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), tomou posse como presidente do Peru. No mês seguinte, na Colômbia, o advogado de extrema direita e apoiador de Trump, Abelardo de la Espriella, também recebia a faixa presidencial pela primeira vez.

Em seu discurso de posse, Fujimori evitou mencionar as questões mais delicadas da Amazônia peruana, como o desmatamento e a violência contra defensores ambientais. Ainda assim, a mandatária citou como um problema a ser combatido — com poder militar — a crescente crise da mineração ilegal no Peru, cujos efeitos incluem danos à saúde indígena e a contaminação dos rios por metais pesados, conforme revelado pela Mongabay em setembro.

Astrini disse temer que modelos adotados pelo Brasil sob Bolsonaro se repitam no Peru — como o afastamento, em larga escala, de especialistas em biodiversidade e de chefes de unidades de conservação, simultaneamente à militarização dos processos decisórios e dos cargos de liderança. Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, uma presença militar maior na Amazônia, por si só, “não é garantia de que as coisas vão melhorar ou de que haverá segurança”. Segundo ele, atividades criminosas transfronteiriças, como o comércio ilegal de madeira, podem ser facilitadas.

Desde o primeiro dia de governo, as políticas ambientais de Fujimori têm preocupado ambientalistas e grupos indígenas. A presidente pretende promover investimentos privados e acelerar as licenças ambientais para concessões de combustíveis fósseis e de mineração, além de se opor à ratificação do Acordo de Escazú, tratado regional que busca garantir o acesso à informação, a participação pública e o acesso à Justiça em questões ambientais, bem como a proteção dos defensores ambientais.

Como na relação entre Flávio e Jair Bolsonaro, ambientalistas também alertam para o legado ambiental de Fujimori pai, que desmontou as salvaguardas legais destinadas a proteger as terras indígenas e deixou as comunidades vulneráveis a negociações assimétricas com empresas extrativistas. Durante o governo de Alberto, nos anos 1990, mulheres indígenas também foram sistematicamente submetidas à esterilização forçada, prática que a Anistia Internacional classificou como “crimes de lesa-humanidade imprescritíveis”.

Em 2021, já como presidenciável, Keiko Fujimori negou que violações promovidas pelo Estado peruano tivessem ocorrido durante a presidência de seu pai, chamando os episódios de “programas de planejamento familiar”.

Na Colômbia, De la Espriella herda de seu antecessor, Gustavo Petro, a redução das taxas de desmatamento na Amazônia, embora persistam desafios decorrentes do avanço de grupos ilegais. No entanto, assim como muitos outros líderes da região, e em sentido oposto ao de Petro, De la Espriella aposta todas as fichas na militarização para enfrentar a violência.

Seu programa de governo não menciona as palavras “Amazônia” ou “desmatamento”, atribui a perda florestal inteiramente às economias ilegais e propõe uma estratégia militarizada de controle territorial para restaurar a autoridade do Estado.

A abordagem pode reproduzir infames campanhas militares do passado, como a “Operação Artemis”. Sob a gestão conservadora de Iván Duque (2018-2022), a operação teve como alvo agricultores e trabalhadores rurais vulneráveis, em vez de poderosos financiadores do desmatamento. O plano, por fim, fracassou, como mostram reportagens do InfoAmazonia.

Martínez, da Global Forest Coalition, também disse temer grandes retrocessos sociais na Colômbia que, segundo alertou, historicamente atingem de forma desproporcional mulheres, povos indígenas e defensores da terra. Ela lembrou que, em 2024, a Colômbia voltou a ser apontada como o país mais perigoso do mundo para defensores da terra e do meio ambiente, com 48 assassinatos registrados, de um total de 146 ao redor do mundo.

Em setembro de 2026, em seu mais recente relatório, a Global Witness mostrou que o país liderou o ranking mais uma vez: das 124 mortes de ativistas ambientais documentadas no mundo em 2025, 39 ocorreram em solo colombiano. “Se a Colômbia liderou a lista de assassinatos denunciados de ativistas ambientais durante o governo de Gustavo Petro, o que podemos esperar do atual governo de extrema direita?”, questionou Martínez.

Especialistas alertam para o risco da violência “transbordar” as fronteiras e se disseminar entre os países amazônicos. A preocupação é maior, sobretudo, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, onde grupos armados fincam raízes no tráfico de drogas e no garimpo ilegal.

Em paralelo, De la Espriella prometeu ampliar a produção de combustíveis fósseis e a mineração — especificamente de cobre, ouro e prata — e reduziu recentemente em 50% o orçamento colombiano para investimentos ambientais. No plano de governo que defende mudanças a favor da agenda fóssil, o novo presidente diz que “a Colômbia não pode continuar abordando os setores de mineração e energia com viés ideológico”.

 

Fonte: Mongabay

 

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