Eleições
no Brasil podem colocar 95% da Amazônia nas mãos da direita
Em
2027, cinco dos nove países amazônicos poderão estar sob o comando de governos
de direita e de extrema direita. Segundo especialistas, esse cenário traria uma
série de novos riscos ao bioma sul-americano. Fronteira afora, países vizinhos
do Brasil, como Peru, Colômbia, Bolívia e Equador, já elegeram presidentes que
explicitamente favorecem o agronegócio e a mineração em detrimento de pautas
ambientais e de conservação.
O
Brasil, a depender do desfecho das eleições de outubro, poderia ser a próxima
nação a entrar na lista — um cenário com impactos significativos, uma vez que o
país abriga mais de 60% da Amazônia. Pesquisas revelam um cenário incerto na
corrida presidencial, marcada pela disputa entre o presidente Lula e o senador
Flávio Bolsonaro.
Filho
mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), cuja gestão foi marcada
pelo desmonte da fiscalização ambiental e pelo aumento dos índices de
desmatamento, Flávio concorre no lugar do pai, declarado inelegível e
atualmente preso por tentativa de golpe de Estado.
De
acordo com especialistas, a eleição brasileira será decisiva para a Amazônia e
os demais biomas do país, sobretudo à medida que o filho do ex-mandatário se
mostra disposto a retomar as políticas ambientais que marcaram a gestão de
Jair.
Nessa
equação também está inserida a Venezuela, cujo governo está há meses sob
intervenção econômica e política dos Estados Unidos. A interferência do governo
de Donald Trump também pressiona Caracas a ampliar a agenda petrolífera e a
assinar novos acordos no setor de mineração, o que vem despertando novas
preocupações ambientais.
Juntos,
esses seis países da América do Sul abrangem até 95% da Amazônia.
“Mesmo
sob um governo que mostra algum grau de compromisso contra o desmatamento, a
tarefa já é muito difícil. E quando há governos que estão do lado oposto,
acreditando que a motosserra está correta e que as leis de preservação estão
incorretas, a situação se torna quase impossível”, afirmou Márcio Astrini,
secretário-executivo do Observatório do Clima.
Entre
2025 e 2026, eleitores bolivianos, peruanos e colombianos elegeram líderes que
fizeram campanha contra a proteção ambiental e a favor da militarização, da
mineração e do avanço do agronegócio. No Equador, o presidente Daniel Noboa,
reeleito em 2025, também se ampara em pautas ultraconservadoras na área da
segurança pública, ao mesmo tempo em que reabre as portas do país à mineração e
enfraquece os órgãos ambientais.
Segundo
analistas, nesse sentido, o resultado da eleição brasileira poderia dar vida a
uma “aliança conservadora” à frente da Amazônia a partir do próximo ano — ou
mesmo obrigar Lula a governar em condição de isolamento diplomático durante um
eventual quarto mandato.
As
mudanças políticas também poderiam reformular a cooperação em temas de
fronteira. As discussões sobre uma estratégia conjunta de proteção da floresta
e de suas populações correm o risco de dar lugar a uma agenda de “tolerância
zero” no combate ao crime organizado, cujos impactos são especialmente sentidos
em áreas fronteiriças.
O
futuro de entidades intergovernamentais dedicadas ao desenvolvimento
sustentável e aos direitos indígenas, como a Organização do Tratado de
Cooperação Amazônica (OTCA), também seria jogado à incerteza caso a conservação
deixasse de ser prioridade regional. Já projetos de infraestrutura
transamazônica, atualmente muito criticados por seus potenciais impactos
ambientais, poderiam ganhar tração.
“O
desafio [para a Amazônia] vai continuar enorme”, disse Astrini. “O ponto de
influência de um governo brasileiro que olha para o meio ambiente já é
limitado. Você pode contar com ações complementares dos países [vizinhos] —
desde que estejam dispostos. Mas, a partir do momento em que um novo governo
chega e nega a mudança climática, a capacidade de influência de outro governo,
seja ele qual for, [em termos de conservação] é muito baixa”.
Segundo
dados do Programa de Monitoramento da Amazônia Andina (Maap), o desmatamento em
toda a Amazônia oscilou nos últimos anos. O ano de 2024 registrou um impacto
recorde de incêndios, com danos a cerca de 2,8 milhões de hectares em meio às
secas extremas associadas ao El Niño; o desmatamento total aumentou em 34%.
Em 2025
houve uma recuperação parcial, com redução da área atingida pelo fogo e o menor
nível de perda florestal por desmatamento dos últimos dez anos. Até agora,
aproximadamente 13% do bioma foi desmatado, ainda segundo o Maap.
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Guinada à direita
Em
2023, quando Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto acompanhado por
representantes da sociedade civil, ao seu lado estava o cacique Raoni
Metuktire. O ato foi uma resposta direta a Jair Bolsonaro — que se recusou a
passar a faixa presidencial — e ao legado de crise ambiental deixado pelo
governo anterior. Com a retomada de políticas ambientais sob Lula, o
desmatamento na Amazônia brasileira atingiu o menor nível em dez anos.
No
sentido oposto, na Bolívia, a vitória em 2025 do presidente Rodrigo Paz Pereira
e de seu lema de “capitalismo para todos” encerrou quase 20 anos de governos de
esquerda sob o outrora dominante Movimento ao Socialismo (MAS) e provocou
mudanças ambientais significativas.
Observadores
ressaltam que os resultados concretos das gestões do MAS no campo do
desmatamento, da exploração de petróleo e da mineração na Amazônia são ambíguos
e ainda estão em debate. Ainda assim, desde o início, a gestão de Paz Pereira
deixou claro que enfrentar essas questões não estaria entre as prioridades do
governo, ao contrário do que ocorria durante as duas décadas de domínio do MAS.
Com um
plano centrado em questões econômicas e fiscais e ao defender iniciativas mais
voltadas à “redução do Estado” e à “diminuição da burocracia”, Paz Pereira
eliminou o Ministério do Meio Ambiente da Bolívia em agosto de 2026. O órgão
acabou rebaixado a um vice-ministério subordinado à pasta do Desenvolvimento
Produtivo, Assuntos Rurais e Água.
Paz
Pereira também acelerou, por meio de decreto, uma série de medidas vistas como
um retrocesso nas normas ambientais, flexibilizando os controles para atrair
investimento estrangeiro direto e capital privado para os setores energético e
mineral do país. As primeiras decisões do governo levaram grupos indígenas
amazônicos às ruas, em protesto contra um possível “boom” de mineração.
Valentina
Figuera Martínez, coordenadora de campanhas de justiça de gênero e florestas da
aliança internacional Global Forest Coalition, manifestou preocupação diante
das mudanças legais no território boliviano, sobretudo quando consideradas no
contexto regional.
“Na
Bolívia, a Lei de Mineração estabelece a realização de consultas livres,
prévias e informadas, a realização de estudos ambientais e a aprovação pela
Assembleia Legislativa Plurinacional. No entanto, foram criados atalhos
administrativos para permitir a operação de projetos de mineração sem aprovação
legislativa, em violação dos direitos territoriais”, disse à Mongabay.
Segundo
ela, há paralelos entre os países amazônicos. Ela citou o caso do Brasil,
dizendo que o Congresso brasileiro enfraqueceu a fiscalização e a legislação
ambientais, e o da Venezuela, que avançou em acordos pouco transparentes com os
Estados Unidos no tema do petróleo. Na visão de Martínez, as respostas globais
continuam priorizando a exploração de combustíveis fósseis em detrimento de uma
transição climática justa. “É a maior erosão de direitos e de soberania dos
últimos anos”, afirmou.
No
Equador, desde 2023, as políticas ambientais também mudaram sob a agenda
conservadora de Noboa. Seu governo enfrenta a resistência de grupos indígenas e
de especialistas ao promover projetos de mineração e de combustíveis fósseis na
Amazônia. Ao mesmo tempo, reportagens da organização Amazon Underworld indicam
que a política militarista que Noboa adota contra o crime vem alimentando a
violência relacionada ao garimpo ilegal de ouro e ao tráfico de drogas.
O
governo em Quito também gerou debate ao integrar o Ministério do Meio Ambiente
ao Ministério de Energia e Minas, ao aprovar novas leis que fortalecem o setor
de mineração — por meio da alteração de exigências de licenciamento ambiental —
e ao promover planos de expansão de petróleo e gás avaliados em mais de 45
bilhões de dólares, o que despertou críticas de grupos indígenas equatorianos.
“A onda
de governos de extrema direita e de direita na América Latina e no Caribe está
contribuindo para acelerar a extinção da vida no planeta por meio do
negacionismo climático, da violação de direitos e da destruição das
regulamentações ambientais”, disse Martínez.
“Para
que servem as regulamentações ambientais? Qual é o seu objetivo? Supõe-se que
tenham sido criadas para assegurar um mínimo de proteção legal e garantir
direitos, apesar das falhas na implementação, das lacunas jurídicas e da
escassez de recursos. O que existe, porém, é violado, ou buscam-se mecanismos
para atrasar a implementação ou reverter os direitos conquistados.”
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Militarização paira sobre a cordilheira andina
Em
2026, alguns meses antes das eleições no Brasil, duas plataformas
ultraconservadoras venceram — por margens mínimas — em dois países amazônicos
vizinhos. Em julho, Keiko Fujimori, filha do falecido ex-presidente Alberto
Fujimori (1990-2000), tomou posse como presidente do Peru. No mês seguinte, na
Colômbia, o advogado de extrema direita e apoiador de Trump, Abelardo de la
Espriella, também recebia a faixa presidencial pela primeira vez.
Em seu
discurso de posse, Fujimori evitou mencionar as questões mais delicadas da
Amazônia peruana, como o desmatamento e a violência contra defensores
ambientais. Ainda assim, a mandatária citou como um problema a ser combatido —
com poder militar — a crescente crise da mineração ilegal no Peru, cujos
efeitos incluem danos à saúde indígena e a contaminação dos rios por metais
pesados, conforme revelado pela Mongabay em setembro.
Astrini
disse temer que modelos adotados pelo Brasil sob Bolsonaro se repitam no Peru —
como o afastamento, em larga escala, de especialistas em biodiversidade e de
chefes de unidades de conservação, simultaneamente à militarização dos
processos decisórios e dos cargos de liderança. Para o secretário-executivo do
Observatório do Clima, uma presença militar maior na Amazônia, por si só, “não
é garantia de que as coisas vão melhorar ou de que haverá segurança”. Segundo
ele, atividades criminosas transfronteiriças, como o comércio ilegal de
madeira, podem ser facilitadas.
Desde o
primeiro dia de governo, as políticas ambientais de Fujimori têm preocupado
ambientalistas e grupos indígenas. A presidente pretende promover investimentos
privados e acelerar as licenças ambientais para concessões de combustíveis
fósseis e de mineração, além de se opor à ratificação do Acordo de Escazú,
tratado regional que busca garantir o acesso à informação, a participação
pública e o acesso à Justiça em questões ambientais, bem como a proteção dos
defensores ambientais.
Como na
relação entre Flávio e Jair Bolsonaro, ambientalistas também alertam para o
legado ambiental de Fujimori pai, que desmontou as salvaguardas legais
destinadas a proteger as terras indígenas e deixou as comunidades vulneráveis a
negociações assimétricas com empresas extrativistas. Durante o governo de
Alberto, nos anos 1990, mulheres indígenas também foram sistematicamente
submetidas à esterilização forçada, prática que a Anistia Internacional
classificou como “crimes de lesa-humanidade imprescritíveis”.
Em
2021, já como presidenciável, Keiko Fujimori negou que violações promovidas
pelo Estado peruano tivessem ocorrido durante a presidência de seu pai,
chamando os episódios de “programas de planejamento familiar”.
Na
Colômbia, De la Espriella herda de seu antecessor, Gustavo Petro, a redução das
taxas de desmatamento na Amazônia, embora persistam desafios decorrentes do
avanço de grupos ilegais. No entanto, assim como muitos outros líderes da
região, e em sentido oposto ao de Petro, De la Espriella aposta todas as fichas
na militarização para enfrentar a violência.
Seu
programa de governo não menciona as palavras “Amazônia” ou “desmatamento”,
atribui a perda florestal inteiramente às economias ilegais e propõe uma
estratégia militarizada de controle territorial para restaurar a autoridade do
Estado.
A
abordagem pode reproduzir infames campanhas militares do passado, como a
“Operação Artemis”. Sob a gestão conservadora de Iván Duque (2018-2022), a
operação teve como alvo agricultores e trabalhadores rurais vulneráveis, em vez
de poderosos financiadores do desmatamento. O plano, por fim, fracassou, como
mostram reportagens do InfoAmazonia.
Martínez,
da Global Forest Coalition, também disse temer grandes retrocessos sociais na
Colômbia que, segundo alertou, historicamente atingem de forma desproporcional
mulheres, povos indígenas e defensores da terra. Ela lembrou que, em 2024, a
Colômbia voltou a ser apontada como o país mais perigoso do mundo para
defensores da terra e do meio ambiente, com 48 assassinatos registrados, de um
total de 146 ao redor do mundo.
Em
setembro de 2026, em seu mais recente relatório, a Global Witness mostrou que o
país liderou o ranking mais uma vez: das 124 mortes de ativistas ambientais
documentadas no mundo em 2025, 39 ocorreram em solo colombiano. “Se a Colômbia
liderou a lista de assassinatos denunciados de ativistas ambientais durante o
governo de Gustavo Petro, o que podemos esperar do atual governo de extrema
direita?”, questionou Martínez.
Especialistas
alertam para o risco da violência “transbordar” as fronteiras e se disseminar
entre os países amazônicos. A preocupação é maior, sobretudo, na tríplice
fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, onde grupos armados fincam raízes no
tráfico de drogas e no garimpo ilegal.
Em
paralelo, De la Espriella prometeu ampliar a produção de combustíveis fósseis e
a mineração — especificamente de cobre, ouro e prata — e reduziu recentemente
em 50% o orçamento colombiano para investimentos ambientais. No plano de
governo que defende mudanças a favor da agenda fóssil, o novo presidente diz
que “a Colômbia não pode continuar abordando os setores de mineração e energia
com viés ideológico”.
Fonte:
Mongabay

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