A
família Bolsonaro e a compulsão pela mentira
A
palavra mentira vem do Latin, mentire, que significa faltar com a verdade,
enganar, fingir. Historicamente a mentira foi associada à figura do diabo como
sendo este “o pai da mentira”. Mas com o tempo a mentira se espraiou para
outras esferas da vida, além da religiosa. Neste percurso ela foi ganhando
maior destaque até chegar no campo político quando passou a ser usada como
instrumento de manipulação da população por alguém que almeja o poder.
Para a
neurociência, falar a verdade é o padrão automático do cérebro humano porque
ele retém a verdade em segredo para não ser enganado. Todavia, quando a mentira
se torna compulsiva, o cérebro acaba se adaptando para tornar o ato de mentir
mais fácil e automático. A consequência é que a inversão do esforço cognitivo
se torna o novo padrão comportamental da pessoa mentirosa.
Segundo
o Instituto de Psicologia da USP, um mentiroso compulsivo ou portador de
mitomania (também chamada de mentira patológica) é uma pessoa que apresenta
tendência duradouro e incontrolável para mentir. No geral é contada de forma
consciente tendo por objetivo a autoproteção ou o falseamento da realidade. Na
essência, trata-se de um processo de adoecimento psíquico, uma vez que a pessoa
busca retroalimentar as mentiras sequencialmente.
Para
tanto, procura-se elevar a importância das mentiras que ela cria, mesmo que
estas não correspondam à realidade. Em síntese, a mitomania é o exagero
consciente da mentira, o que é diferente de mentiras sociais apenas ocasionais.
Além disso, a mentira compulsiva também pode estar relacionada a outros sinais
de doença psiquiátrica e psicológica.
Dito
isso, é importante observar como o chefe do clã se comportava apenas durante o
exercício da Presidência da República. Segundo a revista Isto é dinheiro, a
mentira foi a marca registrada das ações de Jair Bolsonaro, uma vez que em
1.459 dias no exercício do cargo de Presidente do Brasil ele proferiu 6.685
declarações mentirosas ou distorcidas, destacando-se que apenas no ano de 2020
ele mentiu 1.682 vezes, o que corresponde a 4,5 mentiras por dia. Registre-se
que somente em sua pequena fala na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2020
ele proferiu 7 mentiras.
Esse
pode ser o caso típico descrito por Hannah Arendt em seu ensaio “A mentira como
política”, no qual a autora destaca que a mentira moderna substitui os fatos
por uma realidade alternativa, ao mesmo tempo em que a mentira se sobrepõe
quando o sujeito não tem capacidade, inteligência ou interesse para mudar a
realidade.
É
bastante provável que essa herança genética tenha sido passada para os filhos.
Vejamos alguns aspectos relacionados aos pontos anteriores revelados pelo
“Filho 01”. Para tanto, é importante registrar alguns episódios da trajetória
pessoal e profissional do mesmo, a qual também é fortemente marcada pelo uso
constante das mentiras. Com 19 anos (nasceu em 30.04.1981) ele foi indicado
pelo pai e contratado para a vaga de assessor na liderança do PPB (hoje PP) na
Câmara Federal (CF) ao salário da época de R$ 13 mil/mês, destacando-se que as
normas da Câmara Federal já deixavam explícito que somente poderia trabalhar
nas lideranças partidárias quem morasse em Brasília. Pelos registros oficiais
ele ocupou esse cargo entre os anos de 2000 e 2002.
Acontece
que o referido sujeito informa que detém bacharelado em direito cursado na
Universidade Cândido Mendes no Rio de Janeiro entre 2000 e 2005, curso este que
é de tempo integral e que exige estágio como o próprio informou no site da
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Aliás, nesse site ele
informava também que havia feito uma pós-graduação em ciência política na
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), informação nunca confirmada pela
referida universidade.
Todos
esses assuntos vieram à tona em 2018 quando, na condição de deputado estadual
(mandatos exercidos entre 2003 e 2018), ele passou a ser investigado pela
prática de “rachadinha” na Alerj, ao mesmo tempo em que empregava em seu
gabinete a mãe e a esposa do líder da facção criminosa “Escritório da Morte”
(às vezes mencionado como escritório do crime). Quando indagado sobre isso
simplesmente respondeu: “eu não conhecia o envolvimento dessas pessoas com o
crime”.
A
seguir iremos sistematizar apenas um conjunto de mentiras proferidas pelo filho
01 durante o processo eleitoral de 2026, especialmente aquelas sobre seu
envolvimento em situações embaraçosas. Espero que isso não canse o leitor
porque a lista é imensa, razão pela qual selecionamos apenas alguns casos que
colecionam mentiras em série e continuamente repetidas.
(i)Sabatina
realizada pela Rede Globo em 28.08.2026: Segundo a própria emissora, durante a
entrevista ele mentiu oito vezes envolvendo temas relativos ao Banco Master,
além de outros assuntos como as homenagens que fez a um miliciano quando era
deputado estadual; sobre os atos de 08.01.2023; sobre a prestação de contas do
filme de seu pai; sobre a criação do Pix pelo governo de seu pai; sobre o
tarifaço de Donald Trump, chegando ao pontar de afirmar que foi o único
representante público que foi aos EUA defender o Brasil. Além disso,
demonstrando um comportamento de vassalo afirmou que “não estamos em condições
de exigir nada do governo Donald Trump porque ele irá fazer o que ele quiser,
independentemente de nossa vontade”.
(ii)
Sobre o caso Master: sete meses após o surgimento desse escândalo
bancário-financeiro a agência de checagem “Aos Fatos” constatou que o Filho 01
já proferiu 43 mentiras sobre o assunto sempre procurando desvincular sua
imagem do caso. Sua negativa inicial começou com uma gargalhada ao afirmar que
tudo o que estava sendo dito era mentira.
Depois
criou a ladainha de que se tratava de dinheiro privado e que o caso era um
problema do governo Lula. Mas a mentira mais esdrúxula foi dizer que não
conhecia o banqueiro quando seu número de celular foi encontrado nos contatos
de Daniel Vorcaro e que nunca tinha solicitado nada a esse senhor, além de
nunca ter usado o avião do banqueiro. Relatórios da PF revelam que ele trocou
mensagens por três meses e que teve pelos seis encontros presenciais com a
referida personagem. Todavia, o investigado afirmou que se encontrou uma única
vez com o sujeito.
(iii)
Sobre os atos golpistas de 08.01.2023: continua afirmando que tal evento foi
uma grande farsa armada pela esquerda visando tirar seu pai do poder e que as
pessoas que lá estiveram nunca se conheciam e que ninguém delas portava armas.
(iv)
Sobre urnas eletrônicas: seguindo o exemplo das mentiras de seu pai, também
atacou a segurança das urnas eletrônicas do sistema eleitoral brasileiro junto
aos embaixadores. Neste evento mentiu que os hackers invadiram as urnas por 35
vezes durante os testes oficiais realizados em dezembro de 2025.
(v)
Sobre a proibição recente da Bets no Brasil: ao classificar a medida adotada
pelo Governo Lula de “estelionato eleitoral” e também um ato de desespero
porque ele sabe que irá perder as eleições no primeiro turno. Além disso,
afirmou em 25.09.26 que Lula é o pai do jogo “tigrinho” e também o pai do
“cassino online” no Brasil. Por isso, “é o presidente que está afundando o
país”. A verdade é que as apostas online foram legalizadas em 2018 pelo governo
de Michel Temer, destacando-se que a legalização deveria ser feita nos próximos
dois anos. Registre-se que o governo de Jair Bolsonaro não cumpriu com seu
dever, sendo que a legalização desses jogos foi realizada apenas em dezembro de
2023 pelo governo Lula.
(vi)
Sobre a questão religiosa: a polêmica recente nesta seara decorre de uma
declaração do filho 01 para agradar parte do público evangélico que o apoia.
Para tanto, no dia 24.08.26 ele declarou solenemente: “seu for eleito
presidente do país meu primeiro ato será declarar o Brasil como pertencente a
Jesus Cristo”. Essa declaração, além de alimentar o conflito religioso no país
que já está em curso desde 2019 à luz de uma declaração de um dos líderes da
bancada evangélica no Congresso Nacional mencionando que a igreja católica é
uma religião morta, fajuta e local de avivamento do satanás, desvirtua o debate
político para o foro individual das pessoas, uma vez que a opção religiosa é
uma decisão individual de cada pessoa que não pode se transformar num debate
político.
Registre-se,
ainda, que o próprio presidente Jair Bolsonaro chamou a Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB) de parte podre da igreja católica no Brasil. Para
piorar a situação, nos últimos dias o seu rebento 01 acusou a CNBB de estar
divulgando fake news sobre suas declarações, recebendo como resposta: mentiras
não se combatem com novas e mais mentiras!
Talvez
a melhor síntese a fazer sobre esse candidato que não tem a verdade como padrão
de comportamento social é resgatando sua ignorância sobre a temática das
mudanças climáticas e do aquecimento global: para esse senhor “a melhor forma
de resolver esse problema é aprovar o marco do saneamento básico para combater
o esgoto que passa na casa de quem está me ouvindo e assistindo”.
O
Brasil já viveu o pesadelo de ter passado pela experiência de ser governado
quatro anos por um mentiroso costumaz. Por isso, não é recomendável que um
rebento também mentiroso costumaz venha a governar o país pelos próximos quatro
anos. E ainda o sujeito tem a pachorra de afirmar que “Lula chegou ao poder
pela mentira e nós vamos tirá-lo pela verdade”. Sinceramente o povo brasileiro
não merece isso!!!!
• Espelho, espelho meu, existe alguém mais
bolsonarista do que eu? Por João Lister
Independentemente
do resultado final das eleições brasileiras de 2026, já sabemos que mais de 50
milhões de votos serão destinados ao bolsonarismo e a seus aliados. O número é
expressivo e assusta, considerando ser o pensamento bolsonarista o que é. Os vínculos
documentados de integrantes desse campo com milicianos e personagens do crime
organizado não desfizeram sua atração eleitoral. Tampouco a hostilidade contra
minorias, a deterioração do meio ambiente e a defesa de métodos violentos de
justiçamento, pelos quais a vingança se apresenta como justiça.
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Essa
constatação me fez retornar a O Espelho — A investigação das neuroses sociais
do século XXI, que lancei em abril de 2025, pela Editora Appris. Entre as
inquietações que desenvolvo na obra, há uma que ajuda a compreender esse
eleitor: a dificuldade de reconhecer o que nos falta e a facilidade com que
entregamos aos outros a promessa de resolver essa falta.
O
cidadão condena o crime, exige honestidade e afirma defender a família. Diante
das relações comprometedoras de seu candidato, porém, encontra uma desculpa.
Como consegue conciliar as duas coisas? Talvez porque retirar o apoio lhe custe
algo que vai além de mudar o voto. Ele pode perder a figura na qual depositou
sua segurança, sua importância e a esperança de finalmente se sentir inteiro.
Lacan
nos ajuda a entrar nessa questão. Somos incompletos. Podemos alcançar uma
conquista e logo perceber que ainda falta alguma coisa. O reconhecimento
recebido ontem não assegura o de amanhã. A felicidade anunciada parece sempre
exigir mais uma condição. Nosso desejo continua em movimento, e aquilo que
imaginávamos capaz de nos satisfazer revela seus limites quando chega.
Lacan
chama de “objeto a” a causa que põe o desejo em movimento. Buscamos em objetos,
conquistas e pessoas algo além do que eles efetivamente podem oferecer.
Esperamos encontrar aquilo que finalmente nos fará sentir completos, mas cada
conquista deixa alguma coisa por satisfazer. O problema começa quando alguém
promete encerrar essa busca e nós acreditamos que, com sua chegada, tudo estará
resolvido.
Na
política, um líder pode se tornar o lugar dessa promessa. O eleitor espera que
ele restaure a ordem, devolva o respeito perdido, proteja sua família e faça
desaparecer a sensação de ameaça. O candidato passa a representar uma vida em
que finalmente nada faltará. Esse papel ajuda a explicar por que certas pessoas
o defendem mesmo diante de fatos que deveriam abalar sua confiança.
Mas de
onde vem a imagem dessa vida desejada? Quem ensinou ao eleitor o que seria uma
família respeitável, um cidadão bem-sucedido, um país digno de orgulho?
Foucault nos ajuda a perceber como essas referências são formadas nas relações
de poder. O ambiente em que vivemos oferece modelos, estabelece expectativas e
recompensa quem corresponde a elas.
O
desejo do Outro, em Lacan, toca justamente esse ponto. Crescemos procurando um
lugar no desejo e no reconhecimento alheios. Aprendemos a perceber o que
esperam de nós e podemos gastar a vida tentando corresponder. Queremos ser
admirados, aceitos, considerados corretos. Muitas vezes, chamamos de vontade
própria aquilo que desejamos para merecer esse reconhecimento. Há aqui
inúmeros, centenas, milhões de sujeitos que se encontravam na invisibilidade
social e passaram a se projetar pela aceitação viralizada na hiperconectividade
do Outro.
O
eleitor pode votar também para continuar sendo a pessoa que seu grupo espera
que ele seja. A família, os amigos, a comunidade religiosa e as redes oferecem
uma imagem pronta: é assim que pensa um patriota, é assim que age um homem de
bem. Ele se adapta a ela e sente orgulho. A aprovação chega como confirmação de
que encontrou seu lugar.
Uma
ideia repetida no cotidiano pode adquirir aparência de evidência. Depois de
ouvir continuamente que o adversário ameaça tudo o que ama, o cidadão passa a
julgar as escolhas por esse medo. A fidelidade ao seu campo parece um dever.
As
ideias dos dois pensadores se encontram numa situação simples: o eleitor sabe o
que seu grupo quer ouvir e começa a exigir isso de si mesmo. Antes de
manifestar uma dúvida, imagina a reprovação. Antes de compartilhar uma notícia,
procura uma explicação que preserve o candidato. O olhar dos outros já está
dentro dele. Para conservar o reconhecimento, vigia a própria hesitação — o
panóptico foucaultiano.
Assim,
o fato incômodo chega a alguém que tem muito a perder se o levar a sério. Seria
preciso admitir um erro, contrariar os seus e abandonar uma promessa. Pode ser
mais confortável acusar a imprensa, repetir que todos são iguais ou trazer
imediatamente um escândalo do adversário. Cada resposta permite preservar a
ligação com o líder e voltar à tranquilidade do pertencimento.
Essa
ligação pode oferecer também uma satisfação mais áspera. Freud nos lembra que a
convivência exige contenção da agressividade, e que essa contenção envolve
conflitos. Quando um líder humilha e ameaça em público, pode dar aos seguidores
autorização para expressar hostilidades que antes precisavam conter. A raiva
ganha aprovação. O eleitor se sente forte através daquele que agride em seu
nome.
Há
ainda a neurose da performance: a obrigação de provar o próprio valor a cada
instante, parecer forte, demonstrar fidelidade, jamais dar o braço a torcer.
Freud, ao examinar a compulsão à repetição, mostrou como podemos insistir em
experiências que nos fazem sofrer. Lacan ajuda a compreender esse apego pelo
gozo, no qual a satisfação pode se enredar com a dor e assumir uma feição
masoquista. O eleitor acumula decepções, brigas e prejuízos, mas continua:
precisa mostrar aos outros que permanece firme. Pode chegar ao ponto de não
conseguir interromper esse circuito, porque parar significaria enfrentar a
falta e perder o reconhecimento esperado — o medo do fim do gozo. A exigência
de desempenho se torna uma obrigação de continuar, mesmo que a continuidade lhe
custe a própria paz.
A
promessa de segurança e o prazer da agressão se aproximam. O inimigo recebe a
culpa por aquilo que falta: respeito, prosperidade, estabilidade,
reconhecimento. Se for derrotado, tudo se acertará. Mas a vitória não elimina a
incompletude. A frustração volta, e o discurso encontra outro responsável. O
eleitor continua esperando a satisfação prometida e continua disposto a
combater quem supostamente a impede.
É por
esse caminho que o combate ao crime pode conviver com a tolerância a vínculos
com milicianos. O aliado permanece associado à proteção desejada. Seus atos são
avaliados com indulgência porque questioná-lo ameaça a esperança depositada
nele. Enquanto isso, a violência contra os alvos escolhidos recebe
justificativas cada vez mais generosas.
Compreender
esse comportamento não retira a responsabilidade de quem vota. A necessidade de
ser aceito não apaga as consequências de conceder poder a alguém. O desejo de
proteção não autoriza submeter outras pessoas à intimidação. A satisfação de
pertencer não torna aceitáveis a perseguição às minorias, o desprezo pela vida
ou a devastação do mundo compartilhado.
Em O
Espelho, a busca de autonomia passa por reconhecer essas dependências. Isso
exige suportar a própria incompletude e interrogar o reconhecimento que
procuramos: para continuar sendo amado pelo grupo, o que estou aceitando? Para
conservar minha imagem de cidadão correto, quantas condutas incorretas já
desculpei?
A
análise psicanalítica é capaz de contribuir para o sujeito retomar seu eu das
mãos impróprias daqueles que o manipulam. Ao interrogar seus medos, suas
repetições e a necessidade de aprovação, ele pode reconhecer as influências que
confundiu com vontade própria. O trabalho analítico abre espaço para enfrentar
a incompletude, rever suas identificações e recuperar maior autonomia sobre seu
desejo.
Essa
retomada alcança também o voto. O cidadão ganha condições de contrariar seu
grupo, cobrar seu candidato e romper uma lealdade que lhe exigia desculpar o
intolerável. A contribuição da psicanálise para a democracia está nessa
possibilidade de devolver ao sujeito a autoria de suas escolhas. O voto entrega
poder ao representante; a análise ajuda o eleitor a recuperar o poder sobre si
mesmo.
Quebrando
o espelho que refletia suas múltiplas inclinações destrutivas, alimentadas e
legitimadas pelo bolsonarismo, o sujeito pode retomar a autoria de sua vida e a
responsabilidade por suas escolhas.
Fonte:
Por Lauro Mattei em A Terra é Redonda

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