Plano
da rede trumpista Rockbridge no Brasil mostra que campo progressista já perdeu
muito tempo
A
direita tem nome para o que espera receber quando põe dinheiro na política:
“alfa político”. A expressão aparece no plano de negócios da Rockbridge Network
Brasil, obtido pelo Intercept Brasil, que a define como capital político
permanente e mensurável.
No
mercado financeiro, alfa é o ganho que um investimento entrega acima da média.
Na política, é o poder que continua rendendo depois que a urna fecha.
A
Rockbridge é uma rede de doadores conservadores criada em 2019 por Chris
Buskirk e por J.D. Vance, hoje vice-presidente dos Estados Unidos. Documentos
que levam o nome daquela que seria a filial brasileira propõem um Conselho de
Tecnologia para aproximar grandes investidores estrangeiros da campanha de
Flávio Bolsonaro, do PL, e gerar “compromissos de investimento na ordem de
dezenas de bilhões antes mesmo da posse”, por meio de “um instrumento não
governamental e não público”.
O que
me interessa nesta coluna é o desenho do plano. Com organograma e metas, ele
mostra uma coisa que o campo progressista brasileiro ainda não aprendeu a
fazer.
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Um jantar em 2019
Em
março de 2019, Buskirk jantou com Jair Bolsonaro na residência do embaixador
brasileiro em Washington. À mesa estavam também Steve Bannon, Olavo de
Carvalho, Eduardo Bolsonaro, Paulo Guedes e Sergio Moro. Três meses depois,
Buskirk falava dentro do Palácio Itamaraty, num seminário oficial sobre
“globalismo”, onde tratou Trump e Bolsonaro como exemplos de líderes
nacionalistas. Naquele mesmo ano, fundou a Rockbridge com Vance.
Vale
olhar de novo para aquela mesa. O estrategista da extrema direita americana, o
guru do bolsonarismo, o ministro do mercado e o juiz da Lava Jato dividiram o
jantar porque tinham um projeto em comum, e as diferenças ficaram para depois.
Sete
anos depois, o nome de Buskirk reaparece num documento confidencial endereçado
à pré-campanha de Flávio obtido pelo Intercept. Em janeiro deste ano, um
comunicado da Rockbridge Korea já listava o Brasil entre os destinos da
expansão da rede e, em maio, uma empresa chamada Rockbridge Brazil LLC foi
registrada no Wyoming por Chris Applegate, conselheiro do grupo.
Este é
um plano de poder para além das eleições.
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Cada um no seu quadrado
Nos
Estados Unidos, a Rockbridge é uma rede bancada por grandes empresários
conservadores para construir uma infraestrutura própria de influência política.
O material entregue a doadores falava em “substituir o atual ecossistema
republicano de think tanks, organizações de mídia e grupos ativistas”, e o
orçamento de 2024 foi estimado em cerca de US$ 75 milhões – mais de meio bilhão
de reais.
O
dinheiro vai para produção de conteúdo, pesquisas eleitorais, registro e
mobilização de eleitores, organização política dentro de igrejas e um super
PAC, um tipo de comitê eleitoral americano que pode arrecadar e gastar dinheiro
sem limite para apoiar ou atacar candidatos em eleições federais. Ou seja,
antes de chegar ao candidato, o investimento prepara o terreno onde ele vai
pisar. Ele chega lá já “predestinado”.
O
projeto da filial brasileira copia a receita e elenca que primeiro se forma a
base, depois se escolhe o candidato, e a eleição vem como consequência.
Para
isso, o documento propõe microconselhos temáticos com três frentes
prioritárias: imprensa, universidades e Congresso. O conselho de mídia teria a
missão de “investir, qualificar e organizar a mídia independente conservadora”.
O de juventude criaria um contraponto no ambiente acadêmico, e o legislativo
daria estrutura de assessoria e análise de dados aos parlamentares de direita.
Onde não houver projeto adequado, diz o texto, a própria Rockbridge cria um.
A
costura também atravessa partidos. Quem apresentou a Rockbridge ao empresário
Pedro Sang, apontado no documento como CEO da operação brasileira, foi André
Marinho, candidato do Novo ao governo do Rio e filho do suplente de Flávio no
Senado.
Marinho
confirmou ter viajado a Dallas a convite do grupo para avaliar a instalação da
rede no país e diz ter se afastado das conversas em maio. Sang passou a
trabalhar no comitê de Flávio em São Paulo.
Escrevi
aqui em julho que PP e União Brasil pularam do barco de Flávio e que até a
madrasta dele desembarcou. Mas enquanto uma coalizão eleitoral pontual se
desfaz numa semana, a estrutura de dinheiro, ideias e gente treinada continua
de pé na eleição seguinte. É nessa segunda camada que a direita está
investindo.
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Assimetria real
A
direita trata política como investimento de longo prazo e esse investimento é
assumidamente ideológico, deliberadamente insurgente e tem dinheiro para
esperar o retorno.
A
esquerda não tem uma classe de milionários disposta a financiar a mudança que
defende, nem deveria esperar ter, porque essa mudança costuma mexer justamente
no bolso de quem tem dinheiro, mas isso não livra o campo progressista de
pensar em horizonte.
A
Rockbridge brasileira quer se sustentar com a anuidade dos membros, um modelo
que a esquerda conhece bem. Em boa parte do mundo, partidos, sindicatos e
movimentos se ergueram com a contribuição regular de muita gente que punha
pouco e permanecia.
Atualmente,
no campo progressista e de esquerda, o dinheiro para a política costuma chegar
como doação – a linguagem da urgência. Serve para salvar o projeto que vai
fechar ou segurar a luta que está prestes a perder. É um gesto generoso, muitas vezes decisivo, mas quem é chamado a
ajudar para apagar incêndio raramente é convidado a pensar no que precisa estar
de pé daqui a sete anos.
É
verdade que a esquerda precisa de mais humor, de mais presença nas redes e de
gente que saiba falar com quem nunca vai ler uma coluna de opinião – como esta
aqui. Mas a força da direita está em outro lugar, tratando comunicação,
formação de quadros e ocupação de espaços como partes de um mesmo projeto
ideológico, e não como estratégia de conteúdo para hoje e amanhã.
O plano
brasileiro não esconde a ambição e fala claramente em substituir uma elite que
chama de exploradora por outra que chama de produtiva, numa fórmula que cabe
numa seta: “oligarquia → aristocracia”.
Os
microconselhos do plano brasileiro mostram isso com clareza ao descrever a
missão de cada núcleo, a articulação entre eles, o resultado deles e até a
colaboração técnica.
O de
mídia tem a missão de “investir, qualificar e organizar” a mídia independente
conservadora, o que vai muito além de encomendar vídeos; o de juventude mira a
universidade, onde se formam os quadros do futuro; e o legislativo quer dar
assessoria e dados aos deputados, que é onde a ideia vira lei. E, se faltar
peça em alguma dessas frentes, o documento avisa que a própria Rockbridge cria.
O que
se desenha ali é um ecossistema paralelo, que tem a ambição de substituir o
sistema “oficial” e é feito para durar e para produzir resultado eleitoral –
como de fato tem produzido.
Do
nosso lado, há muita gente fazendo trabalho sério em cada uma dessas frentes.
Falta o fio que amarra uma coisa na outra. Veículos, grupos de pesquisa,
mandatos e movimentos costumam correr em paralelo, cada um com sua causa e sua
urgência, e a soma dificilmente se converte em projeto de poder.
A
esquerda passou muito tempo se organizando para resistir, e resistir é, por
definição, reagir ao movimento do outro. A direita resolveu esse problema numa
mesa de jantar em 2019, com o estrategista americano, o guru e o ministro do
mercado sentados lado a lado: era hora de parar de responder e demandar que o
outro campo responda.
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O que vale copiar
Não
estou propondo que a esquerda monte um conselho secreto com bilionários
estrangeiros, até porque a lei eleitoral proíbe que candidatos e partidos
recebam recursos, diretos ou indiretos, de entidades ou governos estrangeiros.
A frase
com que o próprio documento se define, “não governamental e não público”,
resume o que há de mais perigoso nele, uma vez que é um plano que põe na mesa
nióbio, terras raras, urânio e lítio antes de existir mandato, licitação ou
controle público, tratando o país como lote – e o Brasil não é quintal de
ninguém.
Tudo
isso significa horizonte longo, dinheiro pensado como investimento com retorno
público e tarefas divididas por frentes. Significa também disposição para
sentar à mesa com quem discorda bastante de você, menos no essencial.
A
direita sabe o que quer do Brasil antes e depois da posse, tem mapa, orçamento
e lista de conselheiros.
Fica a
pergunta para o campo progressista: qual é o nosso projeto para os próximos
anos e quem está disposto a tratá-lo como investimento?
Fonte:
Por Cecília Meirelles, em The Intercept

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