Futebol,
política e religião
Tenho
visto publicações e comentários nas redes sociais de que futebol, religião e
política não se discutem. Vamos analisar um caso concreto de frases com que me
deparei.
“Aprendi
que existem pessoas maravilhosas que votam no Lula e existem pessoas
maravilhosas que votam no Bolsonaro. A escolha por um desses candidatos não
define o caráter de alguém. Ela é baseada nos conhecimentos e experiências de
vida e sobretudo como cada indivíduo significou tudo isso. Isso não faz as
pessoas melhores ou piores, são apenas pontos de vista e expectativas
diferentes”.
Diria
que, para torcida de futebol, estas frases estão boas. O time do coração é
escolhido pela paixão, e não pela razão. Ou seja, é verdadeiro afirmar que a
escolha do time de futebol não faz as pessoas melhores ou piores, são apenas
escolhas apaixonadas. Além disso, se o Inter ou o Grêmio vencem o campeonato,
tanto faz, isso não interfere no valor do salário, da passagem de ônibus, no
preço do leite ou no preço da gasolina.
Já a
escolha de um Presidente da República é diferente. A escolha deveria ser pela
razão, analisando fatos, ações, resultados econômicos, propostas, etc., e não
pela paixão, como no futebol. Para presidente, deve-se olhar o que cada
candidato já fez na vida e quais são os valores humanos, sociais e coletivos
que cada um defende e representa. Diferente do futebol, se for o “Lula ou o
Bolsonaro que vencer o campeonato”, para cada candidato diferente que vença as
eleições, isso vai representar resultados diferentes, e sim interfere no valor
do salário, da passagem de ônibus, do preço do leite e do preço da gasolina.
A
economia é uma ciência social, e não uma ciência exata, como a matemática.
Sendo a economia uma ciência social, economia é política. E consequentemente,
política é economia, basta ver a quantidade de questões relacionadas à economia
que integram os debates da campanha eleitoral, como o já mencionado valor do
salário ou preço da gasolina.
Lendo a
“Nota pública sobre as eleições 2026” na página do Instituto Justiça Fiscal,
podemos ver uma avaliação sobre temas econômicos relacionados à tributação e
aos gastos públicos nos programas eleitorais dos candidatos à presidência.
Resumidamente, em relação ao candidato à reeleição pelo governo atual, são
elencadas iniciativas de tributação dos super ricos e diminuição da elevada
tributação das rendas mais baixas/pobres, visando diminuir a elevada
concentração da renda e riqueza do país (desigualdade econômica), que trava o
desenvolvimento. O Brasil está entre os países mais desiguais do mundo, ou
seja, o Brasil está entre os países com maior concentração de renda e riqueza
do mundo!
Já em
relação aos candidatos pela oposição, alertam sobre o predomínio da promessa de
cortar impostos, mas sem detalhar quem pagará menos (rendas altas ou baixas).
Também não informam onde haverá o respectivo corte dos gastos decorrente da
redução de impostos, se vão cortar gastos com os ricos ou cortar gastos com os
pobres, podendo resultar num aumento da já muito elevada concentração de renda
e riqueza existente no Brasil, piorando o cenário de expectativa de
desenvolvimento.
A frase
divulgada “isso não faz as pessoas melhores ou piores” é verdadeira quando
aplicada à escolha do time de futebol, mas é falsa quando aplicada à escolha do
Presidente do país. Nesse sentido, usar afirmações e premissas verdadeiras para
a escolha do time de futebol para associá-las à escolha do Presidente do país é
um artificio argumentativo que visa enganar as pessoas. Isso se chama
manipulação de linguagem.
Agora
vamos analisar a frase divulgada “A escolha por um desses candidatos não define
o caráter de alguém”. Diria que essa afirmação é no mínimo parcialmente falsa,
pois pode definir. Vamos usar uma comparação para auxiliar no raciocínio: na
Alemanha nazista, entre a escolha de apoiar Adolf Hitler e a escolha de apoiar
o time de futebol do Bayern de Munique, há diferença?
Sim, a
opção política a favor ou contra o Hitler falava sobre o caráter das pessoas, a
tal ponto que os expoentes nazistas foram posteriormente condenados. Apoiar um
candidato que usou camiseta com o nome e apoia publicamente o mais famoso
torturador e assassino da época da ditadura militar, cuja família,
destacadamente o pai preso, fez uso de discursos de estupro, machistas,
racistas, prepotentes … pode falar sobre o caráter da pessoa que apoia esse
tipo de (má) conduta.
Como
dizem, esses discursos tiram esqueletos do armário de seus apoiadores. Afinal,
lendo as falas de Jesus Cristo na Bíblia, podemos formar uma opinião sobre seu
caráter. Lendo e ouvindo as falas dos candidatos a presidente, especialmente
analisando as ações e comportamentos anteriores, podemos formar uma opinião
sobre o caráter de cada um deles.
Dessa
forma, as frases divulgadas são verdadeiras para escolha de um time de futebol,
mas são falsas quando aplicadas à escolha de candidatos políticos, como no caso
da Presidência da República. Seguidamente escrevem nos comentários, “tâmo
junto”, e é verdade, não tem como ser diferente: estamos tão vinculados ao
resultado das eleições que a diferente escolha entre os candidatos a Presidente
causará consequências e resultados diferentes, que atingirão a todos (estamos
juntos), seja para o bem ou seja para o mal, seja para aumentar ou para
diminuir o salário e o preço da gasolina, seja para diminuir ou para aumentar a
já absurda concentração de riqueza no Brasil.
As
recentemente famosas “terras raras”, minerais considerados “o novo petróleo do
século”, estão no centro da atual disputa presidencial. O Brasil, com uma das
maiores reservas mundiais, poderia se transformar na “Noruega deste século” a
partir dessa riqueza. Na reunião da ONU desta semana, o atual império lançou o
“Escudo das Américas”, que prefiro chamar de “Ameaça ou Assalto das Américas”,
cujo objetivo declarado é combater o terrorismo, e o objetivo semiescondido é
garantir a “segurança do fluxo das terras raras”, para o norte, claro, para o
império.
Entre
os candidatos à presidência, um assegura a riqueza das terras raras para o
Brasil e o outro para os Estados Unidos. Ou seja, a opção entre um ou outro
candidato definirá se aproveitaremos, ou jogaremos fora, a oportunidade de
desenvolver o país a partir da riqueza dos minérios das terras raras que
possuímos. Ou seja, “tâmo junto” para o bem e, infelizmente, também para o mal.
Na
mesma linha, em publicação do dia 23 de setembro, com o título “Flávio e a
sombra dos milicianos”, o jornal Estado de S. Paulo opina que os eleitores têm
liberdade para dar seu voto, mas chama a atenção para “que todos estejam
cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio
Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da
República”. Parece evidente ser um alerta de que a escolha do candidato a
presidente passa a ser uma escolha entre democracia e milícia, que em certa
medida poderia ser interpretado como uma opção entre soberania democrática ou
submissão ao crime organizado.
O
resultado das eleições será importante para democracia, para o Brasil e para o
mundo, especialmente em função do aumento dos movimentos de extrema direita nas
denominadas democracias ocidentais, destacadamente na democracia ou império
estadunidense, que se encontra em declínio. O resultado vai configurar uma
maior ou menor esperança das pessoas poderem viver suas escolhas e seus
caminhos, sem medo de que isso represente uma ameaça às suas vidas.
Fonte:
Por João Carlos Loebens, em A Terra é Redonda

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