Violência
política, memória e reparação: que democracia queremos construir?
Uma
democracia não pode discutir reparação apenas olhando para o passado distante.
Também precisa ser capaz de reconhecer as violências produzidas no seu próprio
tempo e de perguntar o que acontece quando ameaças, intimidações, campanhas de
desinformação e diferentes formas de violência interferem no direito de alguém
participar da vida pública.
Nos
últimos anos, o Brasil viveu um ambiente político marcado pela radicalização do
debate público e pela ampliação dos conflitos nas redes sociais, nas
instituições e nas ruas. Jornalistas, pesquisadores, artistas, ativistas,
parlamentares e outras pessoas expostas publicamente passaram a conviver, em
diferentes circunstâncias, com ataques, ameaças e tentativas de deslegitimação.
Esse fenômeno não deve ser analisado apenas a partir das posições políticas de
quem sofre a violência. A questão democrática é anterior: quais são as
responsabilidades das instituições quando a violência procura determinar quem
pode ou não permanecer no debate público?
A
democracia pressupõe conflito. Ideias disputam espaço, projetos de sociedade se
enfrentam, governos são criticados, representantes são cobrados e cidadãos têm
o direito de discordar profundamente uns dos outros. O problema começa quando a
divergência deixa de ser enfrentada pela palavra, pelo voto, pela crítica e
pelas instituições e passa a ser atravessada pelo medo, pela ameaça ou pela
tentativa de eliminar simbolicamente o adversário da esfera pública.
É nesse
ponto que a ideia de reparação precisa ser compreendida de maneira mais ampla.
Reparar não significa concordar politicamente com alguém, restituir poder,
garantir protagonismo ou oferecer privilégio individual. Significa reconhecer
violações quando elas ocorrem, preservar a memória dos acontecimentos,
responsabilizar instituições e indivíduos quando cabível e construir condições
para que divergências políticas possam existir sem que a violência determine
quem tem direito à voz.
Esse
debate tem especial importância em um país cuja história foi atravessada por
autoritarismo, perseguições, cassações, censura e exílios. A redemocratização
criou garantias institucionais fundamentais, mas nenhuma democracia está
definitivamente protegida contra práticas de intimidação e violência política.
As tecnologias digitais acrescentaram uma nova dimensão ao problema. Boatos,
manipulações, ataques coordenados e campanhas de desinformação podem alcançar
milhões de pessoas em poucas horas e transformar indivíduos em alvos
permanentes.
Existe
ainda uma dimensão coletiva que frequentemente desaparece quando esses
episódios são tratados apenas como conflitos pessoais. Quando alguém abandona
um mandato, uma atividade profissional, uma militância ou mesmo o país por
causa de ameaças, o efeito não se limita àquela pessoa. A violência também
comunica algo a quem observa: participar da esfera pública, defender
determinadas ideias ou ocupar certos espaços pode ter um custo pessoal elevado.
Por
isso, discutir violência política exige ultrapassar simpatias e antipatias. A
proteção democrática não pode depender de quem é a vítima, de seu partido, de
sua ideologia ou de sua popularidade. Se a sociedade só reconhece a gravidade
de uma ameaça quando concorda com quem foi ameaçado, transforma direitos em
privilégios circunstanciais. A democracia exige justamente o contrário: regras
e garantias que permaneçam válidas também diante daqueles de quem discordamos.
A
memória também ocupa lugar central nessa discussão. Democracias precisam
registrar seus conflitos e compreender como determinados ambientes de
intolerância foram construídos. Esquecer rapidamente episódios de violência
política pode favorecer sua repetição. Lembrá-los não significa transformar
personagens públicos em figuras acima de críticas, mas preservar elementos que
permitam compreender os limites que uma sociedade não deseja ultrapassar
novamente.
É nesse
contexto mais amplo que a experiência de Jean Wyllys pode ser observada. Sua
trajetória reúne comunicação, literatura, universidade, televisão, Parlamento,
pesquisa e produção artística. Antes da projeção nacional na televisão, já
atuava como escritor, jornalista e professor. Depois, desenvolveu trabalhos em
diferentes veículos de comunicação, instituições de ensino e projetos
culturais.
Na
política institucional, foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro e
exerceu dois mandatos completos, entre 2011 e 2019. No Congresso, participou de
debates sobre direitos LGBT, liberdades civis, cultura, saúde pública, Estado
laico, regulação das drogas, trabalho sexual e direitos reprodutivos. Foram
temas que produziram apoios, rejeições e conflitos intensos, muitos deles ainda
presentes no debate público brasileiro.
Sua
atuação também foi marcada por episódios controversos e enfrentamentos
públicos. Durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016,
envolveu-se em um confronto com Jair Bolsonaro no plenário da Câmara. Em outros
momentos, posicionou-se contra métodos adotados pela Operação Lava Jato e
tornou-se um crítico frequente de Bolsonaro e de seu campo político. Essas
posições fizeram de Jean uma figura de forte identificação para alguns setores
e de intensa rejeição para outros.
Ao
mesmo tempo, sua trajetória passou a ser acompanhada por ameaças e campanhas de
desinformação. Após o assassinato de Marielle Franco, em 2018, as ameaças
contra Jean se intensificaram. Reeleito deputado federal naquele ano, decidiu
não assumir o terceiro mandato e deixou o Brasil em 2019, apresentando a
decisão como uma medida de autopreservação diante das ameaças recebidas.
É
justamente nesse ponto que sua experiência ultrapassa a avaliação individual
sobre sua personalidade, suas posições ou seu estilo político. Não é necessário
concordar com Jean Wyllys para reconhecer a pergunta institucional colocada por
sua saída do país: até que ponto uma democracia consegue assegurar que pessoas
submetidas a ameaças possam continuar participando da vida pública?
Fora do
Brasil, Jean continuou atuando na escrita, na pesquisa e na produção artística,
abordando temas como democracia, violência política, desinformação, memória e
exílio. Em 2021, depois de anos de filiação ao PSOL, ingressou no Partido dos
Trabalhadores. Sua trajetória continuou, portanto, atravessando política,
cultura, produção intelectual e debate público.
A
experiência de Jean interessa menos como reivindicação de um lugar específico
para ele e mais como oportunidade de pensar um problema coletivo. O mesmo
princípio precisa valer para qualquer pessoa submetida à violência política,
independentemente de sua orientação ideológica. A questão não é definir quem
merece estar no centro da vida pública, mas assegurar que a violência não seja
o instrumento que determine quem pode permanecer nela.
Reparação
democrática, nesse sentido, é também prevenção. É reconhecer o que aconteceu,
compreender as condições que permitiram que acontecesse e fortalecer mecanismos
para que ameaças, perseguições e intimidações não se convertam em ferramentas
normais da disputa política.
Ele é
uma das experiências brasileiras que permitem fazer essa reflexão. Outras
existem e certamente continuarão surgindo enquanto o país não enfrentar de
maneira consistente a violência política e a desinformação. Nenhuma democracia
deveria esperar que seus conflitos terminem em silêncio, medo ou exílio para
perceber que alguma coisa ultrapassou os limites da disputa legítima.
Por
fim, a pergunta mais importante é: qual o tipo de democracia o Brasil pretende
construir?
Fonte:
Por Herlon Miguel, no Le Monde

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