Eleições palestinas: diálogo nacional
deve preceder votação para evitar nova crise política
Neste
momento crucial para o povo da palestina — marcado por uma
guerra devastadora, riscos políticos sem precedentes e desafios que ameaçam a
causa nacional e a credibilidade de suas instituições —, a persistência da
estagnação política tornou-se mais perigosa do que nunca. Em momentos como
este, nosso povo não precisa de mais espera nem da perpetuação de divisões e
discórdias; pelo contrário, precisa retomar a iniciativa, renovar a
legitimidade de suas instituições e reconstruir seu sistema político sobre os
pilares da democracia e da parceria nacional.
Assim,
as eleições não são apenas uma obrigação política que pode ser adiada sempre
que as circunstâncias se tornam complexas; são um direito nacional e
democrático há muito aguardado pelo nosso povo — um direito cujo cronograma
deve ser respeitado e cujo sucesso deve ser buscado com a máxima seriedade.
As
condições atuais para a realização de eleições podem parecer difíceis — um fato
que não pode ser ignorado —, mas a verdadeira questão é: buscamos meios de
permitir que nosso povo exerça seu direito democrático — transformando esse
direito em uma batalha nacional abrangente contra a ocupação israelense e seus
planos de anexação, expansão de assentamentos e deslocamento populacional — ou
procuramos novos motivos para adiar esse direito?
O
sistema político palestino sofre há muito tempo com a suspensão das eleições, a
divisão interna, a paralisia das instituições e a erosão da confiança entre o
povo e as forças políticas.
Os
últimos anos demonstraram que adiar processos democráticos não resolve crises;
pelo contrário, agrava-as e aprofunda o abismo entre o povo e suas
instituições.
Portanto,
o imperativo hoje é dar continuidade aos preparativos sérios para as eleições
dos Conselhos Legislativo e Nacional — abrangendo a Cisjordânia, a Faixa de
Gaza, Jerusalém, os campos de refugiados e a diáspora — e garantir que sejam
realizadas no prazo previsto, com todas as garantias políticas, jurídicas e
técnicas necessárias.
As
eleições não devem aguardar condições ideais; povos que enfrentam grandes
crises são justamente aqueles que mais necessitam de instituições legítimas,
capazes de representá-los e defender seus interesses.
Ao
mesmo tempo, avançar para eleições sem antes estabelecer um consenso nacional
sobre as regras e os resultados do processo democrático poderia abrir caminho
para novas crises. Assim, um diálogo nacional abrangente deve preceder as
eleições, envolvendo todas as partes interessadas palestinas, sem exclusões ou
exceções.
Deve
ser um diálogo em que todos se sentem à mesma mesa: lideranças políticas,
facções e forças políticas, figuras nacionais e comunitárias, organizações da
sociedade civil e todas as partes preocupadas com o futuro do sistema político
palestino. No entanto, esse diálogo deve diferir daqueles realizados nos
últimos vinte anos.
O
objetivo não é um diálogo para distribuir cargos ou redistribuir influência,
nem um processo sem prazo definido, nem algo que sirva apenas como pretexto
para adiar as eleições.
O que é
necessário é um diálogo responsável, com objetivo e cronograma claros — um
diálogo no qual os palestinos concordem em garantir o sucesso do processo
democrático, respeitar seus resultados e as instituições que dele surgirem, e
acatar a decisão das urnas em vez de se curvar a dinâmicas de poder e à
divisão.
O alto
nível de participação na atualização do registro eleitoral na Cisjordânia
transmite uma mensagem política que nenhum partido deve ignorar. Apesar das
crises e pressões que os cercam, o povo afirma claramente que deseja
participar, ter voz na escolha de seus representantes e contar com instituições
nacionais cuja legitimidade derive da vontade popular.
Essa
mensagem precisa ser claramente compreendida.
O povo
não quer ver suas instituições reféns da divisão, nem quer que o sistema
político permaneça paralisado ou que disputas entre forças políticas se tornem
um obstáculo perpétuo ao seu direito de participar.
O
cidadão palestino quer ver unidade institucional, e não apenas slogans de
unidade; parceria, e não a monopolização do poder; democracia, e não a partilha
de poder baseada em cotas; e eleições, e não apenas declarações e discursos.
As
eleições são uma oportunidade para acabar com a divisão, não para gerenciá-la.
Ao
longo dos anos, as divisões palestinas evoluíram de uma crise política
temporária para uma realidade institucional, social e política de grande peso.
Hoje,
não devemos encarar as eleições apenas como um processo de escolha de membros
para dois conselhos, mas sim como uma oportunidade para reconstruir a vida
política palestina em sua totalidade.
¨
Da Intifada ao genocídio: como a consciência palestina
foi moldada ao longo de 26 anos
Vinte e
seis anos após a eclosão da Intifada (revolta) palestina de
Al-Aqsa,
esse evento não é mais apenas um marco histórico para os palestinos; tornou-se
parte integrante da memória e da consciência política de toda uma geração.
Desde setembro de 2000, os palestinos enfrentaram uma sucessão de crises —
bloqueios, divisão interna, guerras e a expansão dos assentamentos — culminando
na guerra devastadora que atualmente assola Gaza.
Após
todos esses anos, a questão não é simplesmente “O que aconteceu durante a
Intifada de Al-Aqsa?”, mas sim: “O que resta dela na consciência palestina? E o
que aprendemos?”
Um dos
impactos mais significativos da Intifada foi desfazer a ilusão de que a mera
existência de um processo político levaria necessariamente ao fim da ocupação.
Ao
longo dos anos de Oslo e posteriormente, os palestinos viveram uma realidade
definida pela expansão persistente dos assentamentos, postos de controle
militares, prisões, incursões e restrições de movimento.
Consequentemente,
o foco mudou gradualmente de como gerir essa realidade para como acabar com a
ocupação e alcançar a liberdade e a independência.
A
Intifada também reafirmou a centralidade de Jerusalém e da Mesquita de Al-Aqsa
para a consciência nacional, estabelecendo um vínculo mais claro entre
Jerusalém e as questões de terra, assentamentos, refugiados, prisioneiros e o
direito à autodeterminação.
Para
amplos segmentos da sociedade, a causa palestina evoluiu para uma luta
abrangente pelos direitos nacionais, em vez de ser apenas um item de
negociação.
No
entanto, talvez seu impacto mais profundo tenha sido sobre toda uma geração. As
crianças e os adolescentes do ano 2000 estão agora na casa dos trinta e
quarenta anos, carregando memórias de postos de controle, tanques, incursões
militares e funerais, tendo vivido, posteriormente, bloqueios, guerras e
divisões internas.
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Em
Gaza, hoje, a imagem da resiliência mudou. Se antes a imagem da Intifada era
definida por postos de controle, tanques e confrontos diretos, a realidade de
tendas, escombros, deslocamentos, hospitais e a luta por água e alimentos
passou a fazer parte do cotidiano.
A
firmeza na resistência passou a abranger a proteção da família, a educação dos
filhos, a preservação da memória e a reconstrução de vidas em meio à
destruição.
No
entanto, a memória, por si só, não basta.
Uma
análise crítica da Intifada de Al-Aqsa levanta uma questão difícil: por que
todos esses sacrifícios não se traduziram em uma conquista política capaz de
encerrar a ocupação e concretizar os direitos nacionais palestinos?
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Essa
pergunta não diminui o valor dos sacrifícios; pelo contrário, situa-os em seu
contexto histórico. Sacrifícios exigem um projeto político; um projeto exige
instituições; e instituições exigem legitimidade popular e unidade nacional.
Aqui
reside, talvez, uma das lições mais importantes dos últimos 26 anos: não basta
que um povo tenha uma causa justa e capacidade de resistência; é preciso também
uma estrutura nacional inclusiva, capaz de transformar essa resistência em ação
política.
Em
Gaza, essa tarefa parece ainda mais urgente. Embora a reconstrução de casas,
escolas e hospitais seja essencial, reconstruir a vida também exige reconstruir
instituições e a representação política, bem como renovar a legitimidade
popular.
Após 26
anos, Jerusalém, a terra, a memória e o direito à autodeterminação permanecem —
assim como a capacidade palestina de resistência.
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Contudo,
a pergunta permanece: podemos transformar toda essa memória e esse sacrifício
em um projeto que molde o futuro?
A
Intifada tornou-se parte da história, mas a responsabilidade das gerações
atuais é aprender com essa história, e não repetir suas tragédias.
¨ Matar palestinos
nunca foi acidental para Israel - é o que revela documentário 'Naza'
Em um
terraço escuro em Tel Aviv, na capital de Israel, oficiais da inteligência do
país, de forma anônima, contam como ajudaram a desenvolver uma ferramenta de
mapeamento por IA que rastreava sinais de celular e recomendava prédios
residenciais em Gaza como alvos de bombardeio. “Eles vão me colocar na prisão
pelo o que vou expor”, disse um deles.
Todos
os testemunhos fazem parte do documentário Naza, dirigido pelos
jornalistas investigativos e cineastas
israelenses Rachel Szor e Yuval Abraham e que estreia nesta quinta-feira (01/10) no
Brasil. A obra refuta qualquer tipo de negação sobre o genocídio perpetrado
pelo governo de extrema direita do primeiro-ministro
Benjamin Netanyahu.
Produzido
pelo jornal britânico Guardian e JW Films, ao longo de 80 minutos,
os oficiais, que tiveram suas vozes alteradas por inteligência artificial para
dificultar a identificação dos agentes falam sobre a utilização de IA para
matar palestinos. Em um determinado momento, um oficial afirma que “quem a
gente decide matar era considerado terrorista”. Em outro, um dos entrevistados
descreveu as ações como “incrivelmente divertidas”, declarando que era como
jogar um “videogame”.
A obra
é o resultado de uma investigação de quase três anos sobre a guerra genocida de
Israel contra Gaza, e a apuração é respaldada por detalhes ao descreverem
as tecnologias capazes de monitorar prédios por semanas, ouvir choros de bebês
e outras vozes.
Os 24
militares confirmam que sabiam da presença de um grande número de civis e,
ainda assim, autorizaram ataques que mataram dezenas de pessoas por um único
alvo, quase sempre acusado de ser um
combatente de baixa patente do Hamas. Naza mostra que a morte de um
palestino nunca é acidental para o Estado de Israel, mas sempre planejada.
A
provocação do título refere-se a uma sigla em hebraico para “Nezek Agavi”, que
significa “dano colateral”. Trata-se de um termo utilizado pelo serviço de
inteligência para indicar quantos civis se espera que morram em um ataque aéreo
em Gaza.
“Tem
diferença entre criança e adulto?”, questiona Abraham, que recebe um “não” como
resposta. “Um Naza é igual a uma pessoa?”. “Sim”, responde um dos militares. Em
outro trecho, um oficial afirma que “Gaza virou uma fábrica de alvos”.
Indiretamente,
alguns admitem que são responsáveis por milhares de mortes, mas nunca se
manifestaram. “Tudo o que posso dizer é que estão cumprindo uma missão”, tenta
justificar um deles. Outro declara que “meu papel é técnico”. “Sou apenas uma
pequena engrenagem”, diz um terceiro.
Um dos sistemas de
IA
apresentados no documentário é o Lavender, que, segundo os oficiais anônimos,
era usado para identificar alvos de assassinato. Israel supervisiona um sistema
de vigilância em massa em Gaza, monitorando ligações telefônicas, movimentos e
interações das pessoas. Segundo os entrevistados, esse software usa esses dados
para decidir quem assassinar, e acredita-se que a taxa de erro seja de até 10%.
Segundo outro entrevistado, o ataque foi aprovado mesmo sabendo-se que até 500
civis poderiam ser mortos.
“Primeiro
bombardeia o prédio e depois verifica se há algum membro do Hamas”, disse um.
Outro explica que eles sabem quando é uma casa familiar e que não há fabricação
de armas. “Se eu lanço uma bomba e só há feridos, eu lanço outra”.
Desde 7
de outubro de 2023, o Exército de Israel realiza ataques diários contra a Faixa
de Gaza, ao menos 74.023 palestinos
foram mortos,
em sua maioria mulheres e crianças, e ferindo outros 175.980.
“Destruir
casa somente por destruir era uma rotina”, disse um oficial. Outro deseja “boa
sorte” para os palestinos que não conseguem evacuar, seja por medo ou por
alguma deficiência que dificulta um deslocamento forçado.
Apesar
de um cessar-fogo estar em vigor desde 11 de outubro de 2025, a ofensiva
continua: Tel Aviv matou 1.422 palestinos e feriu outros 4.996 nesse período.
Os corpos de 834 palestinos mortos foram recuperados durante este um ano.
Leia | Desabamento de
prédio danificado por ataques israelenses deixa ao menos 20 mortos em Gaza
“Estratégia
deliberada. Atos homicidas e políticos baseados na total desumanização dos
palestinos. Os oficiais da inteligência israelense com quem conversamos nos
explicaram como esse massacre é sistêmico”, disse Abraham ao receber o Prêmio Especial do
Júri no Festival de Veneza. O filme quebrou o recorde de mais longa ovação do
evento, com 25 minutos de palmas ininterruptas, superando A Voz de Hind
Rajab, filme sobre a morte de Hind Rajab, uma garota de seis anos de idade
que foi alvo ao tentar fugir junto à sua família.
Após os
militares relatarem como utilizam a Inteligência Artificial, entre outros
softwares, para bombardear prédios, o documentário termina com um pai palestino
em busca do seu filho mais novo, no meio dos escombros. De acordo com os dados
do Ministério da Saúde de Gaza, pelo menos 10.000 pessoas estão desaparecidas, presumivelmente
mortas sob os escombros de suas casas.
O
cineasta israelense Yuval Abraham, que codirigiu o documentário, anunciou em
sua conta no X que a obra será disponibilizada gratuitamente a partir de
novembro no site do Guardian. “Sei que existe uma enorme demanda para
ver o filme e espero que, desta forma, todos possam vê-lo em breve: seja nos
cinemas ou online, dentro de algumas semanas”, disse.
“Fizemos
o filme para provocar uma discussão pública sobre as ações do governo
[israelense] em Gaza, o assassinato de mais de 73.000 pessoas, a maioria civis,
a normalização de uma guerra de extermínio, da noção de que ‘não há
inocentes'”, acrescentou.
¨ Ataque de colonos
israelenses impede família palestina de voltar para casa
Cerca
de 150 colonos israelenses impediram, na madrugada desta terça-feira (29/09), o
retorno de uma família palestina à sua casa no vilarejo de Jalud, ao sul de
Nablus, no norte da Cisjordânia ocupada. As informações são do Haaretz.
Segundo
a reportagem os colonos apedrejaram e invadiram as
instalações de propriedades da família Tubasi, que precisou ser retirada novamente
do local. A família havia deixado suas propriedades cerca de dois meses
antes, após sucessivos episódios de violência e intimidação por parte de
colonos. A decisão judicial, no entanto, determinou que o Estado israelense
permitisse seu retorno em segurança e adotasse medidas para evitar novas
invasões.
Na
noite de segunda-feira (28/09), eles foram informados que voltariam para casa e
chegaram escoltados na residência, mas, pouco depois, colonos começaram a se concentrar na região e a lançar pedras.
Segundo o Haaretz, três agentes da Guarda de Fronteira foram levemente
feridos, ao tentar dispersar o grupo com gás lacrimogêneo e granadas de efeito
moral.
Os
colonos, no entanto, ultrapassaram o bloqueio e avançaram até o telhado de uma
das residências onde a família buscava proteção. As forças israelenses, então,
retiraram os palestinos da própria residência em um veículo militar blindado.
Após a evacuação, os israelenses incendiaram instalações da propriedade e
veículos pertencentes à família.
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‘Falharam miseravelmente’
A
polícia israelense informou que três suspeitos foram detidos e disse ao
jornal que a operação havia sido iniciada com apenas 12 agentes da Guarda de
Fronteira. Segundo uma fonte de alto escalão da segurança, “as FDI falharam
miseravelmente” na preparação.
A
reportagem destaca que a polícia e o Shin Bet não foram comunicados sobre o retorno dos
palestinos à residência, e que reforços foram mobilizados apenas após a chegada
de mais de 100 colonos.
O
primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, classificou o episódio como
“tumultos violentos”. Segundo ele, “um punhado de manifestantes violentos” não
representa o que chamou de “comunidade de colonos cumpridores da lei”.
A
violência de colonos também foi registrada em outras localidades da Cisjordânia
ocupada. Em Al-Mughayyir, a nordeste de Ramallah, colonos incendiaram uma casa
e veículos palestinos. Em Beitunia, colonos entraram na cidade e bloquearam
vias
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

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