sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Eleições palestinas: diálogo nacional deve preceder votação para evitar nova crise política

Neste momento crucial para o povo da palestina — marcado por uma guerra devastadora, riscos políticos sem precedentes e desafios que ameaçam a causa nacional e a credibilidade de suas instituições —, a persistência da estagnação política tornou-se mais perigosa do que nunca. Em momentos como este, nosso povo não precisa de mais espera nem da perpetuação de divisões e discórdias; pelo contrário, precisa retomar a iniciativa, renovar a legitimidade de suas instituições e reconstruir seu sistema político sobre os pilares da democracia e da parceria nacional.

Assim, as eleições não são apenas uma obrigação política que pode ser adiada sempre que as circunstâncias se tornam complexas; são um direito nacional e democrático há muito aguardado pelo nosso povo — um direito cujo cronograma deve ser respeitado e cujo sucesso deve ser buscado com a máxima seriedade.

As condições atuais para a realização de eleições podem parecer difíceis — um fato que não pode ser ignorado —, mas a verdadeira questão é: buscamos meios de permitir que nosso povo exerça seu direito democrático — transformando esse direito em uma batalha nacional abrangente contra a ocupação israelense e seus planos de anexação, expansão de assentamentos e deslocamento populacional — ou procuramos novos motivos para adiar esse direito?

O sistema político palestino sofre há muito tempo com a suspensão das eleições, a divisão interna, a paralisia das instituições e a erosão da confiança entre o povo e as forças políticas.

Os últimos anos demonstraram que adiar processos democráticos não resolve crises; pelo contrário, agrava-as e aprofunda o abismo entre o povo e suas instituições.

Portanto, o imperativo hoje é dar continuidade aos preparativos sérios para as eleições dos Conselhos Legislativo e Nacional — abrangendo a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, Jerusalém, os campos de refugiados e a diáspora — e garantir que sejam realizadas no prazo previsto, com todas as garantias políticas, jurídicas e técnicas necessárias.

As eleições não devem aguardar condições ideais; povos que enfrentam grandes crises são justamente aqueles que mais necessitam de instituições legítimas, capazes de representá-los e defender seus interesses.

Ao mesmo tempo, avançar para eleições sem antes estabelecer um consenso nacional sobre as regras e os resultados do processo democrático poderia abrir caminho para novas crises. Assim, um diálogo nacional abrangente deve preceder as eleições, envolvendo todas as partes interessadas palestinas, sem exclusões ou exceções.

Deve ser um diálogo em que todos se sentem à mesma mesa: lideranças políticas, facções e forças políticas, figuras nacionais e comunitárias, organizações da sociedade civil e todas as partes preocupadas com o futuro do sistema político palestino. No entanto, esse diálogo deve diferir daqueles realizados nos últimos vinte anos.

O objetivo não é um diálogo para distribuir cargos ou redistribuir influência, nem um processo sem prazo definido, nem algo que sirva apenas como pretexto para adiar as eleições.

O que é necessário é um diálogo responsável, com objetivo e cronograma claros — um diálogo no qual os palestinos concordem em garantir o sucesso do processo democrático, respeitar seus resultados e as instituições que dele surgirem, e acatar a decisão das urnas em vez de se curvar a dinâmicas de poder e à divisão.

O alto nível de participação na atualização do registro eleitoral na Cisjordânia transmite uma mensagem política que nenhum partido deve ignorar. Apesar das crises e pressões que os cercam, o povo afirma claramente que deseja participar, ter voz na escolha de seus representantes e contar com instituições nacionais cuja legitimidade derive da vontade popular.

Essa mensagem precisa ser claramente compreendida.

O povo não quer ver suas instituições reféns da divisão, nem quer que o sistema político permaneça paralisado ou que disputas entre forças políticas se tornem um obstáculo perpétuo ao seu direito de participar.

O cidadão palestino quer ver unidade institucional, e não apenas slogans de unidade; parceria, e não a monopolização do poder; democracia, e não a partilha de poder baseada em cotas; e eleições, e não apenas declarações e discursos.

As eleições são uma oportunidade para acabar com a divisão, não para gerenciá-la.

Ao longo dos anos, as divisões palestinas evoluíram de uma crise política temporária para uma realidade institucional, social e política de grande peso.

Hoje, não devemos encarar as eleições apenas como um processo de escolha de membros para dois conselhos, mas sim como uma oportunidade para reconstruir a vida política palestina em sua totalidade.

¨      Da Intifada ao genocídio: como a consciência palestina foi moldada ao longo de 26 anos

Vinte e seis anos após a eclosão da Intifada (revolta) palestina de Al-Aqsa, esse evento não é mais apenas um marco histórico para os palestinos; tornou-se parte integrante da memória e da consciência política de toda uma geração. Desde setembro de 2000, os palestinos enfrentaram uma sucessão de crises — bloqueios, divisão interna, guerras e a expansão dos assentamentos — culminando na guerra devastadora que atualmente assola Gaza.

Após todos esses anos, a questão não é simplesmente “O que aconteceu durante a Intifada de Al-Aqsa?”, mas sim: “O que resta dela na consciência palestina? E o que aprendemos?”

Um dos impactos mais significativos da Intifada foi desfazer a ilusão de que a mera existência de um processo político levaria necessariamente ao fim da ocupação.

Ao longo dos anos de Oslo e posteriormente, os palestinos viveram uma realidade definida pela expansão persistente dos assentamentos, postos de controle militares, prisões, incursões e restrições de movimento.

Consequentemente, o foco mudou gradualmente de como gerir essa realidade para como acabar com a ocupação e alcançar a liberdade e a independência.

A Intifada também reafirmou a centralidade de Jerusalém e da Mesquita de Al-Aqsa para a consciência nacional, estabelecendo um vínculo mais claro entre Jerusalém e as questões de terra, assentamentos, refugiados, prisioneiros e o direito à autodeterminação.

Para amplos segmentos da sociedade, a causa palestina evoluiu para uma luta abrangente pelos direitos nacionais, em vez de ser apenas um item de negociação.

No entanto, talvez seu impacto mais profundo tenha sido sobre toda uma geração. As crianças e os adolescentes do ano 2000 estão agora na casa dos trinta e quarenta anos, carregando memórias de postos de controle, tanques, incursões militares e funerais, tendo vivido, posteriormente, bloqueios, guerras e divisões internas.

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Em Gaza, hoje, a imagem da resiliência mudou. Se antes a imagem da Intifada era definida por postos de controle, tanques e confrontos diretos, a realidade de tendas, escombros, deslocamentos, hospitais e a luta por água e alimentos passou a fazer parte do cotidiano.

A firmeza na resistência passou a abranger a proteção da família, a educação dos filhos, a preservação da memória e a reconstrução de vidas em meio à destruição.

No entanto, a memória, por si só, não basta.

Uma análise crítica da Intifada de Al-Aqsa levanta uma questão difícil: por que todos esses sacrifícios não se traduziram em uma conquista política capaz de encerrar a ocupação e concretizar os direitos nacionais palestinos?

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Essa pergunta não diminui o valor dos sacrifícios; pelo contrário, situa-os em seu contexto histórico. Sacrifícios exigem um projeto político; um projeto exige instituições; e instituições exigem legitimidade popular e unidade nacional.

Aqui reside, talvez, uma das lições mais importantes dos últimos 26 anos: não basta que um povo tenha uma causa justa e capacidade de resistência; é preciso também uma estrutura nacional inclusiva, capaz de transformar essa resistência em ação política.

Em Gaza, essa tarefa parece ainda mais urgente. Embora a reconstrução de casas, escolas e hospitais seja essencial, reconstruir a vida também exige reconstruir instituições e a representação política, bem como renovar a legitimidade popular.

Após 26 anos, Jerusalém, a terra, a memória e o direito à autodeterminação permanecem — assim como a capacidade palestina de resistência.

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Contudo, a pergunta permanece: podemos transformar toda essa memória e esse sacrifício em um projeto que molde o futuro?

A Intifada tornou-se parte da história, mas a responsabilidade das gerações atuais é aprender com essa história, e não repetir suas tragédias.

¨      Matar palestinos nunca foi acidental para Israel - é o que revela documentário 'Naza'

Em um terraço escuro em Tel Aviv, na capital de Israel, oficiais da inteligência do país, de forma anônima, contam como ajudaram a desenvolver uma ferramenta de mapeamento por IA que rastreava sinais de celular e recomendava prédios residenciais em Gaza como alvos de bombardeio. “Eles vão me colocar na prisão pelo o que vou expor”, disse um deles.

Todos os testemunhos fazem parte do documentário Naza, dirigido pelos jornalistas investigativos e cineastas israelenses Rachel Szor e Yuval Abraham e que estreia nesta quinta-feira (01/10) no Brasil. A obra refuta qualquer tipo de negação sobre o genocídio perpetrado pelo governo de extrema direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Produzido pelo jornal britânico Guardian e JW Films, ao longo de 80 minutos, os oficiais, que tiveram suas vozes alteradas por inteligência artificial para dificultar a identificação dos agentes falam sobre a utilização de IA para matar palestinos. Em um determinado momento, um oficial afirma que “quem a gente decide matar era considerado terrorista”. Em outro, um dos entrevistados descreveu as ações como “incrivelmente divertidas”, declarando que era como jogar um “videogame”.

A obra é o resultado de uma investigação de quase três anos sobre a guerra genocida de Israel contra Gaza, e a apuração é respaldada por detalhes ao descreverem as tecnologias capazes de monitorar prédios por semanas, ouvir choros de bebês e outras vozes.

Os 24 militares confirmam que sabiam da presença de um grande número de civis e, ainda assim, autorizaram ataques que mataram dezenas de pessoas por um único alvo, quase sempre acusado de ser um combatente de baixa patente do Hamas. Naza mostra que a morte de um palestino nunca é acidental para o Estado de Israel, mas sempre planejada.

A provocação do título refere-se a uma sigla em hebraico para “Nezek Agavi”, que significa “dano colateral”. Trata-se de um termo utilizado pelo serviço de inteligência para indicar quantos civis se espera que morram em um ataque aéreo em Gaza.

“Tem diferença entre criança e adulto?”, questiona Abraham, que recebe um “não” como resposta. “Um Naza é igual a uma pessoa?”. “Sim”, responde um dos militares. Em outro trecho, um oficial afirma que “Gaza virou uma fábrica de alvos”.

Indiretamente, alguns admitem que são responsáveis por milhares de mortes, mas nunca se manifestaram. “Tudo o que posso dizer é que estão cumprindo uma missão”, tenta justificar um deles. Outro declara que “meu papel é técnico”. “Sou apenas uma pequena engrenagem”, diz um terceiro.

Um dos sistemas de IA apresentados no documentário é o Lavender, que, segundo os oficiais anônimos, era usado para identificar alvos de assassinato. Israel supervisiona um sistema de vigilância em massa em Gaza, monitorando ligações telefônicas, movimentos e interações das pessoas. Segundo os entrevistados, esse software usa esses dados para decidir quem assassinar, e acredita-se que a taxa de erro seja de até 10%. Segundo outro entrevistado, o ataque foi aprovado mesmo sabendo-se que até 500 civis poderiam ser mortos.

“Primeiro bombardeia o prédio e depois verifica se há algum membro do Hamas”, disse um. Outro explica que eles sabem quando é uma casa familiar e que não há fabricação de armas. “Se eu lanço uma bomba e só há feridos, eu lanço outra”.

Desde 7 de outubro de 2023, o Exército de Israel realiza ataques diários contra a Faixa de Gaza, ao menos 74.023 palestinos foram mortos, em sua maioria mulheres e crianças, e ferindo outros 175.980.

“Destruir casa somente por destruir era uma rotina”, disse um oficial. Outro deseja “boa sorte” para os palestinos que não conseguem evacuar, seja por medo ou por alguma deficiência que dificulta um deslocamento forçado.

Apesar de um cessar-fogo estar em vigor desde 11 de outubro de 2025, a ofensiva continua: Tel Aviv matou 1.422 palestinos e feriu outros 4.996 nesse período. Os corpos de 834 palestinos mortos foram recuperados durante este um ano.

Leia | Desabamento de prédio danificado por ataques israelenses deixa ao menos 20 mortos em Gaza

“Estratégia deliberada. Atos homicidas e políticos baseados na total desumanização dos palestinos. Os oficiais da inteligência israelense com quem conversamos nos explicaram como esse massacre é sistêmico”, disse Abraham ao receber o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza. O filme quebrou o recorde de mais longa ovação do evento, com 25 minutos de palmas ininterruptas, superando A Voz de Hind Rajab, filme sobre a morte de Hind Rajab, uma garota de seis anos de idade que foi alvo ao tentar fugir junto à sua família.

Após os militares relatarem como utilizam a Inteligência Artificial, entre outros softwares, para bombardear prédios, o documentário termina com um pai palestino em busca do seu filho mais novo, no meio dos escombros. De acordo com os dados do Ministério da Saúde de Gaza, pelo menos 10.000 pessoas estão desaparecidas, presumivelmente mortas sob os escombros de suas casas.

O cineasta israelense Yuval Abraham, que codirigiu o documentário, anunciou em sua conta no X que a obra será disponibilizada gratuitamente a partir de novembro no site do Guardian. “Sei que existe uma enorme demanda para ver o filme e espero que, desta forma, todos possam vê-lo em breve: seja nos cinemas ou online, dentro de algumas semanas”, disse.

“Fizemos o filme para provocar uma discussão pública sobre as ações do governo [israelense] em Gaza, o assassinato de mais de 73.000 pessoas, a maioria civis, a normalização de uma guerra de extermínio, da noção de que ‘não há inocentes'”, acrescentou.

¨      Ataque de colonos israelenses impede família palestina de voltar para casa

Cerca de 150 colonos israelenses impediram, na madrugada desta terça-feira (29/09), o retorno de uma família palestina à sua casa no vilarejo de Jalud, ao sul de Nablus, no norte da Cisjordânia ocupada. As informações são do Haaretz.

Segundo a reportagem os colonos apedrejaram e invadiram as instalações de propriedades da família Tubasi, que precisou ser retirada novamente do local. A família havia deixado suas propriedades cerca de dois meses antes, após sucessivos episódios de violência e intimidação por parte de colonos. A decisão judicial, no entanto, determinou que o Estado israelense permitisse seu retorno em segurança e adotasse medidas para evitar novas invasões.

Na noite de segunda-feira (28/09), eles foram informados que voltariam para casa e chegaram escoltados na residência, mas, pouco depois, colonos começaram a se concentrar na região e a lançar pedras. Segundo o Haaretz, três agentes da Guarda de Fronteira foram levemente feridos, ao tentar dispersar o grupo com gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral.

Os colonos, no entanto, ultrapassaram o bloqueio e avançaram até o telhado de uma das residências onde a família buscava proteção. As forças israelenses, então, retiraram os palestinos da própria residência em um veículo militar blindado. Após a evacuação, os israelenses incendiaram instalações da propriedade e veículos pertencentes à família.

<><> ‘Falharam miseravelmente’

A polícia israelense informou que três suspeitos foram detidos e  disse ao jornal que a operação havia sido iniciada com apenas 12 agentes da Guarda de Fronteira. Segundo uma fonte de alto escalão da segurança, “as FDI falharam miseravelmente” na preparação.

A reportagem destaca que a polícia e o Shin Bet não foram comunicados sobre o retorno dos palestinos à residência, e que reforços foram mobilizados apenas após a chegada de mais de 100 colonos.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, classificou o episódio como “tumultos violentos”. Segundo ele, “um punhado de manifestantes violentos” não representa o que chamou de “comunidade de colonos cumpridores da lei”.

A violência de colonos também foi registrada em outras localidades da Cisjordânia ocupada. Em Al-Mughayyir, a nordeste de Ramallah, colonos incendiaram uma casa e veículos palestinos. Em Beitunia, colonos entraram na cidade e bloquearam vias

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

 

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