Candidatos
ignoram crise climática enquanto planeta aquece
Num ano
que tem tudo para bater o novo recorde de temperatura e após o mês de agosto
mais quente da história, as eleições de outubro para presidente passam longe do
debate sobre clima. Embora a expressão "meio ambiente" apareça nos
planos de governo dos candidatos mais bem colocados nas pesquisas, as propostas
não estão à altura da emergência.
Em
busca do seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o único
que apresenta estratégias mais claras para o enfrentamento da crise. A atual
gestão assumiu a presidência em 2023 após anos de alta do desmatamento e
abandono de políticas socioambientais por Jair Bolsonaro.
"E
agora, em campanha, Lula é o único que apresenta um plano mais consistente em
clima. Ele reflete um pouco o que está acontecendo em termos de política
climática e ambiental de uma forma mais ampla", analisa Suely de Araujo,
do Observatório do Clima.
A rede
da qual Araujo faz parte, formada por mais de 170 organizações socioambientais,
institutos de pesquisa e movimentos sociais, analisou os planos dos
presidenciáveis e levou em consideração o histórico de atuação dos candidatos.
Entre
as propostas, os especialistas identificaram pontos de alerta de Lula,
inconsistências de Flávio Bolsonaro e falta de estrutura nas propostas de
Augusto Cury, terceiro colocado nas intenções de voto.
"A
agenda socioambiental está longe de ser prioritária para todos os candidatos.
Em verdade, a maioria dos presidenciáveis ignora a necessidade de enfrentar a
crise climática, mesmo que ela já seja uma realidade e se manifeste no país por
meio de secas rigorosas, queimadas e enchentes com grande potencial
destrutivo", avalia o Greenpeace.
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Lula e o petróleo
O
programa proposto pelo governo que busca a reeleição, segundo a análise
técnica, aponta boas pautas socioambientais e de combate às mudanças
climáticas. Segundo o levantamento, as propostas acabam se destacando em
relação aos demais concorrentes principalmente pela reconstrução da governança
ambiental e o combate à destruição das florestas.
Mas há
ressalvas. A principal crítica está voltada para o setor de energia: apesar de
as fontes renováveis aparecerem como estratégicas, Lula aposta na produção de
combustíveis fósseis, os maiores responsáveis pelas mudanças climáticas.
"Essa expansão de petróleo é uma contradição no governo Lula e é uma
preocupação. Mas isso está presente desde o início do governo", pontua
Araújo.
Lula
tem defendido a busca por petróleo na bacia marítima da Foz do Amazonas,
projeto atualmente em curso pela Petrobras. Depois de um longo e conturbado
processo de licenciamento, a empresa obteve em outubro de 2025 a autorização
para perfurar o poço FZA-M-59 e afirmou, em agosto, ter identificado a presença
do combustível no local.
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A postura de um Bolsonaro
Em suas
79 páginas, que listam os planos de governo de Flávio Bolsonaro, o candidato
afirma que vai tratar o meio ambiente como um ativo estratégico, e não como um
obstáculo ao desenvolvimento. E, para isso, diz que vai "eliminar
superposições entre Ibama, Funai e ICMBio" para dar eficiência à
fiscalização.
Esta
formulação é avaliada como preocupante pelo Observatório do Clima. "Não
existem essas superposições que ele fala. O que ele quer? Enfraquecer o poder
dos órgãos ambientais?", comenta Araújo.
Em
diversos momentos de sua trajetória parlamentar, Flávio demonstrou pouco apoio
à atuação dessas entidades. Um dos exemplos mais recentes ocorreu durante a
campanha, num evento em Manaus no qual o candidato chamou os órgãos ambientais
de ideológicos e de esquerda. Na ocasião, o presidenciável defendia a conclusão
do asfaltamento da rodovia BR-319, que liga a capital do Amazonas a Porto
Velho, em Rondônia.
Secas
também podem aumentar no futuroFoto: Ivan Valencia/AP/picture alliance
Flávio
também defende a expansão do petróleo e gás natural, além de promover a
liberação do fracking. Essa técnica de extração de combustível fóssil pelo
fraturamento hidráulico injeta água e outros produtos no subsolo sob alta
pressão, quebra as rochas e libera o material de interesse. Mas seu potencial
de impacto ambiental é altíssimo.
Como
parlamentar, Flávio Bolsonaro é notório por votar contra as causas ambientais.
Ele sequer reconhece a existência da crise climática em curso e a atividade
humana como causadora dela, aponta o Greenpeace.
A
promessa de acabar com o desmatamento ilegal até 2029 apresentada no plano
também destoa da postura parlamentar de Flávio. Em 2019, ele foi o autor do PL
nº 2362/2019, que tentava acabar com a obrigatoriedade da reserva legal – área
de vegetação nativa que deve ser mantida em toda propriedade rural, segundo a
lei.
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Pouco ou nada
Sem
qualquer atuação na vida política, o estreante Augusto Cury é psiquiatra e
escritor. Apesar de trazer em seu plano de governo propostas para o combate às
mudanças climáticas e prevenção de desastres, seu plano liga as pautas
ambientais a projetos de modernização econômica, desenvolvimento tecnológico e
expansão produtiva.
"É
um plano muito ruim. É difícil até contextualizar com a atuação pregressa
porque ele não tem. O plano do Cury fala em renováveis, prevenção de incêndios,
mas não detalha como que isso vai ser feito", detalha Araujo.
Renan
Santos, que também nunca teve um mandato político, apresenta poucas propostas.
As que aparecem no papel, analisa o Observatório do Clima, pioram o quadro de
proteção ambiental e de atuação do país na agenda climática.
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Quem governa
O
candidato vitorioso que assumir o posto em 2027 vai lidar com um Congresso
consideravelmente renovado. Junto com o presidente, serão eleitos todos os 513
assentos disponíveis para deputados federais e 54 das 81 cadeiras para
senadores serão renovadas.
A atual
legislatura é marcada por aprovações de projetos polêmicos que causaram
diversos retrocessos ambientais, apontam especialistas ouvidos pela DW. Entre
eles está o novo licenciamento ambiental (PL nº 15.190/2025), que flexibilizou
regras e dispensou alguns projetos da obrigatoriedade de apresentarem estudos
de impacto.
A
plataforma digital Congresso Anti-Indígena, alimentada pelo Conselho
Indigenista Missionário (Cimi), mostra que 88% das votações de projetos que
atingem indígenas tiveram resultados desfavoráveis para os povos originários.
Esse dado, diz o Cimi, mostra o controle expressivo da pauta por setores
contrários aos direitos indígenas.
"Uma
bancada muito alinhada ao agronegócio predatório e à extrema direita que, como
mostra a análise dos programas dos presidenciáveis, nega a existência de uma
crise climática e, na prática, impõe retrocessos ambientais, significaria abrir
as portas para a destruição", alerta o Greenpeace.
Fonte:
DW Brasil

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