sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Marco Damiani: Criador do monstro Master, Campos Neto não pode passar impune

Nomeado em fevereiro de 2019 por Jair Bolsonaro para o comando do Banco Central, sob os auspícios do então ministro Paulo Guedes e em razão de seu sobrenome ligado ao regime militar, do qual seu avô Roberto Campos foi um dos principais formuladores econômicos, Roberto Campos Neto está desmoralizado.

Até os janelões enegrecidos da sede do BC em Brasília sabem que Campos Neto está na origem, no desenvolvimento e no acobertamento do maior escândalo financeiro da história do País. Seus pares banqueiros querem vê-lo pelas costas, e o melhor seria atrás das grades, onde estão Daniel Vorcaro, o papai Henrique e outros quatro integrantes da quadrilha financeira montada dentro do banco.

As operações que a quadrilha do Master comandou debaixo da fiscalização que o BC de Campos Neto deveria ter feito deixaram um rombo de R$ 57,4 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, lastreado pelas grandes instituições financeiras. Estima-se um prejuízo total de mais de R$ 63 bilhões, quando se contam todas as operações a descoberto. Para esse resultado desastroso, diretores do BC de Campos Neto colaboraram como protetores de Vorcaro e suas estratégias de roubo aos cofres de fundos públicos de previdência e maquilagem contábil.

Nada menos que 38 alertas, a partir de novembro de 2024, foram emitidos pelo FGC para o BC de Campos sobre os riscos embutidos nas operações do Master. Um a um foram ignorados. O então presidente da autoridade monetária, escolado no autoritarismo de origem familiar, não apenas fez vistas grossas como ainda desdenhou dos avisos. Agora, escondido atrás de um cargo poderoso no Nubank, faz que o assunto não é com ele. A mídia tradicional acoberta, sem apontar com o destaque devido, o seu papel central em todo o escândalo.

Roberto Campos Neto poderia ter evitado que o Master se tornasse a máquina de mal feitos em que se transformou. Bastava cumprir o papel de funcionário público decente, disposto a ter atenção aos fortes sinais de desequilíbrio das operações do banco que sempre operou com margens de remuneração que todo o mercado sabia serem impraticáveis. Vorcaro não construiu sozinho a fortuna capturada pelos dutos corruptos do Master. O pilar central de sua construção foi sustentado, com toda a firmeza, por Campos Neto em pessoa e seu time de diretores.

Em fevereiro de 2019, no final da gestão de gestão Ilan Goldfajn, a Diretoria Colegiada do Banco Central havia rejeitado por unanimidade o pedido de Vorcaro para assumir o controle do Banco Máxima. A recusa baseou-se na fragilidade do plano de negócios e em questionamentos sobre o perfil e os antecedentes de Daniel Vorcaro. Porém, oito meses depois, em outubro de 2019, já sob a presidência do neto de Roberto Campos, o BC reapreciou o pedido e aprovou a operação por unanimidade. O placar foi de 8 a 0. Essa decisão permitiu a Vorcaro assumir a instituição, alterando seu nome posteriormente para Banco Master. O escândalo teve origem naquele instante.

Campos Neto não pode passar impune nas investigações do maior escândalo financeiro da história do País. A chance dele conseguir se livrar está em uma eventual vitória do candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro, que irá jogar tudo para debaixo dos tapetes do Palácio do Planalto. No curso normal da Justiça, o ex-presidente do BC terá de, mais cedo ou tarde, pagar pelo que fez a favor do surgimento e crescimento do monstro Master.

¨      “Muito obrigado Daniel”: mensagens reforçam necessidade de investigar Campos Neto no escândalo do Master. Por Aquiles Lins

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro revelaram que Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central indicado por Jair Bolsonaro, manteve contato direto com o banqueiro e chegou a convidá-lo para uma reunião em sua residência no condomínio Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, no interior de São Paulo. O encontro acabou transferido para uma instalação oficial do BC, por motivos domésticos, mas o diálogo acrescenta um novo elemento às dúvidas sobre a relação entre o ex-presidente da autoridade monetária e o controlador do Banco Master.

Em uma das trocas de mensagens, divulgadas pela coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo, Vorcaro procurou Campos Neto em novembro de 2023 para apresentar “o trabalho que estamos desenvolvendo no banco e nossas perspectivas”. Depois de sucessivos ajustes de agenda, Campos Neto sugeriu que a conversa pudesse ocorrer na Fazenda Boa Vista, onde estaria com a família.

“Se por acaso for na Fazenda Boa Vista na outra semana podemos fazer lá também. Vou estar lá com a família”, escreveu. No dia seguinte, ao confirmar os detalhes do encontro, Campos Neto afirmou: “Sim. Correto. Podemos fazer na minha casa.”

A reunião estava marcada para 22 de dezembro de 2023, mas o então presidente do BC cancelou a realização em sua residência após informar que a casa havia sido dedetizada. Propôs, então, transferir o encontro para o Banco Central, na avenida Paulista.

Meses depois, em março de 2024, os dois voltaram a trocar mensagens. Campos Neto enviou uma imagem a Vorcaro, cujo conteúdo não foi divulgado. O banqueiro respondeu com emojis de aplausos e escreveu: “merecido! Parabéns!”. No dia seguinte, Campos Neto respondeu: “Muito obrigado Daniel. Um grande abraço e sucesso”.

As mensagens, por si só, não comprovam favorecimento, irregularidade ou crime. Presidentes do Banco Central mantêm interlocução com representantes do sistema financeiro, inclusive com instituições supervisionadas pela autarquia.

As conversas entre Campos Neto e Daniel Vorcaro, no entanto, ocorreram enquanto o Banco Master já acumulava questionamentos de agentes do mercado, do Fundo Garantidor de Créditos e do próprio Banco Central. O conteúdo do celular de Vorcaro é parte de uma sequência de fatos que envolve a autorização para sua entrada no sistema bancário, o crescimento acelerado e agressivo do Master e as decisões tomadas pela direção do BC durante a gestão Campos Neto.

<><> Da rejeição à autorização

A relação entre Vorcaro e o Banco Central ganhou relevância ainda em 2019.
Em fevereiro daquele ano, antes de Campos Neto assumir a presidência da instituição, o BC rejeitou a transferência do controle do Banco Máxima para Vorcaro e outros investidores. A decisão apontou insuficiência na comprovação da origem dos recursos e da capacidade econômico-financeira dos compradores. Campos Neto assumiu o BC ainda naquele mês.

Em outubro, oito meses depois da rejeição, a Diretoria Colegiada presidida por ele aprovou a transferência do controle do banco para Vorcaro. O Banco Máxima foi posteriormente rebatizado de Banco Master.

A mudança de posição permanece como um dos pontos centrais a serem esclarecidos: quais documentos, recursos e garantias foram apresentados entre fevereiro e outubro de 2019 para convencer o Banco Central de que as dúvidas anteriores haviam sido superadas? A questão ganhou ainda mais peso após revelações sobre operações financeiras realizadas naquele intervalo e posteriormente investigadas pela Comissão de Valores Mobiliários.

<><> Alertas se acumularam

Como se sabe, depois da autorização, o Master registrou forte crescimento baseado, entre outros instrumentos, na emissão de CDBs com remuneração elevada e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

Documentos do próprio Banco Central já divulgados pela imprensa mostraram que a instituição enviou sucessivos ofícios ao Master durante a gestão Campos Neto cobrando ajustes e questionando práticas adotadas pelo banco.

Representantes do FGC e executivos de instituições financeiras também manifestaram preocupação com o crescimento do Master, sua estratégia de captação e a qualidade de alguns ativos mantidos em carteira.

O que precisa ser esclarecido é como a direção do Banco Central avaliou esses sinais e por que as medidas adotadas não impediram o agravamento posterior da situação.

<><> O caso dos precatórios

Outra decisão tomada durante a gestão Campos Neto também passou a ser examinada à luz da crise do Master. Em outubro de 2023, o Banco Central editou regras prudenciais mais rígidas para exposições a precatórios e pré-precatórios. A regulamentação adotou uma data de corte para parte dos ativos.

Como o Master tinha exposição significativa a precatórios, passou a ser relevante saber qual foi o efeito concreto da medida sobre seu balanço, quais simulações foram feitas pelo BC e quanto a instituição teria de aportar caso o tratamento prudencial fosse aplicado de forma diferente.

Não há, até aqui, base suficiente para afirmar que a norma tenha sido criada especificamente para beneficiar o Master. Mas o impacto da decisão sobre o banco precisa ser conhecido.

<><> O relato sobre R$ 32 bilhões

O ponto mais grave envolvendo o final da gestão Campos Neto surgiu no depoimento de Paulo Sérgio Neves de Souza à Polícia Federal. Segundo ele, o BTG Pactual teria concluído, em novembro de 2024, uma due diligence no Banco Master e identificado uma suposta fraude de R$ 32 bilhões.

Paulo Sérgio afirmou que uma apresentação sobre o assunto ocorreu em 3 de dezembro de 2024 com a presença de Roberto Campos Neto. O relato precisa ser confirmado pelos demais participantes e confrontado com documentos.

Mas, se confirmado, levanta uma questão inevitável: que providências o presidente do Banco Central determinou depois de receber uma informação dessa magnitude? Houve pedido formal de documentos ao BTG? Comunicação a outros órgãos? Abertura de procedimentos internos? Adoção de medidas prudenciais? Essas respostas são essenciais para reconstruir a atuação do BC no período.

<><> Relação de intimidade amplia questionamentos

As novas conversas entre Campos Neto e Vorcaro não constituem até onde se sabe prova de participação do ex-presidente do BC nas irregularidades atribuídas ao Master. Mas acrescentam contexto a uma relação que já estava no centro de diversos episódios relevantes.

A dimensão da roubalheira conhecida até aqui no escândalo do banco Master, prejuízos de R$ 60 bilhões para o sistema financeiro, o Brasil precisa conhecer qual foi exatamente o grau de intimidade, de parceria ou de cumplicidade na relação entre Roberto Campos Neto e Daniel Vorcaro e como essa conexão se refletiu — ou não — nas decisões do Banco Central sobre o Banco Master.

¨      Levantamento de sigilos confirma que Mendonça escondeu elos de Vorcaro com KN, Fux, Toffoli, Huck, Globo, Campos Neto, Flávio e outros. Por Jeferson Miola

Os celulares de Daniel Vorcaro são fontes inesgotáveis de informações sobre as relações perigosas do banqueiro mafioso com altas autoridades públicas, políticos, empresários, policiais, jornalistas e, inclusive, com o apresentador Luciano Huck, da Globo.

Desde a primeira semana de setembro, depois que foram levantados os sigilos sobre o caso Master, o noticiário vem sendo inundado com a revelação dos conteúdos dos celulares de Vorcaro que o ministro relator André Mendonça escondia.

Durante meses, o ministro terrivelmente bolsonarista direcionou as apurações exclusivamente contra alvos que poderiam prejudicar a campanha à reeleição do presidente Lula para beneficiar a do gângster-filho.

Ao mesmo tempo em que enviesava as apurações com objetivo eleitoral, Mendonça escondia elos do banqueiro mafioso com pessoas importantes do ecossistema bolsonarista, como seus colegas de STF Kassio Nunes Marques, Dias Toffoli e Luiz Fux, o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, e com o próprio Flávio Bolsonaro.

Mendonça escondeu, também, o espírito de “broderagem” e amorosidade na relação societária entre Luciano Huck e Vorcaro na propriedade de um avião a jato, assim como os acertos para patrocínios milionários ao programa dominical do apresentador da Globo e a intermediação de contrato do Master com a emissora.

Dentre as provas escondidas por Mendonça encontram-se, naturalmente, aquelas que mostram contatos e encontros do próprio Mendonça com Vorcaro. É razoável supor que tal vínculo possa ter rendido pelo menos R$ 5,2 milhões de repasses do esquema Master para o ITER, o instituto fundado pelo ministro.

Ainda há uma imensidão de conteúdos de interesse republicano e criminal a serem extraídos dos dispositivos eletrônicos de Vorcaro, e então se poderá ter uma visão totalizante sobre os vínculos e as negociatas do criminoso com o universo de pessoas vinculadas à direita e ao bolsonarismo.

O que já foi revelado apenas nessas semanas iniciais após o levantamento dos sigilos deixa claro que Mendonça agiu como um juiz de exceção, estilo Lava Jato, e direcionou politicamente as apurações para alcançar dividendos eleitorais.

É difícil aferir a extensão do dano político causado por Mendonça com a implosão do STF no dia 1º de setembro, mas é intuitivo supor que o estrago foi feito e foi bem significativo, oferecendo uma narrativa funcional à retórica bolsonarista.

Há uma abundância de indícios e provas que demonstram a absoluta parcialidade do ministro Mendonça, que instrumentalizou as apurações dos escândalos Master e INSS para fins político-partidários.

Mendonça já perdeu as relatorias destes dois casos, mas sua atuação precisa ser analisada e julgada, porque ele perdeu totalmente a legitimidade para continuar como ministro da Suprema Corte.

O presidente Edson Fachin manchará sua gestão na presidência do STF se continuar sentando em cima da representação contra Mendonça apresentada por Alexandre de Moraes.

A censura imposta por Mendonça à menção genérica não a Flávio Bolsonaro, mas à “família miliciana que odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida”, evidencia que ele vestiu a carapuça da “família miliciana” e colocou a toga a serviço da censura, do fundamentalismo religioso e do gangsterismo bolsonarista.

 

Fonte: Brasil 247

 

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