Contra
a indiferença, tomar partido
Antonio
Gramsci escreveu, em 1917, que “a indiferença opera com força na história.
Opera passivamente, mas opera”1. Sua advertência não
perdeu atualidade. Quando uma parte da sociedade deixa de disputar os rumos da
vida coletiva, as decisões continuam sendo tomadas – por forças organizadas,
com interesses próprios. Nas eleições brasileiras de 2026, tomar partido é reconhecer
que o futuro do país está em disputa no presente.
Há dez
anos, o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff abriu um novo período da luta
de classes no Brasil. A ofensiva contra direitos, a deterioração das condições
de trabalho e a ascensão do bolsonarismo fazem parte dessa história. A vitória
de Lula em 2022 interrompeu a permanência de Jair Bolsonaro no governo, mas não
desfez a força social e política da extrema direita. O bolsonarismo manteve
presença parlamentar e capacidade de mobilização. Hoje, com Flávio Bolsonaro,
disputa o retorno ao poder em um cenário internacional marcado pelo avanço do
trumpismo e por pressões crescentes sobre a soberania dos países
latino-americanos.
Não há
razão para subestimar o que está em jogo. Um novo governo bolsonarista
representaria mais obstáculos à luta pelo fim da escala 6×1, à defesa do SUS, à
proteção ambiental e ao enfrentamento das desigualdades. Também fortaleceria as
forças que atacam a autonomia das mulheres, os direitos da população LGBTQIA+,
os territórios indígenas e a liberdade religiosa. A democracia que precisamos
defender se realiza nessas lutas e na possibilidade de ampliá-las.
Ao
mesmo tempo, defender o que está ameaçado não basta para mobilizar quem vive
sob jornadas exaustivas, dívidas e insegurança. A extrema direita procura dar
sentido à frustração produzida por essas condições, deslocando-a para o medo e
a hostilidade contra outros setores da população. A resposta do campo popular
precisa mostrar, em conflitos concretos, que é possível melhorar a vida. A
mobilização pela redução da jornada, a mudança no Imposto de Renda e a
iniciativa de enfrentar as Bets apontam nessa direção. A aprovação do fim da
escala 6×1 na Câmara foi uma conquista da pressão social; sua efetivação ainda
depende da continuidade dessa luta.
Por
isso, a luta contra o bolsonarismo precisa disputar também o sentido dessas
experiências. O problema de quem não consegue descansar, pagar o aluguel ou
planejar o mês seguinte não decorre de uma falha pessoal. Está ligado às formas
pelas quais o trabalho, a renda e o acesso às condições de vida são organizados
em nossa sociedade. Quando essas dificuldades deixam de ser vividas
isoladamente e passam a ser reconhecidas como problemas comuns, torna-se
possível construir vínculos, reivindicações e confiança na ação coletiva.
É nesse
terreno que se coloca a tarefa eleitoral dos próximos dias. Eleger Lula pela
quarta vez e ampliar a bancada de parlamentares comprometidos com a democracia
e com os direitos populares são condições para barrar o retrocesso representado
por Flávio Bolsonaro e prosseguir na disputa por novas conquistas. No plano
internacional, a pressão exercida pelo trumpismo sobre países da América Latina
reforça a importância de o Brasil preservar a capacidade de decidir seus
próprios rumos. Ao afirmar na ONU que o Brasil não cabe no quintal de ninguém,
Lula expressou uma posição de defesa da soberania que deve se traduzir na
proteção dos serviços públicos, dos recursos nacionais e das condições de vida
da população.
A
defesa dessas condições de vida inclui a proteção diante dos riscos ambientais.
O El Niño exige preparação para seus efeitos em diferentes regiões do país. A
crise climática, por sua vez, torna ainda mais urgente eleger representantes
que levem a ciência e a prevenção a sério, em vez de ceder ao negacionismo
ambiental.
Tomar
partido exige, nesta reta final, trabalho político: conversar com quem ainda
hesita, levar essas disputas aos locais de trabalho, aos bairros e às
comunidades, participar da campanha de rua e nas redes e defender candidaturas
capazes de sustentar essas lutas no Congresso. Em Esquerdismo, doença
infantil do comunismo2, Lenin (2025)
insiste que reconhecer os limites históricos do Parlamento não autoriza os
revolucionários a abandonar sua disputa enquanto ela for necessária à luta
política da classe trabalhadora. A questão tática é compreender quando e para
que ocupar esse terreno. No Brasil de hoje, depois dos retrocessos impostos
pelo bolsonarismo e diante da possibilidade de seu retorno ao governo, a luta
eleitoral é decisiva para os rumos do país. Reeleger Lula e ampliar a presença
parlamentar do campo popular são, portanto, tarefas dos socialistas e de todos
os que se comprometem com a defesa da soberania nacional.
Nenhuma
dessas disputas será resolvida em uma única eleição. O resultado das urnas, no
entanto, definirá condições decisivas para enfrentá-las. A experiência desde
2022 mostra que a extrema direita pode sofrer uma derrota eleitoral e continuar
organizada. Uma vitória do campo popular precisa, portanto, ampliar a
mobilização, formar novos vínculos e sustentar, depois da votação, as lutas que
lhe dão conteúdo.
Gramsci
advertia que a indiferença permite a poucos conduzir os destinos de muitos.
Tomar partido, hoje, significa defender as conquistas populares e a soberania,
enfrentar a extrema direita e organizar as forças capazes de melhorar a vida no
presente. Derrotar Flávio Bolsonaro, reeleger Lula e fortalecer uma
representação popular e democrática no Parlamento são tarefas imediatas.
Construir o futuro exige tornar o presente habitável – e começar a organizá-lo
agora.
Fonte:
Por Ederson Duda, no Blog da Boitempo

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