Rede
trumpista Rockbridge tentou esconder início de operação no Brasil
A
Rockbridge Network, organização fundada pelo vice-presidente dos Estados
Unidos, J.D. Vance, tentou esconder o início de sua operação no Brasil. A rede
conservadora, porém, mudou de discurso e agora admite ter criado o embrião de
uma operação brasileira, embora insista que a ideia tenha sido abandonada. Nas
últimas semanas, uma porta-voz da entidade estadunidense negou categoricamente
ao Intercept Brasil, por diversas vezes, que as notícias sobre a existência de
uma filial no país teriam fundamento. A fonte afirmou que teria apenas recebido
uma proposta vaga, de dois empresários brasileiros, para “fortalecer os laços
entre os EUA e o Brasil”, que teria sido recusada. Agora, a entidade voltou atrás. À Folha de
S.Paulo, a assessoria de imprensa da Rockbridge americana reconheceu que foi
aberta uma empresa nos Estados Unidos, a Rockbridge Brazil LLC, “prevendo a
possibilidade de levar adiante o negócio proposto”. Segundo a entidade, “a
iniciativa não prosseguiu, e a empresa nunca recebeu recursos, entrou em operação
ou foi utilizada para qualquer atividade empresarial”.
Novamente
questionada pelo Intercept, a Rockbridge enviou nesta segunda-feira, dia 28, um
comunicado no qual afirma que teria rejeitado um plano apresentado por
brasileiros de abrir uma filial, mas se contradiz ao admitir que abriu uma
empresa nos Estados Unidos com esse fim. Na mesma nota, a entidade diz que o
objetivo do movimento era criar um “fórum de negócios” e que o envolvimento com
política “nunca foi cogitado”. Sem citar nomes, a rede também acusou
brasileiros de fazerem “declarações falsas sobre o seu relacionamento com a
Rockbridge” e de criarem “documentos representando ou fazendo referência à
Rockbridge sem o conhecimento ou consentimento da mesma”. Documentos
identificados pelo Intercept, porém, contam uma história diferente. Em janeiro
— quatro meses antes da abertura da Rockbridge Brazil LLC —, o site oficial da
filial coreana da rede já anunciava que o Brasil estava entre os locais para
onde a entidade estava se expandindo, ao lado de Japão, Índia, Taiwan e Europa.
O caso
da Rockbridge Brasil veio à tona após o candidato à Presidência pelo Missão,
Renan Santos, acusar Flávio Bolsonaro de se beneficiar de apoio financeiro
clandestino associado a promessas de negócios no setor de terras raras,
apontando como elo da campanha com os americanos Tallis Gomes, fundador da Easy
Taxi e do G4 Educação. Segundo reportagem do Amado Mundo, também atuaria nessa
ligação o empresário Pedro Sang, que teria ajudado a montar o comitê paulista
da campanha de Flávio, onde ocuparia uma sala e se apresentaria como “Pedro da
Rockbridge”. A recusa da matriz americana da rede em admitir o plano de
operação no Brasil ocorreu após o Intercept perguntar sobre um documento,
atribuído à “Rockbridge Network Brasil”, que propunha a criação de um Conselho
de Tecnologia para assessorar a campanha de Flávio Bolsonaro e que seria
formado, principalmente, por empresários estrangeiros. Ao Intercept, Pedro Sang
reconheceu que o projeto de Conselho de Tecnologia chegou a ser elaborado, mas
afirmou que ele “foi só uma ideia, que nunca prosperou nem avançou”. “São
papéis que nunca se traduziram em projetos, tanto é que são datados de abril de
2026. Nunca viraram uma reunião, uma discussão, nada”, declarou.
Criada
em 2019 por J.D. Vance e pelo investidor Chris Buskirk, sócio de Donald Trump
Jr. na gestora 1789 Capital, a Rockbridge reúne empresários, sobretudo do setor
da tecnologia, para financiar uma infraestrutura política conservadora. A rede
investe em veículos de comunicação, pesquisas eleitorais e operações para
mobilizar eleitores, induzindo o voto em candidatos alinhados com o projeto
político de Trump. Segundo a Reuters, entre seus doadores estariam nomes como
Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, e Rebekah Mercer, herdeira de
um império financeiro e outra das maiores doadoras de Trump. Um segundo documento obtido pelo Intercept
mostra que o projeto apresentado como “Rockbridge Network Brasil” não se
limitava a atrair investimentos. O plano de negócios da entidade previa usar
recursos privados para financiar infraestrutura política, fortalecer grupos
conservadores e criar núcleos próprios de intervenção em setores como imprensa
e universidades brasileiras — um modelo que replica a lógica de influência
política desenvolvida pela Rockbridge nos Estados Unidos. A lei brasileira
proíbe candidatos e partidos de receberem, direta ou indiretamente, dinheiro,
bens ou serviços com valor econômico provenientes de entidade ou governo
estrangeiro. Não está comprovado que a Rockbridge tenha financiado a campanha
de Flávio Bolsonaro, mas a suspeita foi alvo de um pedido de investigação
apresentado pelo PT ao Supremo Tribunal Federal, o STF.
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Conexão Brasil-EUA
A
Rockbridge Brazil LLC foi aberta no estado americano do Wyoming em 12 de maio
de 2026. O responsável por constituí-la foi Chris Applegate, arrecadador
republicano que trabalhou diretamente com J.D. Vance e aparece publicamente
ligado à própria Rockbridge. O documento de abertura da Rockbridge Brazil
identifica Applegate como organizer — responsável pela constituição formal da
empresa, o que não corresponde necessariamente ao posto de dono ou
administrador. Applegate é homem de confiança do atual vice-presidente dos
Estados Unidos. No discurso de vitória de sua eleição ao Senado em 2022, Vance
agradeceu nominalmente ao arrecadador, membro da sua “incrível equipe de
finanças”. Em abril deste ano, segundo reportagem do The New York Times,
Applegate aparecia como encarregado de supervisionar a relação de Vance com
doadores e atuava como consultor tanto do Comitê Nacional Republicano quanto da
Rockbridge.
Em
janeiro, quatro meses antes da abertura da Rockbridge Brazil, Applegate esteve
na Coreia do Sul ao lado de Chris Buskirk. Na ocasião, o recém-inaugurado braço
sul-coreano da organização divulgou um comunicado no qual identificou Applegate
como conselheiro sênior da Rockbridge Network. O mesmo documento revela que a
rede planejava sua expansão para outros países, citando nominalmente o Brasil.
O registro societário não revela quem são os proprietários da Rockbridge Brazil
LLC, uma vez que a legislação de Wyoming não exige isso. Junto à assinatura de
Applegate, o documento informa dados de contato do advogado S. Wade Angus,
sócio do escritório Jones Day, com atuação em Nova York e São Paulo. Angus
trabalha há mais de 25 anos com fusões, aquisições e outros negócios
internacionais de grandes corporações e tem uma atuação especialmente
concentrada no Brasil. Seu currículo inclui operações envolvendo Itaú, Cemig,
Cosan e outras companhias brasileiras. O advogado também integra o conselho da
Brazilian-American Chamber of Commerce.
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Uma carta para Flávio
A marca
“Rockbridge Network Brasil” também aparece em uma apresentação confidencial,
sem assinatura, que traz como destinatário o então pré-candidato à Presidência
da República Flávio Bolsonaro — embora não haja indícios de que o material
tenha sido efetivamente entregue ao presidenciável. O texto está marcado como
“confidencial — uso interno” e propõe a criação de um Conselho de Tecnologia
composto por 23 empresários para assessorar diretamente o candidato a
presidente e aproximar investidores estrangeiros de um eventual governo
Bolsonaro. O material diz que a estrutura poderia beneficiar Flávio tanto “como
ferramenta de campanha” quanto “como plataforma de governo”. Na prática, a
oferta dessas vantagens eleitorais poderia garantir a companhias estadunidenses
contratos bilionários para explorar as riquezas do Brasil em setores
estratégicos para o país, como defesa, terras raras e energia, dentre
outros. A apresentação prometia
compromissos de investimento antes mesmo de uma eventual posse do candidato do
PL e associa a aproximação com empresários americanos à construção de
credibilidade para sua candidatura. Dos
23 executivos listados como possíveis conselheiros, 19 são estrangeiros.
Consultadas pelo Intercept, porém, empresas listadas negam que seus
representantes tenham sido consultados ou concordado em participar do plano, e
executivos brasileiros simpatizantes da candidatura bolsonarista mudaram sua
versão sobre o tema após a repercussão de notícias sobre as negociações com os
americanos.
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Cidadãos preocupados
No
material que apresenta a proposta de criação do Conselho de Tecnologia, o
empresário Pedro Sang aparece como diretor-executivo da suposta operação
brasileira, responsável pela “articulação e estratégia”. Ao Intercept, Sang disse que conheceu a
Rockbridge Network nos Estados Unidos em outubro de 2025, por intermédio do
amigo de infância André Marinho — candidato do Novo ao governo do Rio e filho
de Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro no Senado. Seu interesse nesses contatos, afirma, seria
aproximar investidores e empresários de tecnologia e atrair investimentos para
o Brasil. “Nunca cheguei a me tornar membro da Rockbridge nem exerci qualquer
papel formal de representação”, declarou o empresário, sem esclarecer por que é
chamado de “CEO” do braço brasileiro da organização no texto que propõe o
Conselho de Tecnologia. O empresário
assegura que a ideia da criação de um Conselho de Tecnologia “não prosperou e
não teve envolvimento com nenhuma campanha presidencial” — contrariando a
apresentação do projeto, que identifica Flávio Bolsonaro como destinatário e
dedica uma seção aos possíveis benefícios eleitorais da iniciativa.
Sang
afirmou ainda que acompanha a campanha de Flávio apenas como “cidadão
preocupado com o futuro” do país, sem função ou vínculo oficial, e chamou de
“mentira” a informação veiculada no
portal Amado Mundo em 13 de setembro de que ele teria uma sala no comitê
paulista do PL. Citado por Sang, André
Marinho é outro elo entre os brasileiros e a Rockbridge estadunidense. Ele
confirmou à coluna de Guilherme Amado que conheceu Buskirk e viajou a Dallas a
convite da Rockbridge com o objetivo de conhecer a rede e analisar uma possível
instalação do grupo no Brasil. O político brasileiro chegou ao vice americano
através de sua irmã, a cantora Giulia Be, que é casada com um filho de Robert
Kennedy Jr., secretário de Saúde de Trump — Kennedy teria articulado um encontro
do brasileiro com o vice-presidente americano, em abril.
Um
plano elaborado por Marinho e revelado pelo Amado Mundo trazia diretrizes em
inglês de como seria uma parceria entre Brasil e Estados Unidos para exploração
de minerais críticos e terras raras em um eventual governo de Flávio Bolsonaro.
O memorando estratégico prevê acelerar o licenciamento ambiental de projetos de
extração mineral, dar tratamento comercial preferencial a parceiros alinhados
aos Estados Unidos e buscar financiamento de instituições estadunidenses. Após
a repercussão, Marinho afirmou que o estudo foi uma iniciativa exclusivamente
sua, que estava guardado em seu dispositivo e que não foi levado a nenhuma
autoridade estadunidense. Ao Intercept,
o candidato afirmou que o documento era um “exercício hipotético de análise de
cenários sobre terras raras”, que não tinha relação com nenhuma campanha nem
com a Rockbridge. Também negou ter qualquer relação com a proposta de
apresentação de um “fórum empresarial” aos americanos. “Não faço parte da
Rockbridge, nunca fui membro e tampouco pretendo me tornar”, completou. Nove dias depois de o arquivo ser criado por
Marinho, Flávio Bolsonaro subiu ao palco da maior conferência de política
conservadora do mundo, a CPAC, em Dallas, para dizer que o Brasil era a solução
para os Estados Unidos se livrarem da dependência da China em minerais
críticos. Em maio, o candidato se encontrou com Trump, Vance e o secretário de
Estado Marco Rubio em Washington.
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Apenas networking
Outro
nome do entorno de Flávio Bolsonaro que aparece nos documentos da Rockbridge
Network Brasil — e que também nega envolvimento nas negociações — é o do
fundador da Easy Taxi. Tallis Gomes é citado como um dos quatro brasileiros
cotados para fazer parte do Conselho de Tecnologia da organização. Em abril, Gomes afirmou no podcast Os Sócios
que fazia parte da Rockbridge, fórum no qual discutiria com empresários
americanos “para onde que vai o mundo”. Na conversa, apresentou o país como
peça de uma disputa entre o Ocidente e o Oriente: chamou o Brasil de “melhor
ativo geopolítico do mundo” para os Estados Unidos, considerando que o país
poderia fazer contrapeso ao que classificou como “eixo do mal”, numa referência
à China. Para sustentar a argumentação, enumerou ativos brasileiros que
aparecem no plano do Conselho de Tecnologia: energia, terras raras, água,
território para data centers, inteligência artificial e indústria de
defesa. No mesmo podcast, Gomes ligou essa
agenda diretamente a Flávio Bolsonaro. Disse ter se encontrado com o senador
“dezenas de vezes” para discutir esses temas e afirmou que, nessas conversas,
Flávio lhe pedia para que colocasse as propostas por escrito para incorporá-las
ao plano de governo. “Todas as conversas que eu tive com o Flávio, o Flávio
está disposto a fazer isso pro Brasil”, afirmou.
Em 30
de março, foi noticiado na imprensa estadunidense que Gomes esteve entre os
presentes na cúpula de primavera da Rockbridge no hotel Four Seasons de
Nashville, no Tennessee. O evento teve J.D. Vance como convidado principal,
cerca de 250 doadores e ingresso de no mínimo 100 mil dólares por pessoa — o
que equivale a mais de meio milhão de reais. Pouco mais de um mês depois, em 13
de maio, o empresário brasileiro voltou a aparecer publicamente ao lado de uma
das principais figuras da rede. Durante um almoço organizado pelo G4 Business e
pelo Experience Club no Plaza Hotel, em Nova York, ele foi o moderador de uma
conversa com Chris Buskirk. O encontro com o cofundador da Rockbridge ocorreu
durante a Brazil Week e tratou de investimentos, tecnologia, inteligência
artificial e oportunidades econômicas entre Brasil e Estados Unidos. Ao
Intercept, porém, o empresário afirma que participa da rede estadunidense
“exclusivamente como membro de um grupo de networking formado por
empreendedores e investidores do setor de tecnologia”, sem função executiva, de
gestão ou de representação. Gomes nega ter participado da elaboração, revisão
ou distribuição de qualquer plano do Conselho de Tecnologia, incluindo a
apresentação de documentos dessa natureza a terceiros, no Brasil ou nos Estados
Unidos. O empresário também negou que fale com Flávio Bolsonaro, sua campanha
ou André Marinho sobre temas relacionados a financiamento, arrecadação ou
articulação eleitoral.
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A elite conservadora contra o globalismo
A
proposta de criação do Conselho de Tecnologia indica que o critério para a
escolha dos conselheiros é reunir a “elite conservadora”, gente que já “se
posicionou politicamente” e que compartilha a visão de que o Ocidente precisa
vencer a corrida tecnológica contra a China. Um dos nomes previstos para o
conselho é o do próprio fundador da Rockbridge, Chris Buskirk, apresentado no
documento apenas como “publisher da revista American Greatness”. O poder de
Buskirk, porém, vai além de sua atuação no mercado editorial. Sua gestora, a
1789 Capital, comprou participação na fabricante de ímãs de terras raras Vulcan
Elements. Três meses depois, a Vulcan recebeu um empréstimo de 620 milhões de
dólares do Pentágono, após pedido de um conselheiro da Casa Branca, segundo a
ProPublica. Parlamentares democratas apuram se a proximidade com a família do
presidente, sócia da 1789 por meio de Donald Trump Jr., favoreceu a liberação
do dinheiro público. A 1789 também é apontada como investidora de cerca de 300
milhões de dólares na Polymarket, plataforma que teve seus perfis em redes
sociais derrubados no Brasil neste mês após uma reportagem do Núcleo denunciar
que o site estaria promovendo apostas nas eleições brasileiras, o que é
proibido pela legislação.
A
aproximação entre Buskirk e o bolsonarismo começou muito antes das eleições
deste ano. Em março de 2019, o americano jantou com Jair Bolsonaro na
residência do embaixador do Brasil em Washington, Sérgio Amaral. Também estavam à mesa Steve Bannon, Olavo de
Carvalho, Eduardo Bolsonaro, Paulo Guedes, Sergio Moro e outros nomes do
primeiro escalão do governo. O encontro havia sido organizado para reunir
Bolsonaro com o que foram chamados de “formadores de opinião”. A lista de
convidados foi montada pelo então chanceler Ernesto Araújo e pelo diplomata
Nestor Forster. Três meses depois, Buskirk já não estava apenas num encontro
privado. Em 10 de junho de 2019, foi convidado a falar dentro do Palácio
Itamaraty, em Brasília, em um seminário sobre “globalismo” promovido pelo
Ministério das Relações Exteriores e pela Fundação Alexandre de Gusmão, a
Funag. O encontro foi aberto por Ernesto Araújo, que falava em um “novo”
Itamaraty, e teve entre os participantes Filipe Martins, então assessor
internacional de Bolsonaro. A programação registra Buskirk como responsável
pela palestra “Como o globalismo ameaça a soberania nacional, a
autodeterminação e a liberdade individual”. No palco, Buskirk tratou Trump e
Bolsonaro como exemplos de líderes nacionalistas e patriotas que, segundo ele,
“rejeitam a ideia de que nações e povos devam abrir mão de sua soberania em
favor de organizações supranacionais e transnacionais”, citando como exemplo –
ironicamente – as grandes corporações.
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Brasil de bandeja
Sete
anos depois da palestra de Buskirk defendendo a soberania, o plano de criação
de um Conselho de Tecnologia coloca o Brasil na direção oposta. E a análise dos
nomes reunidos no documento que propõe o colegiado dá pistas dos setores
prioritários para os interesses americanos no Brasil. No campo de energia, o único conselheiro
doméstico citado no documento é Mario Araripe, da Casa dos Ventos, que tem a
francesa TotalEnergies como sócia e está à frente do projeto controverso de um
data center para o TikTok em Caucaia, no Ceará. A proposta do Conselho de
Tecnologia prevê multiplicar a presença de datacenters no Brasil, vinculados a
projetos de energia renovável, sobretudo no Nordeste. Como o Intercept vem
mostrando em uma série de reportagens, os projetos de data center em curso no
Brasil têm atropelado os alertas sobre os impactos socioambientais dessas
estruturas — afetando comunidades tradicionais e ameaçando o abastecimento de
água e o uso racional da energia renovável. Já na frente de segurança pública o
projeto de conselho cita a Palantir, gigante que fornece tecnologia usada em
contexto de guerra pelo Departamento de Guerra (antigo Departamento de Defesa)
americano. Segundo investigação da newsletter Noites Húngaras em parceria com a
ONG Ctrl+Z, uma comitiva ligada ao cofundador da empresa, Peter Thiel, esteve
no Brasil em maio deste ano.
Ainda
nesse campo, o documento senta à mesma mesa o brasileiro David Peixoto, da PAX
AI, e Garrett Langley, da Flock Safety. Atuando uma no Brasil e a outra nos
Estados Unidos, as duas empresas têm um investidor em comum, a Greenoaks, e
atuam na venda de sistemas que integram câmeras de vigilância, registros
policiais e bases criminais para investigação.
Em nota, a PAX AI frisou que Peixoto “não integra e nunca integrou o
Conselho de Tecnologia da Rockbridge Network Brasil”. A empresa disse também
que o empresário não foi convidado para o posto e “não aceitou qualquer posição
naquela entidade”, motivo pelo qual “a informação de que ele é conselheiro é
incorreta”. Além dele, três empresários estrangeiros, procurados pelo
Intercept, também disseram desconhecer sua participação no conselho. A resposta
mais detalhada veio da XBOW, empresa de cibersegurança. Sua assessoria informou
que Oege de Moor sequer foi convidado a integrar a estrutura. Disse ainda que
nem ele, nem a companhia sabiam da inclusão de seus nomes em material destinado
a um candidato brasileiro à Presidência. “Qualquer inclusão de seu nome foi
feita sem seu conhecimento ou consentimento”, afirmou a XBOW.
A
Legora, que comercializa um sistema de IA direcionado ao campo jurídico, também
rejeitou a participação atribuída a seu executivo, Max Junestrand. “Não temos
ideia do que seja isso. Max não concordou em ser membro desse conselho”,
respondeu Jesper Wigardt, responsável pela comunicação da empresa. Já um
representante de Scott Nolan, CEO da startup de combustível nuclear General
Matter, informou que ele desconhecia o conselho proposto para apoiar a
candidatura de Flávio Bolsonaro e que seu nome havia sido incluído sem
consentimento. Acrescentou que Nolan nunca havia se encontrado com o candidato
nem com os autores da apresentação. Um porta-voz de Chris Power, da Hadrian —
empresa estadunidense que opera fábricas automatizadas por inteligência
artificial voltadas aos setores aeroespacial e de defesa — também negou que o
executivo soubesse da inclusão do seu nome no conselho. Muitas das áreas
contempladas no Conselho de Tecnologia dependem de contratos com o estado,
então uma canetada presidencial poderia valer a esses empresários contratos
bilionários e até ter impacto direto na soberania nacional, já que os agentes
estrangeiros poderiam ganhar acesso a dados sobre a população brasileira e
capacidade de intervir em temas como vigilância policial, energia, minerais
estratégicos e defesa.
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Um projeto pós-eleição
Outro
documento que leva a marca “Rockbridge Network Brasil” obtido pelo Intercept é
um plano de negócios para 2026, datado de meados de abril e marcado como “não
público”. Ele apresenta o que seria a operação brasileira da Rockbridge como um
“fundo de venture capital político”, onde as anuidades dos membros seriam
destinadas à construção de uma plataforma de investimento em projetos
políticos. Entre os focos prioritários desse investimento, segundo o material,
estariam a imprensa, as universidades e o Legislativo, setores considerados “em
desequilíbrio”, para os quais seriam propostos microconselhos temáticos. No caso da imprensa, onde o documento vê uma
“narrativa dominada por veículos de esquerda”, caberia ao conselho setorial
“investir, qualificar e organizar a mídia independente conservadora” e ampliar
seu alcance geográfico.
Um
segundo conselho, voltando aos jovens e às universidades, teria como objetivo
criar um contraponto no ambiente acadêmico, que hoje estaria “monopolizado” e
com “formação conservadora ausente”. Já para a atuação legislativa, tida como
“desarticulada”, o documento prevê uma estrutura que forneceria staff e análise
de dados aos parlamentares de direita para “melhorar a efetividade do campo”.
Quando não houvesse projeto adequado em uma dessas áreas, diz o plano, a
proposta viria da Rockbridge. O modelo tem precedentes na atuação da Rockbridge
nos Estados Unidos, revelada por uma investigação da Reuters publicada em 2024.
De acordo com documentos consultados pela agência, a Rockbridge estadunidense
consiste em um conjunto de comitês políticos, que atuaram em operações como o
financiamento de reportagens investigativas de direita, o custeio de pesquisas
de opinião, a mobilização de eleitores em estados decisivos e o incentivo ao
ativismo político entre frequentadores de igrejas, dentre outras.
Fonte:
Por Cecília Olliveira, Gisele Lobato e Nick Cleveland-Stout, em The Intercept

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