Conversinhas
pessoais
A
superação da polarização política exige abandonar a presunção intelectual em
favor de uma escuta empática, capaz de compreender os medos e as frustrações
que moldam escolhas divergentes...
Moro na
cidade de São Carlos, no interior paulista, e sou professora sênior no
Departamento de Letras da universidade federal daqui. Meu esposo está em
estágio avançado de Alzheimer, motivo por que, a cada dez dias, vou a uma
farmácia – dessas horríveis redes de farmácia que em nada embelezam as
paisagens dos municípios brasileiros – pegar fraldas descartáveis pelo programa
da Farmácia Popular, implementado – vale lembrar – em 2004, no primeiro mandato
do presidente Lula.
Mesmo
sendo gratuitas, precisamos passar pelo caixa, nesses casos, onde são geradas
notas para comprovar as retiradas, e assinamos os comprovantes. Já enquanto
estávamos no balcão, para os trâmites iniciais, puxei conversa com a atendente,
falando do momento difícil que estamos vivendo, com tantas denúncias e
investigações à beira do processo eleitoral. Sou das Letras, e apaixonada pela
epistemologia dialógica freireana, de que me apropriei no início de minha
trajetória docente, na época voltada ao ensino no primeiro e no segundo graus
em escolas da rede estadual de São Paulo.
Em
outras palavras: gosto de conversar dentro das possibilidades do diálogo
humano, ético e horizontal. E gosto de escutar, nem tanto de falar. Ou melhor:
até gosto de falar, em certas circunstâncias, como professora ou como
palestrante, mas é certo que o material de que se constroem as minhas falas,
sua força propriamente dita, como a força da minha escrita, vem da minha
escuta, da vibração, da energia que capto das vozes alheias. É delas que me
alimento.
O que é
diferente, diga-se de passagem, da constatação de que construímos nossas falas
por meio de palavras alheias, servindo-nos delas. Falo mesmo, aqui, da ligação
entre corpo e linguagem, e da ética inerente a toda linguagem humana. Do
político: con-versar é sempre inserir-se no campo da ética e do político. Como
seres políticos que somos, sempre, enquanto seres de linguagem.
Começamos
então a conversar, primeiro ali no balcão, onde a atendente digitava os dados
necessários no computador. Foi ali que fiz esse comentário inicial, e foi ali
que ela me disse que como estava não podia continuar. Até esse ponto, eu não
conseguia ainda deduzir qual seria sua opção como cidadã brasileira votante no
pleito que se aproxima.
Depois
me contou, ainda ali, que havia votado duas vezes no Lula, e também na Dilma
Rousseff, mas que não tinha mais condição, tinha que acabar com a bandidagem,
ninguém aguentava mais essa situação, e completou dizendo: e esse Alexandre de
Moraes, pois foi ele mesmo que condenou Jair Bolsonaro, e agora? E aquela moça,
então, um absurdo, condenada a 14 anos de prisão só porque pichou uma estátua?
Tudo um absurdo.
Como eu
também entendia a sinuca em que estamos metidos, não tinha muito o que lhe
responder. O Xandão tinha até ganhado de nós esse apelido afetivo, era nosso
compadre, lutando do nosso lado. A turma do outro lado só falava mal dele, mal
do judiciário, diziam que estava havendo abuso de poder, queriam o impeachment
do nosso amigão, o Xandão, e nós só indignados. E agora? Alguns de nós sabíamos
que o Xandão tinha pesado um pouco na mão, outros só diziam bem-feito prá
manicure, que agora queria se fazer de santinha. A manicure, que chegou até a
enviar uma cartinha pro Xandão. Pois é.
E assim
nos dirigimos para o caixa, onde ela completou que tinha escolhido o Flávio
Bolsonaro e não abria, para o Donald Trump vir logo – como foi na Venezuela – e
acabar com a bandidagem. Ali eu lhe disse que achava perigoso votar nesse
candidato que ela estava me sugerindo, pois então seríamos reféns dos Estados
Unidos: você viu, né, o que eles queriam fazer com o Canadá, queriam que fosse
mais um estado deles.
Ela riu
e falou, nossa, que ótimo, era tudo o que eu queria, que ótimo, poder viver
como eles! Que levem essas terras raras, para que isso, eles que venham mesmo
cuidar de tudo. Tenho um primo que mora faz sete anos nos Estados Unidos onde
ganha uma fortuna como pedreiro – ele comprou um ingresso de 25 mil reais para
poder ir assistir o Super Bowl, vinte cinco mil reais, ele pode, quando que um
pedreiro aqui no Brasil ia ganhar isso? Está lá e já disse que não volta mais.
Eu
pensava rápido para ver o que poderia dizer. Dizer que o primo tinha conseguido
isso, mas que era uma ilusão achar que todo mundo iria alcançar o mesmo. Dizer
que seríamos uma colônia dos Estados Unidos, mas ela já tinha dito com ênfase
que preferia assim. Dizer que o Flávio Bolsonaro fala que vai garantir a
segurança, mas que é só balela eleitoral – mas ela já tinha dito que queria
mesmo que Donald Trump viesse aqui logo, e desse um jeito na bagunça. Ela ainda
me disse que o candidato dela era melhor que o meu, pois era amigo do Donald
Trump, e aí eu consegui dizer alguma coisa, perguntei se ela se lembrava que já
tinha até pintado um clima entre o Donald Trump e o Lula, e que o meu candidato
era ótimo no diálogo.
Na
nossa universidade temos cotas para estudantes indígenas – mudando um pouco de
assunto, mas para chegar no mesmo, daqui a pouco. Coordenei numa época
atividades de extensão voltadas a indígenas, a sala ficava cheia de graduandos
de diversos departamentos e de diversas etnias. Um dos participantes bastante
ativos era kaxinawá, graduando em ciências sociais. Ele contribuía sempre com
comentários interessantíssimos, como quando disse, uma vez, que ele era ele
mesmo, e era também um sabiá, uma metempsicose em vida. Também costumava trazer
questionamentos sobre a validade efetiva de vir participar da vida acadêmica,
na esfera não-indígena, se isso implicava mesmo um ganho ou uma perda para os
indígenas.
Um dia
encontrei-o numa conversa nas redes, da qual participavam estudantes indígenas
e não indígenas. Nesse dia, ele disse, ali para os outros jovens, que teria
sido melhor para os indígenas terem sido colonizados pelos ingleses, e não
pelos portugueses, que essa era a desgraça dos indígenas brasileiros. Eu entrei
na conversa (tudo por chat) e disse que não era bom ver assim, que temos que
ser contra todos os processos de colonização. Logo uma das estudantes (de
esquerda) me advertiu publicamente, ali no chat, que eu tinha que respeitá-lo
como indígena, que não tinha que ficar impondo minha visão não indígena na
conversa dele.
Estamos
nesse mundo do quiprocó, do vale-tudo e do salve-se quem puder. Tudo indica,
infelizmente, que o discurso da soberania também tem suas limitações, não é por
si só convincente.
Nós,
intelectuais, temos essa presunção de que certas ideias são verdadeiras por si
mesmas. Talvez as únicas ideias que possam ser verdadeiras por si mesmas sejam
aquelas da igualdade e da justiça, mas como a justiça foi para o beleléu, virou
um salve-se-quem puder numa terra-de-ninguém, resta-nos mesmo a defesa da
igualdade, que começa pelo respeito aos seres humanos na sua humanidade.
A
atendente da farmácia acredita que é melhor entregarmos nossas terras raras e
virarmos todos americanos, nos termos dela, pois americanos já somos. O
graduando indígena kaxinawá, do Departamento de Ciências Sociais, queria que
nossos indígenas tivessem sido colonizados pelos ingleses, o que significa –
não sei se ele pensou bem nisso – que seria melhor o estupro e o genocídio em
língua inglesa.
Fico
sempre lembrando do Wilhelm Reich, de sua Psicologia de massas do fascismo e de
seu Escuta Zé-Ninguém. Também de A revolução sexual. As pessoas estão com muito
medo, medos diversos advindos de um mundo hostil. Em seu íntimo estão
frustradas, inibidas, desesperançadas. Para alguns de nós (uns 45%), esses
podem ser os componentes para uma virada de mesa, para atos revolucionários;
outros, porém, precisam de guardiões, daquilo que entendem como mais certo,
como mais seguro.
Líamos
os livros de Wilhelm Reich lá nos tempos da república de meninas na Vital
Brasil, perto da entrada da USP, quando uma de nós ia na banca da esquina
comprar o jornal Opinião, e brincávamos: vê lá se tem alguma manchete dizendo
que acabou a ditadura! Na mesma época, curtíamos o poema do Drummond, José: “E
agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e
agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que
faz versos, que ama, protesta? e agora, José? […] a noite esfriou, o dia não
veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia […] você marcha,
José! José, para onde?”.
Entendo
que precisamos partir do reconhecimento do ser humano em sua humanidade para
podermos começar a con-versar. E não será, mesmo, com o discurso mais racional
que vamos atingir nossos companheiros – afinal, nesse caso, somos todos
companheiros, estamos todos no mesmo barco.
Não
podemos mais nos referir aos outros, os cerca de 45% de nossos compatriotas,
como burros, ignorantes, sem-noção, pobres-de-direita. Uns 10%, se tanto, são
mesmo os sem-noção, espertalhões e de cabeça virada. Aqueles que de fato não se
compadecem por ninguém, não acreditam, nem querem a igualdade ou a justiça
social.
Com os
outros, vamos ter que conversar, de preferência nas redes, mas também nessas
conversinhas pessoais. Sem presunção, sem petulância. E com os poucos dias que
temos pela frente. Conversas humanas, e o humano reside no específico, e não
nas generalidades. Quando estávamos perto de nos despedir, eu falei para a
atendente, de forma simplificada, que estamos, mesmo, num grande impasse, pois
se o Flávio Bolsonaro for eleito ainda corremos o risco de ele ser preso e ter
que atuar o vice, que nem sei quem é, confessei a ela, que parece que também
não sabia, mas deve ser mais incompetente ainda.
Já
pensou no que isso vai dar? Percebi que aí parece que ela começou a ficar mais
balançada. Também tinha ficado balançada quando eu disse, logo antes, que seja
quem for que ganhasse, teríamos que aceitar, com o que ela concordou – e eu
disse, pois é, mas não pode ser como no 08 de janeiro, e ela ficou sem graça,
sem resposta mesmo.
Minhas
conversas são assim, sem um esquema decidido de antemão. O certo é que as duas
saímos transformadas, que é o resultado de um diálogo realmente educativo. Nós
duas aprendemos.
Não
gosto de conversar só com petistas. Gosto de conversar, também, com os
bolsonaristas, e aprender com eles. Aprender por que defendem o que defendem.
Por que pensam o que pensam, e como. Em certo sentido (não exatamente aquele em
que pensou Reich), somos todos Zés e Marias ninguéns, em nossas incompletudes,
em nossas misérias, em nossos mais diversos infortúnios.
Acredito
que tenha ficado ali, com a atendente da farmácia interiorana, alguma semente,
que pode germinar ou não, a depender de muitas outras circunstâncias que ela
vivenciará até o dia em que, quem sabe, ainda venceremos.
Fonte:
Por Maria Sílvia Cintra Martins, em A Terra é Redonda

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