sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Conversinhas pessoais

A superação da polarização política exige abandonar a presunção intelectual em favor de uma escuta empática, capaz de compreender os medos e as frustrações que moldam escolhas divergentes...

Moro na cidade de São Carlos, no interior paulista, e sou professora sênior no Departamento de Letras da universidade federal daqui. Meu esposo está em estágio avançado de Alzheimer, motivo por que, a cada dez dias, vou a uma farmácia – dessas horríveis redes de farmácia que em nada embelezam as paisagens dos municípios brasileiros – pegar fraldas descartáveis pelo programa da Farmácia Popular, implementado – vale lembrar – em 2004, no primeiro mandato do presidente Lula.

Mesmo sendo gratuitas, precisamos passar pelo caixa, nesses casos, onde são geradas notas para comprovar as retiradas, e assinamos os comprovantes. Já enquanto estávamos no balcão, para os trâmites iniciais, puxei conversa com a atendente, falando do momento difícil que estamos vivendo, com tantas denúncias e investigações à beira do processo eleitoral. Sou das Letras, e apaixonada pela epistemologia dialógica freireana, de que me apropriei no início de minha trajetória docente, na época voltada ao ensino no primeiro e no segundo graus em escolas da rede estadual de São Paulo.

Em outras palavras: gosto de conversar dentro das possibilidades do diálogo humano, ético e horizontal. E gosto de escutar, nem tanto de falar. Ou melhor: até gosto de falar, em certas circunstâncias, como professora ou como palestrante, mas é certo que o material de que se constroem as minhas falas, sua força propriamente dita, como a força da minha escrita, vem da minha escuta, da vibração, da energia que capto das vozes alheias. É delas que me alimento.

O que é diferente, diga-se de passagem, da constatação de que construímos nossas falas por meio de palavras alheias, servindo-nos delas. Falo mesmo, aqui, da ligação entre corpo e linguagem, e da ética inerente a toda linguagem humana. Do político: con-versar é sempre inserir-se no campo da ética e do político. Como seres políticos que somos, sempre, enquanto seres de linguagem.

Começamos então a conversar, primeiro ali no balcão, onde a atendente digitava os dados necessários no computador. Foi ali que fiz esse comentário inicial, e foi ali que ela me disse que como estava não podia continuar. Até esse ponto, eu não conseguia ainda deduzir qual seria sua opção como cidadã brasileira votante no pleito que se aproxima.

Depois me contou, ainda ali, que havia votado duas vezes no Lula, e também na Dilma Rousseff, mas que não tinha mais condição, tinha que acabar com a bandidagem, ninguém aguentava mais essa situação, e completou dizendo: e esse Alexandre de Moraes, pois foi ele mesmo que condenou Jair Bolsonaro, e agora? E aquela moça, então, um absurdo, condenada a 14 anos de prisão só porque pichou uma estátua? Tudo um absurdo.

Como eu também entendia a sinuca em que estamos metidos, não tinha muito o que lhe responder. O Xandão tinha até ganhado de nós esse apelido afetivo, era nosso compadre, lutando do nosso lado. A turma do outro lado só falava mal dele, mal do judiciário, diziam que estava havendo abuso de poder, queriam o impeachment do nosso amigão, o Xandão, e nós só indignados. E agora? Alguns de nós sabíamos que o Xandão tinha pesado um pouco na mão, outros só diziam bem-feito prá manicure, que agora queria se fazer de santinha. A manicure, que chegou até a enviar uma cartinha pro Xandão. Pois é.

E assim nos dirigimos para o caixa, onde ela completou que tinha escolhido o Flávio Bolsonaro e não abria, para o Donald Trump vir logo – como foi na Venezuela – e acabar com a bandidagem. Ali eu lhe disse que achava perigoso votar nesse candidato que ela estava me sugerindo, pois então seríamos reféns dos Estados Unidos: você viu, né, o que eles queriam fazer com o Canadá, queriam que fosse mais um estado deles.

Ela riu e falou, nossa, que ótimo, era tudo o que eu queria, que ótimo, poder viver como eles! Que levem essas terras raras, para que isso, eles que venham mesmo cuidar de tudo. Tenho um primo que mora faz sete anos nos Estados Unidos onde ganha uma fortuna como pedreiro – ele comprou um ingresso de 25 mil reais para poder ir assistir o Super Bowl, vinte cinco mil reais, ele pode, quando que um pedreiro aqui no Brasil ia ganhar isso? Está lá e já disse que não volta mais.

Eu pensava rápido para ver o que poderia dizer. Dizer que o primo tinha conseguido isso, mas que era uma ilusão achar que todo mundo iria alcançar o mesmo. Dizer que seríamos uma colônia dos Estados Unidos, mas ela já tinha dito com ênfase que preferia assim. Dizer que o Flávio Bolsonaro fala que vai garantir a segurança, mas que é só balela eleitoral – mas ela já tinha dito que queria mesmo que Donald Trump viesse aqui logo, e desse um jeito na bagunça. Ela ainda me disse que o candidato dela era melhor que o meu, pois era amigo do Donald Trump, e aí eu consegui dizer alguma coisa, perguntei se ela se lembrava que já tinha até pintado um clima entre o Donald Trump e o Lula, e que o meu candidato era ótimo no diálogo.

Na nossa universidade temos cotas para estudantes indígenas – mudando um pouco de assunto, mas para chegar no mesmo, daqui a pouco. Coordenei numa época atividades de extensão voltadas a indígenas, a sala ficava cheia de graduandos de diversos departamentos e de diversas etnias. Um dos participantes bastante ativos era kaxinawá, graduando em ciências sociais. Ele contribuía sempre com comentários interessantíssimos, como quando disse, uma vez, que ele era ele mesmo, e era também um sabiá, uma metempsicose em vida. Também costumava trazer questionamentos sobre a validade efetiva de vir participar da vida acadêmica, na esfera não-indígena, se isso implicava mesmo um ganho ou uma perda para os indígenas.

Um dia encontrei-o numa conversa nas redes, da qual participavam estudantes indígenas e não indígenas. Nesse dia, ele disse, ali para os outros jovens, que teria sido melhor para os indígenas terem sido colonizados pelos ingleses, e não pelos portugueses, que essa era a desgraça dos indígenas brasileiros. Eu entrei na conversa (tudo por chat) e disse que não era bom ver assim, que temos que ser contra todos os processos de colonização. Logo uma das estudantes (de esquerda) me advertiu publicamente, ali no chat, que eu tinha que respeitá-lo como indígena, que não tinha que ficar impondo minha visão não indígena na conversa dele.

Estamos nesse mundo do quiprocó, do vale-tudo e do salve-se quem puder. Tudo indica, infelizmente, que o discurso da soberania também tem suas limitações, não é por si só convincente.

Nós, intelectuais, temos essa presunção de que certas ideias são verdadeiras por si mesmas. Talvez as únicas ideias que possam ser verdadeiras por si mesmas sejam aquelas da igualdade e da justiça, mas como a justiça foi para o beleléu, virou um salve-se-quem puder numa terra-de-ninguém, resta-nos mesmo a defesa da igualdade, que começa pelo respeito aos seres humanos na sua humanidade.

A atendente da farmácia acredita que é melhor entregarmos nossas terras raras e virarmos todos americanos, nos termos dela, pois americanos já somos. O graduando indígena kaxinawá, do Departamento de Ciências Sociais, queria que nossos indígenas tivessem sido colonizados pelos ingleses, o que significa – não sei se ele pensou bem nisso – que seria melhor o estupro e o genocídio em língua inglesa.

Fico sempre lembrando do Wilhelm Reich, de sua Psicologia de massas do fascismo e de seu Escuta Zé-Ninguém. Também de A revolução sexual. As pessoas estão com muito medo, medos diversos advindos de um mundo hostil. Em seu íntimo estão frustradas, inibidas, desesperançadas. Para alguns de nós (uns 45%), esses podem ser os componentes para uma virada de mesa, para atos revolucionários; outros, porém, precisam de guardiões, daquilo que entendem como mais certo, como mais seguro.

Líamos os livros de Wilhelm Reich lá nos tempos da república de meninas na Vital Brasil, perto da entrada da USP, quando uma de nós ia na banca da esquina comprar o jornal Opinião, e brincávamos: vê lá se tem alguma manchete dizendo que acabou a ditadura! Na mesma época, curtíamos o poema do Drummond, José: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? […] a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia […] você marcha, José! José, para onde?”.

Entendo que precisamos partir do reconhecimento do ser humano em sua humanidade para podermos começar a con-versar. E não será, mesmo, com o discurso mais racional que vamos atingir nossos companheiros – afinal, nesse caso, somos todos companheiros, estamos todos no mesmo barco.

Não podemos mais nos referir aos outros, os cerca de 45% de nossos compatriotas, como burros, ignorantes, sem-noção, pobres-de-direita. Uns 10%, se tanto, são mesmo os sem-noção, espertalhões e de cabeça virada. Aqueles que de fato não se compadecem por ninguém, não acreditam, nem querem a igualdade ou a justiça social.

Com os outros, vamos ter que conversar, de preferência nas redes, mas também nessas conversinhas pessoais. Sem presunção, sem petulância. E com os poucos dias que temos pela frente. Conversas humanas, e o humano reside no específico, e não nas generalidades. Quando estávamos perto de nos despedir, eu falei para a atendente, de forma simplificada, que estamos, mesmo, num grande impasse, pois se o Flávio Bolsonaro for eleito ainda corremos o risco de ele ser preso e ter que atuar o vice, que nem sei quem é, confessei a ela, que parece que também não sabia, mas deve ser mais incompetente ainda.

Já pensou no que isso vai dar? Percebi que aí parece que ela começou a ficar mais balançada. Também tinha ficado balançada quando eu disse, logo antes, que seja quem for que ganhasse, teríamos que aceitar, com o que ela concordou – e eu disse, pois é, mas não pode ser como no 08 de janeiro, e ela ficou sem graça, sem resposta mesmo.

Minhas conversas são assim, sem um esquema decidido de antemão. O certo é que as duas saímos transformadas, que é o resultado de um diálogo realmente educativo. Nós duas aprendemos.

Não gosto de conversar só com petistas. Gosto de conversar, também, com os bolsonaristas, e aprender com eles. Aprender por que defendem o que defendem. Por que pensam o que pensam, e como. Em certo sentido (não exatamente aquele em que pensou Reich), somos todos Zés e Marias ninguéns, em nossas incompletudes, em nossas misérias, em nossos mais diversos infortúnios.

Acredito que tenha ficado ali, com a atendente da farmácia interiorana, alguma semente, que pode germinar ou não, a depender de muitas outras circunstâncias que ela vivenciará até o dia em que, quem sabe, ainda venceremos.

 

Fonte: Por Maria Sílvia Cintra Martins, em A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: