Reta
final – corrupção e voto
Entre
escudos partidários e leituras polarizadas do escândalo, a corrupção ainda não
derrubou Flávio Bolsonaro, mas o eleitor não alinhado, mais volátil, se torna o
árbitro decisivo de um pleito provavelmente definido no segundo turno...
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Corrupção tira voto?
Muita
gente ficou surpresa com o fato de a mega corrupção de Flávio Bolsonaro e sua
relação promíscua com Daniel Vorcaro, do Banco Master, não ter provocado queda
na intenção de votos. O diálogo de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro,
amplamente divulgado pela mídia, revelou que ele pediu 132 milhões, mas já
havia recebido 61 milhões a título de financiamento do filme sobre seu pai. Mas
esse dinheiro foi desviado para destino incerto e ignorado, provavelmente
embolsado por Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo. O presente artigo busca
explicar a relação complexa entre corrupção e voto com foco na atual eleição.
A
corrupção pode tirar votos, mas não necessariamente tira votos de maneira
imediata ou proporcional à gravidade das acusações. A literatura sobre
comportamento eleitoral no Brasil mostra justamente esse fenômeno.
O eleitor partidariamente identificado pode relativizar a denúncia. Os
eleitores tendem a proteger candidatos do seu próprio campo político diante de
acusações de corrupção. Mas essa proteção não é absoluta: quando a percepção de
corrupção se torna sistêmica e generalizada, a lealdade partidária pode
enfraquecer.
Isso
ajuda a entender por que uma denúncia pode ser interpretada de maneiras
completamente diferentes por grupos políticos diferentes: para alguns, ela
confirma uma suspeita; para outros, pode ser vista como perseguição política ou
como algo secundário diante de outras questões.
Diversos
estudos mostram que corrupção compete com identificação ideológica, avaliação
da economia, rejeição ao adversário e outras questões. Assim, percepções sobre
corrupção podem ter efeito sobre o voto, mas fatores econômicos, avaliação do
governo e identificação partidária podem funcionar como “escudos” diante das
acusações. Ou seja, eleitores podem continuar escolhendo candidatos acusados de
corrupção quando levam em consideração partido, ideologia e outras
características do candidato.
E os
indecisos? Aqui está uma distinção importante: não é possível concluir, a
partir das pesquisas agregadas, que a corrupção esteja necessariamente tirando
votos de Flávio Bolsonaro entre os indecisos. Mas, teoricamente, os eleitores
menos identificados com um candidato podem ser mais suscetíveis a informações
novas, porque têm menos compromisso partidário prévio.
Alem
disso, quando não existem alternativas percebidas como honestas, a importância
atribuída à corrupção diminui e o engajamento eleitoral também pode cair.
E
existe ainda um fenômeno particularmente importante: o eleitor pode não mudar
de candidato, mas passar a ter menor convicção sobre ele. Isso pode aparecer
primeiro como aumento de indecisos, voto “nenhum”, redução da certeza do voto
ou maior volatilidade – e somente depois eventualmente como transferência de
votos.
Assim,
a corrupção não tira voto de quem já está fortemente identificado, mas pode ser
mais relevante para os indecisos e eleitores pouco comprometidos.
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Dados das pesquisas
DataFolha
– 18–19 ago. Lula 39%; Flávio Bolsonaro 33%; Diferença 6. Em 15–17 set. – Lula
39%; Flávio Bolsonaro 36%; Diferença 3. Ou seja, Flávio Bolsonaro não caiu
depois da divulgação das primeiras informações do caso Vorcaro. Ao contrário,
passou de 33% para 36% no Datafolha entre o início e a segunda metade de
setembro.
Na
Quaest, ocorreu movimento semelhante: Flávio Bolsonaro passou de 31% para 33%
no primeiro turno entre as duas pesquisas de setembro. Na BTG/Nexus, Flávio
estava em 37% em 14 de setembro e permaneceu em 37% em 18–20 de setembro,
enquanto Lula oscilou de 42% para 40%.
Portanto,
não há evidência nas principais pesquisas de setembro de que as revelações
sobre Daniel Vorcaro tenham produzido, até agora, uma queda agregada de Flávio
Bolsonaro. Mas há um dado que muda bastante a interpretação.
O
Datafolha perguntou quem poderia mudar de voto. Entre os eleitores não
alinhados nem ao lulismo nem ao bolsonarismo, 46% dizem que ainda podem mudar
de voto. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, por outro lado, 82% dizem
estar totalmente decididos. Entre os de Lula, são 84%. Ou seja, tanto para o
eleitor bolsonarista como para o eleitor de Lula, o voto está relativamente
consolidado. Mas no que se refere ao eleitor não alinhado, há muito mais espaço
para mudança. E esse terceiro grupo é justamente aquele em que uma nova
informação sobre corrupção pode ter maior relevância.
No
Datafolha de 21 de setembro, 31% disseram espontaneamente que Flávio era
prejudicado pela crise do STF e pelo escândalo do Banco Master. Lula foi
mencionado por 38%.
Mas a
interpretação do escândalo é extremamente polarizada. Entre os eleitores de
Flávio, 58% dizem que os políticos envolvidos no Banco Master são
majoritariamente de esquerda; apenas 9% apontam a direita. Entre os eleitores
de Lula ocorre o inverso: 48% apontam a direita; 17%, a esquerda.
Isso é
importante porque mostra que a mesma informação está sendo filtrada por
identidades políticas prévias. Por isso, a corrupção pode não “tirar voto”
imediatamente. Mas a questão temporal não pode ser ignorada.
As
informações mais graves da investigação foram divulgadas a partir de 11 de
setembro, quando documentos da PF e da PGR passaram a mostrar Flávio Bolsonaro
como interlocutor direto de Daniel Vorcaro e quando veio a público a
investigação por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de
divisas.
O
Datafolha seguinte entrevistou 15–17 de setembro; a Quaest, 17–20. ortanto,
essas pesquisas já captaram parte da repercussão, mas não permitem medir um
eventual efeito de informações posteriores ou de uma possível acumulação de
notícias.
Assim,
o efeito da corrupção Flávio/Vorcaro ainda não se traduziu em queda agregada de
Flávio Bolsonaro nas pesquisas de setembro. Pelo contrário, Datafolha e Quaest
registraram crescimento de sua intenção de voto entre suas rodadas de setembro.
Mas é bom não esquecer que, enquanto os eleitores identificados com Lula ou
Flávio Bolsonaro apresentam níveis elevados de convicção, o grupo mais
potencialmente sensível é o eleitorado não alinhado, no qual 46% ainda admitem
mudar de voto.
Segundo
Felipe Nunes, diretor da Quaest, no jornal O Globo de 27 de setembro, na
pergunta espontânea, em que o entrevistado responde sem ver a lista de
candidatos, cerca de um terço do eleitorado ainda não sabe em quem vai votar
para presidente. Na estimulada, a indecisão é menor, mas varia muito entre os
Estados.
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Vitória no primeiro turno?
O
presidente Lula (PT) avançou na mais recente pesquisa BTG/Nexus sobre a disputa
pela Presidência da República e chegou a 47,7% dos votos válidos no cenário
espontâneo, aproximando-se da marca necessária para uma vitória ainda no
primeiro turno. O levantamento foi realizado entre os dias 25 e 27 de setembro
de 2026, em todo o país.
Quando
são considerados apenas os votos válidos – excluindo brancos, nulos e indecisos
–, Lula alcança 47,7%, alta de 1,7 ponto em relação à rodada anterior. Flávio
Bolsonaro registra 40,7%, avanço de 1,6 ponto. A distância entre os dois chega,
portanto, a sete pontos percentuais.
O
problema é que os chamados “indecisos” podem decidir na hora H da votação, e
ninguém sabe se votam branco, nulo ou em algum candidato. Não há previsão sobre
isso.
Pesquisa
Quaest para as eleições presidenciais divulgada em 28 de setembro mostra o
presidente Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, à frente de
Flávio Bolsonaro que tem 34%. No segundo turno, ambos aparecem empatados, com
42% dos votos. E na pesquisa espontânea, em que os entrevistados não recebem
uma lista com os nomes dos candidatos, Lula tem 31%, contra 27% de Flávio.
Assim,
levando em conta os dados das pesquisas acima, existe a possibilidade, embora
remota, de vitória de Lula no primeiro turno. O fortalecimento da campanha de
Lula se deve principalmente a três fatores: restrição às bets, aumento do
salário mínimo e aumento do Bolsa Família. O erro grosseiro de Flávio Bolsonaro
a respeito do episódio envolvendo Nossa Senhora da Aparecida também fortaleceu
a campanha de Lula.
O mais
provável, porém, é haver segundo turno, cujo resultado é imprevisível tendo em
vista o realinhamento das forças, novas alianças e o embate direto dos dois
candidatos.
No
segundo turno, se realmente houver, as denúncias de corrupção contra Flávio vão
provavelmente desempenhar um papel mais importante.
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As novas fake news sobre as urnas eletrônicas
As eleições voltaram a ser
acompanhadas por uma onda de desinformação sobre as urnas eletrônicas. Embora a
disseminação de notícias falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro tenha
marcado o pleito de 2022, as narrativas não desapareceram e agora circulam em
versões mais elaboradas, muitas delas envolvendo acusações sem provas
relacionadas à Venezuela e aos Estados Unidos.
Os
ataques ao sistema eleitoral ganharam força durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que defendia a
adoção do voto impresso e questionava a confiabilidade das urnas eletrônicas.
As declarações infundadas sobre o processo de votação contribuíram para a condenação do ex-mandatário
pela Justiça Eleitoral, que o tornou inelegível.
Uma das
versões mais recentes da desinformação tenta associar as eleições brasileiras à
empresa Smartmatic, fornecedora de tecnologia eleitoral usada em outros países.
Em vídeos compartilhados nas redes sociais, usuários alegam que autoridades
americanas teriam apresentado provas de que urnas ligadas à empresa seriam
suscetíveis a fraudes e sugerem, sem evidências, que o mesmo ocorreria no
Brasil.
As
alegações exploram um relatório de inteligência dos Estados Unidos divulgado
neste ano. O documento afirma que os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro
demonstraram interesse em manipular resultados eleitorais por meio de sistemas
eletrônicos de votação. As suspeitas incluíam possíveis conversas envolvendo a
Smartmatic sobre formas de interferência no processo eleitoral venezuelano.
No
entanto, o próprio relatório não concluiu que houve fraude eleitoral em larga
escala. Segundo a inteligência americana, outros fatores explicavam melhor os
resultados observados nas eleições venezuelanas.
No
Brasil, a Justiça Eleitoral afirma que nunca utilizou urnas ou softwares
desenvolvidos ou operados pela Smartmatic. O órgão esclarece que a empresa
apenas prestou serviços de comunicação de dados e voz em eleições anteriores,
sem participação no desenvolvimento ou na operação das urnas eletrônicas
brasileiras.
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Flávio Bolsonaro replica fake news sobre urnas
Apesar
disso, a informação enganosa continuou a viralizar. Em julho, o senador Flávio Bolsonaro, candidato à
Presidência, afirmou que muitas das máquinas usadas nas eleições brasileiras
teriam a mesma origem da empresa venezuelana citada nas denúncias. O
parlamentar não apresentou fontes para sustentar a alegação. Posteriormente,
afirmou, em nota, que não havia questionado a integridade do sistema eleitoral
brasileiro.
Essa
não é a única falsidade que tem circulado sobre as urnas. Nos últimos meses,
veículos de imprensa e autoridades eleitorais desmentiram alegações de que
hackers teriam invadido equipamentos de votação, de que a programação das
máquinas teria sido alterada, de que existiriam candidatos "secretos"
desbloqueáveis ou até de que ferramentas de inteligência artificial poderiam
modificar votos registrados.
Embora
apresentem versões diferentes dos fatos, essas publicações compartilham um
objetivo comum: semear dúvidas sobre a segurança e a legitimidade do sistema
eleitoral brasileiro sem apresentar evidências que sustentem as acusações.
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Décadas de uso sem fraudes
Especialistas
alertam que esse tipo de desinformação pode abrir espaço para questionamentos
infundados sobre resultados eleitorais e para tentativas de deslegitimar a
vontade expressa pela maioria dos eleitores nas urnas.
Em
resposta ao avanço das notícias falsas, a Justiça Eleitoral intensificou ações
de transparência. Neste ano, o órgão desmontou uma urna eletrônica em
transmissão nacional para explicar o funcionamento do equipamento e detalhar
suas camadas de segurança. Segundo as autoridades, a iniciativa teve como
objetivo combater a desinformação e aproximar os eleitores do processo
democrático.
Considerado
referência internacional em votação eletrônica, o sistema brasileiro acumula
décadas de uso sem registro de fraude comprovada capaz de alterar resultados
eleitorais.
Fonte:
Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda /DW Brasil

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