sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Reta final – corrupção e voto

Entre escudos partidários e leituras polarizadas do escândalo, a corrupção ainda não derrubou Flávio Bolsonaro, mas o eleitor não alinhado, mais volátil, se torna o árbitro decisivo de um pleito provavelmente definido no segundo turno... 

<><> Corrupção tira voto?

Muita gente ficou surpresa com o fato de a mega corrupção de Flávio Bolsonaro e sua relação promíscua com Daniel Vorcaro, do Banco Master, não ter provocado queda na intenção de votos. O diálogo de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, amplamente divulgado pela mídia, revelou que ele pediu 132 milhões, mas já havia recebido 61 milhões a título de financiamento do filme sobre seu pai. Mas esse dinheiro foi desviado para destino incerto e ignorado, provavelmente embolsado por Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo. O presente artigo busca explicar a relação complexa entre corrupção e voto com foco na atual eleição.

A corrupção pode tirar votos, mas não necessariamente tira votos de maneira imediata ou proporcional à gravidade das acusações. A literatura sobre comportamento eleitoral no Brasil mostra justamente esse fenômeno.
O eleitor partidariamente identificado pode relativizar a denúncia. Os eleitores tendem a proteger candidatos do seu próprio campo político diante de acusações de corrupção. Mas essa proteção não é absoluta: quando a percepção de corrupção se torna sistêmica e generalizada, a lealdade partidária pode enfraquecer.

Isso ajuda a entender por que uma denúncia pode ser interpretada de maneiras completamente diferentes por grupos políticos diferentes: para alguns, ela confirma uma suspeita; para outros, pode ser vista como perseguição política ou como algo secundário diante de outras questões.

Diversos estudos mostram que corrupção compete com identificação ideológica, avaliação da economia, rejeição ao adversário e outras questões. Assim, percepções sobre corrupção podem ter efeito sobre o voto, mas fatores econômicos, avaliação do governo e identificação partidária podem funcionar como “escudos” diante das acusações. Ou seja, eleitores podem continuar escolhendo candidatos acusados de corrupção quando levam em consideração partido, ideologia e outras características do candidato.

E os indecisos? Aqui está uma distinção importante: não é possível concluir, a partir das pesquisas agregadas, que a corrupção esteja necessariamente tirando votos de Flávio Bolsonaro entre os indecisos. Mas, teoricamente, os eleitores menos identificados com um candidato podem ser mais suscetíveis a informações novas, porque têm menos compromisso partidário prévio.

Alem disso, quando não existem alternativas percebidas como honestas, a importância atribuída à corrupção diminui e o engajamento eleitoral também pode cair.

E existe ainda um fenômeno particularmente importante: o eleitor pode não mudar de candidato, mas passar a ter menor convicção sobre ele. Isso pode aparecer primeiro como aumento de indecisos, voto “nenhum”, redução da certeza do voto ou maior volatilidade – e somente depois eventualmente como transferência de votos.

Assim, a corrupção não tira voto de quem já está fortemente identificado, mas pode ser mais relevante para os indecisos e eleitores pouco comprometidos.

<><> Dados das pesquisas

DataFolha – 18–19 ago. Lula 39%; Flávio Bolsonaro 33%; Diferença 6. Em 15–17 set. – Lula 39%; Flávio Bolsonaro 36%; Diferença 3. Ou seja, Flávio Bolsonaro não caiu depois da divulgação das primeiras informações do caso Vorcaro. Ao contrário, passou de 33% para 36% no Datafolha entre o início e a segunda metade de setembro.

Na Quaest, ocorreu movimento semelhante: Flávio Bolsonaro passou de 31% para 33% no primeiro turno entre as duas pesquisas de setembro. Na BTG/Nexus, Flávio estava em 37% em 14 de setembro e permaneceu em 37% em 18–20 de setembro, enquanto Lula oscilou de 42% para 40%.

Portanto, não há evidência nas principais pesquisas de setembro de que as revelações sobre Daniel Vorcaro tenham produzido, até agora, uma queda agregada de Flávio Bolsonaro. Mas há um dado que muda bastante a interpretação.

O Datafolha perguntou quem poderia mudar de voto. Entre os eleitores não alinhados nem ao lulismo nem ao bolsonarismo, 46% dizem que ainda podem mudar de voto. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, por outro lado, 82% dizem estar totalmente decididos. Entre os de Lula, são 84%. Ou seja, tanto para o eleitor bolsonarista como para o eleitor de Lula, o voto está relativamente consolidado. Mas no que se refere ao eleitor não alinhado, há muito mais espaço para mudança. E esse terceiro grupo é justamente aquele em que uma nova informação sobre corrupção pode ter maior relevância.

No Datafolha de 21 de setembro, 31% disseram espontaneamente que Flávio era prejudicado pela crise do STF e pelo escândalo do Banco Master. Lula foi mencionado por 38%.

Mas a interpretação do escândalo é extremamente polarizada. Entre os eleitores de Flávio, 58% dizem que os políticos envolvidos no Banco Master são majoritariamente de esquerda; apenas 9% apontam a direita. Entre os eleitores de Lula ocorre o inverso: 48% apontam a direita; 17%, a esquerda.

Isso é importante porque mostra que a mesma informação está sendo filtrada por identidades políticas prévias. Por isso, a corrupção pode não “tirar voto” imediatamente. Mas a questão temporal não pode ser ignorada.

As informações mais graves da investigação foram divulgadas a partir de 11 de setembro, quando documentos da PF e da PGR passaram a mostrar Flávio Bolsonaro como interlocutor direto de Daniel Vorcaro e quando veio a público a investigação por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

O Datafolha seguinte entrevistou 15–17 de setembro; a Quaest, 17–20. ortanto, essas pesquisas já captaram parte da repercussão, mas não permitem medir um eventual efeito de informações posteriores ou de uma possível acumulação de notícias.

Assim, o efeito da corrupção Flávio/Vorcaro ainda não se traduziu em queda agregada de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de setembro. Pelo contrário, Datafolha e Quaest registraram crescimento de sua intenção de voto entre suas rodadas de setembro.
Mas é bom não esquecer que, enquanto os eleitores identificados com Lula ou Flávio Bolsonaro apresentam níveis elevados de convicção, o grupo mais potencialmente sensível é o eleitorado não alinhado, no qual 46% ainda admitem mudar de voto.

Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, no jornal O Globo de 27 de setembro, na pergunta espontânea, em que o entrevistado responde sem ver a lista de candidatos, cerca de um terço do eleitorado ainda não sabe em quem vai votar para presidente. Na estimulada, a indecisão é menor, mas varia muito entre os Estados.

<><> Vitória no primeiro turno?

O presidente Lula (PT) avançou na mais recente pesquisa BTG/Nexus sobre a disputa pela Presidência da República e chegou a 47,7% dos votos válidos no cenário espontâneo, aproximando-se da marca necessária para uma vitória ainda no primeiro turno. O levantamento foi realizado entre os dias 25 e 27 de setembro de 2026, em todo o país.

Quando são considerados apenas os votos válidos – excluindo brancos, nulos e indecisos –, Lula alcança 47,7%, alta de 1,7 ponto em relação à rodada anterior. Flávio Bolsonaro registra 40,7%, avanço de 1,6 ponto. A distância entre os dois chega, portanto, a sete pontos percentuais.

O problema é que os chamados “indecisos” podem decidir na hora H da votação, e ninguém sabe se votam branco, nulo ou em algum candidato. Não há previsão sobre isso.

Pesquisa Quaest para as eleições presidenciais divulgada em 28 de setembro mostra o presidente Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, à frente de Flávio Bolsonaro que tem 34%. No segundo turno, ambos aparecem empatados, com 42% dos votos. E na pesquisa espontânea, em que os entrevistados não recebem uma lista com os nomes dos candidatos, Lula tem 31%, contra 27% de Flávio.

Assim, levando em conta os dados das pesquisas acima, existe a possibilidade, embora remota, de vitória de Lula no primeiro turno. O fortalecimento da campanha de Lula se deve principalmente a três fatores: restrição às bets, aumento do salário mínimo e aumento do Bolsa Família. O erro grosseiro de Flávio Bolsonaro a respeito do episódio envolvendo Nossa Senhora da Aparecida também fortaleceu a campanha de Lula.

O mais provável, porém, é haver segundo turno, cujo resultado é imprevisível tendo em vista o realinhamento das forças, novas alianças e o embate direto dos dois candidatos.

No segundo turno, se realmente houver, as denúncias de corrupção contra Flávio vão provavelmente desempenhar um papel mais importante.

¨      As novas fake news sobre as urnas eletrônicas

As eleições voltaram a ser acompanhadas por uma onda de desinformação sobre as urnas eletrônicas. Embora a disseminação de notícias falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro tenha marcado o pleito de 2022, as narrativas não desapareceram e agora circulam em versões mais elaboradas, muitas delas envolvendo acusações sem provas relacionadas à Venezuela e aos Estados Unidos.

Os ataques ao sistema eleitoral ganharam força durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que defendia a adoção do voto impresso e questionava a confiabilidade das urnas eletrônicas. As declarações infundadas sobre o processo de votação contribuíram para a condenação do ex-mandatário pela Justiça Eleitoral, que o tornou inelegível.

Uma das versões mais recentes da desinformação tenta associar as eleições brasileiras à empresa Smartmatic, fornecedora de tecnologia eleitoral usada em outros países. Em vídeos compartilhados nas redes sociais, usuários alegam que autoridades americanas teriam apresentado provas de que urnas ligadas à empresa seriam suscetíveis a fraudes e sugerem, sem evidências, que o mesmo ocorreria no Brasil.

As alegações exploram um relatório de inteligência dos Estados Unidos divulgado neste ano. O documento afirma que os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro demonstraram interesse em manipular resultados eleitorais por meio de sistemas eletrônicos de votação. As suspeitas incluíam possíveis conversas envolvendo a Smartmatic sobre formas de interferência no processo eleitoral venezuelano.

No entanto, o próprio relatório não concluiu que houve fraude eleitoral em larga escala. Segundo a inteligência americana, outros fatores explicavam melhor os resultados observados nas eleições venezuelanas.

No Brasil, a Justiça Eleitoral afirma que nunca utilizou urnas ou softwares desenvolvidos ou operados pela Smartmatic. O órgão esclarece que a empresa apenas prestou serviços de comunicação de dados e voz em eleições anteriores, sem participação no desenvolvimento ou na operação das urnas eletrônicas brasileiras.

<><> Flávio Bolsonaro replica fake news sobre urnas

Apesar disso, a informação enganosa continuou a viralizar. Em julho, o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, afirmou que muitas das máquinas usadas nas eleições brasileiras teriam a mesma origem da empresa venezuelana citada nas denúncias. O parlamentar não apresentou fontes para sustentar a alegação. Posteriormente, afirmou, em nota, que não havia questionado a integridade do sistema eleitoral brasileiro.

Essa não é a única falsidade que tem circulado sobre as urnas. Nos últimos meses, veículos de imprensa e autoridades eleitorais desmentiram alegações de que hackers teriam invadido equipamentos de votação, de que a programação das máquinas teria sido alterada, de que existiriam candidatos "secretos" desbloqueáveis ou até de que ferramentas de inteligência artificial poderiam modificar votos registrados.

Embora apresentem versões diferentes dos fatos, essas publicações compartilham um objetivo comum: semear dúvidas sobre a segurança e a legitimidade do sistema eleitoral brasileiro sem apresentar evidências que sustentem as acusações.

<><> Décadas de uso sem fraudes

Especialistas alertam que esse tipo de desinformação pode abrir espaço para questionamentos infundados sobre resultados eleitorais e para tentativas de deslegitimar a vontade expressa pela maioria dos eleitores nas urnas.

Em resposta ao avanço das notícias falsas, a Justiça Eleitoral intensificou ações de transparência. Neste ano, o órgão desmontou uma urna eletrônica em transmissão nacional para explicar o funcionamento do equipamento e detalhar suas camadas de segurança. Segundo as autoridades, a iniciativa teve como objetivo combater a desinformação e aproximar os eleitores do processo democrático.

Considerado referência internacional em votação eletrônica, o sistema brasileiro acumula décadas de uso sem registro de fraude comprovada capaz de alterar resultados eleitorais.

 

Fonte: Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda /DW Brasil

 

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