Nossa
Senhora Aparecida e a gramática eleitoral da reta final da campanha
Uma
notícia polêmica colocou Nossa Senhora Aparecida no centro da última semana da
eleição presidencial. Publicações atribuíram ao candidato Flávio Bolsonaro a
intenção de retirar da santa o título de padroeira do Brasil. Flávio negou a
proposta, e não há prova de que pretenda fazê-lo. A reação ao boato, porém,
revelou uma questão verdadeira: Aparecida ocupa um lugar tão profundo na vida
brasileira que sua imagem não cabe inteiramente em nenhuma campanha.
Essa
história começa muito antes de Getúlio Vargas. A devoção nasceu da imagem
encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717, e cresceu durante
mais de dois séculos no catolicismo popular. Em 1930, o Papa Pio XI declarou
Nossa Senhora da Conceição Aparecida padroeira do Brasil. Vargas participou da
proclamação solene, realizada no Rio de Janeiro, em 1931. Naquele momento, a
imagem também servia a uma ideia de unidade nacional, em contraste com a antiga
referência imperial a São Pedro de Alcântara. Mas o Estado não criou a fé que
encontrou: foi a devoção do povo que deu força ao símbolo nacional.
Nossa
Senhora Aparecida nunca esteve completamente fora da política. Sua imagem já
foi convocada para projetos de integração do país e, em outros períodos, para
discursos de combate ao comunismo. Esses usos não esgotam seu significado. A fé
popular que atravessou a história brasileira, inclusive em contextos de
conflito como o de Canudos, não pode ser reduzida às decisões de governos ou às
posições de autoridades religiosas.
Aparecida
pertence também à memória afetiva do Brasil. Está na casa da avó, sobre a
cômoda ou perto da porta; no comércio de bairro; no carro de quem sai cedo para
trabalhar. Está nas romarias e nas promessas, mas também na intimidade de quem
a chama simplesmente de Cidinha. Para muita gente, olhar sua imagem é lembrar
uma pessoa, uma infância, um pedido feito em silêncio. Por isso, uma agressão à
santa pode ser sentida como uma agressão a histórias de família, mesmo por quem
não frequenta a igreja regularmente.
O país
já assistiu a essa comoção. Em 12 de outubro de 1995, o bispo Sérgio von Helde,
da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou e golpeou uma imagem de Nossa
Senhora Aparecida em programas transmitidos pela TV Record. As cenas provocaram
forte reação e permaneceram na memória pública. Edir Macedo, fundador da
Universal, desautorizou a atitude. Aquele ato não representa os evangélicos
como um conjunto. Ele mostra, porém, a carga emocional que um ataque público à
imagem de Aparecida pode desencadear.
Há
ainda uma dimensão racial e cultural decisiva. A imagem escura é reconhecida
por muitos devotos como a representação de uma mãe negra. Emicida aproxima, na
música, referências marianas e afro-brasileiras; Roberto Carlos canta a
confiança de quem pede cuidado à santa. São linguagens distintas para expressar
uma presença que atravessa gerações, classes e repertórios religiosos.
Aparecida tornou-se, nesse sentido, uma santa popular: circula muito além dos
espaços formais da Igreja.
É nesse
terreno que a controvérsia de 2026 encontrou força. O Brasil mudou
religiosamente, mas continua sendo um país de maioria católica. No Censo de
2022, 56,7% das pessoas com dez anos ou mais se declararam católicas, enquanto
26,9% se declararam evangélicas. O crescimento evangélico ampliou sua presença
nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas, no Congresso e na disputa
por influência pública. Isso não transforma os evangélicos em um bloco político
único, assim como os católicos tampouco votam todos da mesma maneira.
O
quadro da Quaest sobre o eleitorado católico permite acompanhar toda a
trajetória de setembro, não apenas as três últimas rodadas. No cenário
estimulado de primeiro Lula liderou entre os católicos em todas as cinco
medições. Depois de oscilar entre 41% e 43% nas quatro primeiras, chegou a 48%
na última. Flávio passou de 26% para 29% ao longo da série; portanto, também
cresceu numericamente nesse eleitorado, embora a distância entre ambos tenha
aumentado. Na rodada final, 5% dos católicos estavam indecisos e 8% declaravam
voto branco, nulo ou que não iriam votar. A margem de erro do recorte católico
é de três pontos percentuais. A pesquisa mais recente foi realizada enquanto a
polêmica circulava, mas o quadro não demonstra que o episódio tenha causado a
mudança. No eleitorado geral, essa mesma rodada registrou 39% para Lula e 34%
para Flávio no primeiro turno e empate numérico de 42% a 42% em uma simulação
de segundo turno.
As
trajetórias religiosas dos candidatos acrescentam outra camada à disputa. Lula
se identifica com o catolicismo. Em 7 de abril de 2018, antes de se entregar à
Polícia Federal, participou de uma missa campal em homenagem a Marisa Letícia
diante do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Aquela
celebração, no momento mais dramático de sua vida política, integra a memória
pública de sua relação com a fé católica. Não determina o voto de ninguém, mas
evidencia uma ligação biográfica que não nasceu nesta reta final.
Flávio
Bolsonaro se declara evangélico. Ele e a esposa, Fernanda, foram batizados em
2024, na Comunidade das Nações, em Brasília. Em dezembro de 2025, Flávio
escolheu a mesma igreja para sua primeira aparição pública após anunciar a
pré-candidatura à Presidência. A comunidade foi fundada pelo bispo JB Carvalho.
Portanto, sua relação com essa liderança religiosa também antecede a polêmica
atual.
É
preciso, então, examinar o que JB Carvalho escreveu. Em A Bomba: A verdade pode
ser explosiva, publicado em 2001, pela editora Doxxa, o bispo afirma que “Deus
odeia o culto à Rainha dos Céus”. Na obra, questiona o reconhecimento nacional
de Nossa Senhora Aparecida como padroeira e defende a mobilização de cristãos e
parlamentares para mudar essa condição. Sua afirmação de que a lei seria ilegal
é uma interpretação do pastor, não uma decisão da Justiça. O livro permite
identificar uma posição religiosa e política documentada no entorno de Flávio;
não permite transformar as palavras de Carvalho em declarações do candidato.
Há
ainda um segundo fato, que deve ser mantido separado do livro. O PL 2.623/2007
foi apresentado pelo então deputado Victorio Galli, não por JB Carvalho nem por
Flávio Bolsonaro. O texto propunha substituir, na lei do feriado de 12 de
outubro, a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros
católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado em 2008. Galli viria a
trabalhar como assessor no governo de Jair Bolsonaro. São vínculos políticos
reais, mas nenhum deles prova que Flávio seja autor da proposta antiga ou tenha
decidido retomá-la.
Essa
distinção é central para compreender a gramática da polêmica. É falsa a
acusação de que Flávio anunciou um plano para retirar o título de Aparecida. É
verdadeiro que uma liderança religiosa próxima a ele defendeu essa mudança em
livro e que um ex-assessor do governo de seu pai apresentou um projeto nessa
direção. Apagar qualquer um desses lados empobrece o debate. Em vídeo de
agosto, Flávio disse que, se eleito, decretaria que o Brasil pertence a Jesus
Cristo, mas não mencionou Nossa Senhora Aparecida naquela declaração. A
semelhança entre essa formulação e a linguagem do livro de Carvalho pode ser
analisada politicamente; não deve ser apresentada como prova de adesão ao
restante da obra.
A
campanha de Flávio compreendeu o tamanho da reação. O candidato negou defender
qualquer alteração e apareceu em São Paulo segurando uma representação de Nossa
Senhora Aparecida. Ao mesmo tempo, acusou integrantes da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil de participar da circulação de informações falsas. A CNBB
– Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – negou a acusação, afirmou que não
integra estruturas partidárias e repudiou a produção de mentiras no processo
eleitoral.
A
posição da CNBB também precisa ser lida em seus próprios termos. Quando os
bispos falam em dignidade humana, bem comum, democracia, justiça social e
participação consciente, setores da direita religiosa frequentemente os
classificam como progressistas. A Igreja Católica, contudo, mantém posições
conservadoras em diversos temas morais. Em sua mensagem para as eleições de
2026, a CNBB afirma que não indica candidatos nem partidos. Ela apresenta
aquelas preocupações públicas como parte de sua missão orientada pelo
Evangelho, não como um programa eleitoral de uma candidatura.]
Num
Estado laico, igrejas e fiéis têm o direito de participar do debate público.
Candidatos também podem falar de sua fé. O problema surge quando a devoção é
tratada como propriedade de um grupo político ou quando a emoção religiosa
passa a servir de atalho para dispensar a verdade dos fatos.
Nossa
Senhora Aparecida funciona como um pêndulo nesta reta final porque reúne
dimensões que nenhuma campanha controla por inteiro: fé e memória, identidade
nacional e experiência íntima, conservadorismo religioso e compromisso social.
Sua imagem já foi usada por muitos projetos políticos. O que a polêmica desta
semana mostra é que nenhum deles pode reivindicar a posse exclusiva da devoção
popular. Antes de pertencer a uma estratégia eleitoral, Aparecida pertence à
história vivida por seus devotos.
• Flávio prometeu “rebaixar” Nossa
Senhora, sim! Por Eduardo Guimarães
Bastaria
assistir à fala de Antonio Tabet no programa UOL News de 28 de setembro para
que ficasse claro que é uma mentira imoral de André Mendonça e da mídia
corporativa que Flávio Bolsonaro não propôs
um golpe contra a Padroeira do Brasil.
Vejamos
a transcrição do que ele disse:
“(…)Postei
agora há pouco nas minhas redes sociais (…) uma pergunta real para todos os
veículos de comunicação em relação ao uso do termo ‘fake news’, porque ‘fake
news’ é realmente absurdo. Todos nós temos que combater as fake news.
A gente
combate institucionalmente e publicamente. E eu acho que, ao rotular situações
como essa de ‘fake news’, você acaba banalizando o tema e favorecendo quem de
fato espalha fake news.
Nesse
caso, o que aconteceu não foi fake news. O que aconteceu foi: teve um
comentário da Maria Cristina Fernandes na GloboNews dizendo que setores da
Igreja Católica estavam preocupados com um movimento para tirar de Nossa
Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Isso é verdade? É verdade.
A
partir daí, resgataram um projeto de lei de 2007 de um deputado, o Victório
Galli, que tinha a intenção de, entre aspas, ‘rebaixar’ Nossa Senhora
Aparecida, tirando ela da condição de padroeira do Brasil e transformando-a em
padroeira dos católicos. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
Anos
depois, o Galli virou assessor especial de Jair Bolsonaro. Isso é mentira ou é
verdade? É verdade.
O Galli
está fazendo campanha para o Flávio Bolsonaro. Ele é visto na companhia do
Flávio Bolsonaro. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
O
Flávio Bolsonaro foi a público dizer que, se eleito, uma das primeiras coisas
que faria seria declarar que o Brasil é um país de Jesus. Isso é mentira ou é
verdade? É verdade.
Ele
recorre ao Supremo Tribunal Federal, ao TSE, para derrubar milhares de posts. A
grande maioria nem citava o candidato ou a candidatura pelo nome e falava
especificamente da santa. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
Pouco
depois, ele atribui a responsabilidade disso à CNBB, dizendo que a CNBB em
conluio com o PT estava fazendo isso. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
A CNBB
reage. É mentira ou é verdade? É verdade. E agora no país você vê, tem notícia
de hoje, de ontem, de imagens santas que foram vandalizadas. Isso é mentira ou
é verdade? É verdade.
Então,
eu não entendo a narrativa de chamar uma sequência de verdades de “fake news”.
Isso me parece muito estranho.”
É
impossível negar que Tabet está coberto de razão. Mas ele se enganou em um
ponto e esqueceu de destacar esse ponto. Flávio Bolsonaro não disse que “se
eleito, uma das primeiras coisas que faria seria declarar que o Brasil é um
país de Jesus”
Vale
rever, textualmente, o que disse Flávio Nantes Bolsonaro, candidato do PL à
Presidência da República Federativa do Brasil para um mandato de QUATRO ANOS
(!!) :
“Eu
quero debater, sim. Mas eu quero debater com quem está destruindo o Brasil e
piorando a sua vida. […] Eu quero debater com quem é responsável por você,
cidadão, estar parcelando em até seis vezes uma pizza no iFood. Eu quero
debater com quem não acredita em Deus. Porque, quando eu for presidente, um dos
meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.”
Captou,
caro leitor? Talvez não. Ou, provavelmente não. Porque a diferença entre o que
disse Tabet e o que disse Flávio é extremamente sutil, porém extremamente
significativa.
Flávio
não disse que um de seus primeiros atos seria “DECLARAR que o Brasil é do
Senhor Jesus Cristo”, ele disse, textualmente, que iria “DECRETAR que o Brasil
é do Senhor Jesus Cristo”.
A
diferença entre usar o verbo declarar e o verbo decretar é gigante, nesse
contexto. O verbo declarar permite que Flávio diga que foi apenas “força de
expressão”, pois “declarar” não torna o ato prometido uma medida de governo.
Já
decretar significa que ele baixaria um decreto para instituir Jesus Cristo para
o lugar de Nossa Senhora Aparecida, o lugar de novo protetor do Brasil — e
Padroeira do Brasil significa protetora do país.
Analisando-se
o contexto da fala de Flávio, usando o bordão evangélico de que “O Brasil é do
Senhor Jesus Cristo”, ele está aludindo à antiga e duradoura polêmica dos
evangélicos contra imagens e santos católicos.
A lista
de polêmicas é longa:
* Em
1995, um bispo da Igreja Universal chutou uma imagem de Aparecida na TV, no dia
da santa.
* Em
2001, JB Carvalho, fundador da igreja em que Flávio foi batizado, escreveu num
livro que “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”, um dos títulos de Maria.
* Em
2007, um deputado evangélico propôs que Aparecida deixasse de ser padroeira do
Brasil para ser padroeira só dos católicos.
*Cidades
como Carapicuíba (SP) e Nova Iguaçu (RJ) instalaram na entrada placas avisando
que pertencem a Jesus.
Ou
seja: para qualquer pessoa de boa-fé – e é de fé que estamos falando –, Flávio
Bolsonaro tentou agradar os evangélicos prometendo algo que enorme parcela dos
praticantes dessa ramificação do cristianismo acalentam.
Fake
news uma ova!
Fonte:
Por Marcio Ferreira, no Le Monde/Brasil 247

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