Denise
Assis: Desde quando pobre vota na direita, gente?
Grande
parcela da população caminha para as urnas no próximo domingo sem entender
integralmente o que está em jogo. Ou melhor, sem dar muita importância ao que
virá a seguir do seu gesto de apertar nas urnas os botões que abrirão para os
próximos quatro anos as alamedas do fascismo, da submissão e do retrocesso.
Há quem
diga que “a elite” o “sistema financeiro” e a bem aquinhoada fatia de “ricos”
estão posicionados ao lado da ultradireita, porque para eles as consequências
nunca são inteiramente danosas. Afinal, se der ruim, Miami e a Suíça – para os
mais sofisticados -, estão logo ali.
Não é
bem assim. Circulando nos últimos dias entre as várias camadas da população é
assustador constatar que o cidadão médio comprou de barato o discurso do
antipetismo e o introjetou de tal modo que parece ter ficado tatuado em seu
DNA.
Os
dutos jorrando dinheiro daquele canal que fabricou um super-homem de papel a
partir de denúncias vazias e quase risíveis, hoje, frente a tudo que está vindo
à tona das infiltrações de Daniel Vorcaro, deixa o sítio de Atibaia semelhante
a um “mafuá”.
Quem
acompanhou os últimos anos da nossa história com atenção sabe do que estou
falando. Os que apenas se postaram frente à televisão assistindo o movimento
das notas sair dos dutos e o discurso carregado de expressões tais como:
“corrupção”, “passar a limpo” e “desvio de dinheiro”, foi arrastado para o
discurso fascista, sem volta.
E são
esses que estão junto conosco na fila do supermercado, lixando as suas unhas
nos salões de beleza ou transportando a sua família no Uber – não a elite,
apenas -, que nunca mais encontraram a tecla do “voltar” quando o assunto é
política. Ficaram lá, naquele passado, onde o golpe contra a presidente Dilma
Rousseff virou “impeachment” (porque tramitou pelo judiciário!), o juiz Sérgio
Moro fez “uma limpeza” nos “que roubaram o país”, e o que valeu de verdade
foram os anos que se sucederam, de negacionismo, de difamação internacional e
de arrocho salarial.
Tal
como se deu na Itália, quando Benito Mussolini, um jornalista e ex-socialista
conseguiu convencer um grupo de desgraçados, em 1922, a segui-lo, usando a
decepção do que resultou da Itália após a Primeira Guerra e a economia
depauperada, no Brasil um grupo de militares saudosos do poder, e sequiosos por
voltarem (para mostrar como se faz), após a derrocada de 21 anos de ditadura,
inventaram Bolsonaro. Não sem o apoio dos que queriam ter um ministro
neoliberal para chamar de seu.
O
“mito” arregimentou atrás de si os convencidos de que o PT deveria “sumir do
mapa”, que Lula não poderia estar aonde chegou e que independente dos meios,
todo o empenho deveria ser para impedir que o partido e o seu líder
continuassem a existir. É esse o sentimento que move e une pontas da sociedade
brasileira, hoje, a caminho das urnas.
Lula
não luta contra Flávio Bolsonaro. Lula enfrenta nas urnas é Jair Bolsonaro e a
aversão de um grupo compacto de uma parcela da sociedade que foi contaminada
pelo vírus do fascismo, a partir da chegada dele ao poder.
Pelos
discursos que andei ouvindo nas ações comezinhas e cotidianas, como indo às
compras ou cuidando do cabelo, Lula enfrenta de novo, nas urnas, Jair Bolsonaro
e o bolsonarismo que se entranhou na alma dos homens e mulheres comuns desse
país. Aqui, como na Itália, alguém apanhou uma porção de decepção plantada em
seus corações com a insistência que só os que detêm grande audiência conseguem,
adicionou o discurso dos patrões e das freguesas “chiques”, misturou, cozinhou
em fogo brando e, neste domingo, independente das mais escabrosas informações
sobre o candidato adversário, darão a ele o seu voto. Pouco importa se ele vai
para a urna em meio a um processo de investigação – mantido em segredo pelo
ministro André Mendonça desde o dia 22 de julho – e uma enxurrada de denúncias.
Pouco
importa para esse segmento fascista que Flávio Bolsonaro tenha protegido PMs
assassinos. Tanto faz que as notícias levantam indícios de que ele mantém o
irmão com uma porção de milhões dos quais se sabe a origem, mas não o destino.
(Nem convém mencionar as “rachadinhas”, que soam, hoje, como o dinheiro para
comprar picolé). Contanto que ele “faça
o favor” de varrer da face do país esses vermelhos todos, o voto desses
convertidos ao negacionismo, ao retrocesso, ao domínio estrangeiro irão para as
urnas em “homenagem” a Bolsonaro.
A sorte
do Brasil é que há uma imensidão que vestiu essa cor na Bahia, em Minas, em
Recife e pelos rincões à fora disposta a mostrar que acreditam na melhoria das
suas vidas, conseguiram perceber o pleno emprego e a melhoria dos seus
salários. E, com a ajuda de Nossa Senhora Aparecida, que tem poder – não o das
redes sociais, onde pululam “mini-Mussolinis” -, mas o poder divino.
Certamente, convocada que foi para esta luta, há de exercer, sim, o seu papel
de padroeira e se postar do lado do Brasil que quer vencer. Ela há de ouvir a
pergunta de uma balconista dessas lanchonetes onde a atração é o pastel: “desde
quando pobre vota na direita, gente?”
• Quando a eleição acaba, a periferia
continua. Por Netinho de Paula
Em
época de eleição, áreas e bairros carentes viram destino de quem pouco aparece
por lá durante o restante do mandato. Chegam as visitas, as promessas, as fotos
e os discursos. Depois das urnas, boa parte dessa atenção desaparece. Os
problemas, as necessidades e, principalmente, as pessoas continuam.
Conheço
essa realidade muito antes de conhecer qualquer gabinete. Comecei a cantar na
Cohab de Carapicuíba, onde nasceu o Negritude Júnior, entre amigos que dividiam
sonhos e dificuldades. Antes dos discos, da televisão e dos grandes palcos,
éramos garotos em busca de uma chance.
Eu
encontrei a minha na música. Sei o quanto uma porta aberta na hora certa pode
mudar uma história. Sei também quantas permanecem fechadas.
É por
isso que defendo a criação de um Marco Nacional de Fomento à Cultura e Educação
nas Periferias, com recursos permanentes para institutos sociais, associações e
coletivos que atendem crianças e adolescentes durante todo o ano.
Quem
cresce em áreas mais carentes e longe dos grandes equipamentos culturais sabe o
valor de encontrar perto de casa um lugar para aprender música, dançar, ler,
praticar esporte ou participar de uma oficina. Cultura e lazer são direitos que
ampliam repertórios, fortalecem vínculos e apresentam caminhos que nem sempre
estão ao alcance dentro de casa ou na escola.
Conheci
esse trabalho também por outro lado. Em 1998, participei da criação do
Instituto Casa da Gente, em Carapicuíba. Ali aprendi que o resultado de um
projeto social não se mede apenas pelo destino de quem passou por ele. Seu
valor também está na atenção, no aprendizado e nas escolhas que oferece em uma
fase decisiva da vida.
O
Levantamento Nacional do Sinase 2024 ajuda a dimensionar essa lacuna. Entre
adolescentes em restrição ou privação de liberdade, mais da metade não
participou de atividades relacionadas à arte e à cultura. De cada 100, apenas
43 tiveram essa experiência.
Isso
não significa atribuir à falta dessas atividades a prática de um ato
infracional. Seria reduzir uma questão que envolve desigualdade, violência,
família, escola e outros fatores. O dado mostra, porém, como esse acesso ainda
é limitado justamente entre quem enfrenta maior vulnerabilidade.
O
Conselho Nacional de Justiça inclui literatura, música, dança, grafite e outras
expressões nas ações destinadas a adolescentes que cumprem medidas
socioeducativas. Se essas práticas têm espaço nessa etapa, é preciso discutir
como fazê-las chegar antes, ainda na infância e na adolescência.
Em
agosto de 2026, a Rede Cultura Viva reunia 16.817 Pontos de Cultura e 892
Pontões. Entre as áreas declaradas pelos participantes, 4.957 incluíam cultura
e educação e 2.617, cultura e juventude. Os números mostram que existe uma rede
instalada nas comunidades. O desafio é fazer com que quem atua na ponta tenha
acesso a recursos de forma menos burocrática e mais estável.
Muitas
organizações pequenas não dispõem de equipes especializadas para elaborar
projetos complexos e acompanhar editais. O Marco deve reduzir essas barreiras,
estabelecer regras proporcionais e garantir fiscalização e prestação de contas.
É essa
estrutura que pode substituir o apoio eventual por uma política permanente.
Quem mantém uma oficina, um projeto esportivo ou uma atividade cultural durante
o ano inteiro não pode depender da atenção que chega com o calendário
eleitoral.
Cultura,
educação e lazer não resolvem sozinhos as desigualdades das periferias. Mas
podem abrir caminhos.
Eu sei
porque uma dessas portas se abriu para mim.
Outras
crianças não podem depender da sorte, do CEP onde nasceram ou do interesse de
quem só aparece quando precisa do voto.
A
eleição acaba. Os políticos desaparecem e a periferia continua.
E seus
direitos não podem ter prazo de validade.
• Lula diz que eleição deste ano opõe
“seriedade” a quem “faz orgia”
Na reta
final da campanha pela reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
elevou o tom contra o senador Flávio Bolsonaro (PL) nesta sexta-feira (2),
durante uma carreata pelo centro do Rio de Janeiro, e afirmou que a eleição
representa uma disputa entre a “seriedade” e quem “faz orgia”.
Lula
afirmou que a eleição deste ano é a “luta da seriedade, de homens que têm
biografia com a luta, contra aquele que faz orgia, aqueles que não medem
qualquer comportamento de caráter”.
A
declaração foi feita em referência a Flávio Bolsonaro e a relatos sobre uma
suposta traição e participação em orgias com garotas de programa. A suspeita
foi publicada incialmente pelo site PlatôBR, em reportagem baseada em mensagens
encontradas no celular de um antigo sócio do senador.
“Por
isso, companheiros do Rio de Janeiro, esta passeata é o começo de uma passeata
que só vai terminar domingo, às 17h, quando terminarem as eleições”, afirmou
Lula, em referência ao encerramento da votação do primeiro turno.
Durante
o ato, o presidente percorreu parte do centro da capital fluminense na caçamba
de uma caminhonete, acompanhado por apoiadores que caminharam entre a
Candelária e a Cinelândia.
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Banco Master entra no discurso
Ao
longo do percurso, Lula fez quatro intervenções. Além dos ataques a Flávio
Bolsonaro, pediu votos para aliados, falou sobre a escala 6 por 1 e as bets e
convocou seus apoiadores a se mobilizarem para a votação de domingo.
Em um
dos discursos, Lula voltou suas críticas ao caso Banco Master.
“A
gente não pode permitir que a quadrilha do banco Master volte a governar este
país”, disse.
O
presidente também mencionou a defesa feita por Flávio Bolsonaro ao policial
militar Bruno Dias Delaroli.
“A
gente não pode permitir que esse país eleja uma pessoa que, sendo senador da
República, foi defender um policial que matou uma menina de 5 anos de idade”,
afirmou.
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“Ou a gente consolida a democracia, ou ela vai acabar”
Lula
também procurou colocar a defesa da democracia no centro de seu discurso de
reta final. O petista afirmou que considera a votação de domingo uma disputa
que ultrapassa a escolha individual de um candidato.
“O que
está em jogo não é a vitória de um homem, é a vitória de uma ideia, é a vitória
de uma democracia. Ou a gente consolida a democracia, ou ela vai acabar”,
declarou.
O
presidente pediu ainda que seus apoiadores convençam pessoas com mais de 70
anos a comparecer às urnas. Para essa faixa etária, o voto é facultativo. Lula
argumentou que os eleitores mais velhos deveriam participar da votação pensando
no país que deixarão para filhos e netos.
“Estou
convencido de que a gente vai ganhar as eleições no domingo. Não há porque ter
segundo turno se a gente pode matar a desgraça no primeiro turno. E é domingo
que a gente vai ter que ganhar essas eleições”, disse.
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Críticas à escala 6 por 1 e às bets
A
concentração de apoiadores também levou Lula a interromper o discurso para
pedir calma. Segundo o UOL, algumas pessoas passaram mal e um vidro de um ponto
de ônibus chegou a quebrar enquanto parte do público tentava se aproximar do
presidente.
“Temos
mulheres e crianças aqui. Se essa é a caminhada da vitória, precisamos de todos
vocês bem para poder votar”, afirmou.
Lula
aproveitou o momento para reiterar sua posição pelo fim da escala de trabalho 6
por 1 sem redução salarial.
“Somos
da geração que lutou para acabar com a escala 6 por 1”, disse.
Ao
pedir que os apoiadores parassem de se empurrar, Lula voltou a atacar seus
adversários e citou investigações envolvendo a Previdência e o Banco Master.
“Eles
criaram a quadrilha da Previdência e nós prendemos a quadrilha da Previdência.
Eles criaram a quadrilha do Vorcarco e nós desmontamos a quadrilha do Vorcaro”,
afirmou.
Em
seguida, reforçou o pedido para que ninguém se machucasse: “agora, é ganhar as
eleições. Ninguém pode se machucar, porque precisamos do voto de todos vocês”.
Já no
encerramento do ato, em frente ao Museu Nacional de Belas Artes, Lula voltou a
defender uma definição das eleições no primeiro turno e retomou algumas de suas
principais bandeiras.
“Bet
nunca mais! Jornada 6 por 1 nunca mais! Quadrilha do Vorcaro nunca mais!
Quadrilha da Previdência nunca mais!”, declarou.
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Lula comenta debate da Globo
O
presidente também mencionou o debate da TV Globo que estava previsto para a
noite de quinta-feira (1º), mas não ocorreu. Lula havia optado por participar
de um podcast no mesmo período.
“Ontem,
vocês viram o que aconteceu com a Globo. A Globo até agora está pensando no que
aconteceu. Que o Lula não veio no debate, e o podcast de que eu participei teve
mais audiência do que a novela. Uma demonstração de que, se a gente tiver
coragem, se a gente tiver determinação, a gente não é manipulado pelos meios de
comunicação”, afirmou.
Lula
participou da mobilização ao lado dos candidatos ao Senado que apoia no Rio de
Janeiro, Benedita da Silva (PT) e Pedro Paulo (PSD).
Depois
de um breve discurso do candidato do PSD, integrantes do público gritaram o
nome de Mônica Benício (PSOL).
Mônica,
que também disputa uma vaga no Senado e pertence ao campo progressista,
participou da caminhada, mas não permaneceu ao lado de Lula.
No
encerramento, a primeira-dama Janja da Silva dirigiu uma mensagem às mulheres e
destacou a importância do eleitorado feminino para a campanha.
Fonte:
Brasil 247

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