sábado, 3 de outubro de 2026

Denise Assis: Desde quando pobre vota na direita, gente?

Grande parcela da população caminha para as urnas no próximo domingo sem entender integralmente o que está em jogo. Ou melhor, sem dar muita importância ao que virá a seguir do seu gesto de apertar nas urnas os botões que abrirão para os próximos quatro anos as alamedas do fascismo, da submissão e do retrocesso.

Há quem diga que “a elite” o “sistema financeiro” e a bem aquinhoada fatia de “ricos” estão posicionados ao lado da ultradireita, porque para eles as consequências nunca são inteiramente danosas. Afinal, se der ruim, Miami e a Suíça – para os mais sofisticados -, estão logo ali.

Não é bem assim. Circulando nos últimos dias entre as várias camadas da população é assustador constatar que o cidadão médio comprou de barato o discurso do antipetismo e o introjetou de tal modo que parece ter ficado tatuado em seu DNA.

Os dutos jorrando dinheiro daquele canal que fabricou um super-homem de papel a partir de denúncias vazias e quase risíveis, hoje, frente a tudo que está vindo à tona das infiltrações de Daniel Vorcaro, deixa o sítio de Atibaia semelhante a um “mafuá”.

Quem acompanhou os últimos anos da nossa história com atenção sabe do que estou falando. Os que apenas se postaram frente à televisão assistindo o movimento das notas sair dos dutos e o discurso carregado de expressões tais como: “corrupção”, “passar a limpo” e “desvio de dinheiro”, foi arrastado para o discurso fascista, sem volta.

E são esses que estão junto conosco na fila do supermercado, lixando as suas unhas nos salões de beleza ou transportando a sua família no Uber – não a elite, apenas -, que nunca mais encontraram a tecla do “voltar” quando o assunto é política. Ficaram lá, naquele passado, onde o golpe contra a presidente Dilma Rousseff virou “impeachment” (porque tramitou pelo judiciário!), o juiz Sérgio Moro fez “uma limpeza” nos “que roubaram o país”, e o que valeu de verdade foram os anos que se sucederam, de negacionismo, de difamação internacional e de arrocho salarial.

Tal como se deu na Itália, quando Benito Mussolini, um jornalista e ex-socialista conseguiu convencer um grupo de desgraçados, em 1922, a segui-lo, usando a decepção do que resultou da Itália após a Primeira Guerra e a economia depauperada, no Brasil um grupo de militares saudosos do poder, e sequiosos por voltarem (para mostrar como se faz), após a derrocada de 21 anos de ditadura, inventaram Bolsonaro. Não sem o apoio dos que queriam ter um ministro neoliberal para chamar de seu.

O “mito” arregimentou atrás de si os convencidos de que o PT deveria “sumir do mapa”, que Lula não poderia estar aonde chegou e que independente dos meios, todo o empenho deveria ser para impedir que o partido e o seu líder continuassem a existir. É esse o sentimento que move e une pontas da sociedade brasileira, hoje, a caminho das urnas.

Lula não luta contra Flávio Bolsonaro. Lula enfrenta nas urnas é Jair Bolsonaro e a aversão de um grupo compacto de uma parcela da sociedade que foi contaminada pelo vírus do fascismo, a partir da chegada dele ao poder.

Pelos discursos que andei ouvindo nas ações comezinhas e cotidianas, como indo às compras ou cuidando do cabelo, Lula enfrenta de novo, nas urnas, Jair Bolsonaro e o bolsonarismo que se entranhou na alma dos homens e mulheres comuns desse país. Aqui, como na Itália, alguém apanhou uma porção de decepção plantada em seus corações com a insistência que só os que detêm grande audiência conseguem, adicionou o discurso dos patrões e das freguesas “chiques”, misturou, cozinhou em fogo brando e, neste domingo, independente das mais escabrosas informações sobre o candidato adversário, darão a ele o seu voto. Pouco importa se ele vai para a urna em meio a um processo de investigação – mantido em segredo pelo ministro André Mendonça desde o dia 22 de julho – e uma enxurrada de denúncias.

Pouco importa para esse segmento fascista que Flávio Bolsonaro tenha protegido PMs assassinos. Tanto faz que as notícias levantam indícios de que ele mantém o irmão com uma porção de milhões dos quais se sabe a origem, mas não o destino. (Nem convém mencionar as “rachadinhas”, que soam, hoje, como o dinheiro para comprar picolé).  Contanto que ele “faça o favor” de varrer da face do país esses vermelhos todos, o voto desses convertidos ao negacionismo, ao retrocesso, ao domínio estrangeiro irão para as urnas em “homenagem” a Bolsonaro.

A sorte do Brasil é que há uma imensidão que vestiu essa cor na Bahia, em Minas, em Recife e pelos rincões à fora disposta a mostrar que acreditam na melhoria das suas vidas, conseguiram perceber o pleno emprego e a melhoria dos seus salários. E, com a ajuda de Nossa Senhora Aparecida, que tem poder – não o das redes sociais, onde pululam “mini-Mussolinis” -, mas o poder divino. Certamente, convocada que foi para esta luta, há de exercer, sim, o seu papel de padroeira e se postar do lado do Brasil que quer vencer. Ela há de ouvir a pergunta de uma balconista dessas lanchonetes onde a atração é o pastel: “desde quando pobre vota na direita, gente?”

•        Quando a eleição acaba, a periferia continua. Por Netinho de Paula

Em época de eleição, áreas e bairros carentes viram destino de quem pouco aparece por lá durante o restante do mandato. Chegam as visitas, as promessas, as fotos e os discursos. Depois das urnas, boa parte dessa atenção desaparece. Os problemas, as necessidades e, principalmente, as pessoas continuam.

Conheço essa realidade muito antes de conhecer qualquer gabinete. Comecei a cantar na Cohab de Carapicuíba, onde nasceu o Negritude Júnior, entre amigos que dividiam sonhos e dificuldades. Antes dos discos, da televisão e dos grandes palcos, éramos garotos em busca de uma chance.

Eu encontrei a minha na música. Sei o quanto uma porta aberta na hora certa pode mudar uma história. Sei também quantas permanecem fechadas.

É por isso que defendo a criação de um Marco Nacional de Fomento à Cultura e Educação nas Periferias, com recursos permanentes para institutos sociais, associações e coletivos que atendem crianças e adolescentes durante todo o ano.

Quem cresce em áreas mais carentes e longe dos grandes equipamentos culturais sabe o valor de encontrar perto de casa um lugar para aprender música, dançar, ler, praticar esporte ou participar de uma oficina. Cultura e lazer são direitos que ampliam repertórios, fortalecem vínculos e apresentam caminhos que nem sempre estão ao alcance dentro de casa ou na escola.

Conheci esse trabalho também por outro lado. Em 1998, participei da criação do Instituto Casa da Gente, em Carapicuíba. Ali aprendi que o resultado de um projeto social não se mede apenas pelo destino de quem passou por ele. Seu valor também está na atenção, no aprendizado e nas escolhas que oferece em uma fase decisiva da vida.

O Levantamento Nacional do Sinase 2024 ajuda a dimensionar essa lacuna. Entre adolescentes em restrição ou privação de liberdade, mais da metade não participou de atividades relacionadas à arte e à cultura. De cada 100, apenas 43 tiveram essa experiência.

Isso não significa atribuir à falta dessas atividades a prática de um ato infracional. Seria reduzir uma questão que envolve desigualdade, violência, família, escola e outros fatores. O dado mostra, porém, como esse acesso ainda é limitado justamente entre quem enfrenta maior vulnerabilidade.

O Conselho Nacional de Justiça inclui literatura, música, dança, grafite e outras expressões nas ações destinadas a adolescentes que cumprem medidas socioeducativas. Se essas práticas têm espaço nessa etapa, é preciso discutir como fazê-las chegar antes, ainda na infância e na adolescência.

Em agosto de 2026, a Rede Cultura Viva reunia 16.817 Pontos de Cultura e 892 Pontões. Entre as áreas declaradas pelos participantes, 4.957 incluíam cultura e educação e 2.617, cultura e juventude. Os números mostram que existe uma rede instalada nas comunidades. O desafio é fazer com que quem atua na ponta tenha acesso a recursos de forma menos burocrática e mais estável.

Muitas organizações pequenas não dispõem de equipes especializadas para elaborar projetos complexos e acompanhar editais. O Marco deve reduzir essas barreiras, estabelecer regras proporcionais e garantir fiscalização e prestação de contas.

É essa estrutura que pode substituir o apoio eventual por uma política permanente. Quem mantém uma oficina, um projeto esportivo ou uma atividade cultural durante o ano inteiro não pode depender da atenção que chega com o calendário eleitoral.

Cultura, educação e lazer não resolvem sozinhos as desigualdades das periferias. Mas podem abrir caminhos.

Eu sei porque uma dessas portas se abriu para mim.

Outras crianças não podem depender da sorte, do CEP onde nasceram ou do interesse de quem só aparece quando precisa do voto.

A eleição acaba. Os políticos desaparecem e a periferia continua.

E seus direitos não podem ter prazo de validade.

•        Lula diz que eleição deste ano opõe “seriedade” a quem “faz orgia”

Na reta final da campanha pela reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou o tom contra o senador Flávio Bolsonaro (PL) nesta sexta-feira (2), durante uma carreata pelo centro do Rio de Janeiro, e afirmou que a eleição representa uma disputa entre a “seriedade” e quem “faz orgia”.

Lula afirmou que a eleição deste ano é a “luta da seriedade, de homens que têm biografia com a luta, contra aquele que faz orgia, aqueles que não medem qualquer comportamento de caráter”.

A declaração foi feita em referência a Flávio Bolsonaro e a relatos sobre uma suposta traição e participação em orgias com garotas de programa. A suspeita foi publicada incialmente pelo site PlatôBR, em reportagem baseada em mensagens encontradas no celular de um antigo sócio do senador.

“Por isso, companheiros do Rio de Janeiro, esta passeata é o começo de uma passeata que só vai terminar domingo, às 17h, quando terminarem as eleições”, afirmou Lula, em referência ao encerramento da votação do primeiro turno.

Durante o ato, o presidente percorreu parte do centro da capital fluminense na caçamba de uma caminhonete, acompanhado por apoiadores que caminharam entre a Candelária e a Cinelândia.

<><> Banco Master entra no discurso

Ao longo do percurso, Lula fez quatro intervenções. Além dos ataques a Flávio Bolsonaro, pediu votos para aliados, falou sobre a escala 6 por 1 e as bets e convocou seus apoiadores a se mobilizarem para a votação de domingo.

Em um dos discursos, Lula voltou suas críticas ao caso Banco Master.

“A gente não pode permitir que a quadrilha do banco Master volte a governar este país”, disse.

O presidente também mencionou a defesa feita por Flávio Bolsonaro ao policial militar Bruno Dias Delaroli.

“A gente não pode permitir que esse país eleja uma pessoa que, sendo senador da República, foi defender um policial que matou uma menina de 5 anos de idade”, afirmou.

<><> “Ou a gente consolida a democracia, ou ela vai acabar”

Lula também procurou colocar a defesa da democracia no centro de seu discurso de reta final. O petista afirmou que considera a votação de domingo uma disputa que ultrapassa a escolha individual de um candidato.

“O que está em jogo não é a vitória de um homem, é a vitória de uma ideia, é a vitória de uma democracia. Ou a gente consolida a democracia, ou ela vai acabar”, declarou.

O presidente pediu ainda que seus apoiadores convençam pessoas com mais de 70 anos a comparecer às urnas. Para essa faixa etária, o voto é facultativo. Lula argumentou que os eleitores mais velhos deveriam participar da votação pensando no país que deixarão para filhos e netos.

“Estou convencido de que a gente vai ganhar as eleições no domingo. Não há porque ter segundo turno se a gente pode matar a desgraça no primeiro turno. E é domingo que a gente vai ter que ganhar essas eleições”, disse.

<><> Críticas à escala 6 por 1 e às bets

A concentração de apoiadores também levou Lula a interromper o discurso para pedir calma. Segundo o UOL, algumas pessoas passaram mal e um vidro de um ponto de ônibus chegou a quebrar enquanto parte do público tentava se aproximar do presidente.

“Temos mulheres e crianças aqui. Se essa é a caminhada da vitória, precisamos de todos vocês bem para poder votar”, afirmou.

Lula aproveitou o momento para reiterar sua posição pelo fim da escala de trabalho 6 por 1 sem redução salarial.

“Somos da geração que lutou para acabar com a escala 6 por 1”, disse.

Ao pedir que os apoiadores parassem de se empurrar, Lula voltou a atacar seus adversários e citou investigações envolvendo a Previdência e o Banco Master.

“Eles criaram a quadrilha da Previdência e nós prendemos a quadrilha da Previdência. Eles criaram a quadrilha do Vorcarco e nós desmontamos a quadrilha do Vorcaro”, afirmou.

Em seguida, reforçou o pedido para que ninguém se machucasse: “agora, é ganhar as eleições. Ninguém pode se machucar, porque precisamos do voto de todos vocês”.

Já no encerramento do ato, em frente ao Museu Nacional de Belas Artes, Lula voltou a defender uma definição das eleições no primeiro turno e retomou algumas de suas principais bandeiras.

“Bet nunca mais! Jornada 6 por 1 nunca mais! Quadrilha do Vorcaro nunca mais! Quadrilha da Previdência nunca mais!”, declarou.

<><> Lula comenta debate da Globo

O presidente também mencionou o debate da TV Globo que estava previsto para a noite de quinta-feira (1º), mas não ocorreu. Lula havia optado por participar de um podcast no mesmo período.

“Ontem, vocês viram o que aconteceu com a Globo. A Globo até agora está pensando no que aconteceu. Que o Lula não veio no debate, e o podcast de que eu participei teve mais audiência do que a novela. Uma demonstração de que, se a gente tiver coragem, se a gente tiver determinação, a gente não é manipulado pelos meios de comunicação”, afirmou.

Lula participou da mobilização ao lado dos candidatos ao Senado que apoia no Rio de Janeiro, Benedita da Silva (PT) e Pedro Paulo (PSD).

Depois de um breve discurso do candidato do PSD, integrantes do público gritaram o nome de Mônica Benício (PSOL).

Mônica, que também disputa uma vaga no Senado e pertence ao campo progressista, participou da caminhada, mas não permaneceu ao lado de Lula.

No encerramento, a primeira-dama Janja da Silva dirigiu uma mensagem às mulheres e destacou a importância do eleitorado feminino para a campanha.

 

Fonte: Brasil 247

 

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