Apoio
suspeito: Gustavo Gayer recebeu mais de R$ 400 mil em doações de empresário
denunciado por fraudar licitações
O
deputado federal e candidato ao Senado por Goiás Gustavo Gayer, do PL, recebeu
sete doações de campanha, que somam mais de R$ 417 mil, do empresário Rodrigo
Gonçalves dos Santos, denunciado pelo Ministério Público do Pará, o MPPA, sob a
acusação de fraudar licitações milionárias, cuja pena máxima pode chegar a oito
anos de prisão.
Até 29
de setembro, a cinco dias da eleição, Santos figura como o maior doador da
campanha do Gayer. Dados declarados ao Tribunal Superior Eleitoral, o TSE,
mostram que o montante foi repassado ao candidato em sete transferências via
Pix, realizadas entre o fim de agosto e o início de setembro, com repasses
variando de R$ 20 mil a R$ 100 mil.
Gayer
faz questão de propagandear que “abriu mão de milhões do fundo eleitoral”. Além
disso, afirma que na eleição de 2022 “fez uma das campanhas mais baratas do
Brasil sem usar nada de dinheiro público, decisão que estenderá à campanha de
senador”. No entanto, ele parece não demonstrar o mesmo rigor com a origem do
dinheiro privado que banca sua corrida.
Cerca
de 22% de toda a arrecadação do candidato – que se vende como o principal nome
de Jair Bolsonaro em Goiás e membro da tropa de elite do presidenciável Flávio
Bolsonaro – saíram do bolso de Santos.
O
empresário foi denunciado pelo MPPA em 11 de abril de 2025 sob a acusação de
lotear contratos públicos em Canaã dos Carajás, localizada no sudeste do Pará.
A cidade é um alvo lucrativo para esquemas: tem pouco mais de 77 mil
habitantes, mas ostenta uma das maiores arrecadações do estado, superando a
marca de R$ 2 bilhões de receitas em 2025.
Enquanto
é financiado com quase meio milhão de reais por um empresário denunciado por
integrar uma organização criminosa acusada de fraudar contratos no Pará, Gayer
atua como membro titular da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime
Organizado da Câmara dos Deputados.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Um
documento apreendido durante as investigações revela que, apenas em fevereiro
de 2024, Santos teria pago R$ 897 mil em propinas a integrantes do esquema. Os
subornos eram alinhados entre 6% a 10% do valor dos contratos.
Segundo
a denúncia, a operação dependia de dois braços na prefeitura: o ex-pregoeiro e
um ex-secretário municipal. O então pregoeiro inabilitava concorrentes nas
licitações ou comprava suas desistências por valores entre R$ 20 mil e R$ 200
mil. Já o ex-secretário controlava o fluxo de propinas e orientava as empresas
que faziam parte do conluio.
O MPPA
identificou que as duas empreiteiras de Santos – a RGS Engenharia e a Gonçalves
& Dias Engenharia – faturaram cinco contratos agora sob suspeita, somando
quase R$ 83 milhões em Canaã dos Carajás. O pacote milionário incluía, entre
outros serviços, a construção de um parque de exposições e obras de
pavimentação e de drenagem.
Interceptações
telefônicas também flagraram Santos violando o sigilo da licitação ao avisar ao
ex-pregoeiro que apresentaria uma proposta com 20% de desconto para a
construção de unidades habitacionais. A informação privilegiada acionou o grupo
e permitiu que outro empresário envolvido no esquema ajustasse sua proposta.
Embora as empresas de Santos não tenham levado este certame específico, a
fraude e a violação do sigilo foram confirmadas pelos investigadores.
Segundo
o MPPA, os empresários garantiam o direcionamento dos contratos porque recebiam
informações privilegiadas sobre as obras antes mesmo das licitações. O grupo
também atuava junto a agentes públicos para moldar os editais às especificações
técnicas de suas próprias empresas, dificultando a participação de concorrentes
que estavam fora do esquema.
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De Canaã dos Carajás aos cofres federais
O
conglomerado do empresário que mora em Canaã dos Carajás vai muito além do
pacato município paraense. Com negócios intimamente ligados a contratos
públicos, sua rede imobiliária e de construção civil estende seus tentáculos
para Goiás, Rondônia, Acre, Maranhão e Distrito Federal.
Citada
na investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o
Gaeco, do MPPA, a Gonçalves & Dias Engenharia acumula quase R$ 6,5 milhões
recebidos via emendas parlamentares – tanto da bancada de Rondônia como por
emendas de relator, que ficaram conhecidas como “orçamento secreto”. A maior
parte da verba saiu dos cofres públicos federais do Departamento Nacional de
Infraestrutura de Transportes, o DNIT, para pavimentar vias no município de
Ji-Paraná, em Rondônia.
Além
das emendas, dados do Portal da Transparência apontam que a empreiteira mantém
três contratos ativos com o governo federal e outros três cujos prazos de
vigência se encerraram neste ano. Juntos, eles somam ao todo mais de R$ 370
milhões em acordos assinados com o próprio DNIT e com o Ministério da Educação,
por meio da Universidade de Brasília, a UNB.
O
interesse de Santos por Goiás – estado que Gayer pretende representar no Senado
– não é apenas ideológico, mas também financeiro. Documentos da prefeitura de
Goiânia revelam que, no final de 2025, o empresário tentou abocanhar um
contrato milionário na capital. Ele até apresentou uma das propostas mais
vantajosas, mas a Gonçalves & Dias Engenharia acabou inabilitada por falhas
na documentação.
No caso
de Canaã dos Carajás, o avanço das investigações corre o risco de acabar na
gaveta. A defesa do empresário recorreu ao Superior Tribunal de Justiça, o STJ,
pedindo a anulação do processo sob a alegação de violação ao princípio do
promotor natural – ou seja, questionando a legalidade da distribuição do caso
dentro do MPPA.
Em 24
de março de 2026, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca rejeitou o pedido, mas
acabou mudando de ideia após um novo apelo da defesa. Em 12 de junho, de forma
monocrática, Fonseca acolheu a solicitação e trancou o processo.
O MPPA
e o Ministério Público Federal, o MPF, estão recorrendo da decisão. O Conselho
Nacional de Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União, o
CNPG, endossou o recurso emitindo uma nota técnica em favor da legitimidade da
investigação. Fonseca chegou a pautar o tema em duas sessões plenárias, de onde
poderia sair uma decisão definitiva, mas o próprio ministro acabou por retirar
o caso da fila de julgamentos.
Para o
MPPA, a anulação da investigação pode criar um precedente perigoso. Em nota ao
Intercept Brasil, a promotoria alertou que a decisão “terá efeitos de alcance
imprevisível”, podendo anular inúmeras investigações de combate ao crime
organizado no país.
O MPPA
criticou ainda o uso de um habeas corpus para definir uma questão complexa, já
que esse tipo de ação não admite ampla produção de provas e limita os recursos
de acusação.
Enquanto
o STJ não decide se o processo volta a andar ou será engavetado, Gayer entra na
reta final de sua campanha amparado, em grande parte, pelo dinheiro de um
empresário no centro de uma denúncia de corrupção.
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Outro lado
Em
nota, a defesa de Santos e das empresas RGS e Gonçalves & Dias Engenharia
classificou as acusações do MPPA como “completamente improcedentes”. A defesa
afirma que o STJ anulou o processo ao reconhecer a ilegalidade da investigação
do Gaeco, provando que o empresário “não deve nada à Justiça”.
Sobre
as doações de R$ 417 mil a Gustavo Gayer, Santos alegou “alinhamento
político-ideológico”, negando vínculos comerciais. Em relação aos R$ 6,5
milhões recebidos do DNIT em Rondônia, atestou a legalidade e a qualidade das
obras. Já a inabilitação em Goiânia foi descrita como um procedimento
“corriqueiro”, aceito pela empresa por desinteresse na disputa.
Já os
advogados de Gustavo Gayer declararam que a decisão do STJ é um “fato judicial
decisivo” a favor do empresário. A defesa do candidato negou proximidade
pessoal dele com Santos – bem como com os outros 110 doadores da campanha – e
afirmou que o político desconhecia o interesse da empresa em contratos em
Goiás. Questionado sobre eventuais conflitos éticos, Gayer declarou não ver
incompatibilidade entre combater o crime organizado, respeitar garantias
constitucionais e acatar decisões judiciais.
A
assessoria do STJ esclareceu que a anulação do processo ainda não transitou em
julgado e aguarda a análise, em plenário, de recursos do MPPA e do MPF.
Acrescenta que eventuais desdobramentos da decisão em outras investigações
dependerão da análise dos elementos de cada caso.
Em
nota, a Procuradoria-Geral de Canaã dos Carajás afirmou que a gestão municipal
é “vítima do esquema” e que seus gestores não são alvos de investigação.
Segundo a prefeitura, a anulação de provas pelo STJ inviabiliza o cancelamento
jurídico dos contratos, mas apurações administrativas internas foram abertas em
postura colaborativa com o MPPA e a Justiça.
O
Ministério da Educação informou não ter contrato com a Gonçalves & Dias e
ressaltou que as universidades federais possuem autonomia para licitações.
Procurada, a UnB não se manifestou. Já o Ministério dos Transportes e o DNIT
afirmaram, em conjunto, não ter registros de irregularidades envolvendo a
empresa, que integra um consórcio para obras na BR-364 até 2026. A pasta
confirmou o uso de emendas de bancada, ressaltou que a origem do recurso não
altera as regras de fiscalização e prometeu adotar providências caso seja
formalmente notificada de ilícitos.
Fonte:
Por Vinícius Madureira, em The Intercept

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