Ideologia,
identidade e voto: a direita indígena na Amazônia Legal
A
presença de candidaturas indígenas no espectro da direita política desafia a
ideia simplista de que a identidade originária determina, por si só, um
posicionamento ideológico. Na Amazônia Legal, os dados eleitorais revelam um
movimento complexo, menos linear do que se costuma supor, guiado por
trajetórias pessoais, buscas por espaço partidário e visões divergentes sobre
desenvolvimento e autonomia territorial.
A
Amazônia Legal segue como o principal território das candidaturas indígenas
brasileiras e lidera tanto as eleições municipais quanto as eleições gerais. Os
dados mostram que a região não apenas reúne a maior população indígena do país,
mas também concentra a maior mobilização política institucional entre os
indígenas.
Nas
eleições municipais de 2024, os nove estados da Amazônia Legal registraram
1.277 candidaturas indígenas, o equivalente a 49,5% de todas as candidaturas
indígenas do Brasil. Em outras palavras, praticamente uma em cada duas pessoas
indígenas que disputaram cargos públicos estava na Amazônia.
Já nas
eleições gerais de 2026, a liderança permanece. A Amazônia Legal reúne 80 das
192 candidaturas indígenas registradas para os cargos de deputado estadual,
deputado federal, senador e governador, representando 41,7% do total nacional.
Apesar do crescimento de candidaturas em estados fora do bioma, nenhuma outra
região alcança o mesmo volume de representações.
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O cenário eleitoral: a diferença entre disputas municipais e gerais
Nas
eleições municipais de 2024, a direita assumiu a liderança na preferência
partidária entre as candidaturas indígenas autodeclaradas no Brasil.
Impulsionadas pelo pragmatismo da política local e pela busca de alianças que
garantam governabilidade e investimentos imediatos em infraestrutura nos
municípios, 1.112 candidaturas filiaram-se a legendas de direita e
centro-direita, representando 43,1% do total de postulantes indígenas.
A
adesão deu-se maioritariamente em partidos de grande capilaridade regional, com
destaque para o PP (186 candidatos), Republicanos (181), União Brasil (177),
PSD (153), Podemos (110) e PL (93). A concentração geográfica esteve focada em
estados com forte presença comunitária e disputas locais acirradas, liderados
por: Amazonas (288), Bahia (81), Mato Grosso do Sul (80), Mato Grosso (73) e
Pernambuco (70).
No
cenário nacional e estadual de 2026, a presença da direita entre as lideranças
indígenas sofre uma retração proporcional acentuada. Dos 192 registos
autodeclarados no TSE, a direita responde por 51 candidaturas (26,6%), perdendo
o posto de maior espectro para a esquerda, que passa a concentrar 63,5% do
total.
As 51
candidaturas de direita em 2026 estão distribuídas principalmente entre o NOVO
(10 candidatos), DC (10), PL (8), PSD (7) e AGIR (5). Os estados com maior
número de postulantes são Roraima (5), Mato Grosso do Sul (5), Amazonas (4) e
Bahia (4).
A
mudança de comportamento evidencia a dualidade do eleitorado e das lideranças
indígenas: no âmbito municipal, o alinhamento com legendas conservadoras é
moldado pela necessidade de pontes com o poder local; já na esfera federal e
estadual, a pauta da representação indígena reorienta-se para a defesa de
direitos territoriais e ambientais.
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Protagonismo da Amazônia Legal
O
protagonismo amazônico é impulsionado principalmente por Amazonas, Roraima e
Pará, estados que concentram grande diversidade de povos indígenas, extensas
Terras Indígenas e organizações historicamente articuladas na defesa de
direitos coletivos.
Mais do
que um dado demográfico, a concentração de candidaturas revela uma resposta
política aos conflitos que atravessam a Amazônia. É justamente no bioma mais
pressionado pelo avanço do agronegócio, do garimpo, da exploração madeireira e
das disputas fundiárias que cresce a presença indígena nas urnas, transformando
a ocupação de câmaras municipais, assembleias legislativas e do Congresso em
uma estratégia de defesa territorial e de incidência sobre políticas públicas.
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A trajetória de Ray Kleber: entre a busca por espaço e o discurso de centro
Para
Ray Kleber, 33 anos, a motivação para ingressar na política nasceu do desejo de combater as
desigualdades vivenciadas em sua própria
história. Indígena do povo Macuxi, nascido em Boa Vista, Roraima, Ray mudou-se
aos seis anos para a Comunidade Indígena do Cedro, na Terra Indígena Raposa
Serra do Sol, município de Normandia.
Diante
das carências estruturais do seu território, ele aponta a precariedade da
educação pública como uma das principais falhas do estado. Estudos sobre a
educação escolar indígena entre 2000 e 2019 indicam avanços importantes na
formação docente e no acesso ao ensino superior durante as gestões do Partido
dos Trabalhadores, embora especialistas ressaltem a falta de reformas
estruturais de longo prazo. Por outro lado, gestões como as de Michel Temer e
Jair Bolsonaro são frequentemente associadas a contingenciamentos orçamentários
e retrocessos institucionais na área.
A
precariedade forçou Ray a deixar a aldeia para dar continuidade aos estudos. “A
gente não passou fome, porque a minha mãe mandou dinheiro do garimpo”, conta. O
dinheiro do garimpo ajudou a criar Ray e seus seis irmãos e ainda, pagou a sua
primeira graduação.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Aos 19,
disputou sua primeira eleição para vereador em Boa Vista, em 2012, pelo
Republicanos. Tentou novamente em 2020 e 2024, desta vez filiado à Rede
Sustentabilidade, de alinhamento à esquerda, mas não obteve êxito, mesmo tendo
recebido consideráveis recursos: suas campanhas, somadas, declararam
arrecadação de 143 mil reais.
Ele diz
que a transição para o Podemos, no final de 2025, ocorreu em busca de uma
legenda que oferecesse maior suporte e viabilidade eleitoral para sua
pré-candidatura a deputado federal em 2026.
“A
gente quando começa a sonhar entrar na política, parece que ela pisa um pouco
mais na gente. Na verdade, eu acho que as pessoas que já estão no poder, não
querem que a gente entre lá”, desabafa. Foi então que o candidato resolveu se
filiar ao Podemos, em busca de conseguir mais investimentos para a campanha.
Para as
eleições de 2026, Ray Kleber recebeu aproximadamente 500 mil reais do fundo
partidário. “Eu fui para o Podemos para ter um espaço que eu não tinha antes.
“Eu entendi que precisava estar num partido maior para ter mais condição para
disputar uma eleição”, declarou.
Partidos
como Podemos e Republicanos sustentam pautas predominantemente conservadoras e
votaram favoravelmente a propostas como a tese do Marco Temporal —, aprovada no
Congresso e atualmente sob julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Em
2022, apesar de filiado à Rede, Ray votou em Jair Bolsonaro, justificando a
escolha pela agenda econômica do ex-ministro Paulo Guedes.
Ray
define seu posicionamento como de “centro”, defendendo propostas como o
fortalecimento da agricultura familiar, o incentivo ao esporte para jovens e
parcerias público-privadas. “Sempre vou defender menos Estado em alguns
aspectos. Por exemplo, andei numa estrada em Pernambuco que é privatizada e bem
cuidada. O Estado tem que continuar fazendo parte, talvez numa proporção de
50%. Esse é o caminho para mim”, afirma.
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Ysani Kalapalo: ativismo digital, empreendedorismo e aliança com o bolsonarismo
Ysani
Kalapalo, de 35 anos, prefere ressaltar suas origens no Parque do Xingu e sua
ancestralidade vinculada a quatro etnias (Kalapalo, Matipu, Nafukuá e Aweti).
Ativista desde a adolescência, ela iniciou sua presença pública em 2008 no
Orkut, combatendo o preconceito e afirmando a presença indígena nos espaços
digitais e urbanos.
Sua
trajetória inclui a participação nos protestos contra a construção da Usina
Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará —, empreendimento licenciado durante as
gestões do PT e que enfrentou intensas disputas judiciais sobre os impactos nas
comunidades locais e o descumprimento da Convenção 169 da OIT.
Diferentemente
de grande parte do movimento indígena tradicional, Ysani aproximou-se do
pensamento conservador e liberal. “Eu não mudei; já era de direita”, sustenta.
Segundo ela, em 2017 ficou claro que suas bandeiras sobre liberdade produtiva e
empreendedorismo nas aldeias convergiam com o ideário da direita.
“Me
identifiquei principalmente com o Bolsonaro, pregando os princípios da direita.
Falei: ‘Essa é a minha luta’. Mas sempre fui uma ativista que se indignava com
qualquer tipo de injustiça”, explica.
Candidata
a deputada federal pelo partido Agir no Mato Grosso, Ysani defende que o modelo
de gestão das terras indígenas precisa garantir maior autonomia econômica para
que as comunidades possam produzir, acessar crédito e explorar recursos de
forma sustentável, reduzindo a dependência de programas assistenciais. Com um
financiamento de campanha de cerca de 11 mil reais, Ysani está filiada a um
partido isolado, ou seja, sem qualquer composição de coligação.
Sua
proximidade com Jair Bolsonaro consolidou-se em 2018. Mesmo com dados que
apontam o aumento do desmatamento na Bacia do Xingu no período de 2019 a 2022,
Ysani mantém a defesa da autonomia econômica como o caminho para o
fortalecimento dos povos originários. Com mais de 380 mil seguidores no
Instagram sob o slogan “Minha tribo é o Brasil”, ela utiliza as redes para
aproximar a pauta indígena do público geral.
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Movimento indígena, pragmatismo partidário e os desafios da representatividade
Desde
2018, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Apib, coordena a “Campanha
Indígena”, criada para ampliar a presença dos povos originários na política
institucional. A plataforma atua no fortalecimento de lideranças e na cobrança
pelo cumprimento do financiamento proporcional de campanha determinado pelo
TSE.
Contudo,
a Apib não inclui candidaturas filiadas a partidos de direita ou
extrema-direita. Segundo Dinamam Tuxá, coordenador executivo da entidade,
embora alguns candidatos de direita possam defender pautas pontuais como a
demarcação, o modelo de desenvolvimento proposto por essas legendas diverge dos
princípios do movimento indígena organizado.
“Os
partidos políticos geralmente questionam as candidaturas indígenas e não querem
fazer os devidos investimentos por acreditar que são candidaturas que não terão
voto”, afirma. Segundo ele, esse cenário começa a mudar quando candidaturas
como as de Joenia Wapichana, atualmente candidata a deputada federal pelo
Partido dos Trabalhadores (PT), Sonia Guajajara e Célia Xakriabá, ambas
candidatas a deputadas federais pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol),
conseguem se eleger.
Por
outro lado, especialistas destacam o caráter pragmático do sistema partidário
brasileiro. “A gente não escolhe um
partido por identificação ideológica para competir. A gente escolhe um partido
pelas chances reais de ganhar uma eleição”, explica Carlos Augusto, professor
de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará.
O
professor também chama atenção para outro limite dos dados: o TSE classifica
como indígena quem se autodeclara dessa forma. A categoria, portanto, reúne
tanto pessoas vinculadas a comunidades e povos específicos quanto aquelas que
reivindicam a identidade indígena por ancestralidade ou práticas culturais, sem
necessariamente manter vínculo com uma comunidade organizada.
A
presença dessas candidaturas, porém, revela que a identidade indígena não
determina, sozinha, uma posição política — e que diferentes visões sobre
Estado, economia, território e desenvolvimento também atravessam a disputa
eleitoral.
Fonte:
Por Leandra Souza e Hellen Lirtêz, em The Intercept

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