Como
a imprensa russa vê a eleição brasileira - e o que isso revela sobre a forma
como governo Putin enxerga o Brasil
Um
importante aliado do Sul Global em oposição às potências ocidentais, um
possível parceiro econômico para contornar sanções relacionadas à guerra da
Ucrânia e um importante mercado para exportações russas.
É assim
que o Brasil vem sendo retratado em coberturas na imprensa russa — nas vésperas
da eleição que será realizada em primeiro turno no próximo domingo (4/10).
Para o
analista de Mídia da Rússia da BBC Monitoring, o jornalista Vitaly Shevchenko,
a eleição brasileira vem ganhando pouco destaque na imprensa russa. Segundo
ele, até o momento, o pleito não foi notícia em nenhum grande telejornal do
país. A grande maioria dos russos se informa pela televisão.
A BBC
Monitoring é uma divisão especializada da BBC que monitora, traduz e analisa
mais de 3 mil veículos em mais de 150 países e 100 línguas. Shevchenko monitora
a mídia russa e produz relatórios de análise.
Na
avaliação de Shevchenko, o fato de a imprensa russa ser amplamente controlada
pelo Kremlin e de haver pouca cobertura sobre a eleição brasileira indica que o
governo russo não está interessado em se manifestar sobre o pleito.
"Eu
imagino que existam departamentos nas entranhas do Ministério das Relações
Exteriores, da inteligência externa ou algo do gênero, preparando relatórios
sobre qual candidato traria mais benefícios à Rússia", disse Shevchenko à
BBC News Brasil.
"A
ausência de ampla repercussão na mídia sobre as eleições brasileiras sinaliza
apenas uma coisa: o Kremlin não tem interesse em que o público, dentro e fora
da Rússia, tome conhecimento da sua visão sobre o pleito."
"Mas
isso não significa que eles não tenham opiniões."
A
cobertura da imprensa russa está voltada na sua maioria para o conflito na
Ucrânia — e o fato de o Brasil ter pouco envolvimento com a guerra contribui
para o pouco espaço dado ao pleito brasileiro na imprensa russa.
Mas o
analista da BBC Monitoring afirma que, apesar disso, o Brasil ocupa uma posição
dentro da política internacional de Vladimir Putin.
"O
Brasil é importante por causa do Brics. E, há anos — talvez décadas —, Putin
vem tentando promover a ideia de que a antiga ordem mundial, dominada pelo que
a máquina de mídia do Kremlin gosta de chamar de 'anglo-saxões', chegou ao
fim", diz Shevchenko.
"O
que a está substituindo é o que eles gostam de chamar de Sul Global — alianças
como o Brics, do qual o Brasil é membro."
Famil
Ismailov, editor da BBC News Russia (o serviço de notícias em russo da BBC),
diz que analistas russo vêem a corrida eleitoral brasileira como muito apertada
e não indicam um favorito — mas que qualquer que seja o vencedor, provavelmente
não haverá grandes mudanças nas relações entre Brasil e Rússia.
"O
Brasil precisa dos fertilizantes e do diesel russos, e a Rússia precisa da
carne, da soja e do café brasileiros. Não houve nenhum apoio visível a nenhum
dos dois candidatos por parte das autoridades russas. Seja quem for o próximo
presidente, o Kremlin parece estar satisfeito", diz Ismailov.
Ainda
assim, diferentes jornais — todos ligados de alguma forma ao Kremlin, já que a
Rússia é um dos países com menor liberdade de imprensa do mundo (veja mais
abaixo) — vêm noticiando alguns aspectos da eleição brasileira recentemente.
O
jornal financeiro Vedomosti cita analistas que dizem que a Rússia "se
sentirá confortável" interagindo tanto com Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
como Flávio Bolsonaro (PL) — os dois candidatos que lideram as intenções de
voto, como mostra o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
O
jornal sugere, no entanto, que a Rússia estaria "um pouco mais
confortável" com Lula, dado que Flávio Bolsonaro possui maior ligação com
Washington e pode vir a afastar o Brasil dos Brics.
O
jornal oficial do Kremlin, o Rossiyskaya Gazeta, afirma que as eleições estão
bastante indefinidas e provavelmente serão decididas no segundo turno. Uma
reportagem afirma que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro foram afetados pelo
escândalo do Banco Master — e que ambos representam propostas muito distintas
para o futuro da economia brasileira.
Já o
jornal Izvestia, ligado a aliados do presidente Vladimir Putin, afirma que uma
vitória de Lula poderia facilitar um projeto de aumentar as transações
comerciais entre Brasil e Rússia nas moedas nacionais (real e rublo) — algo que
potencialmente ajudaria Moscou a contornar sanções ocidentais.
Confira
abaixo como a imprensa russa está cobrindo o pleito.
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Ajuda do Brasil para contornar sanções
Uma
longa reportagem no sábado (26/09) do jornal Izvestia — que é controlado por
aliados do presidente Vladimir Putin — destaca a importância da eleição
brasileira para os interesses econômicos russos, em um momento em que o país
sofre sanções pesadas do Ocidente por causa da invasão da Ucrânia.
O
Izvestia noticiou que o Brasil e Rússia querem expandir o seu comércio em suas
moedas (real e rublo), hoje limitado a apenas 10% das transações. Segundo o
Izvestia, quem manifestou interesse nessa expansão foi o embaixador brasileiro
na Rússia, Sergio Rodrigues dos Santos.
"A
ideia de expandir o comércio em moedas nacionais parece uma continuação lógica
da atual política econômica da Rússia e do Brasil: ambos os lados querem tornar
os pagamentos mais baratos, mais estáveis e menos dependentes da infraestrutura
cambial externa", afirma a reportagem do Izvestia.
O
objetivo seria favorecer as trocas de produtos agrícolas entre os dois países.
A Rússia é o maior fornecedor de fertilizantes minerais ao Brasil.
Segundo
a reportagem, a Rússia tem interesse de aumentar transações em rublos e reais
para contornar sanções internacionais que o país sofre por causa da guerra na
Ucrânia. E esse modelo já estaria em funcionamento entre a Rússia e outros
países dos Brics, como China e Índia.
"A
transição para moedas nacionais ajuda a Rússia a proteger seu comércio das
sanções ocidentais: esses pagamentos são diretos e não podem ser bloqueados por
bancos americanos ou europeus", diz a reportagem.
"O
abandono do dólar e do euro permite que as transações contornem o sistema SWIFT
e os bancos correspondentes americanos, eliminando o risco de congelamento de
fundos. Esse modelo já está funcionando com grande sucesso com outros parceiros
dos Brics: as liquidações com a China foram quase totalmente (99%) convertidas
para rublos e yuans, enquanto a participação do dólar e do euro no comércio com
a Índia diminuiu drasticamente."
O
obstáculo para transações nas moedas nacionais é que os exportadores russos
receberiam pagamentos em reais — e não teriam onde gastar a moeda brasileira.
"Esse
problema pode ser resolvido utilizando os planos que a Rússia já elaborou com a
Índia. A Rússia poderia investir seu excedente de reais diretamente no Brasil —
por exemplo, em logística portuária local ou na agricultura. Outra opção é
expandir as compras: o país é conhecido não apenas pela soja, mas também por
sua avançada indústria de engenharia mecânica, incluindo a produção de
aeronaves Embraer e autopeças", afirma o jornal russo.
"Por
fim, a moeda brasileira acumulada poderia ser usada para pagar países terceiros
(por exemplo, China ou Emirados Árabes Unidos), que têm grandes projetos na
América Latina e necessitam de reais."
O
futuro desse projeto de uso de reais e rublos em transações depende também das
eleições brasileiras, segundo o jornal russo.
"O
atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, defende o fortalecimento dos
BRICS, a cooperação com os países do Sul Global e a transição para moedas
nacionais. Seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro, por outro
lado, está focado na reaproximação com os Estados Unidos", afirma a
reportagem.
O
jornal destaca uma declaração dada por Flávio Bolsonaro em junho de que, se for
eleito, vai reavaliar "no seu primeiro dia na cadeira de presidente"
se o Brasil deve ficar nos BRICS — "um bloco que é muito ideológico, usado
para provocar os EUA". No entanto, o programa de governo do candidato do
PL não faz menção ao bloco.
"Uma
possível mudança de poder em Brasília poderia congelar completamente as
negociações sobre a transição para o rublo e o real", afirma o Izvestia.
"Mesmo
que o Brasil reduza seu interesse no BRICS após as eleições, a tendência de
desdolarização do bloco global continuará. Rússia, China e Índia, que respondem
pela maior parte do comércio intrabloco, permanecem os principais motores
econômicos desse processo."
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Vorcaro: 'trunfo e problema' para Lula e Flávio Bolsonaro
O
jornal Rossiyskaya Gazeta — jornal oficial do Kremlin — destacou que as
eleições estão bastante acirradas no Brasil e que ainda não se sabe "para
onde afinal penderá o pêndulo do humor do eleitorado brasileiro".
"Os
dados mais recentes das pesquisas de opinião mostram uma situação praticamente
de empate técnico entre os candidatos", diz o jornal russo.
A
reportagem destaca que até recentemente Lula vinha liderando as pesquisas de
opinião, sobretudo após a divulgação do escândalo Dark Horse em maio, que
afetou a intenção de voto em Flávio Bolsonaro.
"Parecia
que tudo corria da melhor forma possível para Lula", diz o Rossiyskaya
Gazeta. Mas então, segundo o jornal, os desdobramentos do escândalo do Banco
Master passaram a afetar também o presidente — primeiro com a citação do líder
do governo no Senado, Jacques Wagner, e depois com as menções ao ministro do
STF Alexandre de Moraes no caso.
O
jornal destaca que Alexandre de Moraes é visto como um antagonista aos
Bolsonaro — e que seu desgaste acaba afetando também a intenção de voto em
Lula.
O
jornal compara o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, a Ostap Bender, um
trapaceiro fictício de livros da era soviética, famoso por golpes elaborados e
por seu carisma.
"No
fim, ele [Vorcaro] acabou se tornando simultaneamente um trunfo e um problema
tanto para Lula quanto para Bolsonaro. De qualquer modo, até o momento, Flávio
alcançou o adversário e, segundo algumas pesquisas, até o ultrapassou em um
provável segundo turno, cuja realização parece cada vez mais provável."
Segundo
os dados do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Flávio aparece à frente
de Lula em um eventual segundo turno.
O
Rossiyskaya Gazeta afirma que Lula e Flávio Bolsonaro propõem modelos
econômicos bastante distintos à população.
Sobre
Lula, o jornal diz que ele "aposta na manutenção do atual arcabouço fiscal
combinada com o aumento dos investimentos públicos, projetos de infraestrutura,
política industrial, programas sociais e novos aumentos do salário
mínimo".
"Para
conquistar votos adicionais, em setembro ele adotou uma medida social de grande
impacto: anunciou a elevação do valor mínimo do Bolsa Família de R$ 600 para R$
691 por mês, um aumento de aproximadamente 15%. Além disso, o presidente apoia
o fim da jornada de seis dias de trabalho com apenas um dia de descanso,
defendendo uma semana de trabalho mais curta."
Sobre
Flávio Bolsonaro, o Rossiyskaya Gazeta diz que ele "propõe reduzir os
gastos com a máquina pública, criar um novo teto de gastos mais restritivo e
retomar a privatização de empresas estatais".
"O
candidato defende a diminuição da carga tributária, especialmente sobre o setor
de energia, e promete endurecer significativamente o combate ao crime
organizado e ao tráfico de drogas", diz o texto.
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Rússia 'mais confortável' com Lula
Uma
longa reportagem do jornal Vedomosti publicada em julho afirma que "a
eleição presidencial brasileira está se tornando um ponto de convergência para
os interesses de outros países" e que a Rússia "está um pouco mais
confortável com o atual presidente do país".
O
Vedomosti foi fundado nos anos 1990 por grupos de mídia ocidentais — incluindo
participação do grupo Dow Jones, que publica o americano Wall Street Journal —
e já foi uma das publicações independentes mais influentes sobre economia
russa, mas em 2020 acabou vendido a aliados de Vladimir Putin.
A
reportagem ouve analistas de consultorias políticas. Um dos analistas afirma
que "qualquer um dos dois candidatos que se torne presidente, a Rússia se
sentirá confortável interagindo com ele". Já outro aponta que, caso
Bolsonaro vença, "devemos esperar um endurecimento da retórica em relação
à Rússia e à China".
"Ao
que tudo indica, embora Flávio Bolsonaro mantenha relações econômicas com
Moscou e Pequim, retórica e ideologicamente ele se inclinará cada vez mais para
Washington do que seu pai", afirma a reportagem do Vedomosti.
"Nesse
contexto, Flávio Bolsonaro poderá aumentar a pressão sobre os instrumentos
tradicionais de soft power da China, como os Institutos Confúcio no Brasil.
Além disso, Flávio Bolsonaro será menos ativo na cooperação com o Brics — uma
continuação lógica da abordagem de seu pai."
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Brasil frustra nova Doutrina Monroe, diz jornal comunista
Um dos
jornais que dedicou espaço maior à eleição brasileira foi o Pravda, lendária
publicação que já foi a mais importante do país na era da União Soviética. O
jornal ainda existe e é ligado ao Partido Comunista da Rússia — no entanto, é
pouco lido e sem influência no país, segundo analistas de mídia.
O
Pravda afirma que "o Brasil está frustrando os objetivos dos EUA de
implementar integralmente a nova versão da Doutrina Monroe".
"As
eleições de outubro estão sendo usadas para restaurar a complacência política.
Ameaças, chantagens e manipulação estão sendo empregadas", diz o jornal.
"Muita
coisa foi feita desde o retorno dos republicanos [à Casa Branca]. Fantoches da
Casa Branca chegaram ao poder no Chile, na Colômbia, no Peru e em Honduras.
Trump, cinicamente (e, infelizmente, não sem razão), chama a Venezuela de 'o
51º estado dos EUA'. Cuba definha sob o peso de um bloqueio, sem apoio externo
efetivo."
"No
entanto, os planos mais ousados de Washington não se realizarão enquanto o
Brasil permanecer fora de sua influência. O país, que representa um terço da
população da América Latina e 43% do território da região, segue uma política
independente. Isso basta para colocá-lo na lista de inimigos dos EUA."
O
Pravda diz que o governo de Lula "não precisa recorrer a discursos de ódio
e mentiras" e que "em menos de quatro anos, mais de 28 milhões de
pessoas saíram da pobreza".
Já
sobre o candidato do PL, a publicação comunista diz que "todas as forças
da reação, tanto interna quanto internacional, estão sendo mobilizadas na luta
pela vitória de Flávio Bolsonaro" e que "a direita tem pouco a
mostrar em termos de resultados".
"Sua
plataforma se baseia em clichês sobre o combate ao crime", afirma o
Pravda.
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Rússia e liberdade de imprensa
A
Rússia é o 9º pior colocado em um ranking de 180 países sobre liberdade de
imprensa no mundo, publicado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
O país
está a frente de países como Afeganistão, Arábia Saudita, Irã, China e Coreia
do Norte — mas atrás de Cuba, Venezuela e Iraque. Nesse ranking, que é liderado
pela Noruega, o Brasil ocupa a 52ª posição e os EUA, a 64ª.
A RSF
destaca que a liberdade de imprensa se deteriorou na Rússia depois da invasão
da Ucrânia em 2022 — com quase a totalidade dos órgãos independentes hoje
banidos, bloqueados ou declarados "agentes estrangeiros" (o que impõe
restrições burocráticas a empresas) ou "organizações indesejadas" (o
que criminaliza os veículos).
Todos
os canais de TV independentes de propriedade privada são banidos, com exceção
dos canais de entretenimento a cabo.
Muitos
veículos de mídia ocidentais — como BBC, Euronews e France 24 e BBC — não estão
mais acessíveis no país.
O órgão
regulador de mídia russa, Roskomnadzor, censurou a maioria dos sites de
notícias independentes: os mais populares, como Meduza e TV Rain, foram
declarados "organizações indesejáveis". Segundo a RSF, quem cita
esses veículos pode ser processado no país.
"Os
demais veículos de mídia pertencem ao Estado ou a aliados do Kremlin. Seus
funcionários devem seguir ordens do gabinete presidencial sobre assuntos a
serem evitados e praticar uma rigorosa autocensura. As estações de rádio estão
na mesma situação", afirma relatório da RSF.
Jornalistas
têm sido cada vez mais indiciados por "extremismo" ou por
"compactuar com o terrorismo", segundo a organização. A RSF diz que o
governo russo usa penas severas, multas, detenções de curta duração e até mesmo
tortura para intimidar jornalistas.
A
organização afirma que nem mesmo jornalistas russos no exílio estão seguros.
"Diante
de riscos adicionais surgidos desde o início da guerra na Ucrânia, muitos
jornalistas que trabalham para veículos de mídia independentes optaram pelo
exílio. As autoridades mantêm a pressão ao 'visitar' familiares ou ao
condená-los à revelia", afirma a RSF.
Fonte:
BBC News Brasil

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