As
propostas de Flávio para os trabalhadores
O
projeto do Flávio reúne uma busca de saída para as muitas crises brasileiras –
ambiental, política, social, econômica e de projeto nacional – pela via
reacionária e conservadora. Esta “solução” está sempre baseada em medidas de
força, com traços do anticomunismo, temperados com o respaldo da correlação de
forças internacional e o apoio das diversas correntes de ultradireita. O
projeto é expresso nas propostas e também em figuras para além do Flávio
Bolsonaro. O coordenador da campanha, deputado Rogério Marinho (PL-RN) foi o
relator da “reforma” trabalhista na Câmara, o maior ataque aos direitos
trabalhistas da nossa história,. Foi também o secretário especial de
Previdência e Trabalho do ultraliberal Paulo Guedes, à frente da revisão das
normas de saúde e segurança.
A
ameaça é consistente. Ela está na capacidade de reunir um conjunto de ideias,
teses e supostas saídas de interesse de uma minoria – a classe dominante
brasileira – e de seus sócios minoritários. O projeto expressa, portanto, o
interesse e desejo de um campo político muito claro. Isso não é uma novidade:
em todos os períodos históricos, as classes dominantes, sempre diminutas,
buscaram construir projetos em que seus valores, projetos, propostas e
interesses específicos fossem tratados como projetos gerais e do conjunto da
sociedade. O ensaio desse projeto fracassou por vários fatores ao longo da
história. Mas persiste. Após a derrota em 2022, tentou o caminho do golpe e foi
derrotado; passou um período rastejante, mas conseguiu resgatar o vigor e a
iniciativa política. E chega ao pleito com capacidade de disputa real. E isso
é, para uma ampla maioria da sociedade, uma grande ameaça, um risco, um perigo
real. Nossa conta é sobre o projeto que sairá das urnas nos próximos dias e seu
impacto no Brasil.
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Os perigos para quem vive do trabalho
As
classes dominantes brasileiras não aceitaram a abolição, torceram o nariz para
Getúlio Vargas e a CLT, deram golpe no projeto democrático do Jango e um novo
na presidenta Dilma. Atacam a Constituição de 1988 nos pontos com conteúdo
social e protetivo. E combateram todas as mudanças na legislação trabalhista
favoráveis aos trabalhadores/as desde o 13 de maio. Não deixam de verbalizar
isso diuturnamente. O que querem é impor aos trabalhadores/as brasileiros o
império do liberalismo, ou seja, cada um negocia como pode e quer. O caminho
será reduzir o emprego com registro a uma faixa diminuta dos trabalhadores.
Restará aos demais sobreviver como pessoa jurídica, em aplicativos ou outros
sistemas de relações de trabalho, até chegar às condições análogas à escravização
e outras formas degradantes. A luta histórica pela redução da jornada de 44
para 40 horas e a recente luta pelo direito ao tempo livre com a campanha
vitoriosa contra a escala 6×1 seriam a pauta prioritária desse projeto. O que
seus defensores querem não é somente enterrar essa proposta, mas também
aproveitar para ampliar a selvageria com formas ainda mais intensas de
exploração e controle da vida de quem vive do trabalho. A desregulamentação do
sistema celetista e a derrota da luta pelo fim da escala 6×1 serão os objetivos
principais no curto prazo. A luta contra a 6×1 está travada no Senado. A PEC
foi aprovada na Câmara em 27 de maio de 2026: jornada máxima de 40 horas, cinco
dias de trabalho e dois de descanso, sem redução de salário, com transição de
14 meses. Passou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em 2 de
setembro, com votos contrários de Rogério Marinho e Jaime Bagattoli, ambos do
PL; Marinho pediu vista depois de quase cinco horas de debate. No mesmo dia, a
oposição esvaziou o plenário e o presidente da casa, David Alcolumbre, não
pautou a votação, por falta de garantia dos 49 votos necessários para
aprová-la. O líder do governo, Randolfe Rodrigues, apontou o responsável por
isso: “Houve um movimento bem-sucedido da oposição, liderado pelo senador
Flávio, liderado pelo líder da oposição, senador Rogério Marinho (…) A oposição
ao nosso governo é contra o fim da escala 6×1. Ponto”.
Flávio
não escondeu o motivo. Em nota de 19 de maio de 2026, chamou a CLT de
legislação “de uma época em que não existia internet, home office, aplicativos
de entrega e aplicativos de transporte”. Afirmou que a PEC da 6×1 “vai gerar
desemprego em massa, aumento no custo de vida e prejudicar mais os
trabalhadores do que ajudar” e apresentou a alternativa do PL: “A jornada do
trabalhador tem que ser a que ele quiser, com liberdade, flexibilidade e todos
os direitos trabalhistas garantidos”. Garantidos? O candidato explicou: serão
pagos na forma de remuneração “pelas horas de trabalho”, com 13º, FGTS e férias
“proporcionais às horas”. “Se quiserem, vão trabalhar mais!” Em 30 de agosto
voltou ao tema: vai trabalhar “para que o trabalhador brasileiro possa escolher
a sua própria carga horária”, e citou a mulher que “pode trabalhar só quatro
horas por dia porque não tem com quem deixar os seus filhos”. Os ultraliberais
não conseguem esconder os dentes. É o velho argumento de que direito é custo e
de que liberdade é o trabalhador negociar sozinho, como sempre repetiu Jair,
que, logo após eleito em 2018, fez um “alerta” ao Brasil: “ou se continua com
todos os direitos e o desemprego ou temos menos direitos e empregos”. Quem está
na 6×1 sabe do que se trata: 14,8 milhões de pessoas, um em cada três ocupados,
concentradas no comércio, na alimentação, na hospedagem e no transporte,
segundo o Dieese. A proposta de pagar por hora e proporcionalizar direitos não
é redução de jornada: é a porta do contrato de zero horas, em que o tempo do
trabalhador fica inteiramente à disposição do empregador e o salário do mês
deixa de existir como referência.
Mas o
ataque não para aí. O plano de governo registrado no TSE tem um capítulo
genérico, “Brasil que Prospera”, que promete “permitir que trabalhador e
empresa combinem diretamente as condições de trabalho que funcionam para os
dois, dentro da lei, em vez de seguir uma regra única”. A prevalência do
negociado sobre o legislado, sonhada por eles, é sem o sindicato, numa regra do
mais puro liberalismo, que não funcionou em lugar algum do mundo, exceto para
amplificar a exploração do trabalho. Promete “reduzir gradualmente o custo do
trabalho”, com o argumento de que “o custo de um trabalhador formal chega a
cerca de duas vezes o salário que ele leva para casa”. Promete um “contrato de
trabalho para os 18 a 24 anos em busca do primeiro emprego, com menor custo na
folha” e um “contrato mais atrativo” para maiores de 50 anos desempregados há
mais de um ano. E acena com “um amplo revogaço regulatório”, em nome da Lei da
Liberdade Econômica, que o próprio plano lembra ter sido “aprovada em 2019 no
governo Bolsonaro”. Ele anuncia a tragédia e faz prova concreta. Sem muitas
invenções, inclusive. O que temos é o resgate da famigerada “Carteira Verde e
Amarela” da MP 905: contrato para jovens com FGTS reduzido de 8% para 2%, multa
rescisória de 40% para 20%, isenção da contribuição patronal para a
Previdência, trabalho aos domingos e feriados no comércio sem as restrições da
CLT, acidente de trajeto reconhecido só “em veículo fornecido pelo empregador”.
A MP 905 caducou em abril de 2020 porque não passou no Senado. A Lei da
Liberdade Econômica, por sua vez, já dispensou o controle de ponto nas empresas
com até vinte empregados e criou o “ponto por exceção” por acordo individual. O
mesmo Marinho da reforma trabalhista e coordenador da campanha disse em março
de 2026 que a legislação trabalhista “tem de ser revisitada, porque a reforma
de 2017 foi mitigada por várias decisões judiciais”. Ou seja: o alvo é
exatamente aquilo que a Justiça do Trabalho conseguiu preservar. O balanço da
reforma de 2017 deveria bastar como aviso. Dois anos depois, as novas ações
caíram 32% — de 2,2 milhões para 1,5 milhão entre janeiro e outubro de 2017 e
de 2019. Não porque a ilegalidade tenha diminuído, mas porque o acesso à
Justiça ficou caro; e a arrecadação sindical desabou 86%, de R$ 3,64 bilhões em
2017 para R$ 500 milhões em 2018. É essa a “modernização” que o plano de Flávio
quer aprofundar.
O que a
classe dominante sempre buscou é amordaçar a Justiça do Trabalho, começando por
reduzir a sua competência, impondo controles de decisões via STF, assegurando
maior controle sobre as condenações judiciais e seus valores. O que se pretende
é transformar a Justiça do Trabalho em um balcão para uma pequena parcela e com
o máximo do controle de riscos. O controle da Justiça do Trabalho é uma
dimensão estratégica para esses setores. Isso ampliaria as margens de
“negociação” e reduziria os riscos de condenações. Esse seria um eixo
estratégico em um país com presença forte de trabalho escravo, com volumes
absurdos de mortes decorrentes de acidentes e uma legião de afastamentos
decorrentes de ambientes de trabalho de risco e degradantes. O próprio Jair
Bolsonaro expressou isso em 3 de janeiro de 2019: “Qual o país do mundo que
tem? (…) Isso está sendo estudado. E, havendo o clima, nós podemos discutir
essa proposta e mandar pra frente”. Que proposta? A extinção da Justiça do
Trabalho. E isso se estende ao Ministério Público do Trabalho, sobre o qual ele
disse: “pelo amor de Deus. Se tiver clima, a gente resolve esse problema”.
Em maio
de 2019, o governo Bolsonaro anunciou a revisão das 36 normas regulamentadoras
de saúde e segurança, chamadas de “normatização absolutamente bizantina,
anacrônica e hostil”, com Rogério Marinho à frente da operação. Em dezembro de
2021, num evento da CNI, Jair Bolsonaro ridicularizou a fiscalização do
trabalho escravo: “Meteram a caneta no cara”; “O cara vai deixar de colher a
folha ali, andar 500 metros, fazer um xixi e voltar?”; “A altura da pia, maciez
do papel higiênico, tudo isso era motivo de multa”. O vice-coordenador do MPT
para o tema respondeu que as falas revelam “desconhecimento do conceito de
trabalho escravo”.
Enquanto
isso, o quadro de auditores fiscais do trabalho segue abaixo da metade do
previsto em lei: menos de 1.850 em atividade para 3.644 cargos, segundo o
Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait), em 2025. A
equipe econômica de Flávio já anunciou um “revogaço” de “mais de mil normas”
infralegais nos primeiros cem dias de governo. Em 2025, 2.772 pessoas foram
resgatadas de condição análoga à escravidão — alta de 38% sobre 2024 — em 1.594
ações, e, pasmem, não é questão de fazenda pelo interior, já que 68% delas
foram em áreas urbanas. Entre 2012 e 2024 foram 32 mil mortes por acidentes de
trabalho só entre trabalhadores com carteira assinada, e mais de 1.600 no
primeiro semestre de 2025. Os afastamentos por transtornos mentais chegaram a
546 mil em 2025, 15% acima de 2024, com ansiedade e depressão no topo da lista.
Mas o programa do Flávio quer fazer um revogaço nas normas de segurança e
proteção no trabalho.
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Os perigos para os aposentados e a Previdência Social
O plano
de governo de Flávio não tem uma linha sobre reforma da previdência, regra de
aposentadoria, BPC ou salário mínimo; o que há é “INSS sem fila” e um “pacote
antifraude”. Mas o coordenador da campanha escreveu por ele. À Folha de
S.Paulo, em 6 de março de 2026, Rogério Marinho disse: “O modelo está
estourando. Só posso dizer que vamos ter de revisitar a Previdência” — e
admitiu que isso pode envolver “parâmetros ou até uma mudança de modelo”.
Mudança de modelo como a da proposta original de “reforma” previdenciária do
governo Bolsonaro. Ela previa autorizar o regime de capitalização — a
aposentadoria transformada em poupança individual, sem solidariedade entre
gerações —, além de um BPC de R$ 400 aos 60 anos, que só chegaria a um salário
mínimo aos 70, e de aposentadoria rural aos 60 anos com 20 anos de contribuição
para homens e mulheres. O Congresso retirou tudo isso do texto. Flávio votou a
favor da “reforma” nos dois turnos, em 1º e 22 de outubro de 2019. Depois veio
o restante do receituário. Em novembro de 2019, o governo mandou ao Senado o
“Plano Mais Brasil”, que a própria equipe econômica batizou de “DDD”:
desobrigar, desindexar, desvincular. Guedes justificou com um número: “67% das
despesas primárias da União são indexadas”. A PEC Emergencial virou a Emenda
109, com gatilhos que congelam salários e vedam concursos; Flávio votou sim. E
o salário mínimo, que é o piso de dois em cada três benefícios do INSS, passou
2020, 2021 e 2022 sem um centavo de ganho real, só a inflação. A política de valorização
foi retomada em 2023, pela Lei 14.663.
Em 22
de abril de 2026, a Folha revelou que a equipe econômica de Flávio
planejava reajustar aposentadorias e BPC apenas pela inflação — uma “economia”
de R$ 1,1 trilhão em dez anos — e eliminar os pisos constitucionais,
percentuais mínimos da receita tributária que os governos estão obrigados a
destinar de Saúde e Educação. O anúncio, previsto para março, foi abortado para
não dar “munição política” ao PT. Em 28 de agosto, na sabatina do Jornal
Nacional, Flávio disse que “quem recebe salário mínimo hoje está perdendo o
poder de compra devido à gastança do governo”, prometeu “um tesouraço dos
gastos e nos cargos comissionados” e não disse qual seria o reajuste do mínimo.
Em 9 de setembro, Daniella Marques afirmou aO Estado de S.Paulo que não
há “credibilidade de nenhum líder hoje no Brasil para levar uma discussão de
qualquer ajuste em programa social ou em salário mínimo, ou em reforma (da
Previdência), enquanto você não enfrentar a discussão sobre privilégios”.
Perguntada se a mudança na regra do mínimo ficaria para depois, respondeu:
“Talvez não seja necessário”. E minimizou o ganho real: “Quando você fala do
aumento real do salário mínimo, mesmo na conta da Previdência, você está
falando de R$ 40, R$ 80”. Só em 25 de setembro, a nove dias da eleição, Sachsida
anunciou nas redes que a campanha preparou medidas para manter a vinculação
entre o salário mínimo e os benefícios previdenciários, “para proteger os
idosos do país”. Há ainda a porta dos
“antifraudes”. O plano promete “fim das fraudes” e “INSS sem fila”, com uma
frase: “Sai a gestão voltada a entidades sindicais, entra a gestão
profissional”. O vice de Flávio, Alfredo Gaspar, foi o relator da CPMI do INSS,
que terminou sem relatório aprovado: o texto dele, com 216 pedidos de
indiciamento, foi rejeitado por 19 votos a 12. A fraude dos descontos
associativos é real — R$ 6,3 bilhões cobrados indevidamente entre 2019 e 2024,
segundo a PF e a CGU, com os descontos disparando a partir de 2022 —, mas quem
viveu o “pente-fino” da MP 871, de 2019, sabe o que “combate a fraudes” pode
significar na prática: bônus a servidores para revisar benefícios, cancelamento
em massa de auxílios, novas exigências para a aposentadoria rural, uma fila que
chegou a 1,85 milhão de pedidos em novembro de 2021 e um veto de 41% do
orçamento do INSS para 2022. Em 2019, esse suposto “pente-fino” causou um
impacto imenso no indeferimento de mais de 75% dos benefícios requeridos.
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Os perigos para o sindicalismo
O
capítulo sobre trabalho do plano registrado no TSE chama-se “O trabalhador em
primeiro lugar, não o sindicato”, e abre assim: “O país precisa se posicionar
contra a República Sindical, em que os interesses de dirigentes das entidades
se sobrepõem ao interesse dos trabalhadores. É público e notório que, após a
modernização trabalhista de 2017, tais agentes se mobilizaram para reverter as
perdas advindas do fim do imposto sindical. O princípio da unicidade sindical
garante monopólios a esses representantes”. O texto segue acusando o governo de
ter “a audácia de propor que os sindicalistas sejam parte da formulação de
políticas públicas, mesmo não tendo sido eleitos para tanto”, ataca os projetos
em que “os sindicatos de servidores públicos são colocados à frente de
associações”, e promete que os trabalhadores de aplicativo “serão protegidos,
sem os interesses de dirigentes sindicais à frente do processo”. O
antissindicalismo é uma corrente tão antiga quanto os próprios sindicatos. O
projeto expressa isso claramente.
No
capítulo do INSS, a mesma lógica: “Sai a gestão voltada a entidades sindicais,
entra a gestão profissional”. Para o Flávio, o grande inimigo dos trabalhadores
são os sindicatos. Voltemos ao plano. Ao afirmar que “a unicidade sindical
garante monopólios”, ele anuncia o próximo alvo: a unicidade do artigo 8º da
Constituição — aquilo que impede a pulverização dos sindicatos, diluídos em
entidades de fachada patrocinadas pelo patrão — teria que ser revogada. Quando
promete que trabalhador e empresa vão “combinar diretamente” as condições de
trabalho, está dizendo que a negociação coletiva é dispensável. Sindicato sem
dinheiro, sem representatividade ou unicidade e sem negociação coletiva é
sindicato sem função — e é isso que se chama, no programa, de colocar “o
trabalhador em primeiro lugar”.
Todos
podemos ter críticas ao sindicalismo. Mas é a trincheira mais importante da
resistência ao ataque aos direitos de quem trabalha. E atacar o sindicalismo é
abrir a porteira para um outro tempo, selvagem e sem direitos. Como já se viu,
Rogério Marinho foi o relator da “reforma” de 2017, que acabou com a
contribuição sindical obrigatória: a arrecadação das entidades caiu 86% em um
ano. Em março de 2019, a MP 873 de Bolsonaro proibiu qualquer desconto de
contribuição em folha, exigindo boleto enviado à casa do trabalhador e
autorização individual. Mas a norma caducou em junho de 2019 sem votação, e
Bolsonaro lamentou em termos bem claros: “Isso dá aproximadamente R$ 3 bilhões
por ano nas mãos dos sindicatos do Brasil. (…) para fazer piquete, fazer greve,
queimar pneu, parte vai para o MST invadir propriedade”.
Em
abril de 2019, o Decreto 9.759 extinguiu de uma só vez os colegiados federais
com participação da sociedade — cerca de 700, segundo o próprio governo; o STF
só preservou os criados por lei. E quando o STF, em setembro de 2023, validou a
contribuição assistencial aprovada em assembleia, com direito de oposição,
Marinho reagiu com uma emenda ao PL 2.830/2019 que praticamente inviabiliza a
cobrança: oposição por qualquer meio, cobrança uma única vez por ano, pagamento
apenas por boleto ou Pix, desconto em folha proibido, salvo previsão em norma
coletiva. A CCJ do Senado aprovou a emenda; um recurso do PT segurou o projeto,
que passou na Comissão de Assuntos Sociais em maio de 2025, e o texto está de
novo pronto para a pauta da CCJ, com relatório de Marinho datado de 24 de
novembro de 2025. Marinho tem uma obsessão por atacar os sindicatos. O programa
do Flávio chama isso de “República Sindical” e não para no tema do
financiamento e da unicidade. A criminalização da ação sindical completa o
quadro: o PL 1.595/2019, do então deputado Major Vitor Hugo, cria “ações
contraterroristas” com definições abertas o bastante para alcançar movimentos
sociais e sindicais. Foi aprovado na comissão especial em setembro de 2021 e
está pronto para o plenário da Câmara. Não podemos esquecer o que tentaram
fazer com a CPI do MST de 2023, presidida por Zucco e relatada por Ricardo
Salles, do PL. Ela terminou sem votar o relatório, que pedia onze indiciamentos
e sete projetos de lei, entre eles o de enquadrar como “terrorismo” a “invasão
armada” de terras. E o plano de 2026 promete tratar as facções como
“organizações narcoterroristas” e pôr as Forças Armadas na fronteira — o
vocabulário do terrorismo, uma vez instalado na lei, não costuma ficar restrito
ao crime organizado.
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Os perigos para os Servidores Públicos
Para os
servidores, o programa é o mais explícito de todos: “Enxugar a máquina e
profissionalizar a gestão pública”, com “Reforma Administrativa”, “corte de
pelo menos 10 ministérios e diminuição de cargos comissionados e despesas
administrativas”, “revisão normativa infralegal”, retomada do “Programa
Nacional de Desestatização” e “uma regra para controlar gastos discricionários
dos três Poderes”.
Não há
cronograma de concursos e não há a palavra “estabilidade”. Em 21 de agosto,
Daniella Marques detalhou: se eleito, Flávio enviará uma PEC de corte de gastos
antes mesmo da posse, reduzirá os ministérios para 20 a 25, revisará o
arcabouço fiscal, mandará um pacote sobre “supersalários” e reavaliará as
estatais. Falou em “substituição de cargos operacionais e administrativos por
inteligência artificial”. Disse também que a estabilidade não será alterada.
Mas foi o governo Bolsonaro que mandou ao Congresso, em 3 de setembro de 2020,
a PEC 32: fim da estabilidade para os novos servidores, salvo as “carreiras
típicas de Estado”; “vínculo de experiência” de um a dois anos antes da
efetivação; contratação temporária ampliada; cargos de “liderança e assessoramento”
sem concurso; e o poder de o presidente extinguir órgãos e cargos e reorganizar
autarquias por decreto, sem passar pelo Congresso. A PEC parou na comissão
especial em 2021 e nunca foi ao plenário, mas não foi retirada. Sua herdeira é
a PEC 38/2025, que tem como primeiro signatário um deputado do PL, Zé Trovão:
múltiplos vínculos, estabilidade condicionada a “avaliações periódicas de
desempenho com possibilidade de demissão”, teto para cargos comissionados,
bônus “condicionado ao desempenho”. Está parada desde julho de 2026, à espera
de despacho, e a própria bancada do PL se dividiu — três deputados do partido
retiraram a assinatura.
Hugo
Motta já avisou que quer retomá-la depois das eleições. Um governo Flávio com a
“maioria conservadora” no Congresso teria condições para aprovar reformas
constitucionais, o que tornaria a ameaça ainda mais clara. O que o governo
Bolsonaro fez com os servidores é um exemplo disso. Jair Bolsonaro foi o
primeiro presidente em vinte anos a terminar o mandato sem conceder reajuste ao
funcionalismo federal: zero em 2019, 2020, 2021 e 2022, com inflação acumulada
de mais de 27% entre o último reajuste, em 2017, e novembro de 2021. No fim,
tentou reservar R$ 1,7 bilhão só para as polícias, deixando um milhão de
servidores de fora, antes de desistir. A Lei Complementar 173, de 2020, a
famosa “granada no bolso do INIMIGO”, congelou salários e progressões em todo o
país até dezembro de 2021, exigência de Guedes em troca do socorro a estados e
municípios na pandemia.
O veto
de Bolsonaro às exceções para a Saúde e a Educação foi mantido pela Câmara, com
os votos de Eduardo Bolsonaro, Bia Kicis e Carla Zambelli, segundo levantamento
da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal (Confetam). A
Emenda 109, de 2021, fixou gatilhos permanentes: quando a despesa corrente
passa de 95% da receita, ficam proibidos reajuste, concurso, progressão e
criação de cargos. Flávio votou a favor. Concursos: 6.200 vagas autorizadas em
quatro anos, contra 9.100 só em 2023. O quadro civil do Executivo federal
encolheu 11%, de 630,7 mil para 560,8 mil; o Ministério do Meio Ambiente perdeu
41,8% dos servidores em dois anos. E a frase que resume a visão de mundo foi
dita por Paulo Guedes em 7 de fevereiro de 2020: “O hospedeiro está morrendo. O
cara virou um parasita, o dinheiro não chega no povo e ele quer aumento
automático”.
As
estatais completam o programa. Flávio disse à Reuters, em dezembro de 2025, que
“vê espaço” para privatizar os Correios e que da Petrobras se privatiza “o que
não funciona”. Daniella Marques, em 14 de setembro de 2026, admitiu que o Banco
do Brasil “poderia ser considerado para privatização” e que “mais de 20
estatais” serão analisadas para “permanecer sob controle federal, ser
reestruturada, privatizada ou, em determinados casos, liquidada”. Sachsida,
como ministro de Minas e Energia em 2022, pediu formalmente os estudos para
desestatizar a Petrobras e a PPSA; Myrian Prado, hoje na campanha, comandava a
secretaria de desestatização. O precedente é a Eletrobras, privatizada em 2022:
um PDV atrás do outro e o quadro reduzido de mais de 10,5 mil para cerca de 7
mil empregados. No caso da Refinaria de Mataripe, a CGU apurou venda abaixo do
preço de mercado. São Paulo é a vitrine do programa. Tarcísio privatizou a
Sabesp em 2024 — 32% das ações por R$ 14,7 bilhões, a R$ 67 por ação quando a
bolsa pagava R$ 87. A empresa cortou mais de 2 mil postos em um ano e não parou
por ai. Os servidores estaduais tiveram 5% em 2025 depois de um 2024 sem
reajuste no salário-base; a PM recebeu 10% linear em 2026 e um bônus de R$ 609
milhões, mais do que os R$ 397 milhões destinados a todas as outras 22
secretarias juntas. O PL 1.316/2025 vincula progressão, permanência e remoção
de professores a avaliações de desempenho, motivo da greve estadual de 28 de
abril de 2026. É o modelo: privatiza, congela, premia a polícia e estrangula o
professor. Por fim, o argumento do “inchaço” não resiste aos dados. O emprego
público é 12,1% da força de trabalho no Brasil, contra 18% na média da OCDE; a
despesa de pessoal da União caiu de 4,3% do PIB em 2018 para 3,4% em 2022. O
tesouraço não corta gordura: corta serviço público, e quem paga é a sociedade.
Esse projeto precisa ser derrotado. Pelas gerações que lutaram antes de nós e
pelo futuro. Flávio é uma ameaça real e o povo brasileiro não permitirá que se
imponha.
Fonte:
Por Ronaldo Tamberlini Pagotto, em Outras Palavras

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