Por
que bets foram proibidas e loterias são legalizadas
A
proibição das empresas de apostas online no Brasil, anunciada pelo presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, levantou questionamentos sobre as loterias oficiais,
como a Mega-Sena e a Lotofácil.
Nas
redes, muitos daqueles que defendem as apostas virtuais passaram a argumentar
que as loterias oficiais também deveriam sofrer sanções. As loterias oficiais e
as bets funcionam por meio de apostas, o que envolve expectativa de ganho e
risco de prejuízo financeiro, em diferentes proporções. A imensa maioria dos
apostadores perde dinheiro, de acordo com as estatísticas.
Mas,
afinal, por que as loterias oficiais não foram afetadas pela medida do governo
federal?
<><>
Como as bets entraram no país
As bets
entraram no Brasil após a abertura de um caminho jurídico na lei 13.756, de
dezembro de 2018, que criou a aposta de quota fixa como uma modalidade
lotérica. Nessa categoria, a pessoa sabe, antes de confirmar a aposta, quanto
poderá receber caso acerte.
Nas
apostas de quota fixa, o multiplicador do valor apostado – a chamada odd – é
informado previamente. Assim, se uma pessoa aposta R$ 10 com odd de 3,00, o
retorno bruto possível será de R$ 30, valor que normalmente inclui os R$ 10
iniciais. Diferente de algumas loterias tradicionais, esse prêmio não depende
da divisão de um bolo comum entre vários ganhadores; ele decorre da cotação
previamente oferecida pela casa de apostas.
A lei
de 2018, porém, não estruturou de imediato todo o regime de funcionamento das
bets. Ela reconheceu juridicamente a modalidade, mas a regulamentação
operacional mais completa só veio em dezembro de 2023, com a lei 14.790, que
oficializou o funcionamento dessas plataformas de apostas esportivas e jogos
online.
"Entre
2018 e 2023, esse mercado cresceu em uma zona de baixa densidade regulatória:
havia previsão legal da atividade, mas ainda faltavam regras completas sobre
autorização, fiscalização, publicidade, prevenção à lavagem de dinheiro, jogo
responsável e proteção dos apostadores", explica o advogado Marcelo
Crespo, coordenador do curso de direito da Escola Superior de Propaganda e
Marketing (ESPM).
A
medida anunciada na semana passada revogou o capítulo da lei 13.756 sobre a
aposta de quota fixa como modalidade lotérica e proibiu a exploração e a
publicidade das bets no país. Para os especialistas, a decisão do governo
federal pode suscitar comparações legítimas entre as bets e as loterias
oficiais porque as duas vendem a chance de transformar pouco dinheiro em muito.
"O
argumento de equivalência é a melhor peça de defesa que as operadoras [de bets]
têm, porque desloca a discussão do desenho do produto para a suposta hipocrisia
do Estado", diz o antropólogo da tecnologia David Nemer, professor na
Universidade da Virginia (EUA).
Mas
Nemer aponta que as semelhanças não podem esconder que esses dois segmentos
funcionam de formas distintas. "Tratar tudo como a mesma coisa é o que a
indústria quer. Isso é totalmente equivocado", afirma.
<><>
As diferenças entre bets e loteria
A
diferença no modo de funcionamento é apontada por especialistas como o ponto
principal para distinguir loterias oficiais e bets.
"Essa
provocação força o debate público a reconhecer que a loteria também é uma forma
de jogo e pode gerar perdas. Mas há diferenças relevantes de desenho,
frequência, disponibilidade, publicidade, experiência do usuário e potencial de
indução comportamental. Não são coisas iguais e não engajam igualmente, bem
como não viciam e não geram perdas nas mesmas proporções", afirma Crespo.
Entre
as diferenças estão a velocidade dos resultados das bets, a dinâmica contínua
das apostas e a forma como os pagamentos são calculados.
Crespo
explica que na Mega-Sena, por exemplo, o apostador escolhe números, compra os
bilhetes e espera por um sorteio. Na aposta simples, segundo as estatísticas, a
chance de acertar é de um em mais de 50 milhões. "É uma possibilidade
extremamente baixa, mas simples de compreender: ou os números saem, ou não
saem", diz o advogado.
Na
loteria oficial, o valor do prêmio máximo pode variar de acordo com o volume de
apostas e acumular quando não há vencedores. Já nas bets, a lógica é diferente.
Nas apostas esportivas, por exemplo, a plataforma oferece uma quota fixa para
um determinado evento, como o resultado de um jogo, números de gols, escanteios
ou outras ações na partida. O apostador pode acreditar que está no controle,
porque analisa times e estatísticas.
"Mas
é apenas uma sensação de controle, porque a empresa precifica as possibilidades
de ganho", diz Crespo. "Em resumo: a loteria vende sonho improvável.
A bet vende sensação de competência probabilística. Essa diferença é central e
capta apostadores em escala absolutamente distintas", acrescenta.
Nas
bets, os jogos e apostas online têm cotações estruturadas para dar uma vantagem
à empresa responsável pelas apostas, segundo os especialistas. Na Mega-Sena,
uma parcela da arrecadação é direcionada aos prêmios, já o restante tem
destinações públicas e operacionais, previstas nas regras.
"Não
seria correto chamar todo esse restante das loterias de lucro da Caixa",
afirma o professor da FGV Direito do Rio de Janeiro, Daniel Dias. "Em
ambos os casos, acertar uma aposta ou receber um prêmio não significa
necessariamente recuperar tudo o que já foi gasto para apostar. "
<><>
Problema de saúde pública
Outro
ponto fundamental na discussão, segundo os especialistas, é a forma como as
bets impactam as pessoas. Esse aspecto tem sido reforçado pelas autoridades
para justificar a proibição. Segundo o governo federal, as plataformas de
cassinos online e apostas esportivas têm causado um cenário preocupante de
"endividamento das famílias brasileiras".
Os
especialistas apontam que as bets podem receber apostas ou jogos a qualquer
momento, o que pode fazer com que o usuário perca o controle. "Na
Mega-Sena, entre a aposta e o resultado há dias, e o sorteio acontece poucas
vezes por semana. No Tigrinho, entre a aposta e o resultado há dois ou três
segundos, e a rodada seguinte já está esperando. A loteria é um evento; a bet é
um fluxo contínuo", diz Nemer.
Uma das
consequências do vício em bets é o transtorno do jogo, conhecido como
ludopatia, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um problema
de saúde mental. Assim como ocorre em outras dependências comportamentais,
determinados estímulos podem desencadear impulsos difíceis de controlar para
quem sofre com esse vício.
Entre
esses estímulos relacionados às bets estão propagandas, notificações de
aplicativos, comentários sobre apostas e conteúdo que associam o jogo à ideia
de sucesso financeiro ou diversão garantida.
"A
literatura clínica distingue jogos contínuos, em que aposta e resultado se
sucedem sem intervalo, e jogos descontínuos, como as loterias de sorteio. O
jogo problemático se concentra de forma desproporcional nos contínuos:
caça-níqueis, cassino online, aposta ao vivo. O motivo é o mesmo que explica a
frequência", diz Nemer.
"A
resolução [nas bets] ocorre em segundos, o reforço intermitente, o quase-ganho
e a possibilidade de ‘recuperar' a perda na rodada seguinte formam o ciclo da
compulsão. A loteria semanal interrompe esse ciclo pela própria estrutura:
entre a perda e a próxima chance há dias, e nesse intervalo a vida entra",
acrescenta.
Nos
últimos cinco anos, segundo o Ministério da Saúde, foi registrado um aumento de
140% na busca por atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) por causa da
dependência em apostas online e jogos de azar.
Um
estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) apontou que as
apostas online provocam impacto financeiro de R$ 30,6 bilhões por ano no SUS.
Entre esses valores há despesas com tratamentos de depressão, ansiedade e
impactos por mortes por suicídio. Segundo o governo federal, apenas 1% do valor
arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para
minimizar esses danos.
"A
expectativa é de que essa medida do governo reduza a entrada de novos
apostadores. Existe, porém, o risco de migração para plataformas clandestinas.
Por isso, o efeito sobre o endividamento dependerá da fiscalização, inclusive
dos meios de pagamento. Como a medida é recente, ainda não podemos apresentar
os benefícios esperados como resultados já comprovados", afirma Dias.
<><>
As loterias também devem ser suspensas?
O
governo federal afirma que não há nenhuma previsão para proibir as loterias. Em
nota à DW, o Ministério da Fazenda argumenta que jogos como Mega-Sena,
Lotofácil e Quina são serviços públicos explorados pela União. A pasta afirma
que "parte dos recursos arrecadados pelas loterias oficiais é destinada,
por determinação legal, ao financiamento de setores públicos".
Nemer
avalia que é pouco provável que haja alguma alteração no funcionamento das
loterias oficiais. "O Estado brasileiro sempre monopolizou as apostas:
criminalizou o jogo do bicho e operou as próprias loterias, proibiu os cassinos
em 1946 e manteve a lotérica aberta. Quem aponta a incoerência tem um ponto
real. Mas existem características que justificam as diferenças entre loterias e
bets", afirma.
"As
loterias são um serviço público da União, operado pela Caixa Econômica, e o
dinheiro delas financia esporte, cultura, segurança, educação e seguridade por
força de lei. Nenhum Estado proíbe o próprio caixa", completa Nemer.
• Quem lucra com as bets enquanto o
futebol acumula dívidas? Por Alexandre Machado Rosa
A
palavra mecenas remete a Caio Cílnio Mecenas, protetor de poetas na Roma
antiga. Com o tempo, passou a designar quem financia artistas, cientistas e
iniciativas culturais. No futebol brasileiro, figuras de grande poder econômico
também ajudaram a escrever a história dos clubes. Presidentes como o
empreiteiro Vicente Matheus, no Corinthians, e Castor de Andrade, ligado ao
jogo do bicho e ao Bangu, tornaram-se personagens de uma época em que o
dinheiro e a influência dos dirigentes se confundiam com a vida das equipes.
O novo
mecenas já não precisa ocupar a presidência do clube. Pode aparecer como
patrocinador, investidor, credor ou intermediário. Sua marca está na camisa;
sua influência, nas decisões; e a origem de seu dinheiro nem sempre está
igualmente à vista. Se o futebol pretende preservar o vínculo que construiu com
o povo, precisa responder a uma questão simples: quem paga pela festa e quem
fica com a conta?
Hoje,
as casas de apostas ocupam alguns dos espaços mais valiosos das camisas. Seus
contratos oferecem milhões aos clubes, mas esse dinheiro tem uma origem social
concreta: as apostas feitas por pessoas comuns. Quando o jogo se torna
compulsivo, o valor destinado à plataforma pode faltar no orçamento doméstico.
As investigações de 2026 sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e outros crimes
ligados a operações de apostas tornam ainda mais necessária a transparência
sobre quem patrocina o futebol. Investigações, evidentemente, não equivalem a
condenações.
A
partir da década de 1980, essa relação ganhou um lugar mais visível: a própria
camisa dos times. Em 1982, o patrocínio nos uniformes dos clubes foi autorizado
no Brasil. No ano seguinte, a Cofap já ocupava a frente da camisa do
Corinthians. Em 1984, a Lubrax passou a estampar a camisa do Flamengo. Desde
então, o torcedor passou a carregar no peito, ao lado do escudo, as marcas de
quem pagava para se associar à paixão pelo clube.
O
futebol cresceu como negócio numa escala que seus antigos dirigentes
dificilmente imaginariam. Contratos milionários, salários extraordinários,
direitos de transmissão, negociações de atletas e pagamentos a intermediários
movimentam cifras cada vez maiores. Mas o crescimento das receitas não resolveu
a crise financeira de muitos clubes. Um levantamento da Sports Value, com base
nos balanços de 2025, calculou em R$ 16 bilhões a dívida dos vinte principais
clubes brasileiros. A Receita Federal também comunicou clubes e SAFs sobre
pendências tributárias identificadas em suas análises fiscais.
É uma
contradição difícil de esconder. Há dinheiro para contratações e folhas
salariais milionárias, enquanto dívidas se acumulam e sucessivas gestões
empurram obrigações para a próxima diretoria. Nesse ambiente, os custos com
intermediários, a falta de transparência em contratos e os episódios de
corrupção exigem atenção permanente. O risco vai além da má administração:
órgãos brasileiros de combate à lavagem de dinheiro já apontaram a
vulnerabilidade do setor futebolístico, inclusive nas transferências de
jogadores e nos contratos de patrocínio.
Também
causa inquietação a ascensão meteórica de clubes impulsionados por grandes
aportes. Subir de divisão não é indício de crime. A pergunta legítima é quem
fornece os recursos, qual é sua origem, em que condições entram no clube e quem
se beneficia das operações. Sem respostas públicas e verificáveis, a celebração
do novo investidor pode servir para encobrir relações que deveriam ser
examinadas pelos órgãos de controle.
O fim
das bets não significa o fim do futebol. O dinheiro que chega às plataformas de
apostas pode sair do salário do mês e deixar de cobrir despesas com
alimentação, aluguel e remédios. O endividamento, os conflitos familiares e os
danos à saúde tornam o problema maior do que uma discussão sobre patrocínios. A
Organização Mundial da Saúde reconhece na CID-11 (ludopatia) o transtorno
relacionado a jogos de apostas, caracterizado, entre outros aspectos, pela
perda de controle sobre o comportamento de jogar e pela persistência apesar das
consequências negativas.
Segundo
dados divulgados pela Agência O Globo, os brasileiros depositaram R$ 88,48
bilhões em plataformas de apostas no primeiro semestre de 2026. Naquele
período, havia 84 empresas licenciadas, responsáveis por 193 marcas. O valor
dos depósitos não corresponde à receita das empresas, mas mostra a dimensão do
dinheiro que passa por esse mercado. É hora de o futebol buscar outras fontes
de receita e pensar também na saúde de seus torcedores.
Fonte:
DW Brasil/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário