sábado, 3 de outubro de 2026

Submissão abaixo de zero: analista explica a 'terceirização' da soberania da Groenlândia aos EUA

Recentemente, a Dinamarca tensionou a região do Ártico ao assinar um pacto militar que, na prática, transforma a Groenlândia em um enclave estratégico de Washington. Copenhague e o governo autônomo local acabaram cedendo às pressões políticas da Casa Branca, que passa a ter ingerência sobre o território.

Nesse sentido, embora a ilha groenlandesa ainda seja dinamarquesa, o recente acordo firmado representa uma grave perda de soberania por parte de Copenhague, com impactos globais, segundo João Cláudio Pitillo, doutor em História Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e coordenador do projeto Geoestratégia Estudos, em entrevista à Sputnik Brasil.

"Se o Trump vem exigindo de tudo e de todos concessões e tem sido feliz nas suas ações na América Latina e na Europa, isso pode abrir uma série de precedentes. Veja a maneira como ele ameaça o Canadá. Então nós temos que perceber que essa fraqueza, essa vacilação da Europa, ela não compromete só a Europa, ela compromete o mundo todo", disse.

Para o analista internacional, o aumento da presença norte-americana em Nuuk, além de transformar a região em um protetorado da Casa Branca, também pode estimular os movimentos separatistas já existentes na relação entre o governo autônomo groenlandês e o central dinamarquês.

"Tacitamente a Groenlândia já é estadunidense e para ela se tornar autônoma e ter o apoio também tácito dos Estados Unidos, é um pulo. E essa decadência europeia vai levar a outros movimentos separatistas dentro do bloco europeu", comenta.

<><> Cenário na Groenlândia sinaliza a fraqueza da Europa

No passado recente, líderes europeus tentaram demonstrar unidade e solidariedade à Groenlândia diante da pressão estadunidense, o que incluiu uma visita do presidente francês Emmanuel Macron a Nuuk. No entanto, para Pitillo, o desfecho atual não apenas expõe a fraqueza crônica de uma Europa incapaz de conter o expansionismo de seu principal aliado, mas também como esse acordo é perigoso por não ter sido divulgado integralmente.

"É muito estranho esse movimento dos EUA com relação à Groenlândia, que não há clareza nesse tratado que foi gestado silenciosamente e apareceu na imprensa de maneira parcial. Esses acordos secretos têm um perigo tremendo para o sistema de pesos e contrapesos da política mundial, porque eles podem conter trechos que, se contrariados, levem a um conflito maior", destaca.

Outro ponto levantado pelo especialista é que, além da fragilidade política do bloco europeu, houve também complacência entre os Estados-membros. Como a Dinamarca pertence tanto à OTAN quanto à União Europeia, o desfecho do caso evidencia a atual inércia da Europa diante das pressões externas.

"A submissão é tão vergonhosa e latente que fizeram a entrega da Groenlândia de maneira silenciosa, sem parecer que isso foi uma discussão do bloco [europeu]. O que fizeram foi um jogo de cena para ser menos vergonhoso. Mas essa entrega da Groenlândia com certeza passou por essas lideranças", observa.

<><> Expansão de Washington provoca tensão no Ártico

O especialista adverte ainda que transferir o controle securitário da Groenlândia para os Estados Unidos catalisa a militarização da região, por se tratar de uma estratégia de contenção hostil direcionada à China e à Rússia, que utilizam a Rota Marítima do Norte como um vetor importante de comércio global.

"Veja que a Suécia e a Finlândia logo entraram na OTAN e não tinha razão para Suécia e Finlândia entrarem na OTAN que não fosse para pegar os acessos ao mar do Norte. Os EUA têm por prioridade deter o avanço do comércio russo, chinês e do Sul Global no Ártico, porque é uma rota mais rápida e que vai colocar os produtos de Rússia, China, Vietnã, Índia na Europa, e África e nas Américas com frete muito mais barato", conclui.

Diante do recrudescimento da geopolítica global, que se torna cada vez mais complexa sob pressões políticas e incursões militares, o caso da Groenlândia suscita debates profundos. Entre eles, destacam-se os limites da soberania local e o risco iminente de militarização da estratégica região do Ártico.

¨      O que Trump pode fazer na Groenlândia após acordo por controle militar?

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, assinou um acordo sobre a Groenlândia após meses de ameaças ao território e aliados europeus.

O entendimento parece introduzir pequenas alterações em um tratado de 1951 que regula a presença militar dos EUA no território autônomo, segundo especialistas, mantendo países de fora da Otan, a aliança militar ocidental, afastados e permitindo um pequeno aumento no contingente de forças americanas.

Trump havia ameaçado tomar a Groenlândia à força caso não chegasse a um acordo de seu agrado, em um momento em que nações europeias enviavam tropas para o território e as tensões com países como a Rússia aumentavam.

O acordo entre EUA, Dinamarca e Groenlândia funciona como um complemento ao tratado de defesa de 70 anos que autorizou o país a manter tropas na Groenlândia como parte da estratégia de defesa da Otan.

Entre as principais adições estão a proibição de que países que não integrem a Otan instalem forças na Groenlândia, a construção de duas bases americanas e a garantia de acesso militar dos EUA caso o território semiautônomo conquiste a independência da Dinamarca, afirmaram especialistas.

"Não acredito que a presença militar será tão grande assim, mas ela amplia nossa presença — que é bastante modesta — na Groenlândia e faz parte de um cenário muito mais amplo de atividades no Ártico e da expansão das operações de todos os envolvidos, inclusive nós e os canadenses", disse Mark Cancian, consultor sênior do CSIS (Departamento de Defesa e Segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais).

As Forças Armadas dos EUA mantêm uma presença reduzida na base militar de Pituffik, na Groenlândia, há décadas.

Embora o presidente Trump tenha declarado no dia 18 deste mês que os Estados Unidos começariam "imediatamente" a estabelecer uma "grande presença militar" na ilha, Cancian afirmou que o contingente final pode ser modesto, estimando um acréscimo total inferior a 50 militares.

As restrições do acordo à influência de países que não integram a Otan sobre a Groenlândia — uma das principais mudanças em relação ao tratado anterior — são "claramente voltadas" para a China e a Rússia, acrescentou Cancian.

Trump apresentou o acordo como uma forma de garantir "controle permanente sobre a segurança" do território, depois de ter afirmado anteriormente que os EUA precisavam de controle sobre o país para assegurar sua própria segurança.

O entendimento firmado faz referência ao sistema de defesa antimísseis do "Domo de Ouro", planejado por Trump, embora a implementação desse programa ainda leve anos para ocorrer.

Os EUA e outras nações têm voltado cada vez mais sua atenção para o Ártico à medida que as camadas de gelo diminuem, criando rotas navegáveis ​​que poderão moldar o comércio global.

“Pode-se argumentar que essa questão da Groenlândia causou muitos danos à segurança do Ártico, justamente devido ao ambiente político desafiador”, disse à CNN Iris Ferguson, ex-subsecretária adjunta de Defesa para o Ártico e resiliência global na administração de Joe Biden.

“Mas acredito que este acordo realmente aponta na direção certa para o avanço de objetivos comuns", ponderou.

O novo acordo inclui uma garantia de acesso para os EUA caso a Groenlândia se torne independente da Dinamarca — uma questão que vinha gerando atrito há muito tempo sob o acordo anterior, explicou Ferguson.

Ela acrescentou ainda que seriam necessários investimentos significativos em infraestrutura nos dois locais onde os EUA estabelecerão bases — Narsarsuaq e Mestersvig — não apenas para acomodar pessoal, mas também para proteger adequadamente os equipamentos contra as condições ambientais adversas.

“Acredito que grande parte disso teria sido acordada com total disposição, não fosse por certa retórica. Dito isso, considero que este é o melhor acordo que se poderia esperar, dadas as circunstâncias", destacou Ferguson.

Mark Rutte, secretário-geral da Otan, afirmou em uma publicação nas redes sociais que é “ótimo ver o acordo assinado”.

“Conhecemos as ameaças que enfrentamos, e uma maior segurança no Ártico e no Atlântico Norte é essencial tanto para a Europa quanto para a América do Norte”, disse Rutte.

“Este acordo, juntamente com o papel crescente da Otan na segurança desta região vital, reforça a nossa segurança coletiva e apoia um futuro mais seguro e estável para todos nós", prosseguiu.

¨      O que a China tem a ver sobre o acordo que coloca a Groenlândia sob controle dos EUA?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (18) que os norte-americanos serão responsáveis pelo controle da segurança da Groenlândia "para sempre". Um acordo sobre o tema deve ser assinado com a Dinamarca na próxima semana.

O tratado representa uma conquista importante para Trump, que há muito tempo defende a anexação da ilha pelos EUA. Nos últimos meses, ele fez diversas declarações sobre o território — que pertence à Dinamarca, mas tem governo autônomo e discute a possibilidade de independência.

Segundo o presidente norte-americano, a Groenlândia tem um papel estratégico para a segurança dos EUA e de outros países.

"Precisamos da Groenlândia para a segurança internacional. Precisamos dela", afirmou em uma entrevista em dezembro de 2025. "Odeio colocar dessa forma, mas temos que ficar com ela."

Trump também chegou a dizer que poderia usar a força para conquistar a Groenlândia e ameaçou aplicar tarifas contra a União Europeia caso o território não fosse cedido aos EUA. À época, autoridades da ilha e da Dinamarca afirmavam que o território não estava à venda.

O tom mudou no início deste ano, quando começaram as conversas entre Dinamarca, Groenlândia e Estados Unidos. A negociação foi baseada em um tratado de segurança no Ártico.

Mas há mais por trás desse acordo.

>>> 1. Histórico da Groenlândia

Coberta em 80% por gelo e com 57 mil habitantes, a Groenlândia é a maior ilha do mundo e possui hidrocarbonetos e minerais importantes para a transição energética.

O território está geograficamente localizado na América do Norte, mas mantém fortes relações com a Dinamarca. A ilha, que já foi uma colônia dinamarquesa, passou a fazer parte do Reino da Dinamarca em 1953 e, até hoje, segue a Constituição dinamarquesa.

Em 2009, a Dinamarca autorizou a Groenlândia a ter um governo próprio e autônomo, permitindo até mesmo uma declaração de independência por meio de referendo.

Trump não foi o primeiro presidente dos Estados Unidos a tentar adquirir a ilha. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Harry Truman tentou comprá-la, oferecendo US$ 100 milhões em ouro. O objetivo era garantir um território estratégico para enfrentar as ameaças da Guerra Fria.

A proposta de Truman foi rejeitada, mas, no início da década de 1950, os Estados Unidos conseguiram instalar uma base militar na ilha com a autorização da Dinamarca.

>>> 2. O que Trump quer?

Durante seu primeiro mandato como presidente, Trump afirmou que faria uma oferta para comprar a Groenlândia. Na época, as autoridades da ilha responderam que o território não estava à venda.

Em janeiro de 2025, Trump voltou a investir contra a Groenlândia. Ele argumenta que a ilha poderia servir como uma plataforma estratégica para monitorar ameaças vindas da Rússia e da Europa. A presença de radares e bases militares fortaleceria o sistema de defesa americano.

Além disso, radares instalados na região ajudariam a identificar navios e submarinos, principalmente russos, monitorando as águas entre a Islândia, a Grã-Bretanha e a própria Groenlândia.

E essa posição estratégica não vem de hoje. Durante a Guerra Fria, russos e americanos mantiveram armas nucleares e submarinos no Ártico.

Além do fatos militar, a ilha também é rica em minerais, petróleo e gás natural. No entanto, a extração de minerais enfrenta forte oposição de povos indígenas e restrições burocráticas do governo. Já a exploração de petróleo e gás natural é proibida por questões ambientais.

>>> 3. O que a China tem a ver com isso?

Navio de guerra da Otan navega durante treinamento militar no Ártico em janeiro de 2025. — Foto: Divulgação/Otan

Outro fator que aumenta a importância estratégica da região é o aquecimento do Ártico. O derretimento do gelo tende a ampliar a importância de portos e pode abrir novas rotas de navegação, mudando a dinâmica do comércio internacional.

Nesse contexto entra a China, que também tem interesse no Ártico. Uma nova rota marítima pela região poderia reduzir a distância percorrida por navios chineses em comparação com rotas tradicionais, além de passar ao lado da Rússia, uma das principais parceiras de Pequim.

Embora esteja distante cerca de 2 mil quilômetros do Ártico, a China investe na construção de navios quebra-gelo. O país também é o maior produtor mundial de carros elétricos e turbinas eólicas, setores que dependem de minerais considerados estratégicos.

Os Estados Unidos querem evitar que os chineses avancem na região.

>>> 4. O que se sabe sobre o acordo?

Em uma publicação na rede social Truth Social, Trump afirmou que o acordo garante aos norte-americanos a capacidade de "para sempre" fazer o que for necessário para proteger a Groenlândia e os próprios EUA.

Segundo o presidente, o acordo fechado determina que nenhum adversário dos EUA poderá manter uma base ou presença militar na Groenlândia, nem fazer investimentos considerados sensíveis no território, sem autorização do governo americano.

"Começaremos imediatamente o processo de desenvolvimento de uma grande presença militar na parte apropriada da Groenlândia, que possui muitas dessas áreas", afirmou.

Dinamarca e Groenlândia elogiaram o acordo. O governo dinamarquês afirmou que o tratado reconhece a soberania do território, ao mesmo tempo que amplia a segurança na região.

Segundo a primeira-ministra do país, Mette Frederiksen, o tratado vai fortalecer a segurança no Ártico e no Atlântico Norte.

"É um acordo que fortalece nossa segurança comum no Ártico e na região do Atlântico Norte e, portanto, também é bom para a Otan e para a Europa", afirmou.

"O acordo ao mesmo tempo reconhece a soberania e a integridade territorial do Reino e o direito do povo groenlandês à autodeterminação."

Já o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, disse que o acordo com os EUA respeita e reconhece os interesses da Groenlândia. Segundo ele, a iniciativa será benéfica a "todos".

As partes ainda não revelaram detalhes sobre o texto do acordo, e o documento deve ser assinado na próxima semana, durante a Assembleia Geral da ONU.

>>> 5. Groenlândia pode se tornar parte dos EUA?

Donald Trump Jr. chegou há poucos dias a Nuuk, na Groenlândia — Foto: Emil Stach/Ritzau Scanpix/via REUTERS

Em 2009, a Dinamarca autorizou a Groenlândia a formar um governo próprio e autônomo, abrindo a possibilidade de uma declaração de independência por meio de referendo.

Com isso, na teoria, os habitantes da Groenlândia poderiam votar pela independência da ilha e, posteriormente, decidir se querem uma associação com os Estados Unidos. Na prática, porém, especialistas consideram essa hipótese pouco provável.

Uma pesquisa feita no país, no fim do ano passado, indicou que apenas 6% da população apoia a incorporação aos Estados Unidos.

 

Fonte: Sputnik Brasil/g1

 

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