Submissão
abaixo de zero: analista explica a 'terceirização' da soberania da Groenlândia
aos EUA
Recentemente,
a Dinamarca tensionou a região do Ártico ao assinar um pacto militar que, na
prática, transforma a Groenlândia em um enclave estratégico de Washington.
Copenhague e o governo autônomo local acabaram cedendo às pressões políticas da
Casa Branca, que passa a ter ingerência sobre o território.
Nesse
sentido, embora a ilha groenlandesa ainda seja dinamarquesa, o recente acordo
firmado representa uma grave perda de soberania por parte de Copenhague, com
impactos globais, segundo João Cláudio Pitillo, doutor em História Social pela
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e coordenador do
projeto Geoestratégia Estudos, em entrevista à Sputnik Brasil.
"Se
o Trump vem exigindo de tudo e de todos concessões e tem sido feliz nas suas
ações na América Latina e na Europa, isso pode abrir uma série de precedentes.
Veja a maneira como ele ameaça o Canadá. Então nós temos que perceber que essa
fraqueza, essa vacilação da Europa, ela não compromete só a Europa, ela
compromete o mundo todo", disse.
Para o
analista internacional, o aumento da
presença norte-americana em Nuuk, além de transformar a região em um protetorado
da Casa Branca, também pode estimular os movimentos separatistas já existentes
na relação entre o governo autônomo groenlandês e o central dinamarquês.
"Tacitamente
a Groenlândia já é estadunidense e para ela se tornar autônoma e ter o apoio
também tácito dos Estados Unidos, é um pulo. E essa decadência europeia vai
levar a outros movimentos separatistas dentro do bloco europeu", comenta.
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Cenário na Groenlândia sinaliza a fraqueza da Europa
No
passado recente, líderes
europeus
tentaram demonstrar unidade e solidariedade à Groenlândia diante da pressão
estadunidense, o que incluiu uma visita do presidente francês Emmanuel Macron a
Nuuk. No entanto, para Pitillo, o desfecho atual não apenas expõe a fraqueza
crônica de uma Europa incapaz de conter o expansionismo de seu principal
aliado, mas também como esse acordo é perigoso por não ter sido divulgado
integralmente.
"É
muito estranho esse movimento dos EUA com relação à Groenlândia, que não há
clareza nesse tratado que foi gestado silenciosamente e apareceu na imprensa de
maneira parcial. Esses acordos secretos têm um perigo tremendo para o sistema
de pesos e contrapesos da política mundial, porque eles podem conter trechos
que, se contrariados, levem a um conflito maior", destaca.
Outro
ponto levantado pelo especialista é que, além da fragilidade política do bloco
europeu, houve também complacência entre os Estados-membros. Como a Dinamarca
pertence tanto à OTAN quanto à União Europeia, o desfecho do caso evidencia a
atual inércia da Europa diante das pressões externas.
"A
submissão é tão vergonhosa e latente que fizeram a entrega da Groenlândia de
maneira silenciosa, sem parecer que isso foi uma discussão do bloco [europeu].
O que fizeram foi um jogo de cena para ser menos vergonhoso. Mas essa entrega
da Groenlândia com certeza passou por essas lideranças", observa.
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Expansão de Washington provoca tensão no Ártico
O
especialista adverte ainda que transferir o controle securitário da Groenlândia
para os Estados Unidos catalisa a militarização da região, por se tratar de uma
estratégia de contenção hostil direcionada à China e à Rússia, que utilizam a
Rota Marítima do Norte como um vetor importante de comércio global.
"Veja
que a Suécia e a Finlândia logo entraram na OTAN e não tinha razão para Suécia
e Finlândia entrarem na OTAN que não fosse para pegar os acessos ao mar do
Norte. Os EUA têm por prioridade deter o avanço do comércio russo, chinês e do
Sul Global no Ártico, porque é uma rota mais rápida e que vai colocar os
produtos de Rússia, China, Vietnã, Índia na Europa, e África e nas Américas com
frete muito mais barato", conclui.
Diante
do recrudescimento da geopolítica global, que se torna cada vez mais complexa
sob pressões políticas e incursões militares, o caso da Groenlândia suscita
debates profundos. Entre eles, destacam-se os limites da soberania local e o
risco iminente de militarização da estratégica região do Ártico.
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O que Trump pode fazer na Groenlândia após acordo por
controle militar?
Donald
Trump, presidente dos Estados Unidos, assinou um acordo sobre a Groenlândia
após meses de ameaças ao território e aliados europeus.
O
entendimento parece introduzir pequenas alterações em um tratado de 1951 que
regula a presença militar dos EUA no território autônomo, segundo
especialistas, mantendo países de fora da Otan, a aliança militar ocidental,
afastados e permitindo um pequeno aumento no contingente de forças americanas.
Trump
havia ameaçado tomar a Groenlândia à força caso não chegasse a um acordo de seu
agrado, em um momento em que nações europeias enviavam tropas para o território
e as tensões com países como a Rússia aumentavam.
O acordo entre EUA,
Dinamarca e Groenlândia funciona como um complemento ao tratado de defesa de 70
anos que autorizou o país a manter tropas na
Groenlândia
como parte da estratégia de defesa da Otan.
Entre
as principais adições estão a proibição de que países que não integrem a Otan
instalem forças na Groenlândia, a construção de duas bases americanas e a
garantia de acesso militar dos EUA caso o território semiautônomo conquiste a
independência da Dinamarca, afirmaram especialistas.
"Não
acredito que a presença militar será tão grande assim, mas ela amplia nossa
presença — que é bastante modesta — na Groenlândia e faz parte de um cenário
muito mais amplo de atividades no Ártico e da expansão das operações de todos
os envolvidos, inclusive nós e os canadenses", disse Mark Cancian,
consultor sênior do CSIS (Departamento de Defesa e Segurança do Centro de
Estudos Estratégicos e Internacionais).
As
Forças Armadas dos EUA mantêm uma presença reduzida na base militar de
Pituffik, na Groenlândia, há décadas.
Embora
o presidente Trump tenha declarado no dia 18 deste mês que os Estados Unidos
começariam "imediatamente" a estabelecer uma
"grande presença militar" na ilha, Cancian afirmou que o contingente
final pode ser modesto, estimando um acréscimo total inferior a 50 militares.
As
restrições do acordo à influência de países que não integram a Otan sobre a
Groenlândia — uma das principais mudanças em relação ao tratado anterior — são
"claramente voltadas" para a China e a Rússia, acrescentou Cancian.
Trump
apresentou o acordo como uma forma de garantir "controle permanente sobre
a segurança" do território, depois de ter afirmado anteriormente que os
EUA precisavam de controle sobre o país para assegurar sua própria segurança.
O
entendimento firmado faz referência ao sistema de defesa antimísseis do
"Domo de Ouro", planejado por Trump, embora a implementação desse
programa ainda leve anos para ocorrer.
Os EUA
e outras nações têm voltado cada vez mais sua atenção para o Ártico à medida
que as camadas de gelo diminuem, criando rotas navegáveis que poderão
moldar o comércio global.
“Pode-se
argumentar que essa questão da Groenlândia causou muitos danos à segurança do
Ártico, justamente devido ao ambiente político desafiador”, disse à CNN Iris
Ferguson, ex-subsecretária adjunta de Defesa para o Ártico e resiliência global
na administração de Joe Biden.
“Mas
acredito que este acordo realmente aponta na direção certa para o avanço de
objetivos comuns", ponderou.
O novo
acordo inclui uma garantia de acesso para os EUA caso a Groenlândia se torne
independente da Dinamarca — uma questão que vinha gerando atrito há muito tempo
sob o acordo anterior, explicou Ferguson.
Ela
acrescentou ainda que seriam necessários investimentos significativos em
infraestrutura nos dois locais onde os EUA estabelecerão bases — Narsarsuaq e
Mestersvig — não apenas para acomodar pessoal, mas também para proteger
adequadamente os equipamentos contra as condições ambientais adversas.
“Acredito
que grande parte disso teria sido acordada com total disposição, não fosse por
certa retórica. Dito isso, considero que este é o melhor acordo que se poderia
esperar, dadas as circunstâncias", destacou Ferguson.
Mark
Rutte, secretário-geral da Otan, afirmou em uma publicação nas redes sociais
que é “ótimo ver o acordo assinado”.
“Conhecemos
as ameaças que enfrentamos, e uma maior segurança no Ártico e no Atlântico
Norte é essencial tanto para a Europa quanto para a América do Norte”, disse
Rutte.
“Este
acordo, juntamente com o papel crescente da Otan na segurança desta região
vital, reforça a nossa segurança coletiva e apoia um futuro mais seguro e
estável para todos nós", prosseguiu.
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O que a China tem a ver sobre o acordo que coloca a
Groenlândia sob controle dos EUA?
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (18) que os
norte-americanos serão responsáveis pelo controle da segurança da Groenlândia "para sempre". Um acordo sobre o
tema deve ser assinado com a Dinamarca na próxima semana.
O
tratado representa uma conquista importante para Trump, que há muito tempo
defende a anexação da ilha pelos EUA. Nos últimos meses, ele fez diversas declarações sobre o
território
— que pertence à Dinamarca, mas tem governo autônomo e discute a possibilidade
de independência.
Segundo
o presidente norte-americano, a Groenlândia tem um papel estratégico para a
segurança dos EUA e de outros países.
"Precisamos
da Groenlândia para a segurança internacional. Precisamos dela", afirmou
em uma entrevista em dezembro de 2025. "Odeio colocar dessa forma, mas
temos que ficar com ela."
Trump
também chegou a dizer que poderia usar a força para conquistar a Groenlândia e
ameaçou aplicar tarifas contra a União Europeia caso o território não fosse
cedido aos EUA. À época, autoridades da ilha e da Dinamarca afirmavam que o
território não estava à venda.
O tom
mudou no início deste ano, quando começaram as conversas entre Dinamarca,
Groenlândia e Estados Unidos. A negociação foi baseada em um tratado de
segurança no Ártico.
Mas há
mais por trás desse acordo.
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1. Histórico da Groenlândia
Coberta
em 80% por gelo e com 57 mil habitantes, a Groenlândia é a maior ilha do mundo
e possui hidrocarbonetos e minerais importantes para a transição energética.
O
território está geograficamente localizado na América do Norte, mas mantém
fortes relações com a Dinamarca. A ilha, que já foi uma colônia dinamarquesa,
passou a fazer parte do Reino da Dinamarca em 1953 e, até hoje, segue a
Constituição dinamarquesa.
Em
2009, a Dinamarca autorizou a Groenlândia a ter um governo próprio e autônomo,
permitindo até mesmo uma declaração de independência por meio de referendo.
Trump
não foi o primeiro presidente dos Estados Unidos a tentar adquirir a ilha. Após
o fim da Segunda Guerra Mundial, Harry Truman tentou comprá-la, oferecendo US$
100 milhões em ouro. O objetivo era garantir um território estratégico para
enfrentar as ameaças da Guerra Fria.
A
proposta de Truman foi rejeitada, mas, no início da década de 1950, os Estados
Unidos conseguiram instalar uma base militar na ilha com a autorização da
Dinamarca.
>>>
2. O que Trump quer?
Durante
seu primeiro mandato como presidente, Trump afirmou que faria uma oferta para
comprar a Groenlândia. Na época, as autoridades da ilha responderam que o
território não estava à venda.
Em
janeiro de 2025, Trump voltou a investir contra a Groenlândia. Ele argumenta
que a ilha poderia servir como uma plataforma estratégica para monitorar
ameaças vindas da Rússia e da Europa. A presença de radares e bases militares
fortaleceria o sistema de defesa americano.
Além
disso, radares instalados na região ajudariam a identificar navios e
submarinos, principalmente russos, monitorando as águas entre a Islândia, a
Grã-Bretanha e a própria Groenlândia.
E essa
posição estratégica não vem de hoje. Durante a Guerra Fria, russos e americanos
mantiveram armas nucleares e submarinos no Ártico.
Além do
fatos militar, a ilha também é rica em minerais, petróleo e gás natural. No
entanto, a extração de minerais enfrenta forte oposição de povos indígenas e
restrições burocráticas do governo. Já a exploração de petróleo e gás natural é
proibida por questões ambientais.
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3. O que a China tem a ver com isso?
Navio
de guerra da Otan navega durante treinamento militar no Ártico em janeiro de
2025. — Foto: Divulgação/Otan
Outro
fator que aumenta a importância estratégica da região é o aquecimento do
Ártico. O derretimento do gelo tende a ampliar a importância de portos e pode
abrir novas rotas de navegação, mudando a dinâmica do comércio internacional.
Nesse
contexto entra a China, que também tem interesse no Ártico. Uma nova rota
marítima pela região poderia reduzir a distância percorrida por navios chineses
em comparação com rotas tradicionais, além de passar ao lado da Rússia, uma das
principais parceiras de Pequim.
Embora
esteja distante cerca de 2 mil quilômetros do Ártico, a China investe na
construção de navios quebra-gelo. O país também é o maior produtor mundial de
carros elétricos e turbinas eólicas, setores que dependem de minerais
considerados estratégicos.
Os
Estados Unidos querem evitar que os chineses avancem na região.
>>>
4. O que se sabe sobre o acordo?
Em uma
publicação na rede social Truth Social, Trump afirmou que o acordo garante aos
norte-americanos a capacidade de "para sempre" fazer o que for
necessário para proteger a Groenlândia e os próprios EUA.
Segundo
o presidente, o acordo fechado determina que nenhum adversário dos EUA poderá
manter uma base ou presença militar na Groenlândia, nem fazer investimentos
considerados sensíveis no território, sem autorização do governo americano.
"Começaremos
imediatamente o processo de desenvolvimento de uma grande presença militar na
parte apropriada da Groenlândia, que possui muitas dessas áreas", afirmou.
Dinamarca
e Groenlândia elogiaram o acordo. O governo dinamarquês afirmou que o tratado
reconhece a soberania do território, ao mesmo tempo que amplia a segurança na
região.
Segundo
a primeira-ministra do país, Mette Frederiksen, o tratado vai fortalecer a
segurança no Ártico e no Atlântico Norte.
"É
um acordo que fortalece nossa segurança comum no Ártico e na região do
Atlântico Norte e, portanto, também é bom para a Otan e para a Europa",
afirmou.
"O
acordo ao mesmo tempo reconhece a soberania e a integridade territorial do
Reino e o direito do povo groenlandês à autodeterminação."
Já o
primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, disse que o acordo com
os EUA respeita e reconhece os interesses da Groenlândia. Segundo ele, a
iniciativa será benéfica a "todos".
As
partes ainda não revelaram detalhes sobre o texto do acordo, e o documento deve
ser assinado na próxima semana, durante a Assembleia Geral da ONU.
>>>
5. Groenlândia pode se tornar parte dos EUA?
Donald
Trump Jr. chegou há poucos dias a Nuuk, na Groenlândia — Foto: Emil
Stach/Ritzau Scanpix/via REUTERS
Em
2009, a Dinamarca autorizou a Groenlândia a formar um governo próprio e
autônomo, abrindo a possibilidade de uma declaração de independência por meio
de referendo.
Com
isso, na teoria, os habitantes da Groenlândia poderiam votar pela independência
da ilha e, posteriormente, decidir se querem uma associação com os Estados
Unidos. Na prática, porém, especialistas consideram essa hipótese pouco
provável.
Uma
pesquisa feita no país, no fim do ano passado, indicou que apenas 6% da
população apoia a incorporação aos Estados Unidos.
Fonte:
Sputnik Brasil/g1

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