O
Sairé e a luta dos Borari pela demarcação
Para o
povo Borari, habitante ancestral de Alter do Chão, em Santarém, no oeste do
Pará, celebrar o território é a prova viva de sua existência e resistência. É
dessa relação espiritual e comunitária com a terra que brota a Festa do Sairé,
uma das manifestações culturais e religiosas mais antigas da Amazônia. Muito
antes de as agremiações folclóricas dos botos Tucuxi e Cor-de-Rosa tomarem a
arena e de milhares de visitantes transformarem a vila em um dos destinos
turísticos mais movimentados do Norte do país, são a memória e os saberes
Borari que fazem a festa pulsar.
A
celebração começa longe dos refletores: nas roças, nas praias, nos lagos e na
floresta, de onde o povo retira os mastros sagrados, pesca, produz a farinha,
prepara o tarubá e colhe as folhas que perfumam o barracão. Trata-se de uma
“cultura do encontro” ancorada na partilha e na fartura oferecida pelo
território. Contudo, a abundância que alimenta a fé e sustenta o espetáculo
turístico é que depende diretamente da garantia desse chão.
A Terra
Indígena Borari de Alter do Chão fica a cerca de 37 quilômetros da área urbana
de Santarém e reúne as aldeias Alter do Chão, Caranazal e Curucuruí, onde vivem
aproximadamente 1.200 famílias, segundo o Relatório de Autodemarcação produzido
pelo povo Borari em parceria com o Núcleo de Pesquisas sobre Espaço, Política e
Emancipação Social (Nepes), da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).
A
reivindicação formal pela demarcação foi apresentada ao Estado brasileiro em 30
de setembro de 2003. Os estudos avançaram nos anos seguintes e o Relatório
Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) foi publicado pela
Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em 2009.
O RCID
reconheceu a ocupação tradicional e permanente do povo Borari em Santarém e
descreve a composição das três aldeias principais, mas o documento apresentou
“inconsistências relevantes, como a exclusão do lago Verde e de parte do rio
Tapajós da área proposta como território indígena”, segundo os Borari.
O
processo de demarcação no Brasil é regulamentado pelo decreto nº 1775/1996 e,
segundo a Funai, compreende as seguintes etapas, de competência do Poder
Executivo: estudos de identificação e delimitação (que incluiu o RCID);
contraditório administrativo; declaração dos limites pelo Ministério da
Justiça; demarcação física; homologação da demarcação, a cargo da Presidência
da República; registros posteriores e incorporação ao patrimônios da União.
O
Brasil possui 829 terras indígenas em diferentes fases demarcatórias, segundo
dados do monitoramento do Instituto Socioambiental com base nos registros
oficiais da Funai. Desse total, 540 territórios estão homologados pela
Presidência da República. As terras declaradas pelo Ministério da Justiça somam
71. Há 168 áreas em identificação, 45 identificadas e 15 encaminhadas como
reservas indígenas.
Até a
COP30, Conferência da ONU sobre Mudança do Clima, realizado no ano passado em
Belém, o governo Lula havia declarado 21 territórios e homologado 20 terras
indígenas no país, após a retomada das demarcações em 2023.
Mais de
duas décadas depois da primeira reivindicação, a situação fundiária dos Borari
continua sem conclusão. Em 2025, quando a Ufopa lançou o relatório de
autodemarcação, a universidade informou que o processo oficial estava há cerca
de 15 anos sem avançar para a etapa seguinte.
A TI
Borari de Alter do Chão, antes atendida pela Coordenação Regional Tapajós,
passou a fazer parte da Coordenação Regional Baixo Tapajós/Amazonas, criada no
dia 23 de setembro de 2026.
Foi
diante dessa demora que os próprios Borari decidiram caminhar pelo território e
produzir outra cartografia. Entre julho de 2024 e fevereiro de 2025, lideranças
e pesquisadores percorreram a área com GPS e drone para registrar os lugares
reconhecidos pelo povo como parte de sua ocupação tradicional. A autodemarcação
identificou Alter do Chão, Caranazal e Curucuruí e pontos como Jurucuí, Ponta
de Pedras, Ponta do Coatá, Ponta do Cururu, Ponta do Tauá, Ponta do Muretá e
Jatobá.
O mapa
produzido a partir desse trabalho mostra justamente aquilo que a festa do Sairé
ajuda a tornar visível: para os Borari, território não é apenas a área onde
estão construídas suas casas. É uma rede de lagos, praias, florestas, locais de
pesca, espaços sagrados e lugares habitados pelos encantados.
A
Amazônia Real procurou a assessoria de comunicação da Funai e a Diretoria de
Proteção Territorial, mas não recebeu respostas sobre o processo de
regularização fundiária da TI Borari de Alter do Chão até o fechamento desta
reportagem.
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Herança milenar
Muito
além da celebração religiosa – fundada
há cerca de 300 anos – a Festa do Sairé apoia-se na herança milenar do povo
Borari. Essa presença ancestral se materializa na produção do tarubá (bebida
sagrada de mandioca fermentada), na simbologia do arco em forma de meia-lua,
vindo de antigos rituais à lua, e na relação com espaços sagrados como o Lago
Verde e a floresta. Para os indígenas, esses locais são habitados pelos
encantados (entidades espirituais guardiãs da natureza) e sustentam um modo de
vida profundamente conectado à terra.
É
dentro dessa geografia que Osmar Vieira de Oliveira, 34 anos, cacique indígena
Borari e coordenador do rito tradicional do Sairé desde 2018, situa a
celebração. “O Sairé é a prova de que o nosso povo existe e resiste. É um saber
passado de geração em geração. O Sairé está no nosso sangue, nos chama, pois é
uma festa da fartura e a Amazônia de verdade é a nossa fartura que vem da
terra, do alimento ancestral”, afirma.
Para
Osmar, a hierarquia da festa também inverte, durante aqueles dias, relações de
poder construídas fora dali. “Nós, indígenas, somos juízes da festa. E mesmo
sem estudo ou riqueza branca, aqui somos a maior autoridade, porque o poder
está na nossa ancestralidade”, explica. Essa é à primeira vez que o Rito
Religioso passa a se tornar Rito Tradicional, tensionando a hierarquia da
igreja católica como autoridade soberana da festa.
A fala
ganha outra dimensão quando colocada sobre o mapa do território. O Lago Verde,
cartão-postal que todos os anos leva turistas às praias de Alter do Chão, é
definido pelo relatório de autodemarcação da UFOPA como o “coração” da
cosmologia Borari.
Segundo
o estudo, tanto o lago quanto faixas de areia como as pontas do Coatá e do
Cururu, lugares de significação espiritual onde, conforme a cosmologia Borari,
habitam seres encantados, ficaram de fora dos limites cartográficos
apresentados nos documentos oficiais analisados pelo povo.
O
relatório argumenta que essa delimitação não contempla integralmente as áreas
reconhecidas pelos Borari como necessárias à sua reprodução material e
simbólica.
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Seca e impactos ambientais
É
difícil separar essa geografia daquela percorrida todos os anos para realizar o
Sairé. O mastro, um dos principais símbolos do rito, precisa sair da floresta e
chegar à vila. Nos últimos anos, porém, esse percurso mudou.
“A
busca dos mastros era para dentro do Lago Verde. Mas já são dois anos que não
conseguimos entrar. A seca e o assoreamento mudaram tudo”, conta Dalva de Jesus
Vieira, que há 12 anos é a Saraipora, a guardiã que carrega o Arco do Sairé,
símbolo sagrado nas procissões e rituais da manifestação.
A
resposta encontrada pelos responsáveis pela celebração inclui o replantio das
árvores utilizadas. “Se não tiver madeira, como vamos erguer o mastro? Por
isso, sempre que cortamos duas árvores para a festa, plantamos de 50 a 100
mudas.” Para ela, porém, plantar não resolve sozinho o problema: “Não tem sido
suficiente, precisamos de mais terra para salvaguardar a nossa fartura” ,
complementa ela.
Além do
mastro, símbolo da fartura, há toda uma arquitetura de saberes tradicionais que
sustenta a alimentação durante o Sairé. São conhecimentos transmitidos entre
gerações e materializados nos alimentos preparados e compartilhados ao longo da
festa, do tarubá, bebida indígena de mandioca fermentada, aos peixes assados,
moqueados e cozidos. Mais do que compor o cardápio, essas práticas alimentares
carregam modos indígenas de produzir, preparar e repartir a comida.
É desde
o interior da cozinha que Zenira dos Santos, indígena do povo Borari da aldeia
Karanã, no Caranazal, em Alter do Chão, reafirma a comida também como um ato de
resistência e permanência territorial. Há seis anos trabalhando na cozinha do
Sairé, ela participa do preparo de cerca de 150 refeições por dia, mantendo uma
tradição em que a fartura não significa apenas abundância, mas partilha.
“Tem
seis anos que estou nessa cozinha. Servimos 150 pratos de comida por dia.
Distribuímos o tarubá, que sempre foi servido nos puxiruns no nosso território.
A comida servida durante o Sairé lembra para todo mundo que somos indígenas e
que precisamos manter a nossa principal tradição, que é distribuir a fartura”,
explica.
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Contradição no território da fartura
Essa
contradição atravessa o próprio Sairé. Quanto mais Alter do Chão se consolida
como destino turístico, mais valorizada fica a paisagem que os Borari
reivindicam como território. E quanto mais a festa cresce como evento, mais
evidente se torna a dependência de recursos que não são produzidos dentro da
arena.
Em
2025, o Ministério do Turismo destinou R$ 2,6 milhões ao Sairé, enquanto a
celebração movimentou hospedagem, transporte, alimentação, artesanato e outros
serviços. Mas a economia da festa começa muito antes da chegada desse
investimento: começa no acesso à madeira, ao peixe, às fibras, às plantas e às
águas.
Antônio
Sardinha Borari, Presidente da Associação dos Catraeiros de Alter do Chão, à
associação mais antiga do território, enxerga o Sairé a partir das catraias.
Todos os anos, as pequenas embarcações tradicionais participam da busca dos
mastros, conduzindo pessoas por um percurso que liga o rio ao ritual. “A busca
do mastro sem a catraia não tem, não existe. E a catraia sem a busca do mastro
também não existe para o Sairé”, diz. Para ele, participar desse momento não é
prestar um serviço à festa, mas ocupar um lugar dentro de uma história
coletiva.
“É um
orgulho ir na busca do mastro. É um orgulho trazer o mastro. É uma história,
faz parte da nossa história.A gente precisa que as pessoas que cheguem para a
associação entendam que é um orgulho Borari fazer parte da busca do mastro”,
enfatiza Antônio.
Há,
portanto, duas imagens de Alter do Chão convivendo no mesmo espaço. Uma é a
paisagem turística: praias brancas, Lago Verde, Tapajós e uma festa que atrai
visitantes e investimentos. A outra é o território descrito pela autodemarcação
Borari, no qual praias são áreas de pesca, lagos fornecem alimento, serras são
lugares sagrados e a floresta guarda matérias-primas e seres da cosmologia
indígena. Na aldeia Curucuruí, por exemplo, a Serra do Curucuruí é identificada
pelo relatório como espaço sagrado, lar de encantados e nascente do igarapé que
atravessa a aldeia.
Foi
justamente a diferença entre essas maneiras de enxergar o espaço que levou os
Borari à autodemarcação. O levantamento foi aprovado pelas lideranças do
cacicado, instância de organização e decisão das lideranças Borari,em 2024 e
realizado com apoio técnico do Nepes/Ufopa. Para os pesquisadores, a ocupação
tradicional Borari é sustentada por registros históricos, estudos
antropológicos e evidências territoriais; o relatório também registra que o
território segue pressionado por projetos turísticos e imobiliários de alto
padrão. A autodemarcação não substitui o procedimento administrativo conduzido
pelo Estado, a Funai continua responsável pelas etapas oficiais previstas no
Decreto 1.775/1996, mas funciona, para o povo, como ação de autodeterminação e
defesa dos limites que reconhece como seus.
Por
isso, a retomada que atravessa o Sairé não acontece apenas quando alguém
pronuncia a palavra Borari no palco. Ela acontece quando uma geração ensina à
outra onde pescar, por onde navegar, como buscar o mastro, quais plantas
pertencem ao rito e por que determinados lagos, serras e praias não podem ser
reduzidos a pontos turísticos. “A gente precisa fazer com que eles entendam que
têm que ter orgulho disso. Orgulho de serem Borari”, diz Dalva.
No fim,
a fartura que dá sentido ao Sairé revela também a fragilidade de uma festa que
depende de um território ainda sem demarcação concluída. O mastro pode ser
erguido no centro da vila, mas a árvore vem de fora dele. O peixe servido
durante a celebração depende de lagos e rios. A catraia depende de água
suficiente para navegar, a murta e a palha dependem da floresta e os
conhecimentos que dão significado a cada um desses elementos dependem de
pessoas que possam continuar vivendo, circulando e ensinando dentro desse
território.
Silvert
Abraão da Silva, 29 anos, indígena Borari, é meteorologista e mestre em
Recursos Naturais da Amazônia da Ufopa. Mas no Sairé, também ocupa o posto
comunitário de Alferes do rito tradicional. Desde os 13 anos, carrega a
bandeira do Divino Espírito Santo, símbolo da paz e representação da Juíza,
autoridade máxima na hierarquia da festa.
A
relação de Silvert com a bandeira atravessa gerações. Herdada de seus
familiares, ela representa, para ele, mais do que uma função dentro do rito: é
a continuidade de um compromisso ancestral e espiritual com o território
Borari. Como parte de uma nova geração que assume responsabilidades na
celebração, ele entende o Sairé como um lugar sagrado que precisa permanecer
vivo para aqueles que ainda virão.
“Representa
meu avô, meu tio e todos que seguraram a bandeira. Meu tio me passou a bandeira
e, com o tempo, fui aprendendo. É uma conexão espiritual, de geração em
geração. Com isso, cumpro meu papel enquanto indígena no meu território, que é
ser guardião de um saber”, explica.
No
Sairé, essa relação entre ancestralidade e território pode ser lida de maneira
ainda mais concreta: sem território, não há fartura.
Fonte:
Por Taina Rionegro da Amazônia Real

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