Calma
urgente
As
eleições gerais de 2026 no Brasil representam um momento político especialmente
sensível e particular. A candidatura de Flávio Bolsonaro, do PL, já deu
diversos sinais de sua submissão aos interesses estadunidenses, em temas de
especial relevância para o futuro da humanidade, como é o caso da exploração de
terras raras, colocando em xeque a soberania nacional. Embora a candidatura de
Flávio Bolsonaro seja a mais bem colocada nas pesquisas à direita do espectro
político, há outros candidatos à presidência da República brasileira, como
Ronaldo Caiado, do PSD, Renan dos Santos, da Missão, Augusto Cury, do Podemos e
Romeu Zema, do Novo que estão conectados e unidos contra Luiz Inácio Lula da
Silva, candidato à reeleição pelo PT.
A
particularidade deste pleito se revela, sobremaneira, pela possível
interferência, direta ou indireta, dos EUA no resultado eleitoral, cuja
intenção se percebe pelas declarações de seu presidente e aliados.
Recentemente, Senadores norte-americanos enviaram cartas ao seu Departamento de
Estado, alertando para este risco, citando episódios anteriores, como a
imposição de tarifas e a reunião de Donald Trump com Flávio Bolsonaro, no curso
do escândalo do banco Master.
Nesse
contexto, é relevante analisar a atuação de veículos de mídia que atuam de
forma independente e lançam luzes a problemáticas e temas que por vezes não são
tratados pela mídia hegemônica, que, sob o manto de uma pretensa
imparcialidade, ignora diferenças substanciais nas candidaturas. Assim é que se
analisará a atuação do podcast Calma Urgente.
Criado
em abril de 2024, por Alessandra Orofino, Bruno Torturra e Gregório Duvivier,
após o cancelamento do programa GregNews, exibido na HBO de 2017
a 2023, no qual o trio atuava como roteiristas e Duvivier também como
apresentador, o podcast se apresenta como a discussão dos “assuntos que urgem,
serem tratados com muita calma”, segundo a descrição em seus perfis virtuais
(youtube, spotify e etc.). Em setembro de 2026 o grupo ampliou a sua atuação ao
criar uma série de documentários denominados Revelando o Brasil, com a
atuação dos atores Fabio Porchat e Samara Felippo.
Os
episódios sobre os escândalos da Igreja Batista da lagoinha e o Escândalo do
Banco Master foram realizados e criados pelo grupo do Calma Urgente com
apoio do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e Midia Ninja. O
episódio “Grandes Igrejas, Master Negócios” com Fábio Porchat, publicado no dia
21 de setembro de 2026, alcançou o primeiro lugar de vídeos mais assistidos do
Youtube Brasil, com mais de 6 milhões de visualizações.
Dois
dias após a publicação, a página do projeto, na rede social Instagram, chegou a
ser derrubada pela Meta, sob a justificativa de “não seguir os padrões da
comunidade”. A equipe do podcast, Fabio Porchat, Mídia Ninja, 342 Artes e o ICL
argumentaram perseguição política e tentativa de censura uma vez que o vídeo
era uma lista de fatos reportados pela imprensa abordando as conexões entre o
Banco Master, a Igreja da Lagoinha e políticos de direita, mas retornou ao ar.
Ao lado dos pronunciamentos e da pressão no campo das mídias sociais, o
deputado federal Orlando Silva (PC do B) acionou formalmente o Ministério
Público Federal (MPF) exigindo transparência imediata sobre os critérios de
moderação de conteúdo aplicados pelas Big Techs, em especial pela Meta.
Segundo
informações do próprio programa, o Calma Urgente é financiado pelo seu
clube de cultura, no qual os membros pagam um valor de assinatura anual para
ter acesso a uma série de encontros gravados ou ao vivo, a respeito de livros,
filmes ou discos escolhidos pelos organizadores.
Para
compreender o jornalismo que a equipe do Calma Urgente realiza, a fala
de Bruno Torturra em um dos podcast é notável: “O que o jornalismo precisa é
não ser mais isento. É ser honesto”. Aqui, será analisado o jornalismo do Podcast
Calma Urgente por meio de três programas veiculados neste período eleitoral
de muitos confrontos, escândalos e luta política. São eles: “Entre Lula e
Flávio, a diferença é abissal”; comentário de Gregório Duvivier; “O Flávio
Bolsonaro é esse grande pau de galinheiro da República”; comentário de
Alessandra Orofino e “O Flávio vai transformar o Brasil num grande Rio de
Janeiro”, também de Gregório Duvivier.
(i)
“Então eu fico com ódio, eu to com ódio, ódio, ódio mesmo, sabe? Ódio no
coração. Eu queria não estar. Eu queria lidar numa boa. Viva a democracia, é
bonito. Alternância de poder, também. Aí 2030, né? A esquerda não vai ter 2030,
gente. Não vai ter Brasil, não vai ter mundo, assim, não é exagero. É o Trump
que tá nos Estados Unidos, C*ralho! Ele tá querendo desesperadamente comer cada
galinha desse galinheiro. Ele tá querendo, assim, ele tá com os olhos dele
vidrados. Ele e Marco Rubio, Elon Musk e todos os grandes vilões do mundo. Eles
estão querendo botar na presidência um capacho, bandido, miliciano, covarde,
arregão, um merda, cagão, sabe? A pior das piores pessoas que o país já
produziu, mesmo, o Flávio Bolsonaro é das piores pessoas em todos os aspectos.
Bandido, ladrão, mesmo. De Kopenhagen, que todo mundo já tem aquilo, é um batom
na cueca bizarro, naquela cueca freada dele, é uma atrás da outra. É um sujeito
que enriqueceu milhões de patrimônio, multiplicou o patrimônio, comprou casa
com dinheiro vivo. Ele vai estar na presidência indicando ministros para o
Supremo um atrás do outro. Quatro ministros para o Supremo. Vocês estão
entendendo o desespero que vai dar? Sem falar em meio ambiente, sem falar em
Amazônia. Vocês viram como é que a curva de desmatamento da Amazônia? Pra todo
mundo dizia assim: “Ah, mas o Lula também meio ambiental, meio ambiente não é
muito bom, o Lula, também pra esperar muito”. Vocês viram a curva (gráfico é
mostrado) do desmatamento da Amazônia? Vocês viram isso aí? Assim, a diferença
que faz o Lula na presidência? E a Mariana Silva? “Ah, não faz diferença”. Não
faz pra você, c*ralho! Ah, mas o Lula podia ser melhor? Claro, que podia. Mas a
diferença ainda assim é abissal”. (DUVIVIER, G. Calma Urgente. Disponível em: https://www.instagram.com/reels/DdFMMOmR9Cr/).
Neste
episódio, como uma coluna de jornal, Gregório Duvivier combina comentário
político, desabafo e tentativa de mobilização eleitoral ao demonstrar, na sua
fala, o desespero e as possíveis consequências caso o candidato Flávio
Bolsonaro (PL) vença as eleições, inclusive analisando a relação com os Estados
Unidos e a política de Donald Trump e outros políticos relacionados com a
extrema direita. Também compara com o governo de Lula e sua política exercida
na Amazônia.
(ii)
“De um lado o Flavio Bolsonaro que é esse grande pau de galinheiro da
República, o grande pau de galinheiro do Brasil, né Greg? E do outro lado a
gente está falando do Lula, que é um político que foi ao longo de muitos anos,
acusado de corrupção e apontado como um grande operador, como se ele estivesse
ali no centro. Teve o PowerPoint do Lula. O PowerPoint que não fizeram pro
Flávio fizeram para o Lula, só que ele tinha muita informação inverídica. Mas o
fato é que na cabeça das pessoas é como se essas coisas se anulassem porque
elas são equivalentes. Elas não são. Tem milhões de acusações que já pesaram
sobre o Lula, vários escândalos envolvendo o partido, ninguém na nossa
audiência vai dizer que o PT ele é uma grande congregação de anjos. Não se trata
disso, mas não existe nada semelhante ao que existe em relação ao Flávio
Bolsonaro envolvendo Lula se a gente falar especificamente, por exemplo do
áudio do Flávio pro Vorcaro. Não existe o Lula de viva voz, falando para um
bandido “amiguinho me dá 130 milhões de reais”. Se existisse, gente não existia
a possibilidade do Lula estar no poder. Não tem nenhuma comparação. Não existe
um batom na cueca para o Lula como existe pro Flávio. Tudo isso que a gente
está falando não é corrupção, exatamente. É corrupção. Tem acusações de
corrupção, tem acusações de esquema, tem acusação de roubo de dinheiro público,
mas tem sobretudo essa relação muito documentada com o crime organizado. Então,
é a serviço de quem que esses esquemas estão sendo montados? É a serviço de quem
que você tem uma loja da Kopenhagen que tem todos os indícios de ser usada pra
lavagem de dinheiro? É a serviço de quem que se emprega um monte de gente num
gabinete com ligações com a milícia? É pra quê? É a serviço de que o Flávio
está atuando como advogado quando ele vai defender policial acusado de
homicídio no Rio de Janeiro? Quem são esses policiais? Com várias acusações de
homicídios. Quem são essas pessoas que precisam de empresas sediadas no Rio pra
fazer lavagem de dinheiro? É o crime organizado do Rio de Janeiro. A gente está
falando de indícios muito fortes de ligação com o crime organizado. Com
narcotráfico, com a milícia é disso que a gente está falando”. (OUTOFINO, A.
Calma Urgente.
Alessandra
apresenta de maneira mais estruturada, do ponto de vista jornalístico, que as
acusações contra Lula e Flávio Bolsonaro não são equivalentes, problematizando
inclusive o jornalismo que ao afirmar que “os dois têm acusações, portanto são
iguais” dispensa, em certa medida, a análise da natureza das acusações, das
provas e da responsabilidade individual. Ela expõe algumas denúncias de
corrupção e de envolvimento do crime organizado de Flávio Bolsonaro (PL). A
preocupação demostrada pela fala da jornalista é estampada no modo de sua
exposição. Não existe leitura de prompt preparado para seu comentário, visto
que os roteiristas do programa são os próprios comentadores e conhecedores
profundos dos assuntos discutidos no Podcast.
(iii)
“Eu moro no Rio de Janeiro, e acho que é muito bom lembrar que o Flávio
Bolsonaro ele é cria do Rio de Janeiro. Ele não é apenas carioca, ele é cria do
Rio, não de qualquer Rio. Ele é cria da milícia carioca, exatamente do Rio das
Pedras. Uma das preocupações das pessoas é segurança pública no Brasil hoje, é
uma das principais coisas que as apavoram. Não está seguro. O Brasil não está
seguro. Com razão, elas estão preocupadas com isso. Eu moro no Rio de Janeiro.
O Rio de Janeiro é governado há oito anos por bolsonaristas. Se tem um lugar
que é um tubo de ensaio para o que o bolsonarismo tem para apresentar em termos
de segurança pública é o Rio de Janeiro. O caos do Rio de Janeiro é o caos dos
governos bolsonaristas. Eles estão no governo há oito anos. A explosão de
latrocínio, de chacina, de guerra de facções, de tiroteio, de bala perdida, de
morte. Ela é bolsonarista no Rio de Janeiro. É isso que eles têm para oferecer.
Eles vão transformar o Brasil num grande Rio de Janeiro. É isso que vocês querem,
de verdade? Ele deu medalha pra miliciano, pra assassino. Ele é uma pessoa
literalmente, assim, ele é… a relação dele é uterina com a milícia, ele é a
milícia carioca e é isso que vocês vão ver. Vocês vão ver o Brasil
milicianizado. Então, eu acho que a gente precisa falar. È isso que precisa ser
dito urgentemente, entendeu? Que esse modelo que ele está apresentando, já
existe no Brasil, não só durante os quatro anos do governo Jair Bolsonaro, com
gente na fila do osso, na fila, pelo amor de Deus, tentando implorar por um
pedaço de osso pra sobreviver. Então não é só a volta da fome, não é só o
governo Jair Bolsonaro que vai voltar, mas é o governo Witzel. É o governo
Claudio Castro expandido a nível nacional. Só o carioca sabe o que é isso,
gente!” (DUVIVIER, G. Calma Urgente.
O
comentário de Gregório Duvivier, a partir de sua experiência pessoal “eu moro
no Rio” transfere um tom dramático e desesperador para a reflexão, daquele que
reconhece o medo, os tiroteios e as consequências da violência no cotidiano, o
trecho transforma a experiência vinculada a questões de interesse público como
a segurança e os vínculos de políticos com às milícias em um argumento contra a
eleição de Flávio Bolsonaro.
Há um
alerta desesperado, expresso pelo tom da voz e a expressão facial que retrata
uma preocupação e um desespero ao vislumbrar de um cenário negativo frente a
possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.
Ao
declarar abertamente seu ódio, medo e desespero ante a possibilidade de uma
vitória de Flávio Bolsonaro, Gregório Duvivier transforma sua reação emocional
no próprio argumento. Com isso, o público é estimulado não apenas a compreender
de forma racional a diferença entre os projetos políticos em disputa, mas a
compartilhar seu sentimento de urgência e preocupação. A emoção se torna uma
forma de comunicação e mobilização política, servindo também para emergir uma
relação de identificação entre o comunicador e o público, que pode reconhecer,
em sua indignação, sentimentos assemelhados.
Assim,
apesar de suas limitações e possibilidades de críticas, o jornalismo
independente ao utilizar as mídias sociais como espaço de divulgação de suas
ideias, permite uma ampla visibilidade com a ruptura, em alguns casos, das
bolhas gerenciadas pelos algoritmos. No caso do Calma Urgente, o que
caracteriza este podcast é a coragem e os comentários diretos, sem
‘meias palavras’, dos seus coordenadores, que já exerceram um trabalho coletivo
desde o programa Greg News, também produzido com muito cuidado e com
discussões pertinentes e provocativas, que a grande imprensa evita praticar.
O Calma
Urgente se notabiliza não por consistir em um podcast informativo, que
proclamaria uma pretensa neutralidade, mas justamente pelo fato de buscar
convencer o público da relevância dos temas e, especificamente no período
eleitoral, da diferença entre as candidaturas em disputa, a partir de elementos
e questões que por vezes não são trabalhadas ou aprofundadas por outros
veículos de comunicação. Para isso, mobilizam sentimentos como indignação,
preocupação e urgência, como parte intrínseca da comunicação política.
O
envolvimento emocional não é apenas uma consequência dos fatos ou de também se
apresentarem como cidadãos engajados, mas serve também como estímulo à
identificação para a ação coletiva. O Calma Urgente procura conciliar
explicação, engajamento, informação, posicionamento, reflexão e paixão
política, assumindo os afetos como elementos importantes para a compreensão e a
participação no debate público.
Fonte:
Por Vera Chaia, Silvana Martinho e Arthur Spada, em A Terra é Redonda

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