Esquerda
que ri de 'CEO de MEI' não entende os sonhos do novo trabalhador, diz
antropóloga
No
laboratório que dirige na University College Dublin, na Irlanda, a antropóloga
brasileira Rosana Pinheiro-Machado olha com uma lupa para um fenômeno que se
repete em países que tiraram milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas:
o desejo de querer mais. No Brasil, na Índia ou nas Filipinas, enquanto
experimentavam uma mobilidade social inédita, milhões de pessoas adquiriram
bens e passaram a ver de perto ou pela tela do celular a conquista dos
outros. A capacidade de sonhar da população, diz Pinheiro-Machado em entrevista
à BBC News Brasil, atingiu assim níveis que nunca havia atingido antes,
"porque a gente aspira tudo aquilo que a gente pode ver".
LEIA A
ENTREVISTA:
·
O trabalho da senhora fala sobre como as redes sociais
exacerbaram uma "classe aspiracional" no Brasil, que olha a vida
"boa" de alguém que posta viajando, comprando, se divertindo, e
deseja ter aquilo. Mas em que momento essa aspiração se funde à política?
Rosana
Pinheiro-Machado -
Essa formação de classes aspiracionais no Brasil é um movimento gradual a
partir dos anos 1980, dos anos 1990, e, depois, nos anos 2000.
Depois
de 2015, com a explosão de redes sociais, a gente vai ter grupos olhando para
coisas que muitas vezes nunca pensou que poderia ter. Adquirir não só algo que
eu vejo que as pessoas da minha rede social tem, mas muito além... Isso, claro,
faz com que a capacidade de sonhar da população atinja níveis que nunca tinha
atingido antes, porque a gente aspira tudo aquilo que a gente pode ver. Depois,
a gente tem a pandemia, que é muito importante não só porque todo mundo ficou
mais conectado online, mas principalmente porque o pós-pandemia fez com que uma
rede muito específica de influencers se consolidasse no Brasil com uma promessa
de renda extra digital. A gente sempre teve influencers no Brasil, mas a
consolidação de uma rede com valores muito específicos sobre trabalho e
política vai se consolidar a partir da pandemia, oferecendo oportunidade para
as pessoas poderem trabalhar mais de casa, fazer uma renda extra. Com isso,
prometem um sonho, de você ter uma Ferrari, de você ter uma casa, para você ter
a vida que sempre sonhou e para que seus filhos possam ter acesso a coisas que
você não teve. Isso, em meio à precariedade no Brasil, se torna uma
oportunidade. Essa rede específica do chamado "marketing digital" vai
fazer com que esse universo político e dos sonhos se conectem mais. Eles sempre
estiveram conectados de alguma maneira, porque a política da aspiração
individual é uma política que não é uma da aspiração coletiva. Mas, a partir
desse fenômeno, principalmente via influencers do marketing digital, a gente
vai ter algo completamente novo que é: uma explosão de pessoas vendendo sonhos,
surfando nos sonhos da população brasileira.
·
E qual é o perfil dessa rede de influencers?
Pinheiro-Machado
- Esse
campo do marketing digital tem o completo monopólio do empreendedorismo digital
hoje no Brasil. Hoje, se você quiser fazer um negócio digital, o algoritmo vai
te mandar para essas pessoas. E, nesse campo, 90% dos influencers estão de
alguma maneira alinhados à extrema direita. A gente fala isso com muita
precisão, de um acompanhamento de mais de dois anos por diversos critérios
quantitativos e qualitativos, acompanhando o movimento político desses
influencers. É um grupo político que tem uma visão de que o crescimento é
puramente individual. Isso já é político por si só, mas no Brasil esse grupo
foi se alinhando também à extrema direita. E eles estão surfando sozinhos nessa
explosão de aspirações da sociedade brasileira. Colocam uma ideia de que, para
você crescer, é só você sozinho. Então, você tem que romper com a sua família,
tem que mudar o teu mindset, tem que realmente se transformar numa outra
pessoa e que o seu esforço individual é a única coisa que importa. Claro,
quando a gente fala em aspiração e empreendedorismo individual, pode ter uma
tendência para ir para valores mais individuais e neoliberais. Mas isso não é
definitivo. O que torna isso definitivo é que hoje quem captura esse desejo por
conforto, por autonomia e por liberdade na sociedade brasileira é essa rede
muito específica. E isso é um fenômeno brasileiro. Mas, com isso, eu não quero
dizer toda essa população está sendo manipulada por esses influencers. Isso não
é verdade. A gente tem um encontro de expectativas...
·
A senhora também faz pesquisas na Índia e nas Filipinas.
São países que também tiraram muita gente da pobreza e, com isso, vem também a
aspiração. Lá acontece de forma diferente ou também há a captura por esse
fenômeno de influenciadores de direita?
Pinheiro-Machado
- Isso
é um fenômeno muito brasileiro. A gente tem, por exemplo, a Índia, um país que
tirou milhões e milhões de pessoas da pobreza e que também foca muito numa
política de Estado de crescimento pelo empreendedorismo e por caminhos muito
individuais. As Filipinas também têm um dos maiores mercados de influencers do
mundo. Só que [aqui] se criou um campo chamado "marketing digital" ou
"da prosperidade" online, que é um campo muito específico que une a
figura do coach e do influencer. A gente tem um processo que é: esse mercado do
marketing digital é configurado como uma pirâmide. Eu chamo isso de uma
"pirâmide aspiracional". Você começa então vendendo um produto como
unhas de gel. Sou manicure e eu ponho ali no Instagram o meu produto, que é meu
serviço de manicure. Aí eu começo a comprar cursos para saber como ofereço
isso, como me posiciono online, estratégias de funil, de lançamento... Com
isso, eu começo a entrar num processo de 'desenvolver o meu mindset', de
que o problema não é só mais a técnica digital, mas a transformação do meu eu
para atrair a riqueza. Com isso, daqui a um pouco eu já não quero mais melhorar
meu negócio de manicure. Eu entendo que, daqui a pouco, eu vou ser mentora de
manicures e vou começar a vender o produto digital, que é quase ilimitado. E,
daqui a um pouco, viro mentora das mentoras, não mais de manicure. Então, a
gente tem esse caminho. Eu começo tentando tirar uma renda extra digital, e
começo a aspirar a ser mentor no esquema piramidal mesmo. Só que o que a gente
consegue quantificar é que esse crescimento, com a nossa base de dois milhões
de aspirantes a empreendedores digitais, é praticamente nulo.
·
E esse não crescimento gera frustração, imagino... Essa
frustração acaba se refletindo na política?
Pinheiro-Machado
- A
frustração sempre vai ter um custo político. A gente está falando de milhões de
pessoas que ao longo de gerações tiveram essa capacidade de aspirar ampliada e
que hoje encontram no digital uma promessa fácil, rápida, que parece solucionar
todos os problemas da vida: tempo, dinheiro e respeito. E aí elas não
conseguem. E o que acontece? Tem dois caminhos que poderiam acontecer. Um
caminho é: "eu não acredito mais nesse mundo. Estou investindo há um ano e
isso aqui é uma furada. Isso aqui é picaretagem. Isso aqui não funciona para
mim". O outro caminho é dizer: "eu não investi o suficiente no meu mindset.
A culpa é minha. Eu tenho que me esforçar mais". Ao mesmo tempo em que
poderia ser lógico de que a frustração dessas pessoas levaria a um
desencantamento com esse mundo do marketing digital, até o momento o que a
gente pode dizer a partir das pesquisas qualitativas, conversando com as
pessoas, é que elas culpam a si próprias pelo fracasso. Isso é uma
radicalização de uma política hiperindividualista em que o único responsável
pelo fracasso e pelo sucesso sou eu mesmo. Eu despolitizo esse processo e dobro
a aposta no investimento em pagar mais um coach, em tentar de novo, em
continuar mais uma noite sem dormir. São pessoas que estão ali alimentando
sonhos, se frustrando e, com isso, percebendo o Estado como usurpador, que só
chega para extorquir ou que o Estado só chega para taxar ou para sindicalizar,
que ele sempre esteve ausente. Há um grupo de candidatos que está pensando
nessas pautas que a gente poderia chamar de "populismo econômico",
que é a ideia de que você cresce a partir do seu trabalho árduo e o papel do
Estado é não fazer nada. A gente sabe que isso não é verdade no Brasil, mas o
discurso que pega entre essas pessoas é de que você só precisa trabalhar duro,
alinhar o seu mindset e com isso você vai crescer. E o papel do Estado é
não é não atrapalhar. O PT muitas vezes é visto como governo, como Estado e
como algo que vai aparecer só para sugar e para roubar.
·
Então, essa frustração causada também está por trás da
dificuldade que o governo tem de falar com esse público tão imenso no Brasil
hoje?
Pinheiro-Machado
- É
uma dificuldade muito grande em muitos sentidos. Porque, por um lado, a gente
tem um partido que historicamente falou para trabalhadores sindicalizados e
formalizados. Tem uma dificuldade de olhar para o empreendedorismo como algo
que também pode ser uma alternativa para a questão da formalização e do
emprego. E também de pensar nesse desejo de autonomia como algo legítimo e não
necessariamente como algo anticoletivista. Por outro lado, a gente vai ter um
grupo que está tornando esse desejo de autonomia como algo muito vinculado a
uma pauta libertária. Só que a autonomia pode ser também uma pauta coletiva, um
desejo legítimo num país marcado pelo legado da escravidão como o Brasil, em
que trabalho sempre implicou em processos de humilhação, de exploração,
servidão. Então, o desejo por autonomia pode também ser um desejo por
emancipação. Então, é por aí que o governo precisava olhar para isso, para o
desejo de autonomia como algo que precisa ser compreendido e oferecer para
essas pessoas mais proteção social. Esse é um processo que eu vejo que o
governo vem fazendo nos últimos anos, porque não é mais possível não olhar para
esse fenômeno, que é um dos maiores fenômenos da sociedade brasileira hoje. Mas
uma das coisas mais importantes hoje para entender o Brasil e as eleições é que
o trabalho plataformizado não se resume aos dois milhões de pessoas uberizadas
que a gente tem no Brasil. A gente está falando de, no mínimo, uma dezena de
milhão de pessoas.
A
plataformização do trabalho transforma a política pela sua natureza tecnológica
em princípio desvinculada do Estado; pelo processo de isolamento que ele causa
no trabalho digital; por toda sua forma alienante no sentido do trabalho; e por
todo o discurso que ele traz embutido sobre você ser o único responsável pelo
seu sucesso: você é um empreendedor, e não mais um trabalhador.
·
Se a grande maioria está na base da pirâmide do marketing
digital e não vai crescer, porque o sistema está desenhado assim, como essa
frustração vai se refletir na vida cotidiana e nas relações pessoais?
Pinheiro-Machado
- A
gente tem hoje uma ideia de que muito das nossas aspirações são sempre moldadas
com o que a gente vê na rede social, o que é verdade. Mas tem outra dimensão
que eu gosto de chamar atenção, muito concreta na vida cotidiana. Eu sempre
tento pensar como esse mundo do ódio e da raiva não é só moldado numa
desinformação abstrata ou num sonho abstrato de crescimento ou num inimigo
abstrato forjado nas redes sociais. A raiva é algo muito concreto. O trabalho
de pesquisa mais granular, mais no chão de fábrica, vai nos mostrar que as
pessoas vão construindo uma série de ressentimentos muito fortes em torno da
sua própria comunidade, da sua própria vida. Isso porque esse sujeito se vê
como empreendendo, tentando. Ele paga mentoria, para crescer, tem todo o pacote
da aspiração, trabalha 12 horas por dia e não se vê crescendo. Em vez disso se
transformar, por exemplo, numa frustração contra o próprio campo do trabalho
plataformizado, o que vai acontecer é justamente o oposto. Essa pessoa vai
culpar geralmente a parte mais fraca, que faz parte do universo que forma a
extrema direita populista hoje. A culpa é do imigrante, é da pessoa que recebe
o Bolsa Família... Quando a gente está fazendo pesquisa, a gente vai ver que um
dos maiores ressentimentos ainda é o Bolsa Família. A ideia de que eu trabalho
duro, 15 horas por dia, mas a minha prima preguiçosa ganha tudo do Bolsa
Família, do governo. Eu percebo o Estado como muito ausente para mim, não me dá
nada, mas em tese eu acredito que ele dá tudo para a pessoa que recebe todos os
benefícios e não faz nada, está acomodada. A gente sabe que isso não é verdade.
Todas as estatísticas aí de décadas do Bolsa Família mostram justamente ao
contrário. Mas há aí um ressentimento estrutural que é baseado nas histórias
concretas de vida. Então, ao invés de a gente ter um senso coletivo e entender
que a política de redistribuição é uma política muito importante, em pensar no
coletivo de que pessoas mais pobres precisam de benefícios, eu entendo que eu
sou melhor que aquela pessoa. E assim eu começo a me identificar com uma
política de extrema direita, que é nós contra eles, porque a definição de
extrema direita, em grande medida, é uma política de divisão, de (achar) que
alguns grupos são superiores que outros.
·
Esse sentimento está um pouco na raiz da explicação sobre
a sensação negativa da população com a economia, mesmo que os índices mostrem
um cenário positivo?
Pinheiro-Machado
- Eu
acho que tem dois sentimentos que explicam isso. É um erro muito grande de todo
o campo de estudos da extrema direita quando só foca no ressentimento. Eu
sempre digo que o ressentimento é 50% da história, e isso é muito. Mas a gente
também tem a outra metade da história que é o sonho de crescer.
Eu
diria que as emoções em jogo nessas eleições são uma composição de raiva,
ressentimento e frustração, mas de emoções positivas também. A gente tem também
o desejo de crescer, o desejo de empreender, o sonho positivo. E aí a gente tem
uma política do governo que não consegue mais responder à raiva da população,
mas também não consegue mais responder aos novos sonhos da população. Esses
sonhos estão sendo capturados apenas por uma linguagem política. A população
brasileira aumentou sua capacidade de aspirar, comprar coisas, sonhar, em
grande medida, pelos governos do PT. Mas o que se faz com isso? Não pode
simplesmente abrir a janela da aspiração e fechar a janela. É preciso oferecer
recursos para continuar as aspirações e não frustrá-las. E também dar caminhos
para que as pessoas continuem sonhando e conquistando, porque um dos principais
indicadores hoje de desenvolvimento econômico e social é o quanto as pessoas
conseguem conquistar as suas aspirações. Então temos o cenário em que temos
indicadores de emprego pleno, indicadores econômicos mais positivos, mas a
economia não funciona assim. A economia percebida pelas pessoas comuns não
funciona dessa maneira. É a percepção da economia. É preciso entender como é
que a pessoa entende a economia na vida cotidiana. E, na vida cotidiana, a
gente ampliou nossa capacidade de aspirar, minha capacidade de comparação. Eu
quero ter mais. Eu não vou olhar para trás e pensar que a minha vida está
melhor do que dez anos atrás, eu estou olhando para frente. As políticas precisam
continuar respondendo a essa crescente aspiração por mais. A gente também tem
um grande número de endividamento na população brasileira, talvez uma das
principais fontes de raiva e ressentimento, porque não existe nada pior do que
estar endividado, não apenas pela perda da capacidade de poder de compra, mas
pela questão de honra individual. O meu ponto é de que a percepção da economia
hoje está mais em jogo do que os próprios indicadores econômicos. Tudo bem, a
gente está numa situação de pleno emprego, mas a gente ampliou capacidade de
sonhar da população brasileira. Aquele emprego de um salário mínimo, duas horas
por dia no ônibus para ir e para voltar e ainda ser assaltado ou correr o risco
de ser assaltado no ônibus, não é um emprego que cabe mais nos sonhos da
população brasileira. Então, mesmo que a gente esteja falando de uma população
CLT, a gente está falando de uma população que está olhando para fora da CLT
também, que chega em casa e vai aprender no digital e vai tentar uma renda
extra digital. A gente não pode falar só em produção de pleno emprego, a gente
tem que entender que tipo de emprego está sendo formado e são empregos
historicamente ruins, marcados por uma lógica de exploração e servidão que
pagam mal e não trazem gratificação individual. A aspiração é por respeito, por
conforto e dignidade.
·
Se essa lógica super individualista está tão entranhada,
é possível voltar com um discurso de bem estar coletivo e social? A senhora vê
um caminho?
Pinheiro-Machado
- Eu
diria que essa pergunta, de como a gente trabalha politicamente uma população
brasileira que deposita tudo no sonho individual, é a maior pergunta que a
gente tem hoje no Brasil. Essa não é uma pergunta do jornalismo, dos
acadêmicos. Essa é uma pergunta que está presente no governo brasileiro. A
grande questão é, como que a gente transforma o sonho de visibilidade por algo
coletivo e democrático? Tem duas respostas para isso. Hoje, a resposta realista
é de que a situação é extremamente difícil, no sentido de que o sonho de
prosperidade está completamente capturado pela visibilidade individual. Isso é
muito poderoso, porque estamos falando de uma sociedade que excluiu, humilhou,
torturou os mais pobres historicamente. Então, o desejo de 'não ser mais um
pobre invisível, sou alguém', é muito fácil e automático de se transformar numa
aspiração individual.
Isso
automaticamente leva para um caminho muito individualista, principalmente nos
meus sonhos. Porém, o mundo não é feito só de sonhos e o mundo é feito de
resultados concretos. E essa é a minha outra resposta. É por isso que eu sempre
disse: vamos sair das redes sociais e vamos olhar a vida das pessoas comuns. O
brasileiro médio, quando tem um emprego bom, em que ele é respeitado, tem 13º,
férias, é chamado pelo nome, ele fica nesse emprego. As pessoas estão buscando
algo muito básico, que não é só uma dignidade, é reconhecimento individual no
sentido de cidadania mesmo. Ela quer ser vista, ser chamada pelo nome. No
âmbito das relações concretas, ao mesmo tempo que a gente tem um mundo
dissonante de sonhos, o que as pessoas estão buscando nesse sonho é algo muito
básico: ter um bom salário, folga e ser chamado pelo nome, que é uma metáfora
para 'ser visto'. A gente tem números
que mostram que não basta gerar pleno emprego, tem que gerar bons plenos
empregos . Com isso, as pessoas aceitam a vida que tem, porque essa é uma vida
real de dignidade e de respeito. Não tem outra solução para combater esse mundo
que capturou os sonhos numa lógica hiperindividualista, muitas vezes baseadas
em devaneios de enriquecimento individual de todo mundo, do que a promoção de
políticas públicas robustas de proteção social e produção de bons plenos
empregos.
·
E essa dignidade que as pessoas buscam está refletida
também na forma como elas se referem a si próprias nesse mundo digital, quando
dizem que são CEO de uma lojinha...
Pinheiro-Machado
- A
gente percebe que, muitas vezes, parte da esquerda mais intelectualizada ou de
grupos de camadas médias olham sempre com deboche para esses grupos. Até se
cunhou a expressão "CEO de MEI", que é sempre para ridicularizar a
pessoa que se coloca como MEI ou autoempreendedor, dizendo é um pobre de
direita, é um CEO de MEI. A minha perspectiva é completamente outra. É no
sentido de olhar para essas pessoas e entender por que é que esse trabalhador
quer se colocar como empreendedor ou quer se colocar como CEO. A gente fez um
levantamento na nossa base de dados de aspirantes a empreendedores digitais,
que são muitas vezes mulheres empreendedoras, pessoas que trabalham com
artesanato, que vendem quitutes, que sonham em empreender, com 1 mil
seguidores. Essa base se define no Instagram como CEO. É uma das palavras que
mais aparece na definição. Também como empresárias e empreendedoras. Muitas
vezes é um padeiro, é uma pessoa que vende doces, que tem uma pequena loja ou
alguém que sonha em ter um negócio. E aí tem duas interpretações para isso. Uma
é dizer que é o mundo do Elon Musk, o mundo em que todo mundo quer ser CEO,
todo mundo quer ser rico, todo mundo quer um título de chefe e de patrão para
mandar. Isso é um pouco verdade também. Mas quando a gente vai lá na
entrevista... Eu perguntei para uma ex-camelô, hoje proprietária de um pequeno
negócio, 'por que você se chama de CEO'? E ela falou: 'Porque é chique'. Ela
dizia assim: 'Quando eu era camelô, corria da polícia e pessoas sempre me viam
nesse universo de pessoas vagabundas, preguiçosas, marginais. Agora, na rede
social, eu posso me chamar como eu quiser. Eu posso dar o meu próprio título,
não o que a sociedade, o estigma da sociedade deu para vendedores ambulantes'. Eu
acho isso muito poderoso. A minha proposta não é ridicularizar esse processo, é
o oposto .
É
entender que essas pessoas estão buscando um título que é o da moda, que traz
dignidade, que se sentem chiques. Em última instância, é uma busca por
dignidade, visibilidade. Isso é algo fantástico, na verdade, porque essa pessoa
não consegue talvez mudar sua situação socioeconômica, mas consegue mudar como
é vista. As pessoas buscam rótulo para se sentir mais dignas, mais respeitadas
e poderem atribuir a si mesmo um rótulo e não deixar que a sociedade racista e
classista faça essa atribuição.
·
Na sexta-feira (25/09), Lula proibiu as bets de atuarem
no Brasil e, com isso, veio uma reação de uma rede grande de influenciadores
que ganharam muito dinheiro com isso e agora estão falando mal do governo. As
pesquisas mostram que a maioria da população é contra bets, mas a senhora
avalia que essa reação de influencers pode ter um impacto negativo ao governo e
marca mais um distanciamento entre o governo e esse mundo digital?
Pinheiro-Machado - Evidentemente, os
influencers têm um papel muito importante para inspirar os aspirantes a
empreendedores digitais, esse batalhão de pessoas que está tentando ganhar a
vida de forma plataformizada.Os influencers colocam modelos a serem copiados e
fazem com que as pessoas, expandam essa capacidade de projetar sua vida. Mas
uma das coisas que eu coloco muito no meu trabalho é a importância de a gente
não esquecer de olhar para o básico, para a materialidade da vida cotidiana,
onde as coisas acontecem no dia a dia. É nesse lugar onde os ressentimentos, a
raiva, o sentimento de humilhação, de frustração vão ocorrer e vão também ter
um impacto político muito grande. Eu acho que as bets são um bom exemplo. Elas
são profundamente rejeitadas pela população brasileira, mas principalmente
pelas mulheres. Eu coordenei uma pesquisa muito grande de caráter nacional,
quantitativa, feita só com mulheres empreendedoras populares, que mostra que
80% repudiam e 60% sentem, de alguma maneira, sua vida impactada ou conhecem
alguém que tem a sua vida impactada pelas bets. Na parte qualitativa, foi
possível perceber o quanto que essas mulheres não apenas rejeitam. Elas têm
pavor e pânico do que as bets causaram em seus maridos , filhos e vizinhos. Quando
a gente traz a discussão para esse nível de impacto na vida cotidiana, a minha
avaliação é que os influencers vão estar falando para quem é apostador, para
quem já é convertido politicamente. Em termos políticos, o governo ganha com a
proibição das bets, porque está pegando em feridas muito abertas,
principalmente das mulheres empreendedoras, que muitas vezes levam as famílias
inteiras. Há uma capacidade de ter um ganho positivo, porque quem é apostador e
quem está totalmente já dominado pelo discurso dos influencer, é um grupo que
já está fechado e determinado. Mas é possível que Lula agora tenha conseguido
um certo alívio e falar diretamente para a dor dessas milhões de mulheres
brasileiras que têm visto suas famílias serem destruídas por causa das apostas.
Fonte:
BBC News Brasil

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