Os
riscos da Frente ampla
As
eleições brasileiras caminham para uma situação paradoxal: o PT aparece como a
única força de esquerda com chances reais de chegar ao segundo turno, mas
justamente essa condição pode enfraquecer uma das funções mais importantes da
esquerda: pressionar o próprio campo progressista a ultrapassar os limites
impostos pela institucionalidade e pelos interesses das elites econômicas.
Durante
algum tempo, candidaturas à esquerda do PT cumpriram esse papel. Ciro Gomes,
apesar das controvérsias, obrigava o debate a passar por industrialização,
soberania nacional, juros, endividamento e política econômica. Guilherme
Boulos, quando candidato à Presidência, colocou em evidência a taxação de
lucros e dividendos e uma oposição mais explícita aos interesses do agronegócio
e do sistema financeiro.
Não é
necessário considerar essas candidaturas revolucionárias ou coerentes em todos
os aspectos para reconhecer sua importância. A existência de uma alternativa à
esquerda do PT altera a correlação de forças dentro do próprio campo
progressista, obrigando o partido a disputar um eleitorado que, sem essa
alternativa, pode ser considerado praticamente garantido.
Sem
esse contraponto, diminuem os incentivos para que o PT radicalize seu discurso.
Quanto mais depende de alianças empresariais, estabilidade institucional e
apoio de parcelas da elite econômica, maior tende a ser sua disposição para se
apresentar como administrador responsável da ordem existente, e não como força
de transformação dessa ordem.
Por
isso, uma oposição à esquerda do PT só existe efetivamente quando apresenta
candidatura própria. A disputa eleitoral também serve para produzir pressão
política, estabelecer novos parâmetros para o debate e representar parcelas da
população que não encontram espaço nas alternativas oferecidas pela
institucionalidade.
A
própria ideia de que a correlação de forças impede uma política mais à esquerda
precisa ser relativizada. Ela não é uma fotografia imutável à qual os partidos
simplesmente se adaptam: também é produzida pela ação política, pela
organização social e pela capacidade de apresentar alternativas.
Quando
um governo de esquerda se desloca para o centro, esperando que a sociedade o
acompanhe, pode ocorrer o contrário. As massas deixam de se mobilizar por uma
agenda de transformação e a direita passa a ocupar o espaço da ruptura. Foi uma
das contradições do bolsonarismo: Jair Bolsonaro construiu uma imagem
antissistema enquanto sua política econômica contemplava interesses do capital
financeiro, do agronegócio e de setores empresariais. Seu discurso de ruptura
não significava necessariamente romper com os grupos dominantes, mas disputar o
controle político da própria ordem existente.
Um
governo de frente ampla corre risco semelhante. Ao tentar representar
simultaneamente diferentes setores, pode ser identificado cada vez mais com a
própria institucionalidade. Nesse cenário, a direita pode reivindicar o lugar
simbólico de oposição ao sistema, mesmo estando profundamente ligada aos
interesses econômicos que o sustentam.
Esse
fenômeno também aparece na mobilização social. A greve dos caminhoneiros de
2018 e as mobilizações que culminaram no 8 de janeiro demonstraram capacidade
de mobilização nacional de setores da direita. Isso não significa que a
sociedade brasileira tenha simplesmente se tornado de direita. O bolsonarismo
também acumulou contradições que assustaram setores da elite, especialmente sua
condução da pandemia, os conflitos institucionais e a contestação do resultado
eleitoral de 2022.
A crise
do bolsonarismo abriu espaço para o retorno do PT ao governo por meio de uma
frente ampla. Porém, ao ocupar esse espaço, o lulismo passou progressivamente a
ocupar também o lugar de administrador da institucionalidade que antes
combatia. A direita, assim, ganhou a oportunidade de reivindicar o monopólio do
discurso antissistema.
É nesse
ponto que uma esquerda radical, mesmo eleitoralmente pequena, adquire uma
função que ultrapassa sua votação. Uma candidatura do PSol, PCB, PSTU ou de
outra força independente não precisa necessariamente vencer para produzir
efeitos políticos. Ela pode deslocar a frente ampla para a esquerda, colocar
temas estruturais no centro do debate e pressionar o governo.
Uma
esquerda radical também pode funcionar como ameaça política aos interesses
dominantes. A possibilidade de crescimento de uma agenda de tributação do
capital, fortalecimento dos direitos trabalhistas, industrialização, soberania
nacional e enfrentamento dos interesses financeiros e agrários pode estimular
concessões sociais e econômicas para evitar o crescimento de uma alternativa
mais radical.
Existe
um paralelo histórico com a social-democracia europeia durante a existência da
União Soviética. Guardadas as diferenças, a existência de uma alternativa muito
mais à esquerda contribuiu para que setores do capitalismo europeu aceitassem
níveis maiores de tributação, proteção social, direitos trabalhistas e
políticas públicas. Não por humanismo das elites, mas porque reformas também
podem resultar do temor diante de transformações mais profundas.
Por
isso, a transformação do PSol em uma espécie de extensão eleitoral do lulismo é
problemática. Ao abandonar a candidatura própria para concentrar-se na aliança
com o PT contra a extrema direita, o partido perde parte de sua capacidade de
pressionar o governo e apresentar uma alternativa aos limites do lulismo.
O
problema se agrava porque o bolsonarismo não parece ser passageiro. A extrema
direita veio para permanecer na política brasileira. Bolsonaro não criou do
nada sentimentos como autoritarismo, anticomunismo, desconfiança das
instituições e hostilidade ao STF; ele os reorganizou e transformou em força
eleitoral de massas.
A
direita pode aprender com suas próprias contradições. Um candidato que preserve
o autoritarismo político e o liberalismo econômico, mas abandone parte do
extremismo e da imprevisibilidade de Bolsonaro, poderia ser mais aceitável para
a institucionalidade e para setores dominantes. Algo semelhante ocorreu nos
Estados Unidos, onde o trumpismo transformou o reacionarismo em força de massas
enquanto o Partido Democrata permaneceu profundamente integrado à
institucionalidade e aos centros de poder econômico.
Nesse
cenário, a tendência do PT é deslocar-se para o centro para disputar o
eleitorado moderado, a institucionalidade e o apoio de setores econômicos. Se
toda a esquerda se limitar a apoiar o lulismo para impedir o retorno do
bolsonarismo, cria-se um ciclo perverso: a ameaça da extrema direita justifica
a união em torno do candidato mais moderado; depois da eleição, esse governo
tem poucos incentivos para confrontar os interesses que sustentam a ordem
vigente; na eleição seguinte, a mesma ameaça volta a justificar a unidade.
A
consequência é uma suspensão permanente da disputa por reformas estruturais. A
esquerda justifica sua moderação pela correlação de forças, mas, ao mesmo
tempo, deixa de construir a força social necessária para modificá-la.
Enquanto
isso, permanecem questões como concentração de renda, baixos salários,
superexploração do trabalho, dependência econômica e tecnológica e primarização
da economia brasileira.
Fonte:
Por Bruno Machado, em A Terra é Redonda

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