sábado, 3 de outubro de 2026

Os riscos da Frente ampla

As eleições brasileiras caminham para uma situação paradoxal: o PT aparece como a única força de esquerda com chances reais de chegar ao segundo turno, mas justamente essa condição pode enfraquecer uma das funções mais importantes da esquerda: pressionar o próprio campo progressista a ultrapassar os limites impostos pela institucionalidade e pelos interesses das elites econômicas.

Durante algum tempo, candidaturas à esquerda do PT cumpriram esse papel. Ciro Gomes, apesar das controvérsias, obrigava o debate a passar por industrialização, soberania nacional, juros, endividamento e política econômica. Guilherme Boulos, quando candidato à Presidência, colocou em evidência a taxação de lucros e dividendos e uma oposição mais explícita aos interesses do agronegócio e do sistema financeiro.

Não é necessário considerar essas candidaturas revolucionárias ou coerentes em todos os aspectos para reconhecer sua importância. A existência de uma alternativa à esquerda do PT altera a correlação de forças dentro do próprio campo progressista, obrigando o partido a disputar um eleitorado que, sem essa alternativa, pode ser considerado praticamente garantido.

Sem esse contraponto, diminuem os incentivos para que o PT radicalize seu discurso. Quanto mais depende de alianças empresariais, estabilidade institucional e apoio de parcelas da elite econômica, maior tende a ser sua disposição para se apresentar como administrador responsável da ordem existente, e não como força de transformação dessa ordem.

Por isso, uma oposição à esquerda do PT só existe efetivamente quando apresenta candidatura própria. A disputa eleitoral também serve para produzir pressão política, estabelecer novos parâmetros para o debate e representar parcelas da população que não encontram espaço nas alternativas oferecidas pela institucionalidade.

A própria ideia de que a correlação de forças impede uma política mais à esquerda precisa ser relativizada. Ela não é uma fotografia imutável à qual os partidos simplesmente se adaptam: também é produzida pela ação política, pela organização social e pela capacidade de apresentar alternativas.

Quando um governo de esquerda se desloca para o centro, esperando que a sociedade o acompanhe, pode ocorrer o contrário. As massas deixam de se mobilizar por uma agenda de transformação e a direita passa a ocupar o espaço da ruptura. Foi uma das contradições do bolsonarismo: Jair Bolsonaro construiu uma imagem antissistema enquanto sua política econômica contemplava interesses do capital financeiro, do agronegócio e de setores empresariais. Seu discurso de ruptura não significava necessariamente romper com os grupos dominantes, mas disputar o controle político da própria ordem existente.

Um governo de frente ampla corre risco semelhante. Ao tentar representar simultaneamente diferentes setores, pode ser identificado cada vez mais com a própria institucionalidade. Nesse cenário, a direita pode reivindicar o lugar simbólico de oposição ao sistema, mesmo estando profundamente ligada aos interesses econômicos que o sustentam.

Esse fenômeno também aparece na mobilização social. A greve dos caminhoneiros de 2018 e as mobilizações que culminaram no 8 de janeiro demonstraram capacidade de mobilização nacional de setores da direita. Isso não significa que a sociedade brasileira tenha simplesmente se tornado de direita. O bolsonarismo também acumulou contradições que assustaram setores da elite, especialmente sua condução da pandemia, os conflitos institucionais e a contestação do resultado eleitoral de 2022.

A crise do bolsonarismo abriu espaço para o retorno do PT ao governo por meio de uma frente ampla. Porém, ao ocupar esse espaço, o lulismo passou progressivamente a ocupar também o lugar de administrador da institucionalidade que antes combatia. A direita, assim, ganhou a oportunidade de reivindicar o monopólio do discurso antissistema.

É nesse ponto que uma esquerda radical, mesmo eleitoralmente pequena, adquire uma função que ultrapassa sua votação. Uma candidatura do PSol, PCB, PSTU ou de outra força independente não precisa necessariamente vencer para produzir efeitos políticos. Ela pode deslocar a frente ampla para a esquerda, colocar temas estruturais no centro do debate e pressionar o governo.

Uma esquerda radical também pode funcionar como ameaça política aos interesses dominantes. A possibilidade de crescimento de uma agenda de tributação do capital, fortalecimento dos direitos trabalhistas, industrialização, soberania nacional e enfrentamento dos interesses financeiros e agrários pode estimular concessões sociais e econômicas para evitar o crescimento de uma alternativa mais radical.

Existe um paralelo histórico com a social-democracia europeia durante a existência da União Soviética. Guardadas as diferenças, a existência de uma alternativa muito mais à esquerda contribuiu para que setores do capitalismo europeu aceitassem níveis maiores de tributação, proteção social, direitos trabalhistas e políticas públicas. Não por humanismo das elites, mas porque reformas também podem resultar do temor diante de transformações mais profundas.

Por isso, a transformação do PSol em uma espécie de extensão eleitoral do lulismo é problemática. Ao abandonar a candidatura própria para concentrar-se na aliança com o PT contra a extrema direita, o partido perde parte de sua capacidade de pressionar o governo e apresentar uma alternativa aos limites do lulismo.

O problema se agrava porque o bolsonarismo não parece ser passageiro. A extrema direita veio para permanecer na política brasileira. Bolsonaro não criou do nada sentimentos como autoritarismo, anticomunismo, desconfiança das instituições e hostilidade ao STF; ele os reorganizou e transformou em força eleitoral de massas.

A direita pode aprender com suas próprias contradições. Um candidato que preserve o autoritarismo político e o liberalismo econômico, mas abandone parte do extremismo e da imprevisibilidade de Bolsonaro, poderia ser mais aceitável para a institucionalidade e para setores dominantes. Algo semelhante ocorreu nos Estados Unidos, onde o trumpismo transformou o reacionarismo em força de massas enquanto o Partido Democrata permaneceu profundamente integrado à institucionalidade e aos centros de poder econômico.

Nesse cenário, a tendência do PT é deslocar-se para o centro para disputar o eleitorado moderado, a institucionalidade e o apoio de setores econômicos. Se toda a esquerda se limitar a apoiar o lulismo para impedir o retorno do bolsonarismo, cria-se um ciclo perverso: a ameaça da extrema direita justifica a união em torno do candidato mais moderado; depois da eleição, esse governo tem poucos incentivos para confrontar os interesses que sustentam a ordem vigente; na eleição seguinte, a mesma ameaça volta a justificar a unidade.

A consequência é uma suspensão permanente da disputa por reformas estruturais. A esquerda justifica sua moderação pela correlação de forças, mas, ao mesmo tempo, deixa de construir a força social necessária para modificá-la.

Enquanto isso, permanecem questões como concentração de renda, baixos salários, superexploração do trabalho, dependência econômica e tecnológica e primarização da economia brasileira.

 

Fonte: Por Bruno Machado, em A Terra é Redonda

 

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