Bunkers,
pistas de pouso e terras: bilionários se preparam para um mundo
pós-apocalíptico que estão ajudando a criar
Os
senhores tecnofeudais de ultradireita cheiram a guerra nuclear e constroem
remotas soluções arquitetônicas para seus pesadelos apocalípticos: uma fuga
para baixo em bunkers projetados com
adega, cinema e spa, onde nunca penetraria a radiação.
Nesta
semana, o empresário argentino Martín Varsavsky falou do projeto Wamani, no
Vale de Uco, em Mendoza, um lugar por ora simples, pensado para a
sobrevivência. Mede 32 mil hectares – cinco vezes a ilha de Manhattan – e
inclui um pico próprio de 5 mil metros.
Ao Financial
Times, Martín Varsavsky disse fazer parte de um grupo de trilionários do
Vale do Silício com uma repentina atração pela Argentina, a partir da
experiência libertária e de seu desejo de livrar a estrangeirização da terra.
Seu
plano de fuga coincide com o do tecno-bro Peter Thiel, que construiu seu
refúgio cool na Nova Zelândia e talvez planeje outro aqui: “Casualmente
chegamos à mesma conclusão: de todos os lugares a que se poderia ir em caso de
Terceira Guerra Mundial, a Argentina é o melhor”, esclareceu o argentino.
Wamani
já existe: investiram US$ 10 milhões em casas, domos, pista de aterrissagem e
instalarão servidores com IA própria alimentada por painéis solares – caso caia
a internet global – em uma zona com arroios de degelo, garantindo autonomia do
mundo exterior com produção pecuária.
A
empresa tem algo de bairro-bunker privado – não no sentido subterrâneo: a
muralha são os Andes – para um seleto grupo de sócios: o empresário Alec
Oxenford – embaixador argentino nos EUA, criador de Deremate.com e OLX –, Mike
Santos – Technises –, Matías Nissensohn – criador do videogame CriptoWars
–, David Kamenetzke – empreendedor germano-estadunidense – e Dan Lubetzky, dono
das barras de cereais Kind. Wamani será sustentada – até a chegada do
apocalipse – por turismo superexclusivo.
Martín
Varsavsky fez cálculos instrumentais dignos de Ulisses na Odisseia: em
125 anos, morreram em guerras 170 milhões de pessoas, mas só 200 mil na
América. E a australidade argentina é ideal para fugir de um conflito no
hemisfério norte. Em 2024, o empresário estabeleceu boas relações com Javier
Milei e Luis Caputo nos EUA: propôs-lhes transformar regiões remotas dos Andes
em oásis pós-apocalípticos de luxo para bilionários aterrorizados com o colapso
climático com o qual colaboram e depois negam que exista. E se preocupam com as
pandemias e os cogumelos nucleares. Talvez esta seja a origem do falido projeto
de Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada, que permitia a compra de
terras sem limite para estrangeiros.
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Uma guinada de campanha ideológica
Martín
Varsavsky exilou-se da Argentina: a ditadura desapareceu com seu primo íntimo
David Varsavsky, de 17 anos, militante peronista da UES. Foi-se com sua família
para os EUA; ajudou-os o senador democrata Patrick Moynihan. Tornou-se
milionário com negócios imobiliários em Nova York e criou empresas nos alvores
da internet, acumulando uma fortuna astronômica.
Simpatizava
com o progressismo e, pouco a pouco, começou a guinar para a direita,
desconhecendo o nexo entre ditadura e neoliberalismo: foi íntimo de Domingo
Cavallo e colaborou com o governo de Fernando de la Rúa no valioso projeto web
Educar: doou US$ 11,2 milhões. Em 2007, conheceu o ex-chefe do Exército Roberto
Bendini e declarou – com os repressores livres e sem ter pedido perdão –: “há
gente que não pode perdoar. Eu sim. Quando estive com Bendini, senti que o
Exército argentino nunca mais faria o que está tão bem descrito no Nunca
Mais.”
Mais
tarde, simpatizou com Mauricio Macri. E o massacre de 7 de outubro de 2023 em
Israel marcou sua guinada ultradireitista: abandonou o Partido Democrata –
assim como Mark Zuckerberg e Elon Musk, íntimo de Varsavsky – e apoiou Donald
Trump, Javier Milei e Santiago Abascal. Em 2025, disse: “Israel não comete
genocídio em Gaza”. E, em troca, haveria um “genocídio de cristãos” no Oriente
Médio. E acrescentou: “a ONU confunde justiça com propaganda contra Israel”.
Em
2024, postou no X: “Meu primo foi assassinado pela ditadura. Minha tia é uma
Mãe da Praça de Maio. Mas estas mães não nos representam. Minha família lutou
pela democracia que a Argentina tem agora. Não pelo comunismo assassino que
estas idiotas apoiam”.
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Uma geopolítica branca ou preta
Martín
Varsavsky lê o mundo com um binarismo pueril: “está dividido em dois blocos, as
democracias contra as ditaduras: Europa-EUA contra Rússia, China, Coreia do
Norte, Irã. Já estamos na Terceira Guerra Mundial, as linhas de batalha estão
traçadas”, disse, na linha apocalíptica de Peter Thiel, cujos delírios
paranoides vão mais pelo lado bíblico. E acrescentou uma reflexão singular: “A
Europa é de longe a civilização mais importante da história”, mas estaria em
enorme decadência, “sendo invadida com o consentimento dos europeus” – que o
deixaram entrar nela – que “têm uma culpa absurda e suicida por acreditarem-se
mais colonizadores do que os muçulmanos”, os quais “foram” muito escravistas ao
longo da história, inclusive hoje (diferentemente da Europa).
Opina
ainda que a sociedade argentina “está mais orgulhosa de ser ocidental” do que
os próprios europeus, a tal ponto que, ao caminhar por Buenos Aires, vê-se uma
cidade “muito mais europeia do que Barcelona”. E se se conseguisse “controlar o
socialismo na Argentina – que se chama peronismo”, o país será “um farol do
Ocidente”, resultado do “despertar dos leões”, como diz Milei”.
O
empresário afirma ter sido ele quem convenceu Milei de que a Argentina – além
de estar do lado dos “bons” no Armagedon mundial – ficaria longe das nuvens
radiativas na América do Norte. E teríamos que aproveitar esta “vantagem
competitiva” para atrair ciber-magnatas neofascistas – como Peter Thiel –,
oferecendo-lhes um “Visa da tranquilidade” inspirado no “Visa de Ouro” criado
por Donald Trump: uma outorga imediata de residência e nacionalidade por US$ 5
milhões (na Argentina seriam US$ 500 mil). E, quando o mundo arder – um colapso
climático? –, eles subiriam em seu avião para aterrissar nestes bunkers: um
“seguro apocalíptico” com a Argentina como plano de fuga para paranoicos
supremacistas e antidemocráticos que desejam “ilhas” desvinculadas de toda lei.
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Zuckerberg em plano de autossalvação
Mark
Zuckerberg criou espacialidade virtual e também física no Facebook: sua
mansão-bunker em uma ilha do Havaí equivale a 1.300 quadras de futebol,
construída por trabalhadores com contrato de confidencialidade para não falar
jamais sobre o Koolau Ranch: a maior obsessão do rei da venda de dados privados
acabou sendo sua própria privacidade.
O
rancho não tem porta visível: seu muro perimetral está coberto por uma cerca
vegetal inteiriça. Ao chegar um convidado, a porta secreta de folhas se abre de
repente. Sua obra junto ao mar custou US$ 300 milhões: uma dúzia de edifícios
rodeando mansões com elevadores. Tem anexos com ginásio, piscina, sauna, tênis
e áreas de cultivo. Dentro há um refúgio subterrâneo de 465 m² com produção de
alimentos. Seu dono o desmerece: é um “simples porão”.
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Bunkers – Plano de fuga: Nova Zelândia
A
oceânica Nova Zelândia é outro espaço de salvação da elite high-tech: é um
formigueiro de bunkers semissecretos. Sam Altman, CEO da OpenAI, revelou seu
acordo com Peter Thiel: ante um evento apocalíptico, escaparão em jato privado
para uma mansão com cultivos junto ao lago Wanaka. Thiel oferece serviços aos
EUA e Israel para escolher alvos militares e obteve cidadania neozelandesa em
2011 depois de residir 12 dias no país, pulando todos os requisitos.
O Vivos
Group constrói refúgios subterrâneos e diz ter instalado um para 300 pessoas na
Ilha Sul neozelandesa pelo preço de US$ 35 mil por cabeça. Sua concorrência –
Rising S Bunkers – assegura ter vendido outros dez. Assim, a Nova Zelândia,
colonizada pelos britânicos às custas de sua população originária, torna-se
zona de fuga para a elite tecnológica; algo que Javier Milei inveja.
Reid
Hoffman – fundador do LinkedIn – declarou que a metade dos milionários
tecnológicos que conhece tem uma casa com lógica de refúgio na Nova Zelândia ou
nos EUA. Elon Musk sempre voa mais alto e alucina com uma fuga para Marte: “É
importante ter uma base autossuficiente em Marte porque está suficientemente
longe da Terra para que, em caso de guerra, haja mais possibilidades de
sobreviver do que em uma base lunar”.
A
pandemia reviveu o medo do apocalipse, impulsionando empresas como Survival
Condo e Oppidum Bunkers, que anunciam “residências subterrâneas fortificadas de
ultraluxo”: desde uma cápsula até complexos subterrâneos com jardim, cinema,
piscina, galeria de arte, ginásio e sauna.
Survival
Condo transformou um depósito subterrâneo de mísseis nucleares da Guerra Fria
em bunker de luxo de 15 andares enterrado no Kansas. Comprou por US$ 300 mil em
2008 e pôs à venda os apartamentos por até US$ 3 milhões. Pode alojar 70
pessoas e guarda comida e combustível para cinco anos. Há tanques com peixes e
verduras hidropônicas sob lâmpadas com energia renovável. Dispõem de
caminhonetes Pit-Bull VX blindadas para sair e ir buscar os proprietários; e
parapeitos para francoatiradores que espantem os famintos. Cada vez que a
Coreia do Norte realizou uma prova nuclear, aumentaram as consultas a estas
empresas.
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Arquitetura do pânico
O livro
O indivíduo soberano, de James Davidson e William Rees-Mogg, com prólogo
de Peter Thiel – Bíblia do ciberlibertarismo –, imagina um futuro de sujeitos
“libertados” das ataduras do Estado e sem moeda fiduciária, governado por uma
elite a sua conveniência: o presidente será um gerente pago. Prevê uma
sociedade baseada na informação, com baixa carga tributária e a aceitação da
desigualdade: os ricos são seres especiais e egoístas que não devem
preocupar-se com ninguém. Colapsará o Estado-nação em favor de uma elite
cognitiva/financeira que se cindirá das estruturas coletivas, criando cidades
autônomas com apenas as regras que eles mesmos imponham. A cidade Próspera, em
Honduras, foi um exemplo: foi criada por Peter Thiel, Sam Altman e Marc
Andreessen com leis, justiça e segurança próprias, até que, em 2022, a Corte Suprema
declarou ilegal esta experiência de soberania privada.
Esta
elite tem a pulsão de fugir da comunidade. O escapismo do Vale do Silício não
aspira a salvar a sociedade, e sim o indivíduo da sociedade. Sintoniza com a
bunkerização como desenlace arquitetônico, não só deles, como da sociedade
toda, à medida de cada orçamento. Segundo Mark O’Connell, isto é “uma metáfora
desta forma de vida desconectada” que já praticam os ciber-magnatas: isolamento
social, desapego das consequências de suas decisões econômicas e a fantasia
transumanista de que o dinheiro pode comprar uma saída individual para qualquer
problema, aspirando inclusive à imortalidade: abandonariam nossa espécie para
tornarem-se deuses. Mas ignoram que já não há fora do sistema que eles ajudam a
aquecer. E que a ideia de isolar-se do mundo exterior pode falhar. No fundo,
escapam de si mesmos como ginetes do apocalipse. Mas a ciência não descobriu a
forma de separá-los de sua sombra, que sempre os está alcançando; seja que
fujam para Mendoza, Nova Zelândia ou para o planeta Marte.
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O olhar acadêmico
Rodrigo
Martin-Iglesias – arquiteto e doutor em projeto, professor titular de Projeto
de Futuros (UBA) – disse a Página/12 que o inquietante de projetos como
o de Mendoza é que, diante de um cenário de megacrise, a resposta não seja
reconstruir as condições coletivas que tornam habitável o planeta, mas adquirir
uma posição privilegiada em que elementos como terra, água, energia, alimentos,
conectividade e segurança deixam de ser simplesmente recursos, para serem
ativos de sobrevivência: “o refúgio deixa de ser um edifício e se torna a
acumulação privada de condições que permitam continuar vivendo, quando estas
condições deixem de estar garantidas para todos”.
–
Estamos diante de uma novidade político-arquitetônica em escala planetária?
Wamani
condensa, em escala territorial, uma transformação política muito mais ampla.
Se um indivíduo pode comprar dezenas de milhares de hectares, produzir sua
própria energia e alimentos, dispor de pista de aterrissagem, manter
infraestrutura digital e oferecer refúgio a outros membros de sua classe, já
não estamos falando só de preparação anticatástrofe: é a possibilidade de
subtrair-se da sociedade. Para estas pessoas, o Estado, as cidades, as
infraestruturas públicas e as redes de interdependência deixam de ser condições
necessárias para a existência: tornam-se serviços de que eles podem prescindir.
O território privado começa a adquirir atributos protoestatais: produz,
protege, conecta, alimenta e garante continuidade. E este é o sonho libertário
da autonomia individual extrema: não depender de ninguém porque se dispõe de
capital suficiente para construir um pequeno mundo próprio.
–
Supõe-se que estes senhores sejam os engenheiros do futuro. Desconfiam de suas
criações?
É o
paradoxo mais profundo. Aqueles que possuem maior possibilidade de intervir no
futuro – capital tecnológico, capacidade de inovação, acesso a informação e
influência política – começam a comportar-se como se o futuro coletivo fosse
algo de que convém afastar-se. A fantasia do refúgio funciona como uma emenda
ao discurso tecno-otimista que esta elite professa. Já não confiam no mundo que
sua própria classe construiu. O Vale do Silício pode prometer uma IA capaz de
transformar a civilização, mas paralelamente seus protagonistas vão comprando
terras remotas, refúgios, cidadania estrangeira e autonomia energética caso
esta civilização se torne instável. A contradição é brutal: enquanto se fala de
construir o futuro da humanidade, levantam infraestruturas privadas para
sobreviver à humanidade tal como a conhecemos.
–
Vislumbram um futuro distópico, também resultado da desigualdade que os
enriquece. Ficam preocupados para saber como pagarão seus guardiões se o
dinheiro desvanecer-se em um mundo à Mad Max: temem que os matem e
fiquem com o bunker.
Emerge
não só uma sociedade mais desigual, mas onde nem todos estão expostos ao mesmo
futuro. Para a maioria, uma crise planetária implicaria ficar presa em suas
consequências. E para uma minoria, significa dispor de opções de fuga e
salvação. Martín Varsavsky não é importante por seu bunker em Mendoza, e sim
porque seu projeto permite ver uma tendência planetária. Quando a capacidade de
escapar do futuro se torna uma mercadoria e um grande negócio em si, a
desigualdade deixa de ser medida só por quem possui mais riqueza, e sim por
quem pode escolher que futuro habitar. O problema político decisivo é quem
conserva a capacidade de escapar da sociedade quando o futuro se torna incerto.
Se esta fuga pode ser comprada, o colapso deixa de ser uma catástrofe comum. E
os imponderáveis que no passado dependiam biologicamente da seleção natural
transformar-se-ão em um mecanismo de seleção artificial.
Fonte:
Por Julián Varsavsky -Tradução: Ana Corbisier, em Diálogos do Sul Global

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