UM
RASTRO DE DESTRUIÇÃO EM NOME DE DEUS: Mulher, a vida que eles dizem defender
não é a nossa
Um voto
em qualquer Bolsonaro é a real possibilidade de ataque aos direitos e, por
consequência, à vida das mulheres...
A
poucos dias da eleição presidencial, nos vemos diante de uma grave ameaça à
democracia e a tudo o que já foi conquistado em termos de direitos.
Não
falamos de conjecturas, de mera possibilidade, mas de fatos concretos já
vivenciados durante o governo Bolsonaro (2019-2022), um período nefasto que
gostaríamos de esquecer, mas que ainda se faz presente com suas sequelas.
Trata-se de um projeto de poder que não se iniciou ou se encerrou no mandato
presidencial, considerando que a família Bolsonaro vem atuando há décadas na
implementação desse projeto que só causou retrocessos de direitos duramente
conquistados, deixando um rastro de destruição em nome de Deus.
A lista
é grande: ataques ao Estado laico, à soberania nacional, aos direitos humanos e
à classe trabalhadora; redução de investimento em políticas sociais, de
distribuição de renda e de reparação e combate ao racismo; legitimação de
violências contra a população LGBTQIAPN+, racismo religioso, dentre tantas
outras; mas vamos nos deter, especialmente, no risco real que um novo governo
Bolsonaro significaria para as mulheres.
A
família é conhecida por declarações misóginas, além de racistas e homofóbicas,
colaborando para a violência de gênero ao vulnerabilizar, por meio de discursos
e práticas, a condição das mulheres. Quem não se recorda dos insultos
proferidos por Jair Bolsonaro contra jornalistas, deputadas e servidoras
públicas? Quando deputado, chegou a declarar que as mulheres deveriam ganhar
menos porque engravidam.
Mesmo
com todas as evidências, com as afirmações absolutamente cristalinas quanto ao
seu desprezo pelas mulheres e grupos minorizados como negros, indígenas e
pessoas LGBTQIAPN+, o pai do atual presidenciável, Flávio Bolsonaro, recebeu a
chance de concretizar tudo aquilo que anunciava.
Quando
presidente, Jair Bolsonaro chegou a cortar até 90% da verba de combate à
violência contra mulheres, o que resultou no enfraquecimento de políticas de
proteção, redução de investimentos na Casa da Mulher Brasileira e no desmonte
de programas de combate à violência e das políticas de saúde. Ao mesmo tempo, o
governo contribuiu para favorecer uma cultura violenta e armamentista e o
próprio acesso às armas de fogo, por meio da flexibilização de leis, tornando
mulheres mais vulneráveis e aumentando o risco de feminicídios.
Seu
governo teve como prioridade dificultar o acesso ao aborto em casos previstos
em lei (risco de morte, anencefalia e violência sexual), criando barreiras como
limite gestacional e perseguindo profissionais e mulheres, meninas e pessoas
que gestam que buscavam atendimento.
Enquanto
seus filhos e aliados atuavam para retroceder a legislação relacionada ao
aborto, sua Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves,
pregava a abstinência sexual como método contraceptivo e se colocava à serviço
do ativismo religioso para barrar o acesso aos casos previstos.
Exemplo
disso foi a situação torturante a qual uma menina de 10 anos foi submetida ao
ser perseguida e hostilizada por grupos que se diziam religiosos, que queriam
impedir seu atendimento médico para a interrupção da gestação decorrente de
estupro. Não houve apoio do Ministério para garantir o atendimento e, segundo
reportagens da época, havia suspeitas de interferência da pasta chefiada por
Damares por meio de vazamento de dados da vítima e de envio de comitiva para
persuadir conselheiros tutelares.
Como
não lembrar o que vivenciamos sob o governo Bolsonaro e sua política de
destruição, o momento mais crítico do século XXI para toda a humanidade, que
foi a pandemia de covid-19? Como esquecer que o negacionismo do chefe de
Estado, seu descaso com o sofrimento e as mortes, a propagação de mentiras e
falsos tratamentos e a deslegitimação da eficácia das vacinas fizeram com que
as consequências da pandemia fossem ainda mais agravadas? Para as mulheres
negras, esse agravamento significou aumento da mortalidade materna, maiores
índices de insegurança alimentar grave, impossibilidade de se proteger por não
contar com seguridade social e serem obrigadas a continuar trabalhando. Como
esquecer Mirtes Renata e a perda trágica e criminosa de seu filho Miguel?
É
preciso recordar, portanto, que um voto em qualquer Bolsonaro é a real
possibilidade de ataque aos direitos e, por consequência, à vida das
mulheres.
O
projeto político do bolsonarismo se manteve ativo mesmo após o encerramento do
mandato presidencial. Ele segue instalado no Congresso Nacional onde o Partido
Liberal, legenda de Flávio Bolsonaro, elegeu a maior bancada da Câmara em 2022,
e atua articulando as bancadas religiosa, armamentista e do agronegócio. Essa
articulação da extrema direita continua tentando impor retrocessos sobre a vida
das mulheres.
Durante
a tramitação do Projeto 896/2023, que visa criminalizar a misoginia, por
exemplo, Flávio Bolsonaro atuou junto com outros senadores de direita,
assinando o pedido de interrupção do seu tratamento, sob o argumento de ameaça
à liberdade de expressão, fazendo com que ele ficasse parado por meses, até sua
aprovação no Senado, devido à pressão social.
Já na
Câmara, o Projeto de Lei enfrentou resistência da bancada religiosa, temerosa
que supostas referências bíblicas de submissão das mulheres frente aos homens
pudessem ser consideradas misoginia, apresentando emendas para excetuar
manifestações religiosas e de opinião da tipificação penal. Como mulheres de
fé, perguntamos: que fé é essa que precisa garantir o direito de pregar a
submissão das mulheres?
Em
2024, em outro ataque aos direitos de mulheres, meninas e pessoas que gestam, a
Câmara aprovou em apenas 23 segundos a urgência do PL 1904/2024, do deputado
Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), do mesmo partido de Flávio Bolsonaro. O projeto
equipara o aborto realizado após 22 semanas, inclusive quando a gravidez
resulta de estupro, ao homicídio simples com pena de seis a 20 anos de prisão.
Na prática, meninas violentadas, que muitas vezes descobrem a gravidez
tardiamente, poderiam ser punidas mais duramente que seus estupradores. Só a
mobilização das mulheres nas ruas conseguiu frear o projeto, que segue à espera
do seu arquivamento.
Mesmo
com todos esses ataques aos nossos direitos, o bolsonarismo opera um mecanismo
sofisticado de cooptação de mulheres que negam conquistas históricas dos
movimentos feministas a partir do usufruto dessas mesmas conquistas, como a
possibilidade de votar e ser votada.
Essas
mulheres pertencentes a bancadas religiosas ocupam espaço na política
brasileira, articulando uma agenda conservadora, reforçando pautas
antifeministas e se transformando em guardiãs da moral, dos valores religiosos
e da família. Atuam na esfera pública, desde que encarnem uma feminilidade
considerada correta e não desafiem a autoridade masculina. Utilizam seu poder
de mobilização política para desqualificar os direitos das mulheres,
fortalecendo as estruturas patriarcais que historicamente nos excluíram do
poder.
Esse
paradoxo, muito bem explorado pelo bolsonarismo, diz respeito ao interesse
numérico no eleitorado feminino, ao passo que lhe atribui uma condição
política, intelectual, social e moral de inferioridade.
É
importante salientar que nós, mulheres, somos a maioria do eleitorado
brasileiro: cerca de 52%, segundo o TSE. Em 2022, fomos nós que marcamos a
diferença na disputa presidencial, com uma rejeição expressiva ao bolsonarismo.
Para a extrema direita, o voto feminino tornou-se, ao mesmo tempo, um problema
e uma oportunidade: um eleitorado que resiste e que, por isso mesmo, precisa
ser conquistado a qualquer custo.
Não é
por acaso que a campanha de Flávio Bolsonaro tem mirado no público feminino,
com programas como o “Brasil por Elas”, com promessas de internet e celulares
gratuitos e vouchers para creches.
Contudo,
promessas de campanha não apagam a memória. O que o bolsonarismo fez com a vida
das mulheres está registrado nos orçamentos, nos vetos e nos números da
violência. Por isso, se desviam estrategicamente das discussões sobre as
condições objetivas de vida e dos dados reais para mobilizar emoções e crenças
em prol do fortalecimento do seu projeto político.
A
instrumentalização do voto feminino vem acompanhada da instrumentalização da fé
e dos valores morais religiosos. Nesse projeto político religioso, Deus vira
slogan, a Igreja vira comitê eleitoral e a pauta moral substitui o debate sobre
as condições concretas de vida das pessoas trabalhadoras. Púlpitos, cultos,
grupos de oração e redes sociais religiosas tornam-se canais de mobilização
onde o voto é apresentado como obrigação espiritual e a discordância como
traição a Deus.
Trata-se
de uma visão religiosa da fé que disciplina, que diz às mulheres o que devem
pensar, como devem viver e em quem devem votar; onde as mulheres são chamadas a
assumir o seu papel “natural”, a defender a “família” e a “vida”, enquanto tudo
o que o bolsonarismo vem fazendo resulta em desproteção e insegurança para suas
famílias e suas vidas.
Sabemos
que muitas mulheres de fé são convocadas a votar em nome de Deus e da família.
Mas perguntamos: que família é protegida quando se flexibiliza o uso de armas?
Que defesa da vida é essa que zomba de quem morria sem ar na pandemia? Quem
hoje promete creches e celulares às mulheres é herdeiro político de quem cortou
a verba para o combate à violência que elas mesmas sofrem. Como nos ensina
Jesus no Sermão da Montanha, segundo o Evangelho de Mateus (7:16): “pelos seus
frutos os conhecereis”. Não se julga um projeto pelo que promete em campanha,
mas pelo que faz quando está no poder.
Como
Católicas pelo Direito de Decidir, manifestamos nossa preocupação diante destes
fatos concretos. Nesta eleição, está em jogo a vida, a dignidade e a autonomia
das mulheres. Repudiamos a instrumentalização da fé em capital eleitoral que
contribui para a erosão da laicidade do Estado, tensionando a separação
constitucional entre religião e política. Este princípio democrático, que
assegura a diversidade religiosa – traço fundamental de nossa identidade –, vem
sendo ameaçado pelo projeto político do bolsonarismo, que quer impor uma única
expressão de fé, o cristianismo conservador, e utilizá-la como base para o
ordenamento social e jurídico.
Nossa
fé nos convoca a construir um Brasil democrático, laico, soberano, socialmente
justo e economicamente equitativo; um país comprometido com a justiça racial e
de gênero, em que nenhuma religião seja imposta como verdade de Estado e em que
as mulheres tenham soberania para decidir sobre seus próprios corpos e projetos
de vida, uma vida digna, plena e abundante.
Essa
vida que eles dizem defender não é a nossa!
Fonte:
Por Carla Angelini, Denise Mascarenha, Gisele Cristina Pereira e Pâmela Grassi,
no Le Monde

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