Os
falsos dilemas da segurança pública
A
segurança pública ocupa um lugar central no debate eleitoral. De um lado,
candidaturas prometem penas mais longas, prisões mais duras e liberdade
ampliada para a violência policial. De outro, parte da esquerda na academia e
nos movimentos sociais reage tratando toda política de segurança como disfarce
para o controle dos pobres. Entre a exaltação da força e a negação do problema,
a população permanece submetida ao medo, aos roubos, à violência contra as
mulheres, ao poder territorial de facções e milícias e aos abusos cometidos
pelo próprio Estado.
A Lei
Antifacções condensou o primeiro polo. Medidas voltadas à investigação
patrimonial, à inteligência financeira e à cooperação institucional foram
progressivamente substituídas pelo aumento de penas, pela restrição de direitos
e pela expansão do encarceramento. É a fórmula conhecida do populismo penal:
oferece uma demonstração de força, transfere custos para um sistema prisional
em colapso e evita enfrentar os fluxos econômicos, políticos e logísticos que
sustentam o crime organizado.
No
segundo polo está a ideia de que qualquer forma de repressão estatal é
ilegítima, toda polícia é apenas violência institucional e toda
responsabilização criminal reproduz, sem mediações, a dominação de classe e
raça. Essa visão não apresenta uma alternativa para proteger a vida. Limita-se
a denunciar as instituições e, ao fazê-lo, abandona a segurança pública à
direita autoritária.
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Do antagonismo ao agonismo
Chantal
Mouffe ajuda a compreender o fechamento desse debate. Para a autora, o conflito
é constitutivo da política e não pode ser eliminado por um consenso racional
definitivo. O problema democrático não é suprimir as divergências, mas
transformar o antagonismo em agonismo. No antagonismo, o outro aparece como
inimigo cuja presença precisa ser eliminada. No agonismo, ele é reconhecido
como adversário legítimo: alguém cujas ideias e projetos devem ser combatidos,
mas que compartilha o espaço político e os princípios básicos da democracia
(Mouffe, 1996).[i]
O
populismo penal opera de maneira abertamente antagonista. Constrói a figura do
“bandido” como inimigo absoluto, retira-lhe a condição de sujeito de direitos e
apresenta garantias constitucionais como obstáculos à ordem. A polícia deixa de
ser uma instituição pública submetida à lei e passa a ser imaginada como força
de guerra. A política é substituída pela eliminação do adversário.
Uma
modalidade radical do abolicionismo, de matriz anarquista, reproduz a mesma
estrutura em sentido inverso. O Estado, a polícia, a justiça e a prisão
formariam um bloco homogêneo e irreformável; profissionais públicos seriam
apenas operadores da repressão; pesquisadores e movimentos que defendem
reformas institucionais apareceriam como colaboradores do sistema. Se toda
mudança parcial é capitulação e toda atuação estatal é violência, não há
adversários com quem disputar os rumos das instituições: há inimigos a
deslegitimar.
Não se
trata de descartar a tradição abolicionista. Sua crítica revelou a seletividade
racial e social do sistema penal, a violência das prisões, a produção
institucional da categoria do “criminoso” e a necessidade de respostas não
penais aos conflitos, muitas delas colocadas em prática. O problema surge
quando essa crítica se converte em uma cosmologia fechada, imune às evidências
e incapaz de distinguir uma prisão arbitrária de uma investigação baseada em
provas, um grupo de extermínio de uma polícia controlada ou uma operação
militarizada de uma política de prevenção.
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O vazio propositivo e o abandono da segurança pública
Ao
reduzir a segurança pública a uma engrenagem de dominação e violência de classe
e raça, essa vertente do abolicionismo radical não apenas falha do ponto de
vista analítico, mas comete um grave erro político: esvazia governos e
candidaturas democráticas de propostas concretas. Quando a única resposta
oferecida é a denúncia abstrata e a recusa da atuação estatal, produz-se um
vazio institucional paralisante. Suas consequências não são teóricas; são
humanas e territoriais.
As
populações periféricas, que convivem cotidianamente com homicídios, extorsões,
violência doméstica, recrutamento de jovens e controle armado de territórios
por facções e milícias, acabam abandonadas à própria sorte. Dizer a essas
comunidades que a segurança é apenas uma construção ideológica ou que o Estado
é intrinsecamente irreformável não amplia seus direitos; apenas as deixa entre
a violência policial e a violência criminal. Ao renunciar a apresentar saídas
operacionais, pragmáticas e viáveis para proteger vidas, o campo democrático
entrega a gestão do medo e a agenda da segurança pública à extrema direita
autoritária e ao populismo penal.
Uma
abordagem agonística não procura uma posição neutra entre punitivismo e
abolicionismo. Ela reconhece que há projetos em disputa e toma partido por uma
segurança pública democrática. Isso implica confrontar as corporações quando
resistem ao controle, responsabilizar agentes que torturam ou executam, retomar
o controle do sistema prisional, apostar em alternativas penais e rever a
política de drogas. Implica também afirmar que o Estado tem o dever de
investigar crimes, proteger vítimas, desarmar grupos violentos e limitar o
domínio territorial de facções e milícias.
A mesma
lógica vale para a política em sentido amplo. A extrema direita, as tentativas
golpistas e os ataques às instituições são ameaças reais. Reconhecê-las não
autoriza transformar uma liderança em mediação insubstituível, silenciar
críticas ou conceder mandatos em branco. Autonomia crítica, disputa
programática e unidade tática diante de ameaças concretas podem coexistir. O
agonismo democrático exige adversários; não inocenta quem pretende destruir o
próprio terreno comum da democracia.
Na
segurança pública, esse terreno comum é dado pela Constituição: direito à vida
e à integridade, igualdade perante a lei, devido processo, controle do uso da
força e responsabilidade estatal pela proteção. A partir dele, devem ser
travadas disputas reais sobre prioridades, orçamento, desenho das polícias,
política de drogas, execução penal e participação municipal. Instituições não
são neutras nem imutáveis. São espaços de conflito, captura e transformação.
O
esvaziamento propositivo também se apoia na rejeição metódica dos dados
quantitativos e da pesquisa empírica, frequentemente descartados como expressão
de uma ciência “positivista”. Essa objeção ignora que problemas complexos
exigem métodos mistos, capazes de combinar dados quantitativos, pesquisa
qualitativa e conhecimento acumulado nos territórios. No cenário atual, é
inadmissível desprezar o robusto conjunto de evidências sobre o que funciona, o
que não funciona e em quais condições determinadas políticas podem reduzir a
violência.
Recusar
resultados porque eles contrariam crenças ideológicas em temas como prevenção,
policiamento e tratamento penal é uma forma de dogmatismo e negacionismo
científico. Essa resistência é ainda mais contraditória porque a produção de
evidências em segurança pública não nasceu apenas da tecnocracia estatal. Foi
construída também por pesquisadores, organizações da sociedade civil e
movimentos comprometidos com a redução do encarceramento, o controle da
violência policial e a proteção das populações mais vulneráveis.
Foi
essa produção que demonstrou os limites do encarceramento em massa, os danos
provocados por operações policiais violentas e descontinuadas e a necessidade
de combinar prevenção focada, policiamento orientado por problemas,
investigação qualificada, justiça restaurativa e investimento social
territorialmente dirigido. Nenhuma dessas estratégias funciona como receita
universal; seus efeitos dependem do desenho, da implementação e do contexto.
Justamente por isso é indispensável avaliar resultados. Medir impactos e adotar
políticas que funcionam não significa aderir ao punitivismo, mas assumir a
responsabilidade ética e científica de proteger vidas com políticas públicas
efetivas.
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Um programa democrático para a segurança pública
O campo
democrático e popular não precisa começar do zero. A agenda “Brasil em Ação
pela Paz – Propostas para uma segurança pública de verdade”, lançada pelo
Instituto Sou da Paz para as eleições de 2026, oferece uma base consistente
para programas de governo e compromissos de candidaturas. Seu mérito é deslocar
o debate dos slogans para objetivos, instrumentos e resultados verificáveis.
A
agenda organiza-se em cinco prioridades: proteger meninas e mulheres;
fortalecer polícias preparadas e respeitadas; enfrentar o crime organizado;
reduzir roubos; e retirar armas ilegais de circulação. Esses eixos são
atravessados pela valorização dos profissionais da segurança, pela prioridade à
investigação criminal, pelo uso responsável da tecnologia, pela cooperação
entre União, estados, municípios e instituições de justiça e pelo combate ao
tráfico de armas e munições.
Esse
conjunto deve ser assumido como piso programático, não como teto. Um programa
do campo democrático e popular precisa acrescentar prevenção social nos
territórios mais vulneráveis, políticas para juventudes, enfrentamento do
racismo institucional, controle externo e participação comunitária, reforma do
sistema prisional, alternativas penais, atenção a egressos e revisão do
proibicionismo. Precisa ainda articular segurança a educação, saúde,
assistência, urbanismo e geração de oportunidades, sem supor que políticas
sociais, sozinhas, dissolverão mercados ilícitos ou organizações armadas.
O
enfrentamento das facções deve concentrar-se na investigação financeira, na
lavagem de dinheiro, na recuperação de ativos, no rastreamento de armas, na
corrupção e na infiltração em contratos e instituições. Prisões em massa na
base dos mercados ilegais fortalecem as próprias organizações que se pretende
combater. Incursões territoriais de alto risco devem ser excepcionais,
planejadas e submetidas a protocolos, transparência e avaliação. Firmeza
democrática significa capacidade de agir dentro da lei, não autorização para
matar.
Para
que a agenda não se reduza a uma carta de intenções, candidaturas e governos
devem convertê-la em metas públicas, orçamento, responsabilidades
institucionais e indicadores de resultado. Planos estaduais precisam
estabelecer objetivos para homicídios, violência contra mulheres, roubos,
elucidação de crimes, armas apreendidas e letalidade policial. O governo
federal deve coordenar o Sistema Único de Segurança Pública, induzir padrões
nacionais, financiar capacidades locais e integrar inteligência financeira,
fronteiras, controle de armas e enfrentamento ao crime organizado. Municípios
devem assumir prevenção, urbanismo, iluminação, proteção escolar, atendimento a
vítimas e governança territorial.
Avaliar
resultados não é tecnocracia. Evidências não escolhem os fins da política, mas
permitem saber se os meios adotados reduzem crimes, preservam vidas e
distribuem proteção de forma menos desigual. Uma política democrática deve ser
julgada simultaneamente por sua eficácia e por seus efeitos sobre direitos.
Reduzir homicídios com aumento da letalidade policial não é sucesso; limitar
abusos sem proteger populações submetidas ao poder armado também não.
A
segurança pública é um direito e um dos terrenos decisivos da disputa
democrática. Quando parte da esquerda fala apenas de violência estatal,
desconsidera evidências e se recusa a formular respostas para a violência
criminal, confirma a acusação de que não se importa com a insegurança
cotidiana. Quando adere ao endurecimento penal para não parecer leniente,
aceita a agenda de seus adversários. Nos dois casos, perde a capacidade de
dirigir politicamente o debate.
Um
programa democrático não nasce do pânico, mas da responsabilidade. Não precisa
inventar inimigos, suspender a crítica nem prometer soluções milagrosas.
Precisa demonstrar que é possível combinar proteção social e investigação,
valorização policial e controle, responsabilização e garantias, prevenção e
repressão qualificada. É nessa combinação que as candidaturas e os governos do
campo democrático e popular podem oferecer ao país algo mais do que a
administração do medo.
Entre o
antagonismo que elimina e o agonismo que disputa, há um programa possível. Seu
objetivo não é apenas resistir ao autoritarismo, mas reconstruir
democraticamente a capacidade pública de preservar vidas.
Fonte:
Por Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo e Alberto Kopittke, em A Terra é Redonda

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