sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Eleições: Por que debater as cidades é central?

O IBDU é uma organização da sociedade civil que congrega mais de 400 advogados, urbanistas e pesquisadores de diferentes áreas que trabalham com o direito urbanístico e o direito à cidade. Surgido no bojo das articulações que resultaram na aprovação, em 2001, do Estatuto da Cidade, o Instituto é um polo aglutinador de profissionais, professores, alunos, servidores públicos e militantes pelo direito à cidade, que organiza cursos, capacitações, congressos e publicações acadêmicas. Ainda, promove incidências e atua diretamente nos conflitos urbanos, fornecendo insumos, subsídios técnicos e posicionando-se no sentido de fortalecer as articulações que objetivam construir cidades mais justas e solidárias.

Esta parceria editorial foi firmada logo após o Estatuto da Cidade completar 25 anos de existência, fornecendo uma oportunidade para o balanço de sua trajetória, o que não é algo simples de ser feito. Por um lado, é inegável que seu conteúdo normativo progressista, centrado na função social da cidade e da propriedade urbana, garantiu conquistas materiais admiráveis para a parcela mais espoliada da população, protegendo a posse dos mais vulneráveis e fornecendo instrumentos para que as municipalidades comprometidas com a construção de políticas urbanas voltadas para a garantia da moradia digna, do transporte de qualidade, do bom saneamento e do oferecimento dos demais serviços urbanos, o fizessem de maneira participativa, escutando e envolvendo a população.

Por outro lado, a disputa pela terra no Brasil, seja ela urbana ou rural, segue tão acirrada como sempre e, arriscamos dizer, mais ardente do que nunca. Nesse contexto, parte dos direitos conquistados no Estatuto não saíram do papel ou, o que é pior, foram implementados com sinal trocado, sendo esvaziados de seu potencial redistributivo e instrumentalizados por processos especulativos e espoliativos capitaneados pelo capital imobiliário, que são concentradores de renda e de propriedade. Também aqui os exemplos são muitos.

Paralela à trajetória do Estatuto da Cidade, ainda, transcorre a história do Ministério das Cidades – criado por Lula em 2003 – e da implementação da política urbana à nível nacional. Essa também se deu aos solavancos, com avanços e retrocessos, sendo permeada por impasses que levaram, inclusive, à sua extinção em 2019 e sua recriação em 2023, novamente pelas mãos de Lula. Inúmeras foram as contribuições e conquistas obtidas nesse plano, por meio da criação de um aparato de Estado e da mobilização de um corpo técnico para fortalecer a capilarização da política urbana, de moradia e infraestrutura em todo o território nacional. Sua mais recente ilustração se dá pela criação de uma Secretaria destinada exclusivamente para o reconhecimento dos territórios periféricos e de suas potências, algo inédito no país e talvez no mundo. Todas essas possibilidades, naturalmente não passaram despercebidas pelos partidos do chamado “centrão”, que desde o surgimento da pasta estiveram profundamente interessados no seu controle, tendo sido bem sucedidos na maior parte das vezes.

Trata-se de uma longa história essa, que data ao menos de 1963, ano em que foi formulada pela primeira vez uma proposta de Reforma Urbana, no contexto da proposição das reformas de base. E ainda mais longa, se formos datar das lutas urbanas ou das lutas pela terra, no Brasil e no mundo. É essa história e, mais especificamente, os seus capítulos mais recentes que iremos endereçar ao longo

dessa série. Buscaremos trazer diferentes autores e autoras, a partir de suas experiências, pesquisas e campos de atuação para debater temas centrais para a construção de cidades mais justas, democráticas e capazes de enfrentar a emergência climática.

São formas novas de disputas milenares: a enxurrada de empreendimentos habitacionais voltados para investidores, que verticalizam São Paulo com construções sem moradores, enquanto a população sem casa ou profundamente endividada é empurrada para cada vez mais longe; a emergência climática que atravessa o território nacional e assume feições particularmente trágicas no Sul do país, em meio a décadas de desinvestimento, privatizações e falta de transparência; a pujança do agronegócio e de seus luxuosos condomínios horizontais, que levam ao crescimento acelerado das cidades do Centro-Oeste, ao lado das torres colossais que, no litoral catarinense, transformam a paisagem em ativo financeiro; as novas configurações dos conflitos fundiários no Nordeste, atravessados pelo avanço do crime organizado nos territórios populares e pelas remoções e despejos promovidos em nome do desenvolvimento “verde” e da energia “limpa” dos parques eólicos; as tentativas de privatização das praias em todo o litoral brasileiro; as lutas que emergem das cidades na e da floresta, na região norte do país, cujos problemas, experiências e soluções desafiam as concepções hegemônicas de planejamento urbano e nos convocam a pensar uma reforma urbana amazônica. A expansão da mineração, a corrida pela exploração de terras raras e a instalação de grandes centros de dados acrescentam novas dimensões às disputas pela terra, pela água, pela energia e pelas infraestruturas. São processos distintos, mas profundamente conectados, que reorganizam os territórios e afetam diretamente o cotidiano da população brasileira.

Para inaugurar essa parceria, convidamos integrantes de movimentos sociais e redes que atuam na defesa do direito à cidade. Suas propostas expressam o acúmulo das lutas urbanas, ajudam a compreender o que está em jogo neste momento crítico da vida nacional e apontam caminhos para enfrentar as estruturas que produzem e reproduzem as desigualdades nas cidades. Em um contexto de ameaças à democracia e à soberania nacional, escolhemos começar esta coluna dando espaço às vozes de quem constrói alternativas para o futuro do país. O texto, redigido a várias mãos, busca sintetizar e divulgar essas propostas:

A eleição de 2026 é um momento decisivo para a sociedade brasileira. O país vive uma disputa sobre os rumos da democracia, da soberania nacional e do direito do povo de decidir seu próprio futuro e das nossas cidades. As tentativas de golpe institucional, a disseminação da violência política e o fortalecimento da extrema direita não são uma realidade exclusiva do Brasil. Fazem parte de um contexto internacional marcado pela crise do capitalismo, que tem aprofundado as desigualdades e a concentração da terra e da riqueza, atacando direitos das maiorias.

É nas cidades que se organizam as condições materiais de vida da classe trabalhadora. O acesso à terra, à moradia, ao transporte, ao saneamento, ao trabalho e ao cuidado expressa a distribuição da riqueza e do poder. A localização dos investimentos, o regime da propriedade e o controle da infraestrutura definem quem se apropria dos ganhos coletivos da urbanização e quem assume seus custos. Essa disputa atravessa metrópoles, cidades médias, pequenos municípios e territórios alcançados pela expansão urbana e agropecuária. Discutir o futuro do país nas eleições de 2026 exige, portanto, debater o projeto de cidade que está em disputa.

O acesso à terra urbana, à moradia digna, ao transporte público e aos equipamentos sociais continua atrelado à renda e ao território. Somado a isso, a emergência climática torna essas desigualdades ainda mais graves. Favelas e periferias convivem de modo desproporcional com enchentes, deslizamentos, calor, ausência de infraestrutura, de modo que só se pode falar em justiça climática com política urbana distributiva.

Os últimos anos demonstraram que a capacidade de atuação do Estado faz diferença na vida urbana. A retomada do Ministério das Cidades e do Minha Casa, Minha Vida, com políticas de urbanização de favelas e prevenção de riscos, a criação da Secretaria Nacional de Periferias, o retorno dos espaços de participação social, das políticas de mobilidade e iniciativas de democratização do patrimônio público, fazem parte dos avanços da última gestão federal e são fruto de décadas de lutas, formulações e trabalhos de diferentes atores coletivos.

O desafio colocado para 2027 é dar um novo salto. Reconstruir capacidades estatais e, ao mesmo tempo, enfrentar estruturas que privam as maiorias dos serviços, do patrimônio construído e da riqueza das cidades, que permanece concentrada. Isso significa discutir quem controla a terra, quem decide os investimentos, onde a moradia será construída, quem terá acesso à infraestrutura e quem participa das decisões do território.

A Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Cidade estabeleceram a função social da propriedade e da cidade como fundamentos da política urbana, mas é preciso transformar esses princípios em práticas efetivas. Combater a especulação imobiliária pressupõe que a moradia não seja tratada como um ativo financeiro, por isso terrenos públicos e imóveis vazios devem estar condicionados aos instrumentos previstos na legislação para que fiquem vinculados ao interesse social, e não de mercado.

É fundamental ampliar a utilização de terrenos vazios já servidos por infraestrutura, destinar imóveis vazios e subutilizados para Habitação de Interesse Social, fortalecer a Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS), articular urbanização e regularização fundiária e desenvolver alternativas habitacionais para a população em situação de rua.

Uma política habitacional comprometida com o direito à cidade precisa garantir uma moradia adequada, o que vai além da segurança da posse e exige que a população destinatária tenha acesso ao trabalho, ao estudo, ao transporte público de qualidade e a uma localização adequada. É isso o que prevê o Comentário Geral n. 4, do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da Organização das Nações Unidas.

Defendemos políticas permanentes de produção de habitação popular, com protagonismo dos movimentos sociais, fortalecimento da autogestão, ampliação de recursos para a baixa renda e a priorização da política em nome das mulheres, mas não apenas amparada pela lei, mas com condições materiais que permitam esse reconhecimento.

A adaptação climática deve constituir uma tarefa permanente do Estado, com prioridade para os territórios populares e investimentos em saneamento, drenagem, recuperação ambiental e melhorias habitacionais. Essas intervenções devem garantir a permanência das comunidades. O reassentamento, quando indispensável à proteção da vida, deve ser construído com a população e assegurar alternativas habitacionais adequadas.

O direito à cidade depende da possibilidade concreta de circular por ela, por isso transporte público de qualidade, acessível e ambientalmente sustentável é condição para acesso ao trabalho, à educação, à saúde, ao lazer e às redes de cuidado. Por isso a agenda urbana precisa enfrentar o custo e o tempo de deslocamento, ampliar o transporte coletivo e discutir modelos de financiamento que reduzam a dependência da tarifa paga diretamente pelo usuário.

As cidades são o espaço da reprodução da vida, do trabalho, do cuidado. Ambulantes, trabalhadores por aplicativos, catadores e outros trabalhadores da economia informal e popular precisam ter seus direitos reconhecidos, de forma que o espaço público seja território de inclusão, e não de exclusão.

As políticas urbanas devem incorporar a dimensão do cuidado e da segurança alimentar, fazendo com que creches, cozinhas solidárias, hortas comunitárias e outros espaços de produção e reprodução da vida façam parte da infraestrutura necessária para uma cidade democrática. Pensar as cidades a partir do cuidado significa questionar não apenas onde estão as moradias, mas também quem cuida, como o cuidado acontece e quanto tempo as pessoas precisam se dedicar para garantir a sobrevivência de sua família.

O direito à cidade pressupõe o direito de participar das decisões que produzem a cidade, e os mecanismos de gestão democrática existentes precisam ser fortalecidos nas diferentes escalas de governo. Os investimentos públicos devem incorporar as prioridades definidas com a população, especialmente em áreas onde historicamente falta infraestrutura e serviços, de modo que essas políticas sejam objetos de decisões transparentes e participativas.

As desigualdades urbanas são permeadas por raça, classe e gênero e por isso esses três vieses devem ser considerados na formulação, financiamento e implementação das políticas públicas, de modo que não basta prever a priorização do grupo mais vulnerável na política, é preciso criar condições para que o grupo efetivamente goze do benefício.

É preciso colocar as cidades no centro do debate do projeto de país. Disputar as eleições representa decidir sobre o modelo de cidade que queremos construir, e essa cidade deve ser popular, democrática e diversa. Avançar nessa direção pressupõe considerar todos os avanços conquistados a partir da atuação das organizações e movimentos populares no país e é nesse sentido também que reafirmamos esse legado neste texto. Que ele sirva para abalizar um futuro das cidades em que as soluções sejam construídas a partir dos territórios, com tecnologias sociais e parcerias público populares.

 

Fonte: Por Carina Serra, Sabrina Durigon Marques, Tales Fontana Siqueira Cunha, Rud Rafael, Sidnei Pita e Luiz Kohara, em Outras Palavras

 

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