A
influente igreja evangélica que apoiou Jair, mas rejeita Flávio Bolsonaro
"Pastor
da nossa igreja em Alagoas,
vem cá", disse o bispo
Samuel Ferreira ao microfone, levantando-se da cadeira entre Ciro Nogueira
(PP-PI) e Arthur Lira (PP-AL), na mesa comprida que tomava o palco da Catedral Fama,
em Goiânia,
de ponta a ponta.
Era
maio de 2022. Ciro Nogueira era ministro-chefe da Casa Civil do governo de Jair
Bolsonaro (PL) e Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados.
"O
senhor não me pediu, e nem precisa", o bispo prosseguiu, referindo-se a
Lira, que se levantava da cadeira, enquanto o pastor Jaques Balbino (o
"pastor da nossa igreja em Alagoas") caminhava em sua direção.
"Lá
nas nossas igrejas só vai [se] falar de Jesus,
na época de eleição, e do senhor", disse Samuel Ferreira. Lira sorriu.
O bispo
é um dos líderes da Assembleia de Deus Ministério Madureira, uma das maiores
denominações evangélicas do país.
A
promessa de campanha aconteceu durante uma reunião da Convenção Nacional das
Assembleias de Deus no Brasil (Conamad), da qual Ferreira é
presidente-executivo, e acabou com uma ameaça em tom bem-humorado direcionada
ao pastor de Alagoas.
"Se
ele não falar", prosseguiu o bispo Samuel Ferreira, "tem um outro
trabalho lindo nas montanhas do Nepal... Estamos precisando de obreiros
lá."
A
plateia — e os parlamentares no palco — caíram na gargalhada.
"Esse
é o seu candidato. Cumprimenta o homem, rapaz!"
Naquela
eleição, Arthur Lira foi o candidato a deputado federal mais votado em Alagoas
e ajudou o PP a conquistar quatro das nove vagas disponíveis para o Estado.
O
vídeo, que voltou a circular nesta eleição, é uma oportunidade rara de ver mais
de perto como a Assembleia de Deus Ministério Madureira opera como agente no
mundo da política — e sua força.
Apesar
de ser menos conhecida fora do mundo evangélico do que igrejas como a
Universal, que está por trás da fundação do partido Republicanos, ou a Renascer
em Cristo, que organiza a Marcha para Jesus, um evento que acabou virando
importante palanque eleitoral, o Ministério Madureira também tem uma relação
íntima com a política.
Uma
conexão descrita como "pragmática" pelos pastores e especialistas
ouvidos pela reportagem da BBC News Brasil.
"É
uma espécie de Centrão", compara o pesquisador Gedeon Freire de Alencar,
autor de Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus, 1911 a 2011.
Ele se refere ao grupo de partidos no Congresso conhecidos por não ter um
perfil ideológico claro e se alinhar com um ou outro governo a depender da
conveniência.
Em
2006, o pai de Samuel Ferreira, bispo Manoel Ferreira, então líder da Conamad,
pediu votos a Lula — em um pleito em que ele mesmo se candidatou, e foi eleito
deputado federal pelo PTB.
Em
entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na época, ele justificou o apoio
argumentando que o governo do petista seria o que tinha "dado comida ao
maior número de pobres", por meio do programa Bolsa Família.
Em
2018, a igreja foi uma das muitas que se reposicionaram em meio à virada
bolsonarista que realinhou o mundo evangélico e o afastou da esquerda.
Quatro
anos depois, apoiou novamente Jair Bolsonaro, desta vez em sua candidatura à
reeleição. O então presidente chegou a fazer um discurso de meia hora no evento
da Conamad em Goiás em 2022 e, às vésperas do primeiro turno, Samuel Ferreira o
recebeu em São Paulo em um culto em que a imprensa foi proibida de entrar.
Agora,
a cúpula resistiu a embarcar na campanha do filho mais velho do presidente,
Flávio Bolsonaro (PL). O senador, que é correligionário de pastores da igreja
que se tornaram parlamentares, como o deputado federal Cezinha de Madureira
(PL-SP) e o deputado estadual por São Paulo Oseias de Madureira (PL-SP), buscou
aproximação, mas não conseguiu fechar apoio.
Samuel
Ferreira chegou a visitar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a
indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) de Jorge Messias, que é evangélico
da igreja batista, e foi fotografado com ele após uma reunião no Planalto em
outubro do ano passado.
Mas,
quando chegou a hora de definir um lado nesta eleição presidencial, o colegiado
de bispos acabou se decidindo por Ronaldo Caiado (PSD-GO), o ex-governador de
Goiás que, no momento, está empatado com Augusto Cury (Avante) e Renan Santos
(Missão) nas pesquisas de intenção de voto, com cerca de 3%, conforme o Agregador da
BBC News Brasil.
Que
igreja é essa e por que ela resolveu se alinhar a um candidato que não está
entre os favoritos nas pesquisas para levar essa eleição?
<><>
As Assembleias de Deus
A
Assembleia de Deus é uma denominação pentecostal com mais de um século de
história no Brasil. É a maior
vertente evangélica no país, somando 12,3 milhões de fiéis, conforme
os dados do Censo 2010.
Pesquisadores
e fiéis costumam se referir a ela no plural: as Assembleias de Deus. Isso
porque, de fato, são muitas.
Ao
contrário da Igreja Católica, por exemplo, que responde à autoridade máxima do
papa, ou de neopentecostais como a Universal, que é comandada por seu fundador,
o bispo Edir Macedo, a Assembleia de Deus tem um modelo descentralizado, uma
característica ligada à sua própria origem dentro do movimento pentecostal, nos
Estados Unidos, no início do século 20.
Ela
chegou ao Brasil por Belém do Pará em 1911, fundada por missionários suecos que
haviam antes migrado para os EUA justamente na época em que
o pentecostalismo florescia dentro da comunidade negra americana.
Com o
tempo, expandiu-se pelo país e se fragmentou em meio a "guerras" e
disputas internas, como ilustra Marina Correa, que há mais de 20 anos pesquisa
a Assembleia de Deus e é autora, entre outros livros, de Dinastias
Assembleianas: Sucessões Familiares nas Igrejas das Assembleias de Deus no
Brasil.
É desse
processo de divisão que surgem os "ministérios".
O
Ministério Madureira foi fruto de uma das mais antigas cisões. Surgiu em 1929,
quando o pastor Paulo Leivas Macalão fundou a primeira igreja no Rio de
Janeiro, no bairro de Madureira.
Com o
tempo, a Assembleia de Deus de Madureira foi se afastando da "matriz"
em Belém, promovendo a abertura de novas igrejas e ganhando autonomia
institucional. Até que, em 1958, fundou sua própria convenção, a Conamad,
selando a divisão formal dentro do movimento.
Até os
anos 1950, os diferentes templos da Assembleia de Deus no Brasil se articulavam
em torno da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), que
estava sob o comando de Belém.
As duas
convenções — CGADB e Conamad — acabaram se tornando os dois grandes blocos que
concentram o maior número de fiéis dentro da denominação.
A
igreja do pastor Silas Malafaia, por exemplo, a Assembleia de Deus Vitória em
Cristo (ADVEC), faz parte de um ministério independente (fundado em 1959 no Rio
de Janeiro como Assembleia de Deus da Penha) e filiado à CGADB.
<><>
Relação antiga com a política e ponto de origem da bancada evangélica
A
relação com a política faz parte da identidade do Ministério Madureira. Quando
ainda dava os primeiros passos, nos anos 1940, buscou se aproximar da gestão do
então presidente Getúlio Vargas — que, assim como o pastor Macalão, era gaúcho.
A
pesquisadora Marina Correa lembra que Macalão, junto a outros pastores, chegou
a enviar um telegrama a Vargas para expressar apoio à decisão de declarar
guerra aos países do eixo durante a Segunda Guerra Mundial em 1942 e oferecer
"cooperação em defesa dos ideais cristãos, liberdade dos povos, orando
continuamente em prol da vitória do Brasil".
O bispo
Manoel Ferreira, que começou na igreja nos anos 1960 em São Paulo, fez carreira
no ministério também por suas habilidades políticas, como ele mesmo conta em um
capítulo da biografia produzida em comemoração ao centenário das Assembleias de
Deus.
Ferreira
era com frequência acionado por Macalão para resolver problemas decorrentes dos
movimentos de cisão dentro da congregação.
Em um
episódio em particular nos anos 1970, o fundador telefonou para o então pastor
da igreja de Vila Alpina, em São Paulo, para perguntar se ele conhecia alguém
que pudesse impedir no cartório a oficialização de um documento que havia sido
produzido por um grupo de pastores que buscavam se separar do ministério.
Ferreira conseguiu acionar um general que era político do Estado de São Paulo,
e a oficialização dos documentos foi revogada.
Com o
fim da ditadura, teve início o projeto de poder de fato da Assembleia de Deus
de forma mais ampla, segundo Marina Correa. Em Ditadura Democracia e Fé no
País da Moral e dos Bons Costumes, a pesquisadora e seu coautor analisam
anos da publicação O Mensageiro da Paz, o jornal oficial da denominação, e
registram como o discurso religioso, com o tempo, foi ganhando também contornos
de discurso político.
Uma das
grandes discussões na convenção da CGADB em 1985 foi sobre a
"necessidade" de as Assembleias de Deus, que naquela época já eram a
maior denominação evangélica do país, se envolverem mais na política, lembra o
pesquisador Osiel Lourenço de Carvalho no artigo "Pentecostalismo na
Esfera Pública - A participação das Assembleias de Deus na Política Partidária
Brasileira".
Dessa
convenção saíram 18 candidatos à eleição para deputado federal do ano seguinte.
Impulsionados pelo lema "irmão vota em irmão", título de um livro
escrito na época por um assessor do Senado e líder assembleiano, 13 foram
eleitos.
Assim,
a Assembleia de Deus foi um dos muitos grupos que estiveram presentes nas
discussões da Assembleia Nacional Constituinte de 1987. Nesse momento, passam
"de fato a ganhar voz" na política, como destaca Correa, dando origem
ao que se conhece hoje como a bancada evangélica do Congresso.
"A
Benedita estava lá nessa época, mas ela nunca usou a religião para isso",
observa Correa, referindo-se a Benedita da Silva, assembleiana que também foi
senadora nos anos 1990 e agora concorre novamente a uma cadeira na Casa pelo
PT.
<><>
De Belém a Madureira - e ao Brás
Manuel
Ferreira havia ascendido ao posto de pastor-presidente no Ministério Madureira
poucos anos antes, em 1982, quando morreu Paulo Leivas Macalão — sem ter
indicado sucessor — e seu vice-presidente, pastor Alípio, cerca de 20 dias
depois.
Sua
chegada ao poder deslocou o eixo do Ministério Madureira do Rio para São Paulo,
o Estado para onde Manoel Ferreira havia se mudado ainda criança de Alagoas e
onde construiu sua trajetória dentro da Assembleia de Deus.
"São
Paulo é também um grande centro financeiro, de poder. Onde Edir Macedo resolveu
construir seu Templo de Salomão?", comenta o pesquisador Gedeon Freire de
Alencar, referindo-se à Igreja Universal, que também começou no Rio de Janeiro
e hoje tem sua base mais importante em São Paulo.
O
Templo de Salomão, aliás, está a menos de 200 metros da principal igreja do
Ministério Madureira hoje, no bairro do Brás. O templo central da AD Brás é uma
enorme construção de concreto armado e vidro espelhado com capacidade para 5
mil pessoas. É presidida por Samuel Ferreira, filho de Manuel Ferreira, hoje
principal liderança do ministério.
A
reportagem da BBC News Brasil procurou a igreja, mas não teve retorno sobre o
pedido de entrevista.
<><>
De Bolsonaro a Caiado
O
deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), que foi pastor do Ministério
Madureira e na década de 1990 fundou o Ministério Missão de Vida, acredita que
a decisão de apoiar Caiado se deve "à capacidade comprovada de Caiado como
gestor" e à proximidade que a denominação tem com ele desde o tempo em que
era deputado federal, nos anos 1990.
O
Ministério Madureira tem uma base importante em Goiás. Foi o primeiro Estado
para onde se expandiu, em 1936, antes ainda de desembarcar em São Paulo, em
1938.
"Então
o apoio aí ao Caiado foi algo, assim, quase que natural, diante de um clima de
polarização em que a igreja também ficou evitando entrar", afirma De
Paula, cuja igreja é ligada a Madureira e à Conamad.
O apoio
foi oficializado em abril, durante o evento anual da Conamad, realizado em
Goiânia. O então governador de Goiás sentou-se à mesa comprida no palco, à
semelhança de Arthur Lira em 2022, e ouviu sorrindo Samuel Ferreira discursar
ao microfone.
"Madureira
não entrou no segundo, Madureira entrou em primeiro turno — e Madureira é pé
quente", disse o bispo na ocasião.
Passados
quatro meses, contudo, a candidatura de Caiado não decolou. De Paula diz que a
igreja "tem consciência" disso, mas que ainda não fechou um
posicionamento.
"Os
bispos ainda não decidiram como será o comportamento da Igreja enquanto
convenção para esse segundo turno."
Ele já
declarou que votará em Lula em um eventual segundo turno. Sobre a decisão da
igreja de recusar as investidas de Flávio Bolsonaro, o deputado deixa claro que
não fala pelo colegiado de bispos que deliberam sobre os apoios políticos, mas
diz que o senador "sempre se aproveitou da igreja e nós temos consciência
disso".
"Ele
nunca foi um dos nossos", acrescenta De Paula, que já foi bolsonarista e
vem há meses fazendo críticas
abertas a esse campo político.
"Nós
o apoiamos aqui no Rio de Janeiro, maciçamente, lá atrás, em 2018, e Flávio
depois nunca esteve conosco mais, nunca congregou conosco mais. E não é só a
gente, qualquer igreja evangélica do Rio de Janeiro nunca mais recebeu a visita
do Flávio, porque ele nunca foi um dos nossos", completa.
Ciro
Nogueira e Arthur Lira, que protagonizaram a cena na Conamad de 2022 e voltou a
circular nas últimas semanas, são novamente candidatos, ao Senado no Piauí e em
Alagoas, respectivamente. Desta vez, contudo, não houve manifestação pública de
apoio de Madureira.
O bispo
Samuel Ferreira tem concentrado os esforços na campanha de seus candidatos a
deputado federal e estadual em São Paulo, Rogério Madureira e Elias Madureira,
ambos pelo PL. Tem peregrinado por diferentes cidades com a "Caravana
Movimenta Madureira" apresentando-os aos fiéis do interior.
Uma
postagem em sua página da semana passada celebrava o endosso da ex-primeira
dama Michelle Bolsonaro (PL), que desponta como uma das favoritas a uma vaga ao
Senado pelo Distrito Federal e gravou um vídeo pedindo voto aos dois. "E
agora é oficial. Madureira vai cantar!", comemorou o bispo na legenda.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário