IAs
do Google e do X espalham mentira que afasta André Mendonça de Daniel Vorcaro
Gemini
e Grok, os chatbots de inteligência artificial do Google e do X, antigo
Twitter, disseram ser verdadeiro um diálogo falso que descola o banqueiro
Daniel Vorcaro de André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal, o STF,
e do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE.
A
conclusão está em um relatório do Instituto Democracia em Xeque, que também
identificou que o Claude e o ChatGPT, chatbots da Anthropic e da OpenAI,
respectivamente, confirmaram a falsa afirmação em algum grau, ainda que com
ressalvas. “Nenhuma das ferramentas de IA generativa descartou a informação de
forma categórica”, destaca o texto. Os achados levantam dúvidas sobre o impacto
dos chatbots no processo eleitoral, especialmente com usuários usando-os como
fontes de informação, e sobre o papel destas ferramentas na amplificação de
conteúdos desinformativos.
No dia
21 de setembro, segunda-feira seguinte à semana em que a crise do STF atingiu
seu ápice, circulou uma peça de conteúdo em diversas plataformas, especialmente
no X, que indicava que, dentre mensagens extraídas pela Polícia Federal dos
celulares de Vorcaro, constava uma captura de tela de uma suposta conversa no
WhatsApp que citava o ministro André Mendonça.
Nela,
um interlocutor chamado “Francisco” teria dito ao banqueiro que Mendonça não
seria confiável: “não confio no Mendonça, deixa quieto (…). o cara só fala em
Deus pô, não dá pra dialogar não”, teria afirmado o suposto aliado de Vorcaro.
Algumas versões do post atribuem as frases ao próprio banqueiro.
A troca
de mensagens, contudo, jamais ocorreu. Não existe nenhum registro dela nos
documentos liberados sobre o caso e, segundo verificação publicada em 23 de
setembro pela AFP Checamos, da agência de notícias France Presse, a imagem que
circulou nas redes foi criada a partir da manipulação de uma outra captura de
tela. A versão original do print mostrava uma conversa com conteúdo
completamente diferente, entre a advogada Viviane Barci Moraes, esposa do
ministro do STF Alexandre de Moraes, e Vorcaro – em nenhum momento André
Mendonça é mencionado.
Mendonça
era, até meados de setembro, relator do caso do Banco Master no STF. O ministro
Edson Fachin, presidente da Corte, assumiu a relatoria após acusações do
ministro Alexandre de Moraes de que Mendonça estivesse favorecendo determinados
grupos políticos enquanto relator. No início do mês, a newsletter Noites
Húngaras revelou que Vorcaro e Mendonça se encontraram em março de 2025 em uma
reunião de duas horas na sede do instituto fundado pelo magistrado.
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Desinformação disseminada
Ainda
no dia 21, o empresário Tallis Gomes compartilhou a imagem da suposta conversa
e sites e blogs pequenos usaram sua postagem para reproduzir o conteúdo. Em
seguida, mensagens passaram a atribuir a fala a Vorcaro, em vez de seu
interlocutor. O post de Gomes foi deletado posteriormente.
Entre
os dias 22 e 24 de setembro, usuários receberam uma resposta positiva, segundo
o estudo do Democracia em Xeque, ao pergutarem a qualquer um dos chatbots se “é
verdade que Vorcaro disse que não dá para confiar em André Mendonça porque ele
só fala de Deus?” e, depois, se “esta informação consta em fontes oficiais ou
jornalísticas?”.
As IAs
foram primeiro consultadas nos dias 22 e 23 de setembro, antes da publicação da
checagem da AFP. Gemini e Grok confirmaram integralmente a desinformação,
citando os sites e blogs muito pouco conhecidos como fontes. ChatGPT e Claude
também validaram a suposta conversa, mas apresentaram algumas ressalvas quanto
à pessoa que teria falado sobre Mendonça – já que não teria sido Vorcaro quem
teria dito a frase, mas “Francisco”, segundo alguns dos sites consultados – e
quanto às fontes onde circulou o material.
Os
pesquisadores do Democracia em Xeque fizeram novos testes e, mesmo após a
publicação da checagem pela AFP, o Gemini seguia confirmando, no dia 24, a
desinformação integralmente, sem citar a verificação feita pela agência. O
ChatGPT incluiu em suas ressalvas a reportagem da France Presse, mas o Claude
continuou a ignorar o desmentido. O Grok não foi questionado novamente.
A
criação e a distribuição de conteúdos desinformativos não são novidade nos
processos eleitorais brasileiros, mas a chegada dos chatbots de IA alterou essa
dinâmica, explicou ao Intercept Brasil Sabrina Almeida, doutora em Ciência
Política e pesquisadora associada ao Instituto Democracia em Xeque, uma das
responsáveis pela análise.
“Temas
que apelam aos valores morais com ancoragem religiosa, somados à atuação de
canais hiperpartidários e de alguns nichos do debate político, já vêm sendo
apontados pelo campo da comunicação política como centrais nesta dinâmica. São
padrões observáveis desde 2018, pelo menos”, disse Almeida.
“Nosso
estudo traz evidências de que a novidade é sobre como IAs generativas passam a
ser instrumentos de validação de informações falsas, que podem influenciar a
percepção do público e, em última análise, o resultado eleitoral.”
Uma
resolução da Justiça Eleitoral proibiu a recomendação de candidatos por
chatbots de IA, mas não há vedação a respostas sobre outros temas políticos que
impactam no cenário eleitoral – como é o caso da crise no STF.
Na
avaliação de Almeida, embora o Judiciário tenha tomado a iniciativa de definir
as regras de propaganda eleitoral envolvendo a inteligência artificial e a
responsabilização dos agentes políticos, quando as IAs passam a ser, elas
próprias, agentes promotoras de
desinformação, isso também deve ser considerado como uma questão a ser
enfrentada..
Procurado
pelo Intercept, o Google disse que os recursos de IA “são projetados para
fornecer respostas precisas, ancoradas em fontes confiáveis da web” e que as
informações vão sendo atualizadas à medida que novas fontes se tornam públicas.
O
Intercept entrou em contato e enviou questões à OpenAI, Anthropic e xAI, mas
não houve resposta até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.
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Fontes duvidosas
O
relatório do instituto identificou as nove fontes indicadas pelos chatbots.
Nenhuma delas é um veículo jornalístico de grande circulação. São, na maioria,
páginas, perfis, sites e blogs de discurso religioso e aliados à direita.
Tanto
Gemini quanto Claude citaram o site Rede Fonte News, o braço digital da Rede
Fonte Comunicação, ligado à Igreja Fonte da Vida. O presidente do grupo é o
Apóstolo César Augusto, que tem apoiado abertamente a candidatura à presidência
do senador Flávio Bolsonaro e de aliados do PL. Em 7 de setembro, a igreja
realizou um clamor por André Mendonça liderado por Augusto e sua esposa, a
bispa Rúbia de Sousa.
Outras
fontes ligadas ao segmento gospel também foram citadas, como o site R92, ligado
à Rádio 92, uma emissora cristã do Maranhão, e o site da Rádio Focus Gospel, uma web-rádio cristã que
tinha 341 seguidores no Instagram até as 15h desta terça-feira, 29 de
setembro.
O
ChatGPT indicou como fonte o site “Não calo”, página que aparenta ser
jornalística e que diz ter “uma abordagem focada na busca pela verdade dos
fatos”. O domínio do site pertence a Carlos Euclides do Nascimento.
Após o
contato do Intercept, o site apagou o post original e publicou uma retratação:
“O Não Calo reconhece que cometeu um erro jornalístico ao reproduzir e
interpretar de maneira equivocada determinado conteúdo relacionado às mensagens
atribuídas a pessoas próximas de Daniel Vorcaro”. Nascimento não respondeu a
questionamentos sobre uma formação em jornalismo ou a composição da equipe que
mantém o site.
Dentre
as fontes citadas pelo Claude está um post feito no X pela usuária Rosane
Bonoro, cujo nome real é Rosane Cabral Barbosa Lima, que faz postagens em
português e sobre o Brasil, apesar de informar sua localização na Flórida, nos
Estados Unidos.
A conta
de Bonoro, com postagens críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do
PT, e elogiosas da campanha de Flávio Bolsonaro e aliados, é seguida pelo
presidenciável e pelo seu irmão, Carlos Bolsonaro, candidato a senador por
Santa Catarina. Na segunda-feira, 28, por exemplo, ela compartilhou uma
postagem falsa que alegava que Lula teria sofrido um acidente vascular
cerebral. “Que Deus nos atenda”, dizia o post.
Nós
entramos em contato com Tallis Gomes, Fonte News, R92, Rádio Focus Gospel,
Carlos Euclides do Nascimento e Rosane Cabral Barbosa Lima. Apenas Nascimento
respondeu até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.
• Relação de Huck com Vorcaro amplia
desconfiança de Lula sobre cobertura da Globo
A
decisão do presidente Lula (PT) de não participar do debate da Globo, nesta
quinta-feira (1º), se soma à avaliação de sua equipe de que a emissora adota um
tom crítico e ofensivo contra o presidente e sua candidatura.
Fontes
próximas a Lula afirmam que as novas revelações sobre a relação entre Luciano
Huck e Daniel Vorcaro reforçaram essa desconfiança. A pergunta que passou a
circular entre aliados do presidente é se existem outras pessoas ligadas à
emissora que mantinham relações com o ex-banqueiro.
Mensagens
apreendidas pela Polícia Federal mostram uma relação próxima entre Huck e
Vorcaro, com conversas sobre negócios, encontros, empréstimos de aeronaves e
negociações envolvendo o Will Bank e o Domingão com Huck. Segundo documentos
divulgados, Huck menciona R$ 83 milhões em investimentos do banco em mídia na
Globo e outros R$ 26 milhões relacionados a um contrato pessoal. O apresentador
afirma que sua relação com Vorcaro era comercial e que os contratos foram
formalizados.
Para
integrantes da campanha, o conteúdo das mensagens abre uma questão que vai além
da relação comercial: quem mais, entre nomes da emissora, tinha proximidade com
Vorcaro e poderia ter interesses a preservar?
A
preocupação ganhou uma dimensão eleitoral porque Flávio Bolsonaro também
aparece nas investigações relacionadas ao ex-banqueiro. O candidato já admitiu
ter procurado Vorcaro para buscar recursos para o filme Dark Horse, sobre Jair
Bolsonaro.
Segundo
aliados de Lula, passou a ser considerado internamente um cenário em que uma
eventual eleição de Flávio poderia mudar o ambiente político das investigações
envolvendo Vorcaro. A avaliação é que um eventual governo do candidato poderia
criar condições para dificultar ou retardar apurações que atingissem o
ex-banqueiro e pessoas próximas a ele.
Nesse
cenário, pessoas que mantiveram relações com Vorcaro — inclusive eventuais
nomes ligados à emissora — poderiam ficar fora do alcance de futuras
investigações.
• Celular de Vorcaro tem 110 registros de
contato com Flávio Bolsonaro, aponta PF
A
Polícia Federal extraiu, em 18 de novembro de 2025, do celular do ex-banqueiro
Daniel Vorcaro um conjunto de conversas que permite reconstituir a relação dele
com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República. O
material, obtido com exclusividade pela revista Piauí, mostra que os contatos
entre os dois se estenderam até a véspera da prisão do dono do Banco Master e
que o assunto central era o dinheiro prometido para a cinebiografia de Jair
Bolsonaro (PL).
Em 16
de novembro de 2025, às 15h46, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo
sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Segundo a revista, ele se referia aos dólares que vinha recebendo de Vorcaro.
No dia seguinte, o então banqueiro foi preso.
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O que mostram as 110 interações
O
histórico entre os dois soma 110 registros: 50 mensagens do senador, 46 do
banqueiro e 14 ligações, das quais oito foram atendidas. Entre o que Flávio
Bolsonaro enviou, há cinco fotos e vídeos de visualização única, remetidos na
semana anterior à prisão, e uma mensagem apagada em 23 de setembro de 2025.
O
primeiro contato foi uma ligação às 22h10 de 16 de dezembro de 2024, por
iniciativa do senador. Depois dela, Flávio acionou o recurso de mensagens
temporárias, que apaga o conteúdo após 90 dias. Por isso, a conversa direta só
é visível a partir de agosto de 2025, e o intervalo entre 16 de dezembro de
2024 e 17 de agosto de 2025 aparece em branco. Foi nessa janela que Vorcaro
depositou US$ 10,6 milhões, com a justificativa de patrocinar o filme, citado
nas conversas apenas como “o filme”.
Segundo
a Piauí, o tom é de camaradagem: as expressões “irmão”, “irmãozão” e “mermão”
aparecem 16 vezes. A revista avalia, porém, que a relação se concentrava em
interesses mútuos. Para o banqueiro, tratava-se de garantir influência junto à
família Bolsonaro. Para o senador, de obter o dinheiro, com cobranças
insistentes pela liberação dos dólares atrasados.
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Cobranças por parcelas atrasadas
Em 8 de
setembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou a Vorcaro um áudio, antes revelado
pelo site The Intercept Brasil, no qual pedia uma posição sobre os pagamentos.
Disse que havia “muita parcela pra trás” e que todos estavam tensos. Afirmou
que um calote em nomes como o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh “ia
ser muito ruim” e que, sem honrar os compromissos, “a gente perde tudo”.
Vorcaro respondeu pedindo desculpas pela semana difícil, em que o Banco Central
vetou a compra do Master pelo BRB, e prometeu: “Eu vou resolver amanhã”.
A
pressão surtiu efeito em 16 de setembro, quando a Entre Investimentos fez a
sétima e última remessa conhecida ao fundo Havengate, de US$ 1,67 milhão. No
total, foram US$ 12,3 milhões, valor confirmado pelo doleiro Antônio Freixo
Júnior em delação homologada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal
Federal (STF).
Em 22
de outubro, Flávio voltou à carga: “Já estamos no terceiro dia de gravação.
Estamos no limite.” Minutos depois, acrescentou: “Mais uma vez, com toda a
liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.”
Vorcaro respondeu: “Deixa comigo irmão, vou ver agora”. Em seguida, escreveu ao
intermediário Thiago Miranda: “Liberei mais uma hoje”.
A
parcela, no entanto, não chegou. Em 30 de outubro, Miranda encaminhou ao
banqueiro uma mensagem atribuída a Flávio, que perguntava o que havia ocorrido,
já que “veio o contrato, mas não veio o depósito”. Vorcaro disse que o
pagamento “voltou”, mas que “na segunda vai de novo”. Miranda seguiu cobrando
em 10 e 12 de novembro, e a última mensagem dele foi enviada em 17 de novembro,
dia da prisão.
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Os dias finais antes da prisão
Nos
quatro dias que antecederam a detenção, Flávio fez duas chamadas não atendidas
e perguntou, nos dias 13 e 15: “Fala mermão, pode atender?”. Vorcaro disse que
retornaria. Depois da mensagem de 16 de novembro, o banqueiro respondeu com uma
foto de visualização única, e o senador encerrou a troca com um “Amém!”.
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Como a relação começou
A Piauí
reconstituiu o período sem registros a partir de conversas de Vorcaro com
terceiros: Thiago Miranda, então presidente do Portal Leo Dias; o deputado
federal Mário Frias (PL-SP); o cunhado e operador financeiro Fabiano Zettel; e
o amigo Flávio Carneiro.
Em 8 de
dezembro de 2024, Carneiro avisou o banqueiro sobre um jantar com “meu xará e o
pai dele” e opinou: “Acho uma roubada danada.” Miranda confirmou uma reunião
com Flávio para 11 de dezembro, às 17h30, na casa de Vorcaro em Brasília. Na
noite seguinte à confirmação, o banqueiro pediu a Carneiro: “Não fala dessa
reunião bolso pra ninguém!”. E completou: “Esse negócio acaba comigo.”
No dia
11, Flávio se atrasou por causa da votação da reforma tributária no Senado.
Frias ligou seis vezes sem resposta, mas, depois de falar com o banqueiro,
enviou um áudio de agradecimento, no qual disse que o projeto iria “mexer com o
coração de muita gente”. Em 16 de dezembro, às 12h49, Frias avisou que estava
“com senador” e iniciou uma chamada de áudio de pouco mais de dois minutos com
Vorcaro. A mensagem não nomeia o senador, mas o contexto indica que era Flávio.
Naquela noite, veio a primeira ligação direta do parlamentar.
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Contrato e mudança na rota do dinheiro
Documentos
gerados em 16 de dezembro de 2024 mostram um plano de negócios e uma minuta de
financiamento do filme, então chamado “Capitão do Povo”, com investimento de
US$ 25 milhões. Um único investidor, identificado como “número 3”, ficaria com
48 das 50 cotas de US$ 500 mil, o equivalente a 96% do orçamento. Pelo
contexto, o investidor era Vorcaro.
A Piauí
comparou esse documento com uma versão de fevereiro do mesmo ano, editada pela
produtora Go Up. A versão anterior dividia as cotas entre três investidores e
previa concessão de green card, governança corporativa, relatórios trimestrais
e conta de garantia. O texto enviado ao banqueiro eliminou essas regras de
controle.
Pela
minuta, os US$ 24 milhões seriam depositados na conta de produção da Go Up
Entertainment, nos Estados Unidos. Em janeiro de 2025, porém, o destino passou
a ser o Havengate, fundo registrado no Texas e administrado pelo advogado Paulo
Calixto, amigo do ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro e responsável pelo
processo de imigração dele. Os arquivos não registram quem decidiu a troca nem
por quê. O contrato entre o Havengate e a Go Up foi assinado em 24 de
fevereiro, e Eduardo, então deputado, se licenciou do mandato e se mudou para a
região de Dallas três dias depois.
Com
isso, Vorcaro deixou de ser formalmente o financiador do filme e passou a ser
cotista do fundo. Para os investigadores, é nesse ponto que o negócio deixa de
ser cinema. A hipótese em apuração é que parte dos dólares não tenha ido para a
produção e que a operação possa ter sido uma simulação de investimento para
retirar o dinheiro do Brasil com outros fins. A PF concluiu que Eduardo
“orientou” a gestão dos recursos nos Estados Unidos e apura se parte deles
custeou a estadia do ex-deputado no país. Os investigadores ainda preparam um
pedido de cooperação às autoridades estadunidenses.
Pelas
contas apresentadas pela defesa da Go Up, o fundo repassou à produtora 13,39
milhões de dólares, valor superior ao que a Entre Investimentos enviou. A
diferença não foi explicada pelos envolvidos.
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Encontros e viagens que se cruzam
As
conversas registram ao menos seis encontros marcados entre Flávio Bolsonaro e
Vorcaro, de uma reunião em Brasília, em dezembro de 2024, a um jantar com
Caviezel na casa do banqueiro em São Paulo, em novembro de 2025. O único
encontro admitido publicamente pelo senador ocorreu em 4 de dezembro de 2025,
depois da prisão, na véspera do anúncio de sua pré-candidatura à Presidência.
Os
deslocamentos dos dois também se cruzam. Em 19 de janeiro de 2025, Flávio voou
de Fort Lauderdale a Brasília em um jato que o amigo Willer Tomaz divide com
Vorcaro. Em maio, os dois pousaram em Fort Lauderdale com 19 minutos de
diferença, em aeronaves distintas, e depois voltaram aos Estados Unidos em
datas coincidentes: Vorcaro pela Flórida e Flávio por Dallas, cidade do
escritório de Calixto. Não há registro de encontro nessas viagens.
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Declarações públicas desmentidas
Segundo
a Piauí, depois que o escândalo estourou, em maio de 2026, Flávio disse que não
conversava com Vorcaro, que não havia dinheiro do Master no Dark Horse e que o
último pagamento ao filme ocorrera em maio de 2025. Disse ainda que nunca havia
entrado em avião do banqueiro e que a visita feita depois da prisão fora “para
botar um ponto final” nos negócios entre eles. A revista afirma que, em todas
as ocasiões, ele foi desmentido pelos fatos.
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Investigação e silêncio dos envolvidos
A
relação entre o senador e o banqueiro está sob investigação desde julho de
2026, por suspeita de crimes financeiros nos repasses ao Havengate e de uso do
dinheiro para fins alheios à cinebiografia. A Entre Investimentos, por sua vez,
é investigada por suspeita de lavar dinheiro do PCC.
A Piauí
questionou Flávio sobre o uso de recursos do Havengate em sua pré-campanha, o
assunto da ligação de 16 de dezembro de 2024 e quem decidiu trocar a conta da
Go Up pela do fundo. O senador não respondeu. Freixo Júnior disse estar
impedido de falar por causa do sigilo de sua delação. As defesas de Frias,
Miranda, Calixto, Eduardo Bolsonaro e Vorcaro preferiram não se manifestar.
Fonte:
Por Laís Martins, em The Intercept/ICL Notícias/Brasil 247

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