Por
que líderes nas pesquisas evitam debates eleitorais
Em
2006, no auge de um escândalo que levou à prisão integrantes do Partido dos
Trabalhadores (PT) por tentativa de compra de um dossiê falso, o então
presidente Luiz Inácio Lula da Silva faltou ao debate promovido pela Rede Globo
na véspera do primeiro turno. A emissora leu no ar a carta em que o petista
justificou a ausência, alegando que o encontro viraria uma arena de agressões.
A cadeira reservada ao candidato permaneceu no cenário, e os concorrentes foram
autorizados a dirigir a ela as perguntas que fariam ao então presidente.
À
época, em artigo sobre o tema, o pesquisador de mídia Antônio Fausto Neto
argumentou que a recusa de Lula era, ela mesma, uma mensagem. A cadeira vazia
virou o principal assunto da campanha, e a cobertura reforçou o enquadramento
no apelido de "fujão", dado pelo então candidato da oposição e hoje
vice de Lula, Geraldo Alckmin (PSB).
Nesta
quinta (01/10), a TV Globo cancelou o debate presidencial após o candidato
Flávio Bolsonaro (PL), desistir em cima da hora de participar do evento, na
esteira de uma série de decisões judiciais que alteraram o formato inicialmente
previsto pela emissora. Lula já havia anunciado que não iria ao debate.
Anteriormente,
em 23 de agosto, um debate, na TV Bandeirantes, foi ignorado tanto por Lula
quanto por Flávio. Posteriormente, dois debates, um da Record e outro de um
consórcio de veículos, também foram cancelados após Lula e Flávio informarem
que não participariam.
Para o
cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana
Mackenzie, ao evitar um debate o candidato aposta que o efeito negativo da
ausência é menor do que o da exposição. "Quem lidera as pesquisas acaba
agindo de modo preventivo. Todo minuto de exposição é um risco assimétrico para
aquele que vai ao debate. Pode errar, mas dificilmente ganha proporcionalmente
ao que já tem", afirma.
Advogada
e membro fundadora da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político
(Abradep), Gabriela Rollemberg também vê que a ausência responde a um cálculo
de gestão de riscos. Mas "sob a perspectiva estritamente jurídica e
tática, a participação em debates não é uma obrigação legal para os
postulantes, o que faz com que a estratégia de contenção de danos
frequentemente prevaleça", afirma.
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Estratégia recorrente dos favoritos
É o que
a história mostra desde os primeiros debates televisionados. Mesmo antes do
efeito das redes sociais nas campanhas, tornou-se quase lugar-comum o favorito
evitar o confronto.
Em
1989, por exemplo, Fernando Collor de Mello (ex-PRN), líder nas pesquisas, e
Ulysses Guimarães (PMDB), faltaram ao primeiro debate televisionado do país.
No
pleito seguinte, em 1994, Lula também faltou ao primeiro encontro televisivo
quando liderava as pesquisas por pequena margem. Depois da virada provocada
pelo Plano Real, Fernando Henrique Cardoso cresceu nas intenções de voto e
passou a ser ele a recusar os convites. As emissoras cancelaram os encontros
restantes, e FHC venceu no primeiro turno. Quatro anos depois, candidato à
reeleição, o tucano venceu sem dividir a tela com nenhum concorrente.
Em
2010, foi a vez de Dilma Rousseff (PT) evitar diversos confrontos televisivos.
Já a eleição seguinte gerou ausências por divergências sobre o formato, com o
cancelamento de três debates, ainda que o modelo tenha ganhado fôlego no
segundo turno. Líderes nas pesquisas, Dilma e Aécio Neves (PSDB) protagonizaram
confrontos intensos.
O
pleito que levou Jair Bolsonaro ao Planalto, em 2018, foi o ponto de inflexão.
Esfaqueado em setembro, ele deixou de comparecer aos debates finais do primeiro
turno e recusou todos os convites para confrontar Fernando Haddad (PT) no
segundo. Foi a primeira vez, desde a redemocratização, em que não houve debates
nessa fase.
Em
2022, o roteiro se repetiu dos dois lados. Emissoras cancelaram debates ou
realizaram sabatinas individuais após desistências dos dois principais
candidatos, Lula e Bolsonaro.
"O
Collor em 1989, o Fernando Henrique em 1998, o Lula em 2006, o Bolsonaro em
2018, todos esses líderes, ao evitar o debate no primeiro turno, acabam
tentando se resguardar, tentando se proteger", diz Rodrigo Prando. Segundo
ele, o custo político da ausência tende a ser menor para esses candidatos.
Enquanto para os desconhecidos a exposição é quase obrigatória, para
incumbentes e líderes de pesquisa o ônus é maior.
"Existe
um custo da imagem de fujão, de covarde? Sim, ele existe, mas tende a ser
absorvido, especialmente quando o eleitor já decidiu o voto e essas pessoas
estão na frente", argumenta.
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O cálculo da ausência
Para o
desafiante, o debate é a única chance de falar diretamente ao eleitorado do
adversário; para o mandatário, o mesmo palco converte cada resposta em
prestação de contas, dizem especialistas.
A
ausência passa a ser calculada. Lula, como incumbente e principal candidato do
campo progressista neste ano, tendia a ser alvo preferencial dos ataques dos
adversários. Ao decidir não ir ao debate, transfereria o risco da exposição a
Flávio, que poderia ser atacado pelos concorrentes à direita como polarizador e
herdeiro do bolsonarismo.
Para
Jamil Assis, diretor institucional do Instituto Sivis, organização que promove
a cultura democrática, um bom desempenho do líder nas pesquisas dificilmente
amplia a vantagem, enquanto um único erro pode comprometer a campanha.
"O
ponto que costuma passar batido é que uma estratégia racional para o candidato
pode representar uma perda para a democracia. [...] Quem lidera não disputa
apenas uma vantagem nas urnas; disputa a legitimidade para governar depois
delas, e essa não se conquista fugindo da exposição pública", avalia.
Gabriela
Rollemberg, da Abradep, indica risco no movimento. "Para a sociedade e as
instituições, a ausência dos principais nomes e a assimetria na definição dos
participantes são invariavelmente ruins, pois privam o cidadão do direito de
comparar propostas e perfis em condições de equidade."
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Debates na era das redes sociais
Outro
ingrediente do caso atual é o crescimento das redes sociais como ferramenta
eleitoral. Pesquisadores concordam que os debates são momentos únicos por
permitirem o confronto direto e, por isso, uma fonte de informação distinta de
todas as outras. Mas sua função mudou, ganhando uma segunda vida após perder o
monopólio dessa arena.
"O
debate transmitido via radiodifusão deixou de ser um evento isolado para se
tornar o principal fornecedor de insumos para a disputa digital", lembra
Rollemberg.
Os
momentos televisivos passam a acontecer duas vezes: ao vivo e fragmentados nas
redes. A inversão de lógica leva candidatos a pensar mais no recorte de 30
segundos que vai viralizar do que no argumento de dois minutos ou na
apresentação de um plano de governo, argumenta Prando.
Assis
também avalia que as redes não substituem o debate, mas mudam seu sentido.
"As plataformas fragmentam o eleitor em bolhas: cada pessoa recebe uma
versão editada da campanha, sob medida para o que já pensa. O debate televisivo
é um dos últimos espaços verdadeiramente comuns que restam, o momento em que o
país inteiro assiste à mesma coisa, ao mesmo tempo, sob as mesmas regras e
diante das mesmas perguntas", diz.
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Mudança do cálculo político
O novo
cenário muda o cálculo político. Não à toa, as últimas eleições viram crescer
outsiders que ganham forte projeção nesses encontros e dobram a aposta no tom
agressivo. Foi assim em 2022, com o padre Kelmon (PTB); em 2024, com Pablo
Marçal na disputa pela prefeitura de São Paulo, atuação que lhe rendeu uma
cadeirada ao vivo de José Luiz Datena; e agora, em 2026, com Renan Santos, do
Missão, assumindo a figura de acusador de Lula e Flávio.
"Ainda
que o debate possa não mudar o voto diretamente, ele acaba pautando o
noticiário nos dias seguintes. Ele fornece, especialmente nos dias que correm,
os cortes, memes, bordões, gafes e respostas mais agressivas que circulam além
dos noticiários, nas redes sociais", diz Prando.
"É
verdade que, numa sociedade tão polarizada, dificilmente um debate transfere
votos de um campo para o outro. Mas julgar o debate só pela conversão de votos
é enxergá-lo pela lógica estreita da campanha", diz Jamil Assis. "Num
ambiente digital que fragmenta o eleitor e entrega a cada um uma versão editada
da disputa, o debate se torna uma das raras oportunidades que um candidato tem
de falar diretamente também para quem jamais lhe dará o voto; não para
convertê-lo, mas para convencê-lo de que seu projeto não existe apenas para a
própria base."
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O modelo brasileiro e as comparações internacionais
O
formato brasileiro é herdeiro direto dos debates que ganharam notoriedade após
o encontro entre John Kennedy e Richard Nixon na TV americana, em 1960. O
Brasil importou a estética do confronto frente a frente em estúdio, com blocos
cronometrados, mas não a arquitetura institucional.
Nos
Estados Unidos, a participação possui datas e locais fixos previamente
organizados, em vez de distribuídos por dezenas de compromissos negociados caso
a caso. Não há obrigação legal, mas se instituiu como norma social.
Para os
brasileiros, onde também não há obrigação de comparecer, a ausência é mais
barata porque o número de competidores é maior. O roteiro de Collor em 1989 e
de Lula em 2006 foi justamente o de deixar o confronto para o segundo turno,
quando ele é inevitavelmente bilateral.
Mais
perto, a Argentina tornou-se o contraponto institucional ao caso brasileiro. O
país obriga a participação em debates presidenciais, depois de décadas em que
os encontros eram sistematicamente esvaziados. A aprovação da lei no tema veio
em 2015, após enorme pressão da sociedade civil.
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Debate e democracia
Em nota
divulgada antes do debate na Band, a Rede Pacto pela Democracia, que reúne 17
organizações signatárias, como o Sivis, defendeu os encontros televisivos.
"Em
um cenário político cada vez mais fragmentado, os debates televisionados são
espaços excepcionais de encontro entre posições distintas e, por isso, carregam
um importante simbolismo: a reunião de projetos e ideologias diferentes em um
mesmo espaço reafirma a possibilidade de convivência democrática e de respeito
à divergência", diz o texto.
Para
Jamil Assis, do Sivis, a ausência dos principais candidatos esvazia a função
essencial do debate, que é a comparação. "A cultura democrática se
sustenta justamente nesses espaços de confronto aberto de ideias. Quando eles
se esvaziam, a eleição continua elegendo, mas deixa de convencer. E um país
profundamente dividido precisa das duas coisas."
Fonte:
DW Brasil

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